BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/12/2018
Os anjos caídos do rock

Quando um livro nos permite compreender temáticas distintas numa só leitura, invariavelmente é tratado como "a bíblia disso ou daquilo", numa expressa referência ao compêndio milenar que com seus muitos livros fundou e sustentou a doutrina cristã e suas diversas religiões criadas depois.

Pois bem, se algum fã do rock ‘n' roll quiser conhecer de uma só vez as origens e vertentes do punk rock, proto punk, grunge, new wave e eletropop, precisa ler a farta bibliografia do livro "Dangerous Glitter - Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop Foram ao Inferno e Salvaram o Rock ‘n' Roll", de Dave Thompson.

É uma bela edição de luxo em capa dura com muito material iconográfico e fotos históricas do triunvirato maldito. Os três levaram aos limites extremos - como diz Galvão Bueno - a tradução metabólica do mantra criado pelos Rolling Stones, "sexo, drogas e rock ‘n' roll". A turma de Jagger não deu pro cheiro.

Vamos para o ano de 1971, quando o britânico David Bowie era apenas uma promessa de sucesso e um fã entusiasmado dos americanos Lou Reed, e seu grupo Velvet Underground, e Iggy Pop, com sua banda The Stooges. E os dois, diga-se, achavam que o inglês tocava alguma coisa muito próxima do lixo.

Mas Bowie tinha a mesma loucura dos seus ídolos e se danou para os EUA só para conhecê-los. Não dava nem para imaginar um empurrão do mercado do Tio Sam, já que naquele ano encerrou o programa Ed Sullivan Show, cuja audiência catapultou Beatles, Rolling Stones e tudo que veio da Inglaterra.

A Guerra do Vietnã seguia sangrenta e a conjuntura cultural demonstrava agitação tanto nos EUA quanto no Brasil. Foi em 71 que Augusto Boal criou o Teatro do Oprimido, que Nabokov lançou "Poemas e Problemas" 16 anos após o sucesso de Lolita, e que o poeta Ferreira Gullar foi empurrado para o exílio.

Não foi fácil para Bowie flertar com a dupla e romper a rejeição artística. Mas no ano seguinte deu namoro e sinais de bom casamento. No primeiro encontro com Lou Reed, numa mesa do restaurante Ginger Man, no coração de Nova York, a conversa fluiu graças à alcova dos executivos da gravadora RCA.

Os dois viviam situações distintas no âmbito musical; com Lou Reed se divorciando da Velvet Underground, pensando numa carreira solo, enquanto Bowie ensaiava voos em direção à estratosfera com o êxito mundial do seu quinto disco, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

O extenso nome, que lembrava a revolução sonora dos Beatles quatro anos antes com o álbum Sgt. Pepper's, caiu na boca do mundo resumido para Ziggy Stardust, que virou um alter ego. E Bowie acabou produzindo o maior sucesso da carreira solo de Reed, o seu segundo disco chamado "Transformer".

O encontro com Iggy Pop seguiu o mesmo clima e se tornou uma boa amizade, invertendo os papeis como já ocorrera com Lou Reed. O bruxo da cultura punk americana também passou a admirar Bowie. Em 2016, disse que o músico inglês não só o entendia como o ressuscitou para a vida e para o rock.

Infelizmente, aqueles primeiros anos da década de 1970 foram os únicos instantes em que o trio trabalhou junto. Uma conectividade tão fértil e transgressora que produziu um pouco que se tornou muito para a historiografia da música pop.

Foram três demônios criativos, anjos caídos que mudaram as abordagens cênica, técnica e comportamental das variações do rock ‘n' roll.

           



10/12/2018
O cordão vermelho do destino

Há uma lenda oriental, presente nas remotas literaturas mitológicas da China e do Japão, de que as pessoas destinadas a se conhecer estão conectadas por um cordão vermelho invisível, cujas duas pontas estão presas a seus dedos. O fio jamais se rompe, não importa o tempo, a distância ou as circunstâncias.

Segundo os versos e cantigas milenares de grandes poetas e trovadores orientais, não existe limites para a extensão do fio do destino. As chamadas almas gêmeas, ligadas por ele, tanto podem se conhecer cedo ou tarde, viverem separados por terras e oceanos, um dia estarão juntas, aqui ou no infinito.

Quaisquer que sejam os obstáculos, o tempo de vida, nada poderá romper o cordão. Irá se esticar a tamanhos estelares ou se contrair em centímetros, mas permanecerá inquebrantável, regido pelo destino. É atado ao dedo das pessoas ao nascer, não importando em que tempo e espaço esteja a outra ponta.

Foi baseada na lenda do cordão do destino (não confundi com o fio prateado do espiritismo) que a cineasta argentina Daniela Goggi roteirizou e dirigiu o belíssimo romance "El Hilo Rojo del Destino", já traduzido na Netflix Brasil para "A Linha Vermelha do Destino", que tem recebido boas críticas desde 2016.

A trama, ou história de amor, é protagonizada pelos personagens Manuel e Abril, interpretados pelos atores Benjamin Vicuña e Eugênia Suarez, ela que além de atriz é uma das modelos mais famosas e belas da Argentina. O fio entre ambos começa a surgir num saguão de aeroporto, ambos ouvindo a mesma música.

Abril é comissária de bordo e tem como principal sonho voar pelo mundo inteiro, enquanto Manuel tem uma pequena vinícola que busca expandir seus vinhos pelo continente sul-americano e Espanha. O primeiro sinal de conectividade ocorre na audição mútua de "You Know i'm no Good", de Amy Whinehouse.

Da química inicial que bate entre eles no embarque, logo explode a física dentro do avião. Entre beijos e amassos, um primeiro encontro formal no setor de imigração do aeroporto de Madrid, abortado pela burocracia da segurança interna. O fio se estica, eles se perdem de vista e se encontrarão 7 anos após.

Aí ambos já estão casados, ele com uma fotógrafa renomada, ela com um produtor de música pop; ele tem uma filha, ela tem um filho. As chances são mínimas para uma nova decolagem da paixão surgida na casualidade de uma viagem aérea. Mas há o fio invisível, desencapado pela centelha do amor.

O reencontro é morno, depois esquenta; os desejos despertam, depois geram pesadelos e remorsos. Nova distância, outra reaproximação, o constrangimento dos seus cônjuges trabalhando juntos. Tensões, medos, dores e perdas. Mais um filme argentino com sabor de cinema bem feito.

SPOILER: ao fim das filmagens, os atores saltaram do roteiro, encerraram seus respectivos casamentos e se juntaram numa paixão de vida real.

           



08/12/2018
As novas barricadas em Paris

A espetacular ação policial e as detenções preventivas não impediram novos distúrbios em Paris no quarto sábado de protesto do movimento dos "coletes amarelos".

Já houve mais de 700 prisões só hoje e confrontos esporádicos entre manifestantes e agentes da lei em várias partes da capital francesa.

De acordo com as primeiras estimativas das autoridades policiais, os encontros reuniram cerca de 8.000 pessoas em Paris e 31.000 em todo o país. Cerca de 36 mil que, segundo o secretário de Estado do Interior, Laurent Núñez, foram mobilizados no último final de semana.

O principal ponto de atrito são as grandes avenidas, onde pouco depois das 13h (local) grupos de manifestantes formaram barricadas com material que foram retirados de alguns estabelecimentos próximos e com mobiliário urbano, antes de incendiá-lo.

A Polícia está usando veículos com mangueiras de água pressurizada e joga gás lacrimogêneo para expulsar os agressores das brigas que ocorrem no passeio público. As depredações seguem acontecendo e os comerciantes reforçam suas fachadas com tapumes.

Os principais pontos turísticos de Paris, como a Torre Eiffel e a Avenida Champs Elisée, estão fechados à visitação. Alguns países já começam a pedir aos seus cidadãos que evitem viajar para a França.

           



08/12/2018
Os pseudo empreendedores privados

Alguns sanguessugas do erário, os mesmos de sempre que vomitam verborragia de autoelogios numa falsa condição de empreendedores privados, escondendo na dissimulação as fortunas acumuladas com dinheiro público, andam por aí nos grupos de WhatsApp e nas rodinhas de rapapés esculhambando comigo.

Na verdade, essa tem sido uma prática antiga, desde quando eu parei de fazer a coluna Portfolio no Diário de Natal e passei a escrever sobre diversos assuntos, inclusive o que contraria os interesses dessa gente, a quem não devo porra nenhuma.

Aliás, se alguma dívida existe por aí, deveria ser deles para comigo. Ao longo de décadas, acumulei informações que se houvesse transformado em notas e comentários teria provavelmente que transformar meu espaço jornalístico numa espécie de delação premiada. Mas como detesto deduragem, preferi incorrer na leniência.

Entretanto, há algo tão escroto quanto a delação: é o cinismo de quem prega em favor dos negócios privados, emposta a voz como arauto da livre iniciativa, e vive agarrado nas verbas do serviço público.

           



08/12/2018
Revelado o mistério de Bazinga

Os fãs da série de TV The Big Bang Theory, no ar desde 2007 pelo canal americano CBS e com transmissão no Brasil pelo SBT e Warner Channell, sempre foram curiosos para saber o significado da palavra Bazinga, constantemente gritada pelo personagem Sheldon Cooper, interpretado pelo ator Jim Parsons.

Agora, a origem da estranha palavra foi desvendada, e isso só ocorreu graças ao spin-off da série, The Young Sheldon, um novo seriado centrado na infância do hilário Sheldon Cooper. Num dos primeiros episódios, o telespectador pode ver o protagonista numa loja de revistas em quadrinhos e lá descobre um carrinho de brinquedo da marca Bazinga, o que o deixa espantado.

O slogan da marca fictícia de brinquedos é "Se é divertido, é Bazinga", uma frase que fica colada na mente do jovem Sheldon, e que na medida em que o tempo passa ele vai usá-la para o resto de sua vida, como se pode ver até hoje no sucesso de The Big Bang Theory.

           



05/12/2018
A bola do mundo todo

O atual presidente da FIFA, o suíço-italiano Gianni Infantino, tem se mostrado um grande globalista, mais até que os recentes sucessores. Sua gestão não para de criar condições para a expansão dos negócios do futebol pelos cinco continentes do planeta. Chega já no Ártico, que parece ser outro continente.

