BLOG DO ALEX MEDEIROS

15/01/2020
Meu companheiro de jornada

Durante o quinto ano primário, no verão de 1971, minha geração se submeteu às provas do Exame de Admissão, um pequeno vestibular para acesso ao ginásio. Fiz as provas, confiante, e curti as férias de final de ano na expectativa de trocar de mundos, sair do pequeno Grupo Escolar Felizardo Moura, nas Quintas, e entrar num dos colégios estaduais de reconhecida competência. Quando o ano virou, o resultado foi publicado nos três jornais da cidade.

A lista saiu num domingo e meu pai comprou a edição de O Poti, mas nem ele, nem eu, conseguiu ver meu nome entre os aprovados. Eu não queria crer na reprovação, ciente de ter feito boas provas. Papai foi buscar a Tribuna, mesmo sabendo que a lista era a mesma distribuída pelo governo à imprensa. No entanto, para alegria geral da nação Cleodon, lá estava meu nome, aprovadíssimo, e a indicação da data de apresentação à minha nova escola.

Foi a única parte insatisfatória para mim, que não queria estudar no colégio Padre Miguelinho, por pura pirraça tribal. Mas no dia de se apresentar, fui lá e fiz uma via crucis de porta em porta procurando minha sala, que não aparecia.

Depois que a multidão de adolescentes sumiu nas salas, eu fiquei praticamente só em busca da minha, até que vi uma senhora com uma prancheta e com meu nome numa das páginas. Aí veio a alvíssara: eu iria para o Winston Churchill.

Tomei o ônibus e desci na Rio Branco, praticamente na calçada do trabalho de papai, a quem nem deu tempo avisar da mudança. Atravessei a avenida subi, feliz, os degraus do colégio, acompanhado por outro garoto retardatário.

Nos comunicamos explicando as mesmas situações, ele vinha a pé desde o Atheneu, onde também não queria ficar. Seu anjo da guarda deveria ser do mesmo time do meu, que também bateu as asinhas premeditando a mudança.

No ano anterior em que fizemos as provas, o Nobel de Literatura saiu para Pablo Neruda, autor da frase "eu acreditava que o caminho passava pelo homem e que dali tivesse que sair o destino". Eu a inverteria por causa daquele encontro.

O garoto nos degraus e que acabou na mesma sala que eu, e depois nas mesmas salas durante o ginásio, e depois na mesma sala do científico, e depois amigo fraterno, e depois parceiro profissional, era Carlos Soares.

Carlos foi meu amigo mais longevo até ontem, 48 anos sem intervalos, que o acaso juntou naquele começo de 1972 e que revirou o dito de Neruda: eu acredito que o homem passa pelo destino e que dali tem que sair o caminho.

Fui testemunha de toda a trajetória do imenso talento de Carlos, desde os quadrinhos em caneta ou lápis, nos roteiros que eu inventava, passando pelos retratos em bico de peno, perfeitos, até tornar-se o artista absoluto que ele foi.

Meu coração disparou no sábado quando meu filho, seu sobrinho, avisou que havia duas ambulâncias na porta da "tia Rose", o amor que Carlos emoldurou para sempre ao conhecê-lo através de mim. Avisaram que o quadro era grave.

Ontem, na notícia da sua morte, o coração não tinha como disparar, pois já passara os últimos dias no mesmo ritmo do primeiro susto. Desabei na mesa de um shopping, riacho nos olhos e sentindo algo arrebentado por dentro.

Das muitas e muitas coisas feitas juntos, meu pensamento estava naqueles degraus do Churchill, e eu pensava que se a vida me deu irmãos sanguíneos, o destino me deu um irmão de alma, um grandioso companheiro de jornada.

Nos meus delírios estudantis, contei com sua arte para compor folders políticos em off set, uma disparidade com os impressos em mimeógrafos. Arrisquei os primeiros textos críticos fazendo apresentação das suas telas em exposições.

Eu vi, numa tarde pardacenta em São Paulo - na rua México do bairro Brooklin - um célebre cearense abrir o tubo de papelão, desenrolar um trabalho de Carlos sobre a mesa e gritar: "porra, o boy é artista mesmo!". Era Belchior.

