BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/09/2019
O magnata da bola

A imprensa mundial repercutiu o feito do craque português Cristiano Ronaldo, na vitória da seleção lusa contra a Lituânia por 5 x 1 com quatro gols do atacante, o 93º pela sua seleção, e que o coloca perto da marca de Pelé pela Canarinho.

O rei do futebol marcou 95 vezes e, certamente, será ultrapassado por Ronaldo, talvez ainda durante as eliminatórias da Eurocopa 2020. O craque luso está ainda 16 gols distante do maior artilheiro, o iraniano Ali Daei.

Ali Daei é uma lenda do futebol asiático que atingiu 109 gols em 149 jogos pela seleção do Irã. Sua passagem pela equipe nacional é um momento histórico para o povo da nação islâmica, onde o futebol ganhou tanta popularidade que atraiu as mulheres, infelizmente perseguidas pelo regime totalitário e religioso que não admite a presença feminina nos estádios. Há poucos dias, uma garota foi presa por assistir um jogo e, humilhada, preferiu atear fogo ao corpo.

Nascido em 1969, o Pelé do Irã começou jogando num clube da sua cidade, o Esteghlal, saindo então para o Taxirani e Bank Tejarat, mais estruturados.

Em 1993 fez sua primeira apresentação nos Jogos Asiáticos e foi contratado pelo Persépolis, um dos grandes times do Irã, levantando a taça da liga em 1996.

Na Copa da Ásia daquele ano, Daei marcou oito gols em seis jogos e foi o herói na goleada sobre a Coreia do Sul por 6 x 2 com quatro tentos. Em 1998, pelos pés dele o Irã voltou a ter vaga na Copa do Mundo, depois de 20 anos.

Exposto na vitrine do mundo, seu talento foi logo reconhecido pelo poderoso Bayern de Munique, que contou com os gols do iraniano para conquistar a taça da temporada 1998-99. No mesmo período, o Irã ganhou os Jogos Asiáticos.

O desempenho pelo Bayern na disputada Bundesliga fez o rival Hertha Berlim desejar seu futebol, onde ele ficou até 2002, ano em que a grana fácil dos Emirados Árabes o levou para o Al-Shabab. O craque rico ficou mais rico.

A carreira de Ali Daei tem uma trajetória totalmente diferente de qualquer outro artilheiro da história. Ele formou-se muito jovem em engenharia na pomposa Sharif University of Technology, uma das mais renomadas de toda a Ásia.

Foi a partir da formação acadêmica que ele construiu um grande patrimônio antes de se tornar famoso com a bola. Abriu fábricas, a empresa Daei Sports, uma rede de lojas e se tornou fornecedor de material do campeonato nacional.

Sua facilidade de acumular dinheiro era a mesma para multiplicar gols, e quando o país começou a cultuar seu futebol ele já era um cara milionário. Em oposto aos craques do mundo, a bola não era sua principal fonte de renda.

Daei retornou ao Persépolis no final de 2003 e ali retomou o rumo da glória com a seleção, fazendo o gol de número 85 e superando a marca do mito húngaro, Puskas. Em 2004, tornou-se o primeiro com 100 gols numa seleção.

Em 2005, já com 36 anos, ajudou de novo o país a conquistar vaga na Copa do
Mundo. O Irã foi (ao lado do Japão) o primeiro selecionado a garantir lugar na Copa de 2006, realizada na Alemanha, o país que tão bem o reconhecia.

Em janeiro de 2019, na cerimônia de abertura da Copa da Ásia, nos Emirados Árabes, adivinhem quem estava na tribuna de honra, ao lado do príncipe de Dubai, Hamdan bin Rashid, e do presidente da FIFA, Gianni Infantino?

       



11/09/2019
No jardim das distrações

Tenho lido diariamente que o filósofo cover Olavo de Carvalho é uma figura abjeta e insignificante. Os principais veículos de imprensa são os que mais repetem que o maluco não merece crédito.