A careca lustrosa do executivo tem se destacado nas mais distantes arquibancadas, se traçarmos a distância geográfica a partir da sede da entidade maior do futebol, em Zurique, na Suíça. Ele foi o primeiro dirigente da FIFA a viajar para ver uma final de Taça Libertadores na América do Sul.

Sua ida a Buenos Aires não teve como único e exclusivo objetivo assistir o duelo Boca vs River, por mais que ele e o resto do mundo saibam que o clássico platino é um dos mais empolgantes entre todos os grandes clássicos. Infantino veio aos trópicos com a mesma intenção que irá à China e EUA.

Ele quer o futebol ocupando todas as terras do globo terrestre, e para isso, tem o elemento mais forte para seus argumentos: a Copa do Mundo e os 300 bilhões de dólares que o popular esporte gera todo ano. A passagem exitosa do torneio pela Rússia e a próxima parada no Qatar estimulam a pretensão.

Quando a sede da Copa do Mundo de 2022 foi confirmada no rico emirado do mundo árabe, pouco tempo depois a FIFA soltou a boa nova de que a Copa de 2026, nos EUA, Canadá e México, contaria com 48 seleções, num acréscimo de 16 países aos 32 atuais. Mas agora, Infantino cresceu os olhos e quer mais.

De repente - quem sabe estimulado por cálculos recentes de cifras futuras - ele quer aumentar a quantidade de seleções já no próprio Qatar, propondo ainda que o rico país aceite que se espalhe por outras nações algumas chaves da Copa. Vai apelar para que os jogos de 2022 já sejam compartilhados.

Numa entrevista recente, o dirigente máximo do futebol declarou que seria muito bonito a Copa do Mundo ser compartilhada com outros países pelo Qatar, se antecipando ao formato previamente definido para ocorrer em 2026 na América do Norte. A ideia é que o futebol crie laços entre os países árabes.

Infantino sabe e admite que não é fácil, a essa altura, com as obras do Qatar avançadas, propor o compartilhamento. Mas também acredita que para o futebol nada é impossível, por mais que transpareça muito complicado. As confederações continentais aceitarão certamente 48 equipes já no Qatar.

Entretanto não basta a FIFA e seu presidente desejarem; é preciso respeitar acordos firmados anteriormente com o país sede, que pode muito bem não concordar em dividir uma festa que praticamente já pagou antecipado a decoração.

Além de 48 seleções, ainda há uma proposta da Copa ocorrer a cada dois anos. Há de se ter cuidado com a vulgarização, lembrando da fábula dos ovos dourados da galinha.

           



04/12/2018
O amor que contamina o mundo

Os amantes sempre morrem, um dia hão de morrer, mas o amor, somente o amor, resistirá ao tempo com a sua eternidade. Isto é fato e a ninguém cabe ou é permitido explicar. Tanto no aspecto do macrocosmo fictício, como nos romances tipo Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, quanto no microuniverso de um jovem e comum casal, como os americanos Christian Kent e Michelle Avila.

Pouco sabemos deles, apenas que viviam com os seus pais, em Newport Beach, na ensolarada Califórnia, sonho de consumo dos surfistas nos delirantes anos 60, 70 e 80. Além de viverem sobre as ondas, como no desejo da canção de Nelson Motta interpretado por Lulu Santos em 1982, Michele (23 anos) e Christian (20) se amavam de forma apaixonada.

Não foi o surf que permitiu a ambientação para que o casal se tornasse célebre. O mundo tomou ciência dos jovens por causa do seu amor, que eles escancaravam com paixão, alegria e plasticidade em imagens postadas nas redes sociais. Indivisíveis em seu idílio juvenil, eram um só corpo em cada foto, em cada vídeo, em cada singela frase de declarações amorosas.

O francês François de La Rochefoucauld, que longe de ser filósofo ou poeta foi um aristocrata apaixonado por compor conceitos amorosos e poéticos, disse que "o que faz com que os amantes nunca se entediem de estar juntos é o falar sempre de si próprios". E a vida de Michelle e Christian era assim, uma bolha só deles, imune às desgraças e maledicências desse mundo tão hostil.

Viviam apenas um para o outro, curtindo juntos o surf e as aventuras que o seu amor alimentava. O amor presente, sem pressa, sem adiamento e sem planejamentos que gerem dúvidas com o futuro. Eles eram a ilustração em vida da poesia de Chico Buarque em Futuros Amantes: "não se afobe, não, que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio..."

Eles contaminaram de amor as redes sociais, um ambiente totalmente afetado por ódios, frustrações, invejas e neuroses de toda espécie. As fotos, muitas fotos, postadas diariamente com juras de amor, com palavras de mimo e gestos de carinho de um para o outro, emocionaram pessoas de todas as idades, de tantas cidades, de várias nações. Eles choveram amor entre nós.

No entanto, desde o dia 14 de outubro, Michelle Avila e Christian Kent saíram do mundo, se foram, apareceram mortos, abraçados como nos romances que há séculos emocionam e ao mesmo tempo entristecem os mais distintos corações e mentes. A morte do casal é um mistério para as famílias e a Polícia. Não havia sinais de violência, nem cartas de despedida, nem resíduos de substâncias proibidas.

O quarto da garota, onde o casal foi encontrado morto, é um retrato da sua juventude e do seu amor; cartazes nas paredes, lençóis floridos, fotos do mar e deles, ela e Christian em momentos felizes, os mesmos que eles publicavam nas redes sociais e que conquistaram as pessoas.

Em seu perfil do Instagram, a garota escreveu "A vida é uma aposta", como a justificar as escolhas pelo estilo aventureiro e o gosto por música e viagens. Suas cinzas foram espalhadas nas águas do Hawaí, local preferido do casal, enquanto o corpo do namorado foi sepultado no mausoléu da família.
Os corpos dos amantes se foram, mas ficou o amor, imutável como sempre.

E como todos os amores adiados, um dia, quem sabe, serão elementos de estudo dos escafandristas do futuro, como cantou Chico. Ou voltarão todos, procurando seus pares, como a gritar na imorredoura poesia de Maiakovski: "Ressuscita-me, nem que seja só por isso". Porque todo o amor não terminado será recompensado com inumeráveis noites de luas e estrelas.

           



01/12/2018
O caráter e elegância de George Bush

A morte de George Herbert Walker Bush, o quadragésimo primeiro presidente dos Estados Unidos, consternou a vida política norte-americana. O anúncio por seu filho e também ex-presidente, George W. Bush, gerou muitas manifestações de respeito e condolências por personalidades republicanas e democratas.

Bush se foi poucos meses após o falecimento de sua esposa, Bárbara Bush, com quem ele foi casado durante 73 anos e juntos formaram uma família de cinco filhos e dezessete netos. No Twitter, o filho ilustre avisou aos irmãos: "a Jeb, Neil, Marvin e Doro me entristece anunciar que nosso amado pai morreu".

George Bush governou os EUA entre 1989 e 1993, no período do final da histórica Guerra Fria com a Rússia. No seu governo, o país venceu a primeira Guerra do Golfo. O ex-presidente Barack Obama declarou que o país perdeu um patriota que "ajudou a acabar com a Guerra Fria sem disparar um único tiro".

Na Argentina, onde estava participando da cúpula do G20, o atual presidente Donald Trump destacou a "autenticidade essencial, a inteligência afiada e o compromisso inabalável de Bush com a fé, a família e o país", lembrando que o ex-presidente inspirou gerações de compatriotas a entrarem no serviço público.

O firme caráter de George H. W. Bush ficou bastante visível e refletido numa carta que ele deixou no birô do Salão Oval da Casa Branca, quando estava prestes a deixar o governo e entregá-lo ao democrata Bill Clinton, que o derrotou na eleição presidencial de 1992. O que há de simples, há de emoção na missiva.

Em 2016, quando a mulher de Clinton, a senadora Hillary Clinton, estava enfrentando o republicano Donald Trump, ela postou a foto da carta de Bush no Instagram, numa forma de exibir a grandeza de um ícone adversário que não apoiava a candidatura do próprio partido. A família Bush torceu por Hillary.

Eis a carta do derrotado Bush para o vitorioso Clinton: "Caro Bill, quando entrei neste gabinete agora, senti o mesmo sentimento de reverência e respeito que senti há quatro anos quando aqui cheguei. Eu sei que você vai sentir isso também. Eu te desejo muita felicidade aqui. Eu nunca senti a solidão que alguns presidentes descreveram.
Haverá momentos muito difíceis, ainda mais difíceis por causa das críticas que você pode não achar justas. Eu não sou muito bom em dar conselhos, mas não deixe que as críticas o desencorajem ou tirem você do curso. Você será nosso presidente quando ler esta carta, e eu já o terei sido. Seu sucesso agora é o sucesso do nosso país. Desejo muito encorajamento. Muita sorte. George
".

Na quarta-feira, haverá uma homenagem póstuma oficial em Washington, por determinação do presidente Donald Trump, com alcance nacional. Depois, o corpo do ex-presidente será levado para o Texas, terra natal da família Bush, onde será sepultado na Biblioteca e Museu que leva o seu nome.

           



01/12/2018
A Libertadores universal

A mídia argentina e a pacheca estão unidas no mimimi provinciano, criticando a final da Taça Libertadores no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid. Ambas cegas no provincianismo peculiar dos trópicos. Não entendem o fator comercial e a força expansiva para reforçar a imagem do futebol latino na Europa.

Se um superclássico como Boca Juniors x River Plate não fosse importante como interesse global, não teria havido a batalha de grandes cidades como Paris, Miami, Doha e Madrid, todas interessadas em sediar a final histórica, a mais importante em toda a história de 58 anos do evento iniciado em 1960.

Para quem não sabe, já havia torcedores europeus e também japoneses em Buenos Aires quando a final foi cancelada, no triste episódio do ataque ao ônibus do Boca por torcedores delinquentes do River, aliás coisa que existe em todas as torcidas de lá, de cá e além-mar. Imaginem a presença no jogo em Madrid.

Os contratos e consequências comerciais de uma final latina no estádio do Real Madrid compensam o fato de muitos torcedores domésticos não conseguirem assistir ao jogo num gramado da capital argentina. Mas milhares viajarão, como sempre fazem nas copas do mundo, quando os hermanos são quase maioria.