"Um dia vamos dar um banho de arte nessa Pauliceia, eu pintando e tu poetando", disse ele após os elogios do rapaz latino americano, feliz e sonhando nas ruas longe de casa. Não banhou São Paulo, mas pintou sonhos.

Nós, os cegos diante dos mistérios das cores, não imaginamos a visibilidade de algo tangível ou concreto numa tela do gênero abstrato. Carlos nos fazia ver nossos sonhos, nossos temores, nossos amores, em pinceladas mágicas.

De uma vida pessoal discretíssima, jamais afeito a grandes grupos, de uma timidez toda própria dos gênios, falava tudo por suas telas e por elas estabelecia uma relação íntima com o mundo. Acho que pintou mais que falou.

Meu velho companheiro de jornada era um reflexo no espelho, os defeitos comprometedores da saúde que eu tive, não havia nele. Viveu sem álcool, sem fumo e desde a adolescência criticava minha aversão a exercícios físicos.

Já escrevi outras vezes sobre a relação estreita que tenho com a morte desde a juventude; como mantenho a atenção nas sentenças dela. Cansei do formato em que ela só me tira e não devolve. Em seis meses, me levou três irmãos.

Carlos Soares foi o golpe mais forte, me pegou no contrapé da segurança emocional. Me resta Neruda, o mesmo daquele Nobel do ano das nossas provas de admissão: "vale muito ter lutado e cantado, vale muito ter vivido".

Agradeço ao destino por ter nos colocado naqueles degraus do colégio. Pode ter sido acaso o encontro, mas não foi acaso que nossa jornada virou uma grande amizade. Vou catar os cacos da dor da saudade e juntar numa moldura de belas lembranças. Tchau, meu irmão. Até a próxima prova.

       



09/01/2020
Morreu a moça do Prozac

A jornalista americana Elizabeth Wurtzel tinha a idade maldita dos ídolos controversos do mundo pop quando resolveu ser também escritora com a publicação do livro "Geração Prozac". Era 1994 e ela estava com 27 anos, o tempo ideal para bater as botas nas opções que Caetano cantou; de susto, de bala ou vício. Preferiu se agarrar a vida narrando as angústias da depressão que naqueles anos se instalara como fator sociocultural da sua geração.

Transportando uma autobiografia para a personagem principal, Liz, ela desnuda a alma afetada num relato duro e transparente, expondo a infância difícil, o caminho acadêmico turbulento em Havard, com apenas 18 anos, e toda a obscura e dolorida trajetória da depressão, o monstro neural que ataca sem aviso ou cerimônia, como disse um personagem de Hemingway, "gradualmente e depois rapidamente". Um ano após o livro, minha mãe se foi, devorada por esta que é a pior das doenças, que mata uma alma de dor.

Elizabeth Wurtzel faleceu na terça-feira, com apenas 52 anos, após uma batalha contra outra moléstia devastadora, um câncer que a consumiu na metástase a partir do seio. Morreu em Nova York, sua cidade berço e túmulo.

Ela deixou outros livros que também alcançaram sucesso de vendas e crítica, mas nenhum foi tão impactante e essencialmente basilar para estabelecer uma nova narrativa literária numa conjuntura incerta como foi aquela dos anos 90.

Com "Geração Prozac - Jovem e Deprimida na América, Memórias", o título original, Wurtzel sacudiu o mundo e abriu caminho para que muitas pessoas se agarrasse a alguma pilastra emocional para tentar superar a triste patologia.

Ao estender a alma rasgada no varal midiático, estimulou novas narrativas sobre o problema, e outras obras de outras mulheres (e homens) mergulharam no mesmo caminho, que, longe de ser autoajuda, foi um ponto de modulação.

O livro, que virou filme em 2001 (por ironia o ano que aterrorizou Nova York) com a atriz Christina Ricci (a exótica Vandinha da Família Addams), é um retrato ampliado de uma jovem pessoa em extinção também pelas drogas.

Elizabeth escreveu ainda "Cadela: em Louvor a Mulheres Difíceis" (98), "Mais Agora Mais Uma Vez: um Livro de Memórias de Vícios" (2001), e "O Segredo da Vida: Conselho do Senso Comum Para Mulheres Incomuns" (2004).