Mas, no entanto, o velhote arrota uma tese ou peida uma frase e a mídia de Pindorama se derrama em manchetes e matérias caceteando a versão astrológica do antigo pistoleiro na pele de James Drury, o Homem de Virgínia, no saudoso seriado de bang bang.

Ontem, contei nada menos que quarenta sites brasileiros - sem falar uma dezena em inglês e até em alemão - repercutindo a pilhéria de Olavo sobre uma suposta relação entre os Beatles e o pensador marxista Theodor Adorno, um dos filósofos da Escoa de Frankfurt, que teria composto algumas canções dos Fab Four dentro de um plano macabro do comunismo gramsciano para corromper o comportamento dos jovens na explosão cultural dos anos 1960.

Diante da carraspana jornalística, busquei elementos para compreender o contexto e postei uma mensagem no Orkut do meu correspondente em Manhattan, Ugo Vernomentti, um velho estudioso da beatlemania revisionista.

Vivendo há vinte anos incógnito num porão do velho Gramercy Park Hotel, sobrevivendo de pequenas reportagens para a revista "AM New York" e o jornal "Gotham Gazette", o italiano do Seridó me respondeu na madrugada de hoje:

- Prezado colunista, o assunto circulou por aqui também nos cafés do Brooklin e naquele boteco do Queens onde há seis anos eu e você tomamos um pileque com a Sarah Pallin e a Condoleezza Rice. Segue o que este amigo apurou.

Vamos lá. Durante aquele quiproquó entre o Adorno e seu colega Herbert Marcuse, o autor de Dialética Negativa sentiu remorso pela atitude contra os estudantes grevistas, então resolveu fazer uma média procurando os Beatles.

Durante a gravação do Álbum Branco, o filósofo mostrou a John Lennon, que já andava interessado nas suas teses marxistas, três versões de Revolution e que foram devidamente gravadas no revolucionário disco. Mas, não foi só isso.

Adorno havia emprestado para George Harrison o livro Revolução dos Bichos, de George Orwell, e o convenceu a escrever algo contra o establishment. A canção Piggies tem letra de George e o título é de Adorno e Charles Manson.

A faixa Blackbird é fruto de um papo entre o filósofo e Paul McCartney, na verdade um oportunismo político de Adorno para demonstrar simpatia pelos direitos civis e individuais, um tema que Marcuse dominava mais do que ele.

Adorno foi uma espécie de Doutor Fausto para os rapazes de Liverpool, um remake do encontro do diabo com o compositor Adrian Leverkühn. Lembra da arte de satanás em mudar de figura? Gravata, colarinho oclinho redondo...

Em Octopus Garden (Jardim dos Polvos) do disco Abbey Road, o velho marxista compôs pela última vez, morrendo logo depois. Aliás, a foto da capa do disco mostra os Beatles indo encontrar ele do outro lado da rua londrina.

Eu soube por Yoko Ono que Theodor Adorno teve um filho com uma muçulmana que foi empregada do Olavo quando ele vivia no Brasil. O cara reside no Rio, se chama Ahmed e compõe pra Chico Buarque. Sem mais, Ugo Vernomentti.

       



09/09/2019
Um marxista com ternura

Sexta-feira passada lembrei dele. Alguém na mesa do bar falou alguma coisa sobre daltonismo, o distúrbio da visão que confunde as cores, principalmente vermelho e verde. De pronto falei do único dileto amigo daltônico que eu tive, o cearense Lincoln Moraes, o grande intelectual e acadêmico que o RN teve a sorte de roubar do estado vizinho. No domingo, o sobressalto da sua morte.

Conheci Lincoln durante os anos de fundação do PT em Natal, na fronteira entre as décadas de 70 e 80. No primeiro contato, saímos de uma reunião na antiga sede do Curso Delta, na Parada Metropolitana, papeando pelas ruas do Centro até parar em Petrópolis para umas cervejas, coisa que repetiríamos durante uns dez anos. Eu tinha 22 anos, ele 33. A amizade dele foi também uma super referência, usei e abusei dos seus muitos livros e dos bons discos.