Convém lembrar que na Espanha residem mais de 120 mil argentinos, mais de 75 mil brasileiros, sem falar nos uruguaios, colombianos, chilenos e equatorianos que juntos somam mais de 1 milhão de almas. Alguém duvida que haverá deslocamentos de milhares de europeus para curtir o embate sul-americano?

Os ingleses, considerados os torcedores mais apaixonados por futebol, aprendem desde cedo que apesar dos muitos clássicos internos dos muitos clubes britânicos, é preciso fazer pelo menos uma vez na vida a travessia do Atlântico para assistir uma partida entre Boca x River. E muitos cumprem.

Ontem e hoje, passando a vista nos sites dos principais jornais argentinos e assistindo as resenhas dos canais esportivos brasileiros, não pude deixar de ficar estarrecido com a rejeição ridícula ao negócio armado pela Conmebol na final em Madrid. Quem nasceu para bodega nunca irá virar shopping center.

O romantismo patológico da mídia latina não sai do barro parnasiano para avançar no asfalto da poesia concreta. Me remete sempre ao botafoguense e craque das letras Paulo Mendes Campos sentenciando que a imprensa esportiva nacional sequer tinha chegado na Feira de Arte Moderna de 1922.

Esse povo não aprende sobre expansão, mesmo vendo a própria liga espanhola iniciar negociações para ter jogos em Miami. Não entendem quando Barcelona, Real Madrid, Manchester United, Liverpool, Juventus criam filiais na China, Japão, Austrália, EUA... Sonham com Flamengo x Corinthians no Piauí.

Enquanto a FIFA expande a Copa do Mundo por países remotos, numa espécie de cruzada templária da bola, ficam aqui as redações bairristas pelejando por fazer dos clássicos apenas peladas na própria cozinha. O UOL falou em traição aos heróis San Martin, Bolívar e Tupac Amaru. Omi, vão tomar no olho da rua!

           



26/11/2018
O último imperador italiano

Quando a censura no Brasil liberou em 1979 a exibição de O Último Tango em Paris, o filme de Bernardo Bertolucci que escandalizou o mundo em 1972, minha geração aos vinte anos tinha nas paredes do quarto um pôster do filme 1900, feito por ele em 1976, e se chocava no roteiro transgressor de La Luna.

Quem viveu os movimentos estudantis do final dos anos 70, praticamente adquiriu - com uma obrigação ideológica - a enorme foto dos camponeses italianos marchando na cena icônica do filme 1900. Era figura fácil nas barracas e toalhas da galera que vendia souvenires cults durante a SBPC.

No atraso de sete anos da chegada no Brasil do polêmico filme em que Marlon Brando lubrificava Maria Schneider, nós consumimos Bertolucci nas sessões tipo cine clube dos centros acadêmicos. Pouco tempo após conferir a obra que o popularizou, vi Estratégia da Aranha, baseado em livro de Jorge Luís Borges.

Diretor, produtor, poeta e roteirista, Bernardo Bertolucci abriu um buraco de luto nos cinéfilos quando sua morte foi anunciada ontem. Muitos fãs sequer sabiam que ele enfrentava um câncer. Morreu em casa, na cidade de Roma, de insuficiência respiratória, como estampou o diário italiano La Repubblica.

Filho de um poeta e professor amigo do cineasta Pier Paolo Pasolini, logo cedo foi atingido pela magia do universo artístico, arriscando alguns curtas metragens com o seu irmão Giuseppe, estreando em 1962, com apenas 21 anos, dirigindo duas produções: A Morte (inédito aqui) e Antes da Revolução.

Virou auxiliar de Pasolini e decidiu beber na fonte de Godard e Kurusawa, os também cineastas francês e japonês já consagrados. As referências ao cinema noir e ao realismo cotidiano denunciaram a inspiração de Bertolucci em ambos. Em 1970, com O Conformista, ele apresentou o cartão de visita ao mundo.

A trama baseada em livro de Alberto Moravia o ajudou dois anos depois quando lançou O Último Tango em Paris, abrindo as portas da distribuição, em que pese o choque moral das pessoas e a censura em alguns países, como no Brasil de Médici e no Chile de Pinochet, além da Itália, liberado só em 1987.

Polêmicas e debates intelectuais à parte, Bertolucci passou a ser tratado como um monstro da sétima arte com os filmes 1900, um drama sócio-político da própria Itália (com Robert De Niro), e O Último Imperador, de 1987, em que um garoto é tirado da mãe para ser rei e viver recluso numa cidade proibida.

Após o duplo sucesso, sua criatividade explode nos anos 90 e nos presenteia com grandes obras, como O Céu que nos Protege (1990), O Pequeno Buda (1993), Beleza Roubada (1996) onde Liv Tyler brilha aos 19 anos; e entra no terceiro milênio em 2003 com Os Sonhadores, uma crítica ao "maio 1968".

Seu último filme, Tu e Eu, de 2012, é um retorno ao tema de Os Sonhadores, uma abordagem dos conflitos e alienações juvenis. Em quase sessenta anos de militância cinematográfica, Bertolucci nunca deixou público e crítica indiferentes às suas obras, garantindo assim que jamais será esquecido.

           



25/11/2018
A economia brasileira reage

Faltam 35 dias para o presidente eleito Jair Bolsonaro tomar posse. As expectativas do mercado com a mudança de governo, diante do evidente antagonismo entre as administrações anteriores e a que vai chegar, começaram a tornar-se ações já nas primeiras semanas após a eleição.

Em que pese a subcultura pessimista do terceiro turno perpetrado pelo PT e seus satélites, a economia brasileira está finalmente ensaiando um bom movimento de recuperação, num gradual e consistente avanço que é impulsionado pelo retorno da confiança de empresários e de consumidores.

Após um quadriênio de pavorosa recessão que foi seguida pelo baixo crescimento, os mercados financeiro e empresarial andam animados com as possibilidades do ano vindouro, ao ponto de executivos e financistas iniciarem já uma temporada de investimentos e contratações de novos auxiliares.

Uma passada de vista no jornal Valor Econômico e nas editorias de economia e negócios dos demais grandes veículos de imprensa (não precisa ouvir Miriam Leitão) e vê-se logo que bancos e consultorias especializadas começam a revisar positivamente suas projeções de expansão para o PIB em 2019.

Por mais que os coiotes esquerdolentos uivem contra o perfil de Paulo Guedes, é exatamente a composição do seu time de profissionais experientes que está pesando para a sinalização positiva do mercado financeiro, que mantém o crédito na sua autonomia para implementar as ideias que sempre pregou.

Para ilustrar a nova realidade que se molda na expectativa de um governo Bolsonaro, a bolsa brasileira passou meses e mais meses em prontidão, aguardando as movimentações sumidas na incerteza da eleição presidencial. Sessenta dias depois, já são mais de trinta companhias com ofertas de ações.

Não se deixem levar pelo terceiro turno do circo de horrores do PT. É só esperar os primeiros meses de 2019 e teremos dezenas e dezenas de grandes investidores dando as caras e as cartas no pregão da nossa bolsa. Com a economia em ritmo de resgate, a confiança faz o resto e o Brasil muda.

Não estou dizendo que um governo Bolsonaro é a grande nova dos trópicos. Mas é, sem dúvida, a face mais oposta às roubalheiras dos anos Lula e Dilma, quando a nação foi surrupiada, desmantelada e desenganada pela maior quadrilha já vista na história da República. Nada pode ser pior do que o PT.

Nos resta acreditar e torcer pelo êxito de Bolsonaro e seus ministros determinados a desmanchar a máquina do mal montada desde 2002. Que venha 2019, trazendo as mudanças que todos nós precisamos. O Brasil precisa.

           



20/11/2018
A última ceia do Diners

O conceito "não existe almoço grátis" remonta ao século XIX, quando o americano Water Scott abandonou a profissão de impressor para vender comida numa carroça, antes utilizada em períodos de guerra ou catástrofes. Depois dele, T. H. Buckley abriu vários carrinhos e conceituou o restaurante.

Quando os restaurantes invadiram o século XX, a frase continuava em voga nos EUA até que em 1966 o escritor de ficção científica Robert Heinlein a colocou num romance, gesto repetido nove anos depois, em 1975, pelo renomado economista Milton Friedman que a espalhou pelos continentes afora.

Numa noite de 1949 em Nova York, o advogado Frank McNamara foi para um jantar de negócios no restaurante Major's Cabin Grill, e quando a conta veio, percebeu que havia esquecido a carteira no hotel. Após alguma discussão, deixou o seu cartão de visita e a conta assinados, como garantia de voltar.

No dia seguinte tudo foi resolvido. E um ano depois, em fevereiro de 1950, McNamara retornou aquele restaurante, na companhia de dois colegas, Ralph Schneider e Casey Taylor. Ao término do jantar, ele pediu a conta e puxou da carteira um cartão de papelão, onde havia seu nome abaixo de outro maior.

Nas letras em destaque, Diners Club Card, no português livre "o cartão do clube do jantar". Explicou ao proprietário que já haviam quase trinta restaurantes de Nova York recebendo o cartão, usado apenas por pessoas importantes e abastadas, cerca de duzentas, todas amigas do advogado.

Começava ali a história do cartão de crédito, uma revolução na economia mundial e nos negócios. O Diners Club cobrava das empresas conveniadas um percentual de 7% sobre o valor da despesa, como taxa de serviço, e também dos usuários que tinham 60 dias para quitar tudo, com taxa anual de US$ 3.

A marca Diners Club logo se tornou componente dos elementos que compunham a essência do glamour dos anos 50, se tornando símbolo de sofisticação, presente nos ambientes chiques e no imaginário das pessoas através de propagandas e de inserções em contextos do cinema e da moda.

Na década seguinte, marcada por sonhos, loucuras e desejos de liberdade, o Diners tratou de contextualizar e se enfiou no universo cult, com publicidades criativas oferecendo seus serviços nas compras de discos de rock, ingressos de shows e cinema, consumo em lanchonetes, bares e boates fumegantes.

Chegou no Brasil quando os primeiros acordes da Bossa Nova surpreendiam um país ainda afeito ao samba-canção, ao baião e aos boleros, e quando a TV engatinhava como um rádio com imagem. O empresário checo Hanus Tauber e o brasileiro Horácio Klabin abriram em 1956 uma franquia do Diners Club.