Em 2014, "Geração Prozac" ganhou uma segunda edição nos EUA. O tratamento do câncer reduziu o tempo para autógrafos e entrevistas. Ainda mais quando no ano seguinte a doença a obrigou a uma mastectomia dupla.

       



08/01/2020
Temporada de prêmios e confronto

Começou domingo a temporada de prêmios da indústria cinematográfica de Hollywood, com a Associação da Imprensa Estrangeira entregando as estatuetas do Globo de Ouro e praticamente dando um recado aos serviços de streaming, principalmente a Netflix que entrou na disputa com 34 indicações e saiu da cerimônia com apenas dois prêmios, para o filme História de um Casamento e para a série inglesa The Crown.

Aliás, a indiferença da HFPA à Netflix foi tamanha que o diretor de História de um Casamento, ao falar na premiação da atriz coadjuvante Laura Dern, disse com todas as letras que queria seu filme visto nas telas grandes. Já a superprodução "O irlandês", de Martins Scorsese, foi a mais ignorada e não conquistou nada, apesar da exagerada repercussão na estreia e que levou milhares a se congelar diante da TV para suas 3 horas e trinta minutos.

Numa festa em que nenhuma obra arrebatou tantos prêmios, os grandes vitoriosos da 77ª edição foram os diretores Quentin Tarantino, com três globos para Era uma vez... em Hollywood, e Sam Mendes com seu filme épico 1917.

O Globo de Ouro 2020 deu pelo menos um bom sinal para o filme do brasileiro Fernando Meirelles, Dois Papas, que teve quatro indicações na disputa e tem tudo para ao longo da temporada se tornar uma referência em cores nacionais.

Com a visível resistência da associação promotora à Netflix, Dois Papas conseguiu ser indicado em categorias importantes, como melhor drama, melhor roteiro, ator coadjuvante (Anthony Hopkins) e ator de drama (Jonathan Pryce).

Uma leitura nos dias antes da festa, a imprensa especializada destacava o potencial de dominação da Netflix tanto em filmes quanto em séries, mas o que se viu foram as conquistas da HBO e Sony, também no mercado de streaming.

A Sony consagrou sua aposta nos dois cineastas que dominaram a cerimônia, Quentin Tarantino com Era uma vez... em Hollywood e Sam Mendes com 1917. Até a Universal Studios saiu de Beverly Hills em melhor situação que a Netflix.

Mas é preciso informar aos incautos que tanto o fraco desempenho da marca quanto o discurso do apresentador Ricky Gervais nada tem de relação com a dicotomia patológica que ataca o Brasil com esquerdistas vs direitistas.

Os protestos de cristãos brasileiros contra a exibição do filminho de Portas dos Fundos não tiveram qualquer relevância e a acidez na fala do comediante inglês não significou qualquer crítica aos delírios ideológicos da esquerda.

O discurso do cara foi específico para o mundo hollywoodiano, pedindo que os artistas não aproveitem as festinhas do cinema para falar de política, já que não conhecem a fundo. Assim como ocorre nas redes sociais brasileiras.

       



07/01/2020
O blogueiro e o cavalo selado

O nome do jornalista Gustavo Negreiros é presença diária no meio dos servidores estaduais do RN e da comunidade mossoroense em Natal. É um incansável defensor dos funcionários públicos na busca dos salários atrasados e é referência conterrânea pra cidade oestana.

Dentro dos dois grupos já há manifestações visando levá-lo a uma cadeira na Câmara Municipal da capital potiguar. Se ele topar, muito provavelmente voto é o que não vai faltar. 

       



07/01/2020
O funeral do terrorista

As manchetes dos jornais e sites pelo mundo afora destacam a multidão no Irã chorando a morte do general miliciano e gritando ódio aos EUA e ao Ocidente. 

E na maioria das chamadas de capa, fala-se em sepultamento "do corpo" de Qasem Soleimani, deixando caber uma pergunta: que corpo, cara pálida? O que está naquele caixão é alguns poucos quilos de carne torrada.

       



05/01/2020
A Festa de Santos Reis

Um dos motivos para meus pais saírem da estreitinha rua Padre Calazans, ali por trás da Igreja do Galo, foi uma sugestão médica para botar os filhos pequenos em contato com os ares praianos (mamãe me diria anos depois) numa tentativa de estimular os anticorpos e assim conter as infecções cutâneas que comumente surgiam, principalmente em mim. Acho que estávamos em 1965 quando papai anunciou a mudança para Santos Reis.