Tinha uma característica não muito fácil de encontrar num intelectual orgânico, num pensador marxista. Lincoln era um militante que bebia nas fontes culturais, uma figura festiva que badalava nas noites discutindo música, teatro e poesia.

Me aprofundou nos poemas de Maiakovski, me apresentou LPs de Pablo Milanês, Victor Jara e Paulinho Pedra Azul. E juntos baldeamos por centenas de bares e botecos, conversando e gargalhando com o melhor que a vida dá.

Buscávamos bares com sinuca, quando eu me aproveitava para ganhar cervejas apostadas nos erros dele por causa do problema na visão. Cantava a bola marrom e encaçapava a verde. Aí, ria de si mesmo e reiniciava o jogo.

Se Caetano disse que de perto ninguém é normal, quem teve o privilégio da intimidade de Lincoln logo descobria que aquele teórico da revolução socialista, o estudioso meticuloso, era uma figuraça mais do que normal, um brincalhão.

No comecinho dos anos 80, quando pouca gente em Natal falava em Canoa Quebrada, e alguns "camaradas" via na praia cearense um point de porra-loucas, eu e ele passamos uma semana por lá na companhia de duas turistas.

Maiakovski cantou que "cada um ao nascer traz sua dose de amor, mas os empregos, o dinheiro, tudo isso, nos resseca o solo do coração". Lincoln era imune a isso, sabia tocar o cotidiano mantendo acesa uma chama amorosa.

Era visível no ambiente de uma esquerda careta a inveja que ele causava no sucesso com as mulheres. O grande papo, o irrestrito respeito, o intelecto, o bom humor e um par de olhos verdes eram qualidades sem concorrência.

Na campanha eleitoral de 1982, disputei votos para vereador pedindo também para ele como deputado federal. Unidos na amizade e na política. Seu Fiat 147 azul-marinho era o nosso trio elétrico, cheio de fitas cassetes com hits da MPB.

Em 1986, ele de novo candidato a federal, acompanhei-o numa série de conversas com estudantes onde explicávamos a importância da Constituinte. Terminadas as palestras, retomávamos a eucaristia etílico-musical-literária.

Muita gente que discordou dele nos debates ideológicos jamais o viu misturar diferenças de pensamento com antagonismos pessoais, salvo raras exceções que não tiveram iniciativa nele, algumas no PT, que ele deixou há uns 20 anos.

Um verso de Maiakovski cabe na nossa amizade de juventude: "Nestes últimos anos / nada de novo há / no rugir das tempestades / não estamos alegres / mas por que razão haveríamos de ficar tristes?". Lincoln Moraes foi uma alegria.

       



08/09/2019
Três Marias afegãs

O festival parou para ouvir o recado da estrela Angelina Jolie, que não mede esforços quando o assunto é atirar palavras cortantes quando o problema é falta de respeito e de liberdade das mulheres. Sua voz ressoou por Veneza.

Todo filme feito no Afeganistão é uma espécie de milagre, ela disse, lembrando que se o futuro do país islâmico está numa balança de incerteza, o fato lembra então que está em jogo também a independência de milhões de mulheres.

Jolie manifestou-se em apoio ao primeiro filme de uma diretora afegã, que conta a história de três jovens mulheres afegãs que enfrentam as agruras do poder. A obra foi inteiramente filmada com elenco técnico e artístico local.

A cineasta Sahraa Karimi exibe ao mundo três mulheres compatriotas e contemporâneas, Haya, Maryam e Ayesha, de diferentes origens sociais, vivendo na capital Cabul e enfrentando grandes desafios pessoais e políticos.

Haya é uma figura de comportamento tradicional, humilde, que está grávida e mora com o sogro e a sogra. É uma pessoa invisível, cujos problemas ninguém sabe nem se importa; sua única satisfação é conversar o bebê na barriga.