Como símbolo de glamour daquelas décadas, o Diners é comparado à saudosa companhia aérea americana Pan Am, aliás por várias vezes juntas num mesmo anúncio publicitário. Inclua-se no contexto nacional a Pan-Air, a Varig, a Cruzeiro do Sul e a Vasp com suas lindas aeromoças com o cartão na mão.

Nos anos 90, o cartão Diners chegou a vender antecipados discos brasileiros, como o LP de Caetano Veloso, Fina Estampa, de 1994. A promoção ganhou páginas de revistas e jornais nacionais. Esta semana foi anunciado o fim do Diners, cuja história se confundirá com a dos restaurantes na imagem da "primeira ceia" em fevereiro de 1950. Amém!

           



16/11/2018
O largo coração do Atheneu

Dona Sílvia tinha uma legião de filhos, bem além dos seus quatro herdeiros biológicos Késia, Karla, Keila e Odeman Jr. Tratava a enorme clientela com aqueles cuidados das mães, com atenção permanente e distribuindo sorrisos e gentilezas, fazendo da Confeitaria Atheneu um lar doce bar de nós todos.

Várias gerações e um porrilhão de gente de estilos e gostos distintos se uniformizavam num só ambiente de descontração quando buscavam as mesas do bar do casal Odeman e Dona Sílvia. As tardes-noites e os carnavais em Petrópolis ganharam outra dimensão quando eles se instalaram no Largo.

Comecei a frequentar o lugar no final dos anos 70, quando a confeitaria ainda era na casa da esquina, onde hoje está a Chopperia Petrópolis. Vi ali os mais destacados intelectuais e personalidades potiguares; todos eles referências da minha geração que frequentava o local como que para um rito de passagem.

Sob o olhar generoso do bom casal conquistei amigos em suas mesas, vi nascerem e morrerem amores, acompanhei debates políticos acalorados, escrevi poemas em guardanapos, participei de animadas confraternizações e até fiz horas extras produzindo trabalhos publicitários regados a muita cerveja.

Presenciei a naturalidade com que as tradições boêmias são transferidas de pais para filhos. Assim como é natural a mistura de gerações compartilhando noitadas, gente de todas as idades naquela calçada onde o tempo parece não parar, como se os ausentes estejam sempre sentando ao lado dos presentes.

Dona Sílvia era uma proprietária de bar que não sentia falta do cliente, sentia saudade mesmo. Sua primeira abordagem era sempre querendo saber o porquê dos breves desaparecimentos, para só depois perguntar o que iríamos beber ou comer. O carinho no diminutivo cervejinha, queijinho, paçoquinha.

No atavismo da minha boemia, ela passou a perguntar por mim quando minha filha passou a ser mais assídua no local. Quer uma moelinha, minha linda? Seu pai não tem aparecido, ele está bem? Sempre foi como uma avó da menina, que pisou ali pela primeira vez no dia do próprio aniversário de três anos.

Quando estava com quatro anos, voltou comigo à Confeitaria e ficou quietinha lendo revistinhas da Mônica, enquanto eu me dividia entre a cerveja e segurar o irmãozinho de menos de um ano, ainda com fraldas. Dona Sílvia tinha o mesmo estereótipo da minha mãe; corpo raquítico e um coração gigantesco.

O poema que fiz pra ela na sexta-feira, logo que me chegou a triste notícia da sua partida, foi regado a lágrimas e brotou num chão de saudade. Das dezenas de amigos que conversei, todos sem exceção demonstravam tristeza, uma desolação como aquelas que sentimos na perda de algum familiar querido.

Poucas pessoas foram tão queridas em Natal como Dona Sílvia, na mesma proporção da consideração que era depositada em seu marido Odeman, o parceiro de uma vida inteira, o grande amor que em algum lugar já marcou encontro com ela, para juntos de novo construir a eternidade de um legado.

           



16/11/2018
As tropas estelares de Donald Trump

Os fãs da clássica série de TV Jornada nas Estrelas, criada em 1966 pelo genial Gene Roddenberry, lembram muito bem da Frota Estelar, um comando militar espacial que atua na defesa dos interesses da Federação Unida dos Planetas, instituição do ano 2161 que reúne 150 planetas e várias colônias.

A velha ficção que fantasiou nossas aventuras infantis e que continua provocando reminiscências afetivas quando se repete nas mídias desses tempos de tecnologia futurista, parece estar perto de se tornar uma realidade, quando não um arcabouço com as características do mundo do Capitão Kirk.

Há poucas semanas (a imprensa nem deu tanto destaque), o presidente dos EUA Donald Trump entrou em linha direta com o Pentágono e deu uma ordem: as Forças Armadas americanas devem formalizar uma divisão especial para atuar especificamente com um enfoque no espaço sideral. É Star Trek pura.

A principal intenção do mandatário da Casa Branca não é - obviamente - explorar os confins da Via Láctea para criar uma união interplanetária. Seu foco é potencializar a liderança americana no espaço e conter os avanços da Rússia e da China, que nos últimos anos estabeleceram uma nova corrida espacial.

Em um ato na área de reunião do Salão Oval, Trump disse que "tem que haver um domínio dos EUA no espaço". Depois assinou um protocolo ordenando ao Departamento de Defesa, o DOD (que é o principal setor do Pentágono), que comece imediatamente o processo de formatação de uma força especial.

Em março de 2017, o presidente americano já havia sinalizado uma intenção de retomar a corrida espacial dos anos da Guerra Fria, quando EUA e União Soviética travaram uma luta científica pela conquista da Lua. "Não queremos que China e Rússia e outros países nos passem na frente", disse na ocasião.

Ao afirmar que é preciso criar uma divisão militar espacial, ele não disfarçou a intenção beligerante da iniciativa, por considerar que ali também (no espaço) "se combatem guerras, igual acontece em terra, ar e mar". Depois chegou a dizer que não falava sério, para em seguida reconhecer que era grande ideia.

Um mês após o comentário do presidente, o chefe do Estado Maior do Exército, general Joseph Dunford, afirmou que os sistemas de defesa de Washington carecem de uma resistência necessária em caso de ataque, e que são vulneráveis diante da capacidade bélica que contam outros países.

Dizendo que "não há guerras no espaço, mas existem batalhas que implicam contar com nossos sistemas de defesa na órbita da Terra", Dunford fez a advertência e o resultado foi que dias depois Donald Trump pediu para a NASA acelerar os planos de exploração espacial, como fez Kennedy nos anos 60.

A agência espacial dos EUA começou a planejar uma viagem tripulada ao planeta Marte, motivada pelas intenções chinesas e russas de fazer o mesmo. No final do ano passado, o próprio Trump ordenou estudos para a implantação de uma base na Lua. As aventuras de Roddenberry invadindo a vida real.

           



15/11/2018
ADEUS, DONA SÍLVIA!

Ela partiu, ela parou
seu coração tão bonito
foi prosseguir o amor
com Odeman no infinito
em nós ficarão escritos
seus gestos de gentileza
postados em cada mesa
com pitadas de carinho
na paçoca no queijinho
na cervejinha gelada
Dona Sílvia nossa fada
de luz seja seu caminho.

           



13/11/2018
Para sempre stanleenista

Os heróis, assim como os deuses, não nascem, eles são feitos, criados por mentes expansivas. No contexto do planeta Terra, o já saudosíssimo Stan Lee é em grande parte aquele que melhor ilustrou uma mitologia, o historiador de fantasias que estampou uma teogonia própria e mudou a face da nona arte.

Eu viajei para o universo dos super-heróis na metade dos anos 1960, moleque de menos de dez anos, encantado pelas aventuras do Superman nas revistas em quadrinhos da velha Ebal, a Editora Brasil América Ltda., fundada pelo russo Adolfo Aizen em 1945, numa dissidência com o editor Roberto Marinho.

Depois do filho de Kripton, descobri outras figuras poderosas, Batman, Lanterna Verde, Miss América (Mulher Maravilha), Ajax, Flash, Aquaman, Arqueiro Verde e uma legião de heróis adolescentes comandados por Superboy e Mon-El, os primos invulneráveis. Eu rejeitava a tropa da Marvel.

Minha fidelidade aos personagens da DC Comics começou a ficar vulnerável quando apareceu um novo morador na minha rua, um garoto meio nerd que consumia compulsivamente as revistinhas do Homem-Aranha, um herói criado em 1963 e que a editora Ebal passou a publicar suas aventuras em 1969.

Depois vieram Thor, Hulk, Homem-de-Ferro, Demolidor, o Quarteto Fantástico; as figuras poderosas da Marvel passaram a dividir espaço com os meus preferidos da DC. Era a teia de influência de Stan Lee, o cara que fez da sua criação um divisor de águas na história dos quadrinhos de super-heróis.

Talvez não por coincidência, Lee começou a trabalhar no ocaso da Era de Ouro, no final da Segunda Guerra Mundial, como assistente de Jack Kirby - o criador do Capitão América em 1940 - e vinte anos depois ele seria a força criadora da Era de Prata, o resgate mercadológico das revistinhas de HQ.

Kirby seria o grande parceiro da revolução "stanleenista" iniciada em 1961 com o Quarteto Fantástico e estendida com o Homem-Aranha, Hulk e Thor em 1962; Homem-de-Ferro, X-Men e Doutor Estranho em 1963; Demolidor em 1964; e consolidada com o Pantera Negra e o Surfista Prateado em 1966.

A diferença essencial entre a Era de Prata do estadista da Marvel e a Era de Ouro foi a releitura que Stan Lee estabeleceu com seus personagens, inserindo noções populares nos roteiros, dando humanidade aos heróis, que não enfrentavam apenas vilões, mas também seus demônios internos; como nós.

Com Stan Lee, as histórias em quadrinhos deixaram a condição de subliteratura para crianças e se tornaram a mola propulsora de um mercado poderoso que com deuses de papel gerando bilhões de dólares em licenciamentos. As HQs viraram cultura pop na década dourado do rock n roll.