Até então, minha única relação com o mar foi num dia em que fui levado pela Rio Branco, depois Avenida Deodoro, até tomar o rumo da ladeira a partir do Hospital das Clínicas. Jamais esqueci a visão do céu se unindo com o oceano ao chegarmos no alto da balaustrada. No dia que mudamos para o menor bairro de Natal, os fatos mais marcantes foram dormir ouvindo ao longe o marulho e acordar na palpitante expectativa de ir brincar nas areias do Forte.

Por uns quatro anos, acho, vivi a tenra infância na Rua Berta Guilherme, na casa de número 100, numa curta extensão de casas que me pareciam enorme, mas que em verdade eram só duas fileirinhas naquele novo universo familiar.

Foi uma fase de grandes descobertas, o surgimento de amigos bem mais numerosos do que os três ou quatro da ruazinha anterior na Cidade Alta. E aí conheci dias de magia com os preparativos e realização da festa dos três reis.

A pracinha do bairro e o grande terreno em frente à igreja eram por trás da minha casa, onde eu fazia o mesmo caminho das muitas vezes em que acompanhei papai à padaria e à mercearia onde conheci as revistas de HQ.

Numa das casas que ladeavam a praça, todos os anos era montada uma pescaria, minha brincadeira favorita que permitia fisgar papeizinhos com os nomes dos brindes, no mais das vezes bolas, carrinhos e bonecos de plástico.

Morria de medo da roda gigante e, na contramão de alguns coleguinhas, cavalgava nos cavalinhos do carrossel que sempre era armado no mesmo lugar. E havia também a visita obrigatória ao tradicional presépio da igrejinha.

Aos olhos de uma criança, aquela festa era um evento belo e gigantesco, senão em infraestrutura (como constatei ao crescer), mas em fantasia, um estímulo cognitivo sem tamanho para aqueles meus dias de tanta felicidade.

Curtia adoidado nos dias de festejos a alteração do itinerário dos ônibus que faziam a linha pelo bairro, todos cruzando a minha rua, subindo e descendo em busca das Rocas. Na calçada de casa, manuseava os brinquedos pescados.

Na véspera do dia 6, o dia oficial de culto aos reis magos Gaspar, Baltazar e Belchior, papai chegava em casa mais cedo, no crepúsculo, e trazia os víveres para o feriado, incluindo o que eu mais esperava: um vidro de achocolatado.

Desconheço uma emoção mais intensa do que abrir a tampa do Toddy e ouvir o barulho do papel plástico cutucado por meu irmão com um garfo e denunciando o motivo da minha euforia: os soldadinhos ou índios da coleção.

Havia uma residência só, que eu lembro, dotada de um aparelho de TV, onde eu vi pela primeira vez uma programação, sentado no muro do jardim ao lado da loirinha que ali morava. Era "A Legião dos Esquecidos", na TV Excelsior.

Em Santos Reis conheci dois sentimentos fortes. Primeiro o desejo de sempre estar com aquela menininha, chamada Fátima. Segundo o vazio da morte com o desaparecimento do amigo Oscar.

Quando deixei o bairro e fui para as Quintas, dois anos depois estourou nos rádios uma canção de Tim Maia. Até hoje quando ela toca, me toca: A Festa de Santos Reis.

       



04/01/2020
Dois Papas e um Oscar

Pode minimizar o pregresso prêmio de O Pagador de Promessas, de 1962, e as resenhas de Cidade de Deus, de 2002. O cinema com a assinatura de um brasileiro agora se divide entre antes e depois de Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles e em cartaz desde dezembro na Netflix.

O que estou querendo dizer é que tecnicamente nunca houve tanta qualidade num filme sob direção nacional, assim como jamais tivemos uma ficção tão bem composta.

Meu prognóstico pode furar com larga distância da realidade, mas arrisco dizer que pela primeira vez o Brasil tem, sim, a chance de abocanhar uma estatueta do Oscar. É uma chance que sequer chegou perto nas demais vezes em que uma produção envolvendo profissional compatriota foi indicada na festa de Los Angeles.