Maryam é uma jovem educada, formada em jornalismo e prestes a se divorciar do marido infiel. Tem um fato em comum com Haya: também está grávida e isto abre um enorme abismo entre sua independência e as leis muçulmanas.

Ayesha, a mais jovem, é uma garota de dezoito anos que precisa aceitar um casamento com um primo porque está grávida de um namorado que desapareceu logo que soube do fato. Precisa de um aborto e da virgindade.

O cerne da narrativa do filme é o ponto de conexão entre as três mulheres: cada uma está diante de uma situação vexatória e perigosa - em se tratando de Afeganistão, resolver sozinha um problemão pela primeira vez na vida.

Sahraa Karimi também encontra um jeito de mostrar ao mundo a graça, a beleza e o espírito das mulheres afegãs em relação ao casamento, o amor, a amizade, a família e a maternidade. Angelina Jolie enalteceu o pioneirismo.

"As mulheres daquele país merecem liberdade e independência", declarou a atriz arrancando aplausos da assistência. A diretora da obra agradeceu ao diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera, pela oportunidade concedida.

"Obrigado por chamar a atenção para os problemas que meu país está enfrentando, em particular a necessidade de garantir direitos fundamentais das mulheres, pois a igualdade entre homens e mulheres permite prosperidade".

Nas aspas da cineasta o grito das suas compatriotas, que decerto atingirá todos os cantos do mundo, e na reverberação do feminismo elegante e objetivo de Angelina Jolie fará do filme um princípio de esperança no Afeganistão.

       



07/09/2019
A bandeira e os direitos

"Tenho até orgulho do direito de queimar a bandeira. Tenho orgulho desses direitos. Mas direi uma coisa, nós também temos o direito de portar armas e se você queimar a minha bandeira, eu atirarei em você".

(Johnny Cash)

       



06/09/2019
El Gato Andrada

Das duas dezenas de times de caixas de fósforos que eu confeccionei entre 1969 e 1972, o mais cultuado, obviamente, era o Botafogo, único que tinha mais de onze fotos, contemplando quase o plantel inteiro. Os três goleiros daqueles anos, Ubirajara, Cao e Wendell, ganhavam espaço a cada duelo nas calçadas da Rua Mário Lira. Fazia o mesmo com os reservas, como Ferreti.

Durante as eliminatórias da Copa 70, eu entrava no clima de seleção e fazia minhas escalações. E, pasmem, abdicava dos três arqueiros alvinegros e escolhia o goleiro do Vasco, o argentino Andrada, aquele que faria história dentro da história do rei Pelé.

Passei a admirá-lo após o gol 1.000, que em novembro fará 50 anos de uma partida que atraiu jornalistas do mundo inteiro. Como disse um locutor, eles vieram atrás da grande notícia, o milésimo gol.

Gostava de Andrada com aquele sentimento piedoso de torcer pelos índios nos filmes de faroeste. Quando a bola entrou nas redes do Vasco, Pelé entrou na euforia de um Maracanã invadido, enquanto o goleiro, figurante, saía de cena.

Muitos anos depois, assistindo a cobrança do pênalti, renovei a admiração por Andrada ao constatar que ele foi na bola, quase a tocou. O deus do Santos, disfarçando a tensão, deu paradinha, e não bateu com a peculiar eficiência.

Andrada, chamado de El Gato, chegou no Vasco naquele final de década após dez anos de absoluta titularidade no Rosário Central, um dos "Seis Grandes" ao lado de Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo.

A melhor referência do seu talento está numa trágica atuação do Rosário nos primeiros anos da sua carreira. O time tomou de 11 x 3 do Racing e Andrada foi eleito o melhor jogador em campo. Deve ter evitado mais outros 11 gols.

Durante os dez anos no Rosário, usava uniforme todo preto inspirado no maior goleiro do planeta, o russo Yashin. Ao chegar no Vasco adotou uma camisa cinza e outra num tom azul esverdeado, a que usou no jogo contra o Santos.