Foram quase 80 anos dedicados ao ofício de entreter os fãs, uma abnegação que mantinha a conexão do senhor de um império com o garoto que iniciou nos anos 1940 para minorar as necessidades da família romena que migrou para Nova York. Ele dizia que criava heróis pensando apenas em pagar o aluguel.

O mundo construído por Stan Lee salvou o mundo do cinema, fortunas erguidas em bilheterias e produtos de inúmeros gêneros, seus heróis arrasando quarteirões, tanto no sentido das batalhas quanto no aspecto comercial. Seu legado se mantém nas revistas que guardo com o carinho de quem preserva imagens de família. Sou um órfão stanleenista.

           



13/11/2018
O rei é azul

Depois de vinte e dois anos, o rei Roberto Carlos está lançando um LP em vinil, recheado de músicas inéditas, muitas cantadas em espanhol. Nada de muito diferente na capa, que segue a tradição da sua estampa em destaque. E por dentro, uma bolacha que é azul e não preta como o velho padrão universal.

Um vinil azul é fato inédito em se tratando do cantor maior da MPB, mas no histórico fonográfico já teve coisa semelhante no passado. Nos anos 1960, os discos de contos e músicas infantis, principalmente os compactos, tinham cores variadas nos vinis. As fábulas rodavam em vermelho, azul, amarelo...

Um dos grandes clássicos do rock inglês, o LP "Athomic Heart Mother", lançado pelo Pink Floyd em 1970, ganhou depois uma versão em vinil vermelho. Por aqui, no começo dos anos 1980, a banda paulistana Língua de Trapo lançou um LP em vinil de cor verde, recheado de ritmos diferentes.

A cor azul se tornou uma constante na vida e obra de Roberto Carlos, em virtude do TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo - que o levou a usar apenas roupas de tons azuis - ou brancos - e aplicar a cor em todos os seus discos desde 1980. Por décadas, o rei não se aproximava da cor marrom.

A ligação na cor celeste e rejeição ao marrom ou preto nem sempre foram presença na patologia do rei. No auge da fase Jovem Guarda, num LP de 1965, um dos seus maiores sucessos praticamente desprezava o azul: "De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar...". E aí mandava tudo pro inferno.

Um ano depois, em 1966, ele berrava nas rádios e nos auditórios a versão que Getúlio Côrtes fez de um hit pop americano: "Eu sou um negro gato, miauuuu!". E em 1969, chorou o fim do azul na canção As Flores do Jardim da Nossa Casa: "As nuvens brancas escureceram e o nosso céu azul se transformou...".

Já em 1971, numa das suas composições de maior beleza poética, a compaixão real com um súdito exilado o fez ilustrar os caracóis dos cabelos de Caetano Veloso no azul das praias baianas: "Um dia em areia branca seus pés irão tocar, e vai molhar seus cabelos a água azul do mar...". Virou clássico.

Apesar de há algum tempo o cantor ter noticiado que se curou da moléstia, a chegada de um novo LP vinil com o disco azul não deixa de remeter ao problema que muito lhe atrapalhou na vida e na carreira. O novo disco, chamado Amor sem Limite, chega às lojas no próximo dia 16 de novembro.

Desde quando passou a sofrer do TOC, Roberto passou umas três décadas cultuando a cor do céu e do mar. Ao ponto de inserir nos seus shows anuais e nas turnês marítimas que faz a bordo de navios de cruzeiro um clássico da Jovem Guarda de autoria do compositor maranhense Nonato Buzar.

Morto em 2014 aos 81 anos, Buzar fez músicas para nomes como Luiz Gonzaga, Elizeth Cardoso, Maysa, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Wilson Simonal, Jair Rodrigues e outros. Em 1968 compôs Vesti Azul, que se tornou popular em 69 e 70 nas gravações de Adriana e Simonal, respectivamente.

Roberto tem cantado Vesti Azul, mas nunca a colocou em disco. O novo LP Amor Sem Limite é o primeiro vinil dele desde 1996. Apesar da cor da bolacha, a velha patologia parece ter sumido mesmo. Que a nova fase da vida e da carreira do rei seja, então, definitivamente azul. O cara merece, senão pela longevidade artística, mas principalmente por ter colorido o coração dos milhões de fãs.

           



12/11/2018
O sucesso e a tragédia de Tattoo

Quem viveu os anos 1970, chamados muitas vezes de a década da fantasia, alimentou num seriado de TV de 1978 seus próprios sonhos de aventuras nas fantasias dos personagens que desembarcavam na Ilha da Fantasia, gerenciada pelo protocolar Sr. Roarke, interpretado por Ricardo Montalbán.

Inesquecível ficou a cena inicial com o pequeno ator Hervé Villechaize, na pele de Tattoo, o dileto auxiliar do anfitrião, que subia uma escada em espiral e lá no alto de uma guarita gritava "o avião, o avião". Era a chegada dos hóspedes que iriam viver na paradisíaca ilha as suas fantasias, como a toque de mágica.

O seriado fez sucesso no mundo inteiro e até hoje se repete por aí em alguns canais fechados e serviços de streaming. O papel de Tattoo na Ilha da Fantasia fez do ator Hervé Villechaize o anão mais famoso do mundo. Chegou a ser mais popular no Brasil do que o cantor romântico Nelson Ned, também anão.

Nascido na França, o diminuto ator venceu profissionalmente nos EUA, tendo adquirido fama a partir de 1974 quando atuou no filme "007 Contra o Homem da Pistola de Ouro", interpretando um terrorista. Três anos depois inicia o trabalho na famosa série, até ser demitido nos anos 80 e cair em depressão.

Hervé praticou suicídio aos 50 anos, em 1993, com um tiro no peito, deixando uma carta de despedida. Agora, 25 anos depois da sua morte, a HBO lançou um filme sobre sua trajetória, intitulado "Meu Jantar com Hervé", com o ator Peter Dinklage (Tyrion Lannister de Game of Thrones), no seu papel.

O filme é baseado num encontro de Hervé com o jornalista britânico Sacha Gervasi, ocorrido em Los Angeles dias antes do anão se matar. O que era para ser uma reportagem acabou se tornando uma biografia derramada dramaticamente diante dos olhos estarrecidos do então jovem repórter.

Com vinte e poucos anos, Gervasi procurou Hervé para uma entrevista, que acabou durando três dias com longos passeios dentro de uma limusine. O ator o recebeu dizendo "você já deve ter ouvido merdas sobre mim; quer ouvir a história verdadeira, novato?", e saiu a contar a tragédia que foi a sua vida.

A limusine percorre um cenário regado a álcool, sexo e armas, onde o pequeno ator exibe o delírio do seu ostracismo desde a demissão nos últimos anos de A Ilha da Fantasia. O roteiro é a história de como um homem de 122 centímetros atinge o alto de Hollywood para depois cair no fosso profundo da depressão.

O ator Jamie Dornan, que interpretou o personagem Christian Grey no filme 50 Tons de Cinza, faz o papel do jornalista Sacha Gervasi, hoje com 52 anos e que assina a cooprodução do filme junto com o ator principal Peter Dinklage, que é um pouco maior que Hervé, com 135cm e prestes a fazer 50 anos.

Quando vestiu o paletó branco de Tattoo, o pequeno francês se tornou o anão mais célebre do planeta, mas só até o temperamento agressivo provocar uma revolta por não receber o mesmo salário do astro Ricardo Montalbán, o que culminou na demissão sumária, no começo da depressão e num fim trágico.

           



11/11/2018
Roberto Carlos todo azul

Depois de 22 anos, o rei Roberto Carlos lança um LP em vinil, onde a bolacha tradicionalmente preta é azul. O fato é inédito em se tratando do cantor maior da MPB, mas teve coisa semelhante no passado.

Nos anos 60, os discos de contos e músicas infantis, principalmente os compactos, tinham cores variadas nos vinis. Já no começo dos anos 80 a banda paulistana Língua de Trapo lançou um LP de cor verde.

A cor azul se tornou uma constante na vida e obra de Roberto Carlos, em virtude do TOC - transtorno obsessivo compulsivo - que o levou a usar apenas roupas de tons azuis e aplicar a cor em todos os seus discos desde 1980. Por décadas, o rei não se aproximava da cor marrom.

Apesar de há algum tempo ele ter noticiado que se curou da moléstia, a chegada de um LP com o vinil em azul não deixa de remeter à velha mania do compositor. O novo disco, chamado Amor sem Limite, chega às lojas no próximo dia 16 de novembro.

Desde quando passou a sofrer do toc, Roberto Carlos passou umas três décadas cultuando a cor do céu e do mar. Ao ponto de inserir nos seus shows anuais e nas turnês marítimas que faz a bordo de grandes navios de cruzeiro um clássico da Jovem Guarda composto em 1968 pelo compositor Nonato Buzar (morto em 2014 aos 81 anos), popularizado em 1969 e 1970 por Adriana e Simonal respectivamente. A canção Vesti Azul só faltou aparecer em algum álbum de Roberto.

É a primeira vez desde 1996 que o artista mais querido do Brasil coloca no mercado um álbum em LP. Que tudo saia azul para o rei. Ele sempre merece.

           



09/11/2018
A insensatez num estado falido

Todo mundo sabe que o Tesouro Nacional publicou dias atrás um relatório colocando o Rio Grande do Norte como o estado mais ameaçado de insolvência, com mais de 80% da sua receita utilizada para pagamento da folha.

Muita gente viu também o controlador do estado Alexandre Santos Azevedo afirmar que o próximo governo vai precisar demitir 13 mil servidores se quiser equilibrar as finanças. No momento, o estado tem ainda em aberto cinco (5) folhas de pagamento(parte de outubro, novembro, dezembro,parte do 13º de 2017 e o 13º de 2018).

Na segunda-feira passada, em entrevista ao programa Bom Dia Cidade, na 94 FM, o vice-governador Fábio Dantas afirmou para mim e par Jener Tinoco que a governadora eleita Fátima Bezerra vai herdar um déficit de R$ 2 bilhões.

Durante toda a sua gestão que termina em dezembro, o governador Robinson Faria repetiu à exaustão as condições do estado que ele recebeu em janeiro de 2015, e sempre fez questão de destacar a grave crise que assola o RN.

Parce que nada disso sensibilizou os gênios do marketing governamental, auxiliares diretos do governador que insistem na realização de uma insensata licitação publicitária que prevê torrar R$ 30 milhões ao longo de doze meses, dez deles já dentro do futuro governo.