A trama bem conduzida por Meirelles e o show de interpretação de Jonathan Pryce e Anthony Hopkins (dois monstros) são coisas magníficas.

Veja bem, estou me atendo aos aspectos técnicos e à composição de um roteiro fictício muito bem amarrado para prender a atenção da plateia, fatos essenciais para o êxito de qualquer obra cinematográfica. E o filme tem isso.

O diretor brasileiro conseguiu, guardadas as devidas proporções e histerias, aquilo que Orson Welles fez em 1938 com um texto de H. G. Wells interpretado no rádio. As pessoas estão acreditando piamente nos encontros dos papas.

No filme, o alemão Joseph Ratzinger e o argentino Jorge Bergoglio, que seriam ungidos Bento XVI e Francisco, se reúnem várias vezes em circunstâncias sem precedentes na história do Vaticano. E não há verdade literal nos diálogos.

O drama bem imaginado por Meirelles e o roteirista Anthony McCarten começa com o bispo argentino viajando à Roma para pedir permissão para se aposentar, mas é rejeitado pelo pontífice que confidencia desejo de renúncia.

Se a carta de demissão é verídica, o deslocamento até à comuna de Castel Gandolfo, residência de verão dos papas, bem como o teor da extensa conversa é pura criatividade baseada nas visões distintas dos dois religiosos.

E o que poderia ser um arrastado papo de dois idosos cansados, ganha na objetividade de Meirelles um tom nervoso e uma sequência de suspense e tensão em primorosas edições de flashbacks de ambos na eleição do concílio.

Os diálogos de Bento e Francisco se desenrolam numa ficção baseada em seus posicionamentos pessoais revelados em textos e discursos, assim construindo o debate de duas visões antagônicas sobre o destino da igreja.

A narrativa se localiza no período entre 2005 e 2013, quando Ratzinger e Bergoglio comporiam uma rivalidade eleitoral no Vaticano, ao mesmo tempo em que enfrentam os seus fantasmas internos, estes sim fatos verdadeiros.

A austeridade conservadora do alemão é atingida por corrupção e escândalos de bispos e padres, enquanto a bondade progressista do argentino se colide com um passado de relações com o regime militar do seu país a partir de 1976.

Dois Papas é quase um thriller silencioso na força do debate que expõe as vísceras católicas, e é uma obra de ficção que de tão bem elaborada ilude os incautos. E como cinema, coloca o Brasil pela primeira vez, de verdade, na fila do Oscar.

       



03/01/2020
Santa impaciência

Para o primeiro meme do novo ano, fiz meu primeiro haikai do ano: - o papa é pop, boy / e tapa de amor, / ou de fé, não dói -. A reação de Francisco a uma católica chinesa inconveniente domina as atenções do mundo e se multiplica nos repliques das redes sociais.

Na era da piada pronta, a picardia compõe trocadilhos e gracejos, como "Tapa Francisco" ou "Dois Tapas na Netflix". Não condeno o argentino, por mais que não comungue com suas ideias políticas.

Nunca acreditei mesmo que o ensinamento de Jesus de dar a outra face quando agredido fosse levada a termo pela humanidade, mesmo que em teoria seus seguidores litúrgicos não cansem de pregar nos sermões semanais pelos séculos afora.

Nem sequer acho certo que cobremos coerências diárias aos homens das igrejas, posto que por debaixo das indumentárias solenes há o corpo e alma dos mortais, dos comuns, dos pecadores como somos todos nós.

Há farta literatura sobre episódios hilários ou polêmicos envolvendo o mundo das batinas. Convivo com eles derna os primeiros meses de vida, já que o padre que me batizou protagonizou um grande debate na comunidade cristã.

Natal era uma coisinha recatada no início dos anos 1960, com suas missas dominicais e passeios com as crianças nas praças e na praia, quando o Padre Moreira surpreendeu a cidade de forma ecumênica com seu casamento.

Na adolescência, cheguei a atrapalhar rezas de mamãe com a própria rádio dos padres, a Rural, botando nas alturas (aleluia) o som do rock e da jovem guarda que tocava sem parar na emissora mais liberal daqueles tempos.

Estudante ativista, compus um pequeno exército de jovens para propagar um evento idealizado pelo Padre Zé Luiz que serviu de apoio aos partidos de oposição, principalmente o de Leonel Brizola, em quem o religioso botava fé.