Na caixinha de fósforo do Vasco a imagem que colei foi a figurinha do álbum Bola de Prata, de 1971, uma chapinha redonda e metalizada. Andrada foi uma idolatria de meninice, um ponto fora da curva do meu fanatismo botafoguense.

Ao deixar o Vasco, voltou para pendurar as luvas na Argentina e encarou uma grave denúncia de ter participado de grupos de tortura do regime do general Videla. Impuseram a ele a autoria das mortes de dois militantes comunistas.

Prefiro guardar dele, a imagem da lúdica caixinha e as imagens do dia histórico no 1.000 gol do Rei, os dois abraçados antes da cobrança, o salto na bola, os murros na grama e a foto por trás da trave, onde parece que ele parou Pelé.

Edgardo Andrada saiu da vida na quarta-feira, dia 2, um dia exatamente como aquele há 50 anos. Eu olho para trás, e lá na minha infância renovo por ele meu afeto esportivo e aguardo novembro, quando ele será lembrado de novo.

       



05/09/2019
Cantando a lenda e o fato

Quando as novas gerações ouviram falar pela primeira vez o termo "crossover", a narrativa científica que insere num mesmo contexto elementos ou personagens de realidades e épocas diferentes, as velhas gerações nordestinas já tinham assimilado por hereditariedade cultural as misturas absurdas e exageradas que as cantorias e os folhetos de cordel produziram ao longo das décadas. Literatura popular com hibridez histórica e mitológica.

Os cantadores de improviso e os poetas do povo lançavam nos desafios figuras como os deuses gregos, heróis e imperadores romanos, personagens bíblicos, seres mágicos das fábulas, vultos da História tal qual Getúlio Vargas, Tiradentes, Lampião, Zumbi, Dom Pedro, Rui Barbosa, Câmara Cascudo, Tomé de Souza, ídolos das artes no nível de Luiz Gonzaga, Castro Alves, Olavo Bilac, Luís de Camões, astros do cinema, da televisão e do rádio.

A literatura de cordel produziu distopias antes do cinema de ficção científica, viajou no tempo antes do super-heróis dos quadrinhos, juntou figuras reais com personagens literários antes dos romances latinos de realismo fantástico.

Nas aventuras com cangaceiros enfrentando o diabo, com Jesus derrotando monstros de feitiçaria, com ícones do século XX contracenando com cavaleiros da Távola Redonda, a cultura popular sempre juntou as lendas com os fatos.

Quem viu o filme "O Homem que Matou o Facínora", obra de John Ford de 1961, recorda-se do senador Ransom Stoddard, interpretado por James Stewart, narrando seu passado ao jornalista Maxwell Scott (Carleton Young).

Ele conta que construiu sua vitoriosa carreira em cima de uma fraude, quando ganhou a glória de ter eliminado o bandido Liberty Valance (Lee Marvin), fato protagonizado por seu amigo Tom Doniphon, o personagem de John Wayne.

O grande momento do filme é quando o repórter, que vinha anotando toda a história do senador, rasga o caderninho e dispara a frase icônica: "Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda".

Tudo isso tem similaridade com um caso ocorrido há alguns anos, durante um festival de repentistas, no centenário Teatro Santa Isabel, no Recife. A casa estava lotada e com os melhores violeiros do Nordeste em disputada cantoria.

Entre juras de ter sido real e suspeitas de testemunhos fantasiosos, conta-se que havia gordo prêmio pecuniário para o cantador do melhor repente. Um júri composto por escritores e intelectuais era presidido por Ariano Suassuna.

Cantaram Dimas Batista, Louro do Pajeú, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Pinto do Monteiro, Mocinha da Passira, Louro Branco, João Furiba, Gato Preto, Geraldo Amâncio, Jô Patriota, Ivanildo Vila Nova, Zé Cardoso entre outros.