Um dado grave é que circula nos grupos de publicitários do WhatsApp o comentário de que a decisão de realizar a tal licitação ocorreu ainda no mês de agosto, num claro sinal de cartas marcadas.

De onde virá a providência republicana que impeça tamanho golpe no erário? O que dizem o Ministério Público, o Tribunal de Contas e todos aqueles que tenham a consciência de fiscalização e de zelo pela coisa pública?

           



09/11/2018
Os Ringos e Djangos reais

Num tempo onde as guerras eram resolvidas no corpo a corpo, tinham papel essencial nos avanços táticos os franco-atiradores, os famosos snipers, que com seus tiros de precisão conseguiam mudar os rumos das batalhas. Como eles estão em moda no Brasil, segue abaixo os maiores de todos os tempos.
  
O finlandês Simo Häyhä era conhecido como "A morte branca"; ele abateu 505 soldados russos utilizando um fuzil M28 Pystykorva, que era uma variante do fuzil soviético Mosin Nagant. Com apenas 1,52 metro, movia-se quase invisível e quando estava na caça de inimigos nunca utilizava a mira telescópica.

Adelbert Waldron é considerado o recordista de mortes na Guerra do Vietnã, tendo abatido 109 soldados vietnamitas. Pertencia à 9ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA. Seu compatriota Carlos Hathcock era chamado "Pluma branca" e matou 93 vietnamitas com uma metralhadora Browning M2 50.

Um dos snipers mais letais da história foi o russo Mihail Ilych Surkov, integrante da 4ª Divisão de Rifles durante a Segunda Guerra Mundial, quando eliminou nada menos que 702 soldados nazistas. A ucraniana Lyudmila Pavlichenko derrubou 309 alemães e foi condecorada como heroína da União Soviética.

O canadense Francis Pegahmagabow foi considerado o atirador mais eficiente na Primeira Guerra Mundial, tendo abatido 378 inimigos em duas batalhas na Bélgica e na França. O americano Timothy Murphy mudou os rumos da Guerra da Independência com tiros de 300 jardas, chamado então "Homem do Rifle".

Com apenas 25 anos, o russo Ivan Kulbertinov eliminou 487 soldados alemães na Segunda Guerra, recebendo a Ordem da Bandeira Vermelha da Fama. O também russo Vassili Zaitsev matou 400 nazistas, recebeu a comenda Ordem de Lênin, virou herói nacional e ganhou até um filme sobre sua façanha.

O americano Chris Kyle foi essencial na Guerra do Iraque durante a gestão George W. Bush, eliminando 150 soldados iraquianos além de um franco-atirador que abatia americanos. Ele foi motivo do filme "Sniper Americano", dirigido por Clint Eastwood em 2014. Morreu assassinado aos 38 anos.

Ivan Sidorenko matou 500 alemães entre 1941 e 1945, e repetia o lema "um disparo, um morto". Foi motivo de excessiva propaganda do regime comunista russo. Mas o atirador mais condecorado no Exército Vermelho foi Vasilli Kvachantiradze, um fuzileiro que teria abatido 534 soldados inimigos.

O americano Chuck Mawhinney é um herói vivo que derrubou 213 guerrilheiros vietnamitas quando servia nos Marines. O rifle M40-A1 que ele usou está exposto no Museu Nacional do Corpo de Fuzileiros. Já o terrorista Abu Yusef Al Turki foi o maior sniper da Al Qaeda, tendo abatido mais de uma centena.

Rob Furlong é o canadense que primeiro acertou um alvo a mais de 2km de distância, derrubando um miliciano talibã com um fuzil McMillan Tac-50. Esse recorde foi superado pelo sniper inglês Craig Harrison, que abateu dois guerrilheiros também talibãs na distância de 2,475km usando um rifle L115A3.

A destreza dos atuais franco-atiradores, unida às novas tecnologias bélicas, permite disparos que podem acertar um alvo a mais de 3km de distância. No Brasil já existem militares devidamente treinados para efetuar tiros precisos em grandes distâncias; são eles que poderão abater traficantes nos morros do país.

           



07/11/2018
Cuidando das merdas do mundo

O americano Bill Gates é mundialmente conhecido por ser fundador de uma das maiores e poderosas empresas tecnológicas do planeta: a Microsoft. Sua trajetória de vida, um jovem meio nerd e meio hippie que transformou o sistema IBM no segredo de uma revolução digital, é uma riqueza de conteúdo peculiar.

Dos últimos anos até aqui, Gates também é famoso por frequentar os topos das listas de maiores bilionários e de também promover ações filantrópicas dignas de aplausos. As horas de trabalho no direcionamento da Microsoft não impedem que ele esteja sempre criando campanhas de cunho social.

Nessa semana, durante uma palestra na Reinvented Toilet Expo, uma grande feira de produtos sanitários realizada em Pequim, na China, ele subiu ao palco e colocou do seu lado um jarro de cristal com fezes humanas dentro. E surpreendeu a todos perguntando se todos sabiam o que havia no recipiente.

"Vocês acertaram. São fezes, sim. E nesta pequena quantidade pode ter 200 trilhões de células rotavírus, 20 bilhões de bactérias Shigella e 100 mil ovos de vermes parasitas". E continuou dizendo que agentes patogênicos como esses causam doenças e matam meio milhão de crianças no mundo todos os anos.

A presença de Bill Gates numa feira de objetos de banheiros, diante de dezenas de empresas do setor, tinha só um objetivo: apresentar sua nova missão social, que é melhorar a vida de pessoas em países pobres dando-lhes condições sanitárias dignas, desde o vaso até o serviço de esgotamento.

Ontem ele postou no Twitter uma foto em que está sentado num vaso sanitário, num cenário de pobreza em alguma zona periférica de algum lugar do mundo. E para ilustrar a imagem, Gates escreveu: "Há poucas coisas que eu gosto mais de falar do que banheiros". Um recado direto às empresas do evento.

O programa de Bill Gates consiste em doar às comunidades os equipamentos sanitários e a alternativa do esgotamento sem uso da água; na apresentação da ideia em Pequim, o acompanhou uma grande equipe da sua Fundação Bill & Mellinda Gates, que ele criou juntamente com a sua esposa

Nos últimos anos, o magnata investiu US$ 200 milhões em ações sociais, muitas delas voltadas para salvar vidas de crianças carentes. "Isto é a que se expõem continuamente os meninos quando estão jogando bola nas ruas, se tornam vítimas de enfermidades que levam à desnutrição e à morte precoce".

Depois de deixar impactada a plateia da feira chinesa, Bill Gates passou a mostrar o processo inodoro de esgotamento sanitário que dispensa água, e também os produtos químicos que transformarão fezes humanas em matéria fertilizante. Um impacto de verdade, que deveria ser copiado pelos governos do mundo.

           



07/11/2018
Parem com isso enquanto é tempo

Estão chamando a licitação de fim de ano de licitação do fim do mundo. O edital publicado pela secretaria estadual de comunicação licita R$ 30 milhões e especifica os fins como "prestação de contas".

Ora; ou se imagina uma queima de dinheiro em menos de dois meses, ou então deixam para o novo governo que assume em janeiro prestar contas daquilo que nem existe ainda. A data para abertura das propostas das agências é 26 de novembro. Quem conhece um processo desse, sabe que a conclusão pode ocorrer já no governo de Fátima Bezerra.

Veículos de comunicação e várias agências de propaganda do RN ficaram estarrecidos com a notícia dada aqui e na minha coluna do jornal Agora. Na lista da comissão julgadora elencada e publicada no edital há profissionais que são fornecedores da administração pública na condição de pessoas jurídicas.

Informada do caso, a governadora eleita convocou seus assessores da área de comunicação para uma conversa na sexta-feira, onde decidirá a providência futura adotada, se a licitação ocorrer. Convém informar que a petista nunca teve relação com agências do mercado local.

A mim não interessam os prováveis argumentos legais, jurídicos que forem, sobre a vergonhosa licitação. Na condição de amigo pessoal do governador Robinson Faria, observo o lado moral da infeliz iniciativa dos responsáveis por lançar a licitação sem o seu conhecimento. O governo atual tem cinco folhas de pagamento em aberto (outubro, novembro e dezembro, além de dois 13º)

E digo mais. Um ponto fraco da administração Robinson Faria sempre foi a comunicação. Nunca me meti no assunto, mas não deixei de alertá-lo várias vezes. Por mais que o atraso de salários e os efeitos da violência urbana tenham prejudicado a gestão, o auxílio da comunicação foi deveras insuficiente para minorar o prejuízo da imagem do governador.

Essa maldita licitação é, por ironia, a cereja azeda que faltava no bolo amargo da confraria inculta que foi a política de comunicação do governo. Ele, o governador, merecia coisa melhor para auxiliá-lo nas suas boas intenções e no seu espírito público que dou testemunho. Ele poderá ser o único prejudicado na lambança que é essa licitação.

           



05/11/2018
A carta de morte de Baudelaire

No soneto "Remorso Póstumo", do clássico As Flores do Mal, o poeta francês Charles Baudelaire expressa o sentimento mórbido e depressivo não raramente encontrado ao longo da sua obra. Quem por acaso perceber Augusto dos Anjos ali, o paraibano tinha 17 anos quando morreu o parisiense.

Vamos lá ao trecho do soneto, que apesar de romântico se derrama em linhas fúnebres: "O túmulo que tem seu confidente em mim / Porque o túmulo sempre há de entender o poeta / Na insônia sepulcral destas noites sem fim". É Baudelaire em estado puro de angústia no vazio aberto por mil problemas.

Acumulou em vida todos os fracassos e sentimentos de ausência, sofria colapsos oriundos de uma hemiplegia que lhe paralisava parte do corpo, além de ter contraído a sífilis, tão comum no nosso legado lusitano. Morreu sem ver uma edição de As Flores do Mal, referência para milhares de poetas depois.

Por várias vezes ensaiou se matar, uma alternativa radical para escapar dos problemas familiares, das constantes e corrosivas críticas literárias, da falta de dinheiro e do alcoolismo que adquiriu a partir de tudo isso. Aos 24 anos apenas, buscou na ponta de um punhal o fim de todos os seus martírios.