Era um show com dezenas de repentistas no Palácio dos Esportes, vindos de todo o Nordeste, orientados a improvisar as cantorias seguindo um mote criado pelo próprio padre: "o Brasil está sendo violado". Lá eu ouvi hilárias histórias.

Uma delas foi da época em que Zé Luiz era pároco no interior e contava na igreja com o apoio doméstico de duas beatas, fiéis aos preceitos de Cristo e leitoras vorazes da Bíblia. E um dia o padre foi convidado para um casório.

Era na fazenda de um chefe político que casara a filha e fizera um gigantesco churrasco, o mais grandioso evento da cidadezinha. Domingo inteiro de comida, bons vinhos e música ao vivo. E o padre só saiu no final da festa.

Na segunda-feira cedo, entrou na igreja e deu bom dia às duas auxiliares, que não demonstraram muita receptividade. Uma ficou em silêncio e a outro respondeu num muxoxo. Percebendo algo no ar, ele indagou: tá tudo bem?

- Claro que não, né padre!?, disse a que estava calada. E danou-se a reclamar da presença do pároco numa festa pagã e repleta do pecado da carne e do álcool, no sentido estrito mesmo. Zé Luiz tratou logo de buscar argumento.

E perguntou: a senhora lê a Bíbila. Ela: claro, todo dia. Ele: então conhece a passagem das Bodas de Canaã? Ela: sim, conheço. Ele: pois, é, aquilo era uma festa de casamento, e Jesus Cristo foi lá. Ela: mas não devia ter ido.

Voltando ao papa, a paciência é santa; e lembrando da beata chinesa, cito o Padre Vieira, "a boa educação é moeda de ouro".

       



01/01/2020
Folha 60 anos

O primeiro dia do ano é também aniversário de um dos maiores jornais impressos do Brasil. Hoje a Folha de S. Paulo completa exatos 60 anos de fundação, quando saiu às ruas paulistas em 01 de janeiro de 1960 inserindo-se na década de tantas mudanças e servindo de lente de aumento dos acontecimentos que iriam compor a agitada história da segunda metade do século XX. E a própria história do jornalismo nacional mudaria com o diário.

Não era bem um novo jornal que nascia, mas um novo estilo que surgia, a partir de uma trajetória iniciada em 1921 com o jornal Folha da Noite, sucedido quatro anos depois pela Folha da Manhã, até que em 1949 o título completou o ciclo de um dia inteiro e transformou-se em Folha da Tarde.

Então veio 1960 e as três históricas periodicidades juntaram-se numa palavra só, a comum entre todas, adicionada ao nome do estado e cidade berços do jornal.

A Folha, assim como o Jornal do Brasil, foram presença importante na minha vida estudantil na fronteira entre os anos 1970 e 1980. Tantas vezes repeti o percurso entre a Zona Sul e a Avenida Rio Branco em busca de folhear ambos.

Do que a memória ainda guarda, há as resenhas no bandejão da UFRN e depois a viagem de ônibus para a Cigarreira Tio Patinhas, quando um grupo de amigos esperavam no meio da tarde os pacotes de jornais vindos do aeroporto.

O saudoso Laércio Bezerra, dono da banca (ou algum emissário dele), chegava de táxi, retirava os jornais amarrados em barbantes e os atirava na calçada para o nosso avanço como abutres em carcaça. Valia a pena esperar.

A Folha era a preferida por seus posicionamentos convergentes com a visão de mundo da minha geração. Dos amigos de época, estavam por lá Homero Costa, Moisés Domingos, Themis Pacheco, Bosco Cariri, Lincoln Moraes.

Entre a chamada redemocratização e a campanha das Diretas, a postura do jornal paulistano serviu de estímulo a tudo que significava mudança de azimute nos novos rumos do País. E isso era mais evidente no seu caderno cultural.

Na minha fase de Pauliceia, quando minha casa em Cotia virou um consulado nordestino para assuntos etílicos e poéticos, uma assinatura da Folha alimentava a nossa sede de cultura e a nossa fome de abertura política.

Na turma em território estrangeiro, os médicos Petrônio Tinôco e Wilson Freire sorviam comigo as cervejas geladas e as páginas da Ilustrada. Dia desse, o pernambucano da tropa disse que "os jornais de Alex eram nosso Google".