No momento do julgamento, Ariano resolveu comentar a cantoria de Dimas, afirmando que o gênero gemedeira apresentado não foi improviso, mas previamente escrito e decorado. Foi grande o murmúrio na plateia e no palco.

Dimas já havia guardado a viola no saco, olhou pra mesa do júri, onde estavam Patativa, Humberto Teixeira, Dom Hélder, Gilberto Freyre e Jackson do Pandeiro. Aí apanhou o instrumento do gênio de Alagoa Grande e tascou:

"Eu muito admiro o poeta de praça / que passa seis meses fazendo um sexteto / no fim de um ano termina um soneto / e quando ele acaba ainda fica sem graça / com tinta e papel o esboço ele traça / contando nos dedos pra metrificar/ que noites de sono ele perde a pensar / para produzir tão minguado produto / pois desses eu faço dois, três num minuto / cantando galope na beira do mar".

A palma comeu no centro. E não me pergunte se foi lenda ou se foi fato.

       



04/09/2019
Um sequestro há 50 anos

Como se fosse uma reprodução enviesada da santa ceia, treze terroristas de esquerda, liderados pelo jornalista Franklin Martins, que seria ministro no século seguinte, sequestraram um embaixador num dia como hoje, em 4 de setembro de 1969.

E como se fosse um código subliminar matemático apontando o futuro da revolução leninista, lá estava o número 13 que décadas depois representaria os conceitos dos sequestradores num partido político.

Eram 14h30 de uma quinta-feira, o embaixador dos EUA Charles Burke Elbrick seguia pela Rua Marques, no bairro carioca de Humaitá, a bordo de um Cadillac.

Os guerrilheiros surgiram com um Volkswagen e o trancaram, rendendo seu motorista e atingindo o diplomata com uma coronhada, jogando-o numa Kombi e fugindo pelo Túnel Rebouças, e aprisionando-o numa casa da Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido, na Zona Norte do Rio.

Naquele mesmo dia, o presidente da República, Costa e Silva, que tinha sofrido uma trombose cerebral há quatro dias, fazia exames radiológicos e recebia do Papa Paulo VI uma mensagem de pronto restabelecimento.

Ali mesmo, no Rio, morria, também vítima de trombose, o Brigadeiro Faria Lima, ex-prefeito de São Paulo. O corpo iria para sepultamento na capital paulista. Os dois fatos tinham tudo para dominar as manchetes do dia 5.

Mas o sequestro do embaixador tomou conta das capas dos jornais brasileiros, com repercussão pelo mundo, principalmente nos EUA. Os sequestradores fizeram duas cartas expondo as condições para libertar Charles Elbrick.

Mas antes da imprensa receber as cartas, o sistema de segurança do governo militar soube do sequestro, graças à senhora Elba Souto Maior, mulher de um Capitão da Marinha, que testemunhou toda a operação dos sequestradores.

No dia 6 de setembro, um sábado, a redação do Jornal do Brasil recebeu dois telefonemas anônimos, um às 11h05 e outro às 15h32, ambos indicando localização de dois bilhetes, um do sequestrado e outro dos sequestradores.

No primeiro papel uma mensagem do embaixador para a esposa, no segundo as exigências para a negociação. As mensagens foram colocadas na igreja N. Sra. da Glória, do Largo do Machado, e no Supermercado Disco, no Leblon.

E houve mais dois bilhetes, escritos por Franklin Martins, em destaque aquele exigindo a soltura de 15 militantes, entre eles Gregório Bezerra, Vladimir Palmeira, Luiz Travassos e José Dirceu. Palmeira e Dirceu lideravam a UNE.

A recém-empossada trina provisória com os ministros militares Aurélio Tavares, Augusto Rademaker e Márcio de Souza Mello aceitou negociar nos termos dos treze guerrilheiros. O governo Richard Nixon passou mensagem agradecendo.