A fracassada tentativa de suicídio foi em 1845, três anos após ter conhecido a dançarina haitiana Jeanne Duval, que se tornaria sua amante e musa, devidamente retratada numa tela do pintor Édouard Manet. Ao praticar o improvisado haraquiri ocidental, Baudelaire fez uma carta de despedida.

Ele começa a missiva usando um dos sobrenomes utilizados pela mulher, Lemer (ela usava também Lemaire e Prosper, não se sabe o mais certo): "Quando, Jeanne Lemer, te entreguem esta carta, estarei morto", diz o poeta, que ao longo da despedida escreve coisas como "horripilante inquietude".

Num trecho, dizia ser "insuportável tanto a fadiga de dormir quanto a de despertar", num claro quadro de vazio na alma que lhe contaminava o corpo. A carta era uma versão crônica dos tantos versos que cantavam seu desconforto. Se o punhal falhou, coube à sífilis o golpe certo matando-o dois anos depois.

Passados 173 anos daquela punhalada, a carta do poeta para sua musa apareceu numa casa de leilão em Paris, sua terra natal. Um colecionador arrebatou o manuscrito por 234 mil euros, um valor que Baudelaire jamais imaginou ganhar em vida. O preço foi três vezes maior do que o avaliado.

Juntamente com a carta do quase suicídio, foram arrematadas também outras cartas, enviadas a Charles Baudelaire por figuras como Victor Hugo, Delacroix e Manet, além de alguns poemas que ele remeteu ao então seu editor Auguste Poulet-Malassis. Que as flores do mal ou do bem nunca parem de germinar.

           



05/11/2018
De olho em 2020

Dando sequência à série de notas sobre prováveis articulações visando a eleição de prefeito de Natal, seguem mais duas possibilidades ventiladas no mundo político e nas rodas de conversas da capital potiguar.

Ninguém se surpreenda caso algum grupo político ou movimento privado sugira o nome do blogueiro Bruno Giovanni como uma opção para prefeito. Há quem aposte no seu prestígio, ao ponto de influenciar os interesses de alguns partidos com assento na Assembleia e Câmara.

Por outro lado, o desempenho nas urnas de Natal na disputa para governador, estimula eleitores do partido Solidariedade a apostarem em Breno Queiroga na sucessão de Álvaro Dias. Resta saber se o deputado Kelps Lima, comandante da legenda, não tentará ele próprio mais uma vez entrar na luta municipal.

           



05/11/2018
Meio século do Álbum Branco

Novembro é o mês da beatlemania festejar os cinquenta anos de lançamento do décimo álbum dos Fab Four, aquele que foi batizado pelos fãs como The White Álbum, iniciado no emblemático maio de 1968 com a gravação do hit "Revolution 1" e concluído na distribuição ao mercado em 22 de novembro.

Para celebrar o momento histórico, foi produzida uma edição especial remixada, num belo trabalho da dupla Giles Martin (filho do lendário produtor dos Beatles, George Martin) e Sam Okell, um multi-instrumentista que também é engenheiro de som do estúdio Abbey Road, que dispensa referências.

"Ao remixar o Álbum Branco tentamos te levar o mais próximo possível dos Beatles no estúdio. Nós tiramos as camadas desta cebola de vidro na esperança de imergir velhos e novos ouvintes em um dos mais diversos e inspiradores álbuns já feitos", disse Martin em entrevista à mídia europeia.

Na edição comemorativa, os fãs dos Beatles ganharão, além das 30 canções originais, também 27 demos acústicas e 50 gravações de sessões, algumas delas nunca antes ouvidas. Um livro com muitas fotos, camisetas e bottons farão parte do combo de lançamento, que chegará às ruas no próximo dia 9.

Lembrando que o cinquentenário do álbum ganhou também um videoclipe com a canção Glass Onion, composição de John Lennon e Paul McCarntney, já disponível na internet. O vídeo mostra imagens raras da banda, filmes, fotos animadas, desenhos, usadas por Paul e Richard Hamilton para um pôster.

Ainda no rastro da histórica data, o diretor Jean-Marc Vallée, da HBO e da Sharp, foi anunciado para roteirizar e dirigir uma nova cinebiografia sobre John Lennon e Yoko Ono. O casal se conheceu em novembro de 1966, e no ano de lançamento do Álbum Branco estavam vivendo o auge de um grande amor.

Talvez o ano mais instigante do século XX, 1968 foi efervescente em acontecimentos radicais na política, no comportamento e na cultura. No terceiro aspecto, onde se destacavam artistas de todas as artes, o protagonismo estava evidentemente posto na figura dos quatro músicos de rock de Liverpool.

Um ano antes, os Beatles tinham feito um ponto de corte essencial entre o primarismo da fase Cavern Club e o amadurecimento musical de cada um dos componentes. O disco Sgt Peppers mudou tudo na concepção do rock deles próprios e das demais bandas súditas que germinavam na cena britânica.

Os críticos e a mídia especializada da época não esperavam que depois daquela revolução técnica, sonora e poética de 1967, os Beatles inventassem algo tão impactante. Aí veio um álbum duplo, com um novo selo (Apple Records) e numa capa limpa, alvíssima, oposta as cores dos dois anteriores.

E canções que se tornariam clássicas: Revolution 1, Helter Skelter, Birthday, Cry Baby Cry, Rock Raccoon, Blackbird, Glass Onion, Dear Prudence, While my Guitar Gently Weeps, Don't Pass me By, Julia, I Will, Back in the U.S.S.R. e Ob-La-Di Ob-La-Da. Aquela capa branca foi o conjunto espectral das cores lisérgicas de um planeta em convulsão. Duas bolachas pretas incríveis.

           



31/10/2018
Começam costuras pra 2020

Não deu tempo os vitoriosos encerrarem as comemorações, e já se ouve conversas e articulações visando a disputa municipal vindoura em Natal.

Quem serão os nomes para enfrentar o prefeito Álvaro Dias, um candidato natural à reeleição, posto que a legislação permite a candidatura no exercício?

No campo da esquerda, já existe um movimento natural nas fileiras do PT defendendo a deputada federal eleita Natália Bonavides, a campeã de votos do partido na chapa proporcional.

Mas no âmbito da cúpula petista, há, porém, quem especule trabalhar o nome do médico Alexandre Mota, que se destacou na disputa ao Senado durante o horário gratuito no rádio e TV.

           



26/10/2018
Sem fraude, dá Bolsonaro

O presidente do Instituto Ibope, Carlos Augusto Montenegro, disse em entrevista ao jornal Estadão que no atual cenário da eleição só um tsunami poderia impedir a vitória do candidato Jair Bolsonaro no próximo domingo. Pra quem não sabe, o senhor Montenegro se deu muito bem nos governos do PT.

A declaração do homem forte do Ibope só confirma as análises de um dos seus principais auxiliares na interpretação das pesquisas, a diretora Márcia Cavallari, que ao longo do pleito tem se destacado na GloboNews comentando os resultados das diversas pesquisas já realizadas por encomenda da Globo.

Cavallari já vinha apontando um favoritismo absoluto do candidato do PSL, que nesse momento, a 48 horas do pleito, mantém uma dianteira sobre Fernando Haddad de quase vinte pontos (outros institutos já apuraram essa vantagem). Tanto que ela não deu muita bola para a suposta virada na capital paulista.

Fico imaginando o nó cego que dá na cuca dos petistas, mormente aqueles mais fanáticos que hibernam nas redes sociais para disparar delírios numéricos e desejos impossíveis em relação ao resultado final da votação do seu candidato. O mesmo Ibope que gera esperança, decreta a derrota por vir.

Por exemplo, peguemos os dados da última pesquisa que o Ibope fez sobre a eleição no estado de São Paulo, onde entre os muitos cenários demonstrados na capital (que foi dividida em regiões, classes e gêneros), parte da imprensa achou uma pequena vantagem de Haddad sobre Bolsonaro, com 51 a 49.

A divulgação desse quadro serviu como um gatilho emocional para levantar os ânimos da militância, que danou-se a bradar nas redes sociais uma virada geral na disputa nacional, como se os dados de uma cidade representasse o país inteiro. Sequer representou o estado, onde Bolsonaro põe 68% a 31%.

Se trouxermos um exemplo para o plano potiguar, basta lembrar que Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad em Natal no primeiro turno, mas tomou uma paulada no estado inteiro numa diferença de mais de 196 mil votos. Portanto, festejar tal vantagem na capital paulista é só um idílio de militante.

Ontem à tarde, o mercado financeiro já tinha a convicção de uma eleição decidida em favor do candidato do PSL. Nas próprias aferições de tracking, tanto de algumas empresas quanto das duas campanhas, os resultados confirmavam uma vitória de Bolsonaro beirando os 60% dos votos válidos.

Não sei a qual tipo de tsunami o dono do Ibope se referiu na sua declaração ao Estadão. Com certeza não foi o deslocamento de toneladas de água no oceano, posto que tal fenômeno não costuma se manifestar no Atlântico que nos banha. Só vejo uma forma de derrota do capitão: uma onda de votos fakes fraudando as urnas eletrônicas. Afora isso, domingo Bolsonaro será o novo presidente do Brasil.

           



25/10/2018
De volta a 1978

Estreia hoje o filme Halloween, uma das maiores grifes do gênero terror e que completa quarenta anos com a marca de onze produções que perpetuaram no imaginário popular a máscara branca do serial killer Michael Myers, talvez o mais frio e cruel dos assassinos do cinema. Quem lembra do ano 1978?

Em 1978, o bairro Candelária nem era bairro; era mais um conjunto de casas caiadas, apelidado pelas turmas lá fora de "Pedregal", numa alusão a uma localidade periférica da cidadezinha de Águas de Santana, cenários da novela Ovelha Negra, exibida em 1975 na saudosa TV Tupi dos Diários Associados.

Estávamos no ano da "disco music", também chamada discothéque, período em que os jovens de Natal estavam envolvidos nas baladas vesperais dos clubes Aero e Assen, que reproduziam o clima do filme Embalos de Sábado à Noite, lançado em 1977 e que monopolizou o comportamento da molecada.

No ônibus que nos conduziu até o Centro, onde iríamos assistir a estreia de "A Noite do Terror", no Cine Rio Grande, as meninas usavam meias dancin' days, influência da novela homônima da Globo e da personagem de Karen Lynn Gorney que fazia par com John Travolta no filme Saturday Night Fever.

A assustadora obra do diretor John Carpenter lançou a carreira da atriz Jamie Lee Curtis, com 20 anos, então encarnando a babá adolescente Laurie Strode, que escapou de um ataque do mascarado Myers e estabeleceu o protagonismo feminino nos filmes de terror. Quarenta anos depois, o confronto retorna.

Agora sob a direção do veterano cineasta David Gordon Green, a trama tem a atriz sexagenária no mesmo papel, comandando uma família onde se destacam uma filha e uma neta. A volta do horror com Michael Myers em mais um dia das bruxas acorda os demônios de Laurie e os traumas da juventude.

O novo filme tem produção dos estúdios Universal, com parceria da Miramax e da Blumhouse, e estreou nos EUA arrebentando nas bilheterias com um faturamento de US$ 76,2 milhões, uma cifra impensada para uma fita do gênero, que inclusive quebrou recordes no fim de semana da estreia.

Empolgada com o sucesso estrondoso, Jamie Lee Curtis detonou uma mensagem no Twitter que viralizou em poucas horas. "Maior filme de terror com uma protagonista feminina. Maior filme com uma mulher acima de 55 anos", disse ela. E foi a melhor estreia da grife Halloween da história.

Um feito surpreendente para um roteiro que praticamente ignorou as dez sequências daquele original de John Carpenter, em 1978, três delas tendo a presença de Jamie Lee Curtis. Ela acha que o enorme sucesso tem relação com o fato de ser uma história de família e a luta de uma matriarca na defesa do seu legado.

Talvez tenha razão. Até na política o apelo da família tem feito estrago. Mas aí já é outra trama. Acho que vou ao cinema ouvindo Bee Gees no Spotify e com saudades de algumas meias coloridas.

           



24/10/2018
Comunismo, fascismo e risos

"Por que não há uma indignação mundial quando arrancam bebês dos braços de suas mães? Por que não se está falando nas Nações Unidas agora mesmo disso e do fascismo?" As perguntas, feitas aos gritos, foram do cineasta Spike Lee durante a cerimônia de entrega dos prêmios no Festival de Cannes.

Ele é um dos grandes nomes do cinema que divide as atividades da sétima arte com o ativismo político; é uma das vozes célebres que utiliza a fama para alavancar bandeiras ideológicas pelo mundo afora, como já fizeram Sting e Bono Vox, e ainda fazem Roger Waters e Chico Buarque, entre tantos outros.

Se trocarmos as duas perguntas de Lee por outras assim "Por que não há indignação mundial quando arrancam bebês dos ventres de suas mães?", e "Por que não se está falando nas Nações Unidas agora mesmo disso e do comunismo?", uma grande parte da mídia não verá qualquer semelhança.

No entanto, as semelhanças existem no quadro de violência em destaque. Ou o leitor é hipócrita como um esquerdista para não se indignar com a proposta de permissão de matar bebês antes de nascerem? É tão violento quanto arrancar dos braços. Assim como o comunismo é tão cruel quanto o fascismo.

Se formos fazer comparações a partir dos registros históricos, os crimes e as misérias produzidos por ideologias totalitárias - como nazismo, fascismo e comunismo - será difícil encontrar diferenças em perseguições e em números de vítimas. Vários países já baniram o trio; outros, como os EUA, permitem.

Quando Spike Lee bradou para a plateia em Cannes, ele estava sendo premiado pelo filme "Infiltrado na KKK", uma trama inusitada de um policial negro infiltrado entre os brancos da Ku Klux Klan (o protagonista é John David Washington, filho do ator Denzel Washington). E há também um judeu.

A leitura que faço desse instigante e louco roteiro de Lee é que ele remete fácil a qualquer desses discursos paranoicos da esquerda, gerando pânico com uma suposta ameaça de fascismo a partir de um processo eleitoral limpo, inclusive técnica e politicamente complicado para o candidato da direita.

No caso do filme, a premissa do roteiro é tão absurda (um negro dentro da KKK), que acabou dando o tom humorístico e irônico de uma história que aborda uma coisa séria, o racismo. Já no mimimi petista anunciando o fascismo brotando de uma disputa eleitoral, o melhor é sorrir na cara de quem não vê mal algum no comunismo que lhe serviu de placenta.

           



23/10/2018
Nasa fotografa um iceberg retangular

A Nasa divulgou uma foto impressionante de um iceberg retangular flutuando no Mar de Weddell, ao largo da Antártida.

A agência espacial norte-americana disse que os ângulos agudos e a superfície plana do objeto sugerem que ele recentemente se separou de uma plataforma de gelo.

As bordas ainda são pontiagudas e ainda não foram desgastadas pelas ondas do oceano.

A foto foi tirada na semana passada por cientistas em um plano de pesquisa da Nasa.

Tais objetos não são desconhecidos, no entanto, e até têm um nome - icebergs tabulares.

Estes são planos e longos e se formam ao se separarem das bordas das prateleiras de gelo.

Kelly Brunt, um glaciologista da Nasa e da Universidade de Maryland, disse que o processo de formação foi um pouco como uma unha crescendo muito e quebrando no final.

Eles eram frequentemente geométricos como resultado, ela disse.

"O que torna este um pouco incomum é que parece quase um quadrado", acrescentou.

Este iceberg em particular veio da plataforma de gelo Larsen C, na Península Antártica.

É difícil dizer exatamente quão grande é o iceberg da foto, mas os especialistas disseram que provavelmente tinha mais de 1,6 km de diâmetro.

E, como acontece com todos os icebergs, a parte visível na superfície compreende apenas uma pequena fração da massa do objeto - neste caso, cerca de 10%.

           



23/10/2018
A denúncia fake do cantador

A imprensa escuta o cantar de um galo e não checa se o bicho é verdadeiro. Vários sites e blogs foram no vácuo do "Bahia Notícias" e reproduziram a fala do cantor Geraldo Azevedo acusando o general da reserva Hamilton Mourão de tê-lo torturado nos anos do regime militar. A denúncia, no entanto, é um grande equívoco.

O cantor pernambucano, autor de clássicos como Dia Branco, Moça Bonita, Táxi Lunar e Bicho de Sete Cabeças, foi preso em 1969 quando morava no Rio de Janeiro, época de amizade com Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Glauber Rocha. Ele tinha 24 anos e havia deixado Nordeste há pouco tempo.

Ora, se o hoje candidato a vice-presidente Hamilton Mourão nasceu em 1953, ele seria então o torturador mais jovem da história dos regimes militares na América Latina, pois naquele 1969 tinha apenas 16 anos, e nem pensava ainda na carreira militar.

           



23/10/2018
O manifesto das redes

Jornalistas, analistas e autoridades jurídicas, sociológicas e eclesiásticas já reconheceram que as atuais eleições no Brasil são atípicas. Testemunhamos alguns fenômenos nos campos da comunicação e da política que quase ninguém suspeitou ocorrer da maneira que estamos presenciando agora.
As pesquisas de opinião, coitadas, que historicamente medem a temperatura da disputa e dimensionam em seus índices os sentimentos das ruas, dessa vez tropeçaram nos números, se emaranharam na aplicação dos velhos questionários e se auto delataram nos cálculos, para cima e para baixo.
Os veículos de comunicação, por sua vez, disfarçavam nas análises e exageravam nas manchetes, num contorcionismo verbal pra dar a entender que entendiam os acontecimentos do mundo digital. Foram pegos no contrapé da pauta, atropelados pelos fatos nas entrelinhas das próprias reportagens.
Diversas candidaturas acusaram o golpe, outras registraram êxitos, todas numa mesma compreensão de que o marketing periférico das redes sociais controlou a consciência e as escolhas do povo. Entretanto, os muitos lados do jogo se equivocam quando apontam o protagonismo do aplicativo WhatsApp.
Evidente que sabemos da importância da onda de mensagens enviadas pela multiplataforma de compartilhamento de textos, áudios e imagens. Mas, por favor, não vamos assimilar o discurso choroso dos petistas e decretar que o zap zap é responsável sozinho pela reação nacional contra a politicagem.
Além de equívoco, é também uma visão distorcida da conjuntura e uma desrespeitosa ignorância quanto ao papel também fundamental das muitas redes sociais, todas com seus milhões de usuários envolvidos no rebelde e ao mesmo tempo delicioso trabalho de azucrinar a militância esquerdopata.
Quem diz que a turma do WhatsApp derrotou, sozinha, Fernando Haddad, as velhas lideranças políticas, a grande imprensa e os institutos de pesquisa, é porque desconhece ou quer negar as enxurradas de postagens no Twitter, Facebook, Instagram, Messenger, YouTube, Tumblr, Wechat e Google +.
Em nome de todas as demais redes, manifesto aqui um protesto aos exageros dos analistas e das autoridades que só detectaram no WhatsApp o ataque mordaz e fatal contra a imoralidade e a roubalheira que afundaram o Brasil na lama. Todas as redes, juntas, vamos fazer muito mais. Vamos piorar as coisas para a canalhice nacional. Hashtag somos uma legião.

           



20/10/2018
DESESPERO - Editorial do Estadão

Consciente de que será muito difícil reverter a vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela Presidência da República, o PT decidiu partir para seu "plano B": fazer campanha para deslegitimar a eventual vitória do oponente, qualificando-a como fraudulenta. É uma especialidade lulopetista.

A ofensiva da tigrada está assentada na acusação segundo a qual a candidatura de Bolsonaro está sendo impulsionada nas redes sociais por organizações que atuam no "subterrâneo da internet", segundo denúncia feita anteontem na tribuna do Senado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que lançou o seu J'accuse de fancaria.

"Eu acuso o senhor (Bolsonaro) de patrocinar fraude nas eleições brasileiras. O senhor é responsável por fraudar esse processo eleitoral manipulando e produzindo mentiras veiculadas no submundo da internet através de esquemas de WhatsApp pagos de fora deste país", afirmou Gleisi, que acrescentou: "O senhor está recebendo recursos ilegais, patrocínio estrangeiro ilegal, e terá que responder por isso. (...) Quer ser presidente do Brasil através desse tipo