Foi uma mania que contraí naqueles anos, os jornais iam se empilhando na sala, mas a pilha do caderno de cultura à parte, não misturado com política e tudo o mais. Por falar em política, eis a editoria que complicou a velha Folha.

Acho que esqueceu o verso de Belchior, ao não perceber que o novo sempre vence sobre o velho, mesmo com o fato de este velho já foi o novo no passado. Quando a redação esquerdizou naqueles anos, esqueceu dos contrapesos.

A Folha sessentona de hoje parece não querer perceber que aquela esquerda que ela ajudou a protagonizar-se é apenas agora um conglomerado de interesses corruptos e discursos demagógicos de apoio a aberrações fúteis.

A Folha sempre foi especialista em inovar e se renovar, mas abraçou velhas doutrinas que há muito faliram na Civilização. E com isso ela própria envelheceu, não no sentido da idade, mas ideologicamente. De qualquer forma, parabéns à velha senhora de São Paulo.

       



31/12/2019
A década das séries

O volume de séries dos serviços de streaming nesta segunda década do século XXI me fez lembrar o volume de séries de televisão nas sexta e sétima décadas do século XX.

Minha geração quase não dava conta de acompanhar a retransmissão das produções que vinham dos EUA para os poucos canais de TV que por aqui sintonizávamos. Às dezenas, elas ainda estão por aí, vagando como fantasmas, resquícios do velho mundo analógico em que eu nasci.

Na década que está acabando hoje, as produções de séries deram um salto quantitativo e qualitativo, e estão disponíveis, às centenas, por canais, plataformas e aplicativos que cada dia ocupam mais o tempo e a nossa atenção, que muito das vezes atinge a condição de vício.

Já não são apenas os nerds condicionados aos computadores e monitores jogando batalhas, caçando monstros ou assistindo animes. Todo mundo agora está dominado.

E bem diferente das clássicas aventuras americanas do século passado, elas saltam na tela de todo lugar, da Inglaterra, Espanha, Coreia, Austrália, Canadá, Argentina, Israel, Colômbia, México, Índia e inclusive do Brasil e dos EUA.

Por falar no mercado norte-americano, o jornal The New York Times resolveu nos últimos dias atiçar a curiosidade dos fãs de séries e elencou as 30 séries internacionais mais importantes da década, todas produzidas fora dos EUA.

Tirando as grandes produções internas, o diário escolheu aquelas que estavam ou ficaram disponíveis para o público americano no período de 2010 a 2019. O leitor certamente vai sentir falta de grandes obras com artistas de Hollywood,

A seleção é encabeçada por uma série israelense, Hatufim, que deu origem à versão americana Homeland e foi exibida no Brasil pelo canal +Globosat.

Há 12 séries britânicas, além de argentina, sueca, australiana, francesa e indiana. Confira a lista abaixo e divirtam-se na nova década que começa. Feliz 2020!


1.- Hatufim (Israel)
2.- Sherlock (Inglaterra)
3.- The Bureau (França)
4.- Happy Valley (Inglaterra)
5.- Gomorrah (Italia)
6.- The Crown (Inglaterra)
7.- Chewing Gum (Inglaterra)
8.- Fauda (Israel)
9.- Killing Eve (Inglaterra)
10.- A Very English Scandal (Inglaterra)
11.- Detectorists (Inglaterra)
12.- El Marginal (Argentina)
13.- Fleabag (Inglaterra)
14.- The Bridge (Dinamarca - Suecia)
15.- Unforgotten (Inglaterra)
16.- Mulher Forte do Bong-soon (Coreia do Sul)
17.- Moone Boy (Irlanda)
18.- Babylon Berlin (Alemanha)
19.- Please Like Me (Austrália)
20.- Kingdom (Coreia do Sul)
21.- A Casa de Papel (Espanha)
22.- Deutschland 83 (Alemanha)
23.- The Returned (França)
24.- Norsemen (Noruega)
25.- My Mad Fat Diary (Inglaterra)
26.- 3 X Manon (França)
27.- Broadchurch (Inglaterra)
28.- Jogos Sagrados (India)
29.- Letterkenny (Canadá)
30.- This Is England (Inglaterra)

       



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