Na manhã do domingo, os 15 presos aterrissaram no México, e às 18h30 o embaixador foi libertado. Durante o episódio, o povo seguiu alheio, assistindo as novelas A Menina do Veleiro Azul (TV Excelsior), Algemas de Ouro (Record), Beto Rockfeller (Tupi) e A Cabana do Pai Tomás e Rosa Rebelde (Globo).
Há 50 anos.

       



03/09/2019
Temporada Beatles

Todos os anos, no mês de agosto, a cidade de Liverpool repete um fenômeno ocorrido há quase sessenta anos. Se transforma no epicentro de uma epifania musical que envolve o planeta e que todos conhecem pelo nome de beatlemania.

Durante uma semana inteira, aquela que é considerada a mais bela das cidades inglesas recebe um sem número de fãs dos seus quatro filhos ilustres para festejar e participar do evento International Beatle Week Festival.

Esse ano, o festival ocorreu entre os dias 21 e 27, reunindo como sempre milhares de beatlemaníacos nas ruas, nos teatros, nos pubs e nas praças para acompanhar as apresentações de bandas oriundas do mundo todo executando os eternos hits dos Fab Four.

E é quando acaba o IBWF que o resto do planeta inicia a reverberação do evento de Liverpool, numa explosão em série de vários festivais imbuídos da mesma ideia: cantar Beatles e cultuar Beatles.

Se a reprodução da festa no berço dos quatro caras já era imensa (há festivais na Alemanha, EUA, Argentina, Austrália, Holanda... e uns quatro só no Brasil), imagine agora quando a beatlemania entra no clima de 60 anos da banda?

Pois é, mil coisas começam a ser preparadas para comemorar o sexagenário aniversário dos Beatles, cujo nome foi adotado em meados de 1960 antes da primeira excursão à Escócia, ainda com Pete Best tocando na bateria.

Um dos primeiros festivais nos moldes do Beatle Week será neste setembro, no condado de Shrewsbury, uma localidade próxima do País de Gales. Serão três dias, de 20 a 23, com shows, filmes e palestras no Theatre Seven.

A iniciativa foi do próprio prefeito, um inveterado beatlemaníaco que deseja atrair turistas de toda a Inglaterra, pelo menos, para arrecadar fundos numa campanha de auxílio a um grupo de samaritanos que atua na sua cidade.

Shrewsbury já vive grande expectativa, principalmente pelo resgate histórico da única vez em que os Beatles se apresentaram ali, no distante 1963, um ano antes de atravessarem o Atlântico para conquistar o mundo a partir dos EUA.

Naquele ano, John, Paul, George e Ringo tocaram num local chamado The Music Hall, e contaram com a simpatia do público por causa da presença no palco de uma banda chamada The Deltas, muito popular entre os jovens de lá.

Um grande apelo de marketing e que já estimula a chegada de fãs da banda é a presença de quatro enormes estátuas do quarteto, cópias perfeitas das estátuas originais que existem em Liverpool, cada uma com 1,86 metro.

O trabalho artístico é dos escultores da Castle Fine Arts Foundry, uma entidade cujo diretor geral é morador de Shrewsbury. As peças são feitas de resina e metal, e pesam cinquenta quilos cada uma. São as da foto que ilustra o artigo.

Uma curiosidade relacionada com os Beatles e o condado é que o empresário do grupo, Brian Epstein (morto em 1967) estudou por lá, no Wrekin College, no final da década de 1940. Mas não esteve com eles naquele show de 1963.

Em 22 de setembro, o ilustrador do Homem-Aranha, Hulk e X-Men, Tim Quinn, que nasceu em Shrewsbury, vai fazer uma palestra sobre a presença dos Beatles nas histórias em quadrinhos, que segundo ele chega às centenas.

       



02/09/2019
Guerra de mimimi

Na guerrilha religiosa das redes sociais, o material bélico de petistas e governistas é feito de frases semelhantes.

A primeira posta "O Brasil precisa passar por Bolsonaro pra entender a importância do PT". E a segunda rebate "Foi preciso passar por Lula para o Brasil entender a necessidade de Bolsonaro".

       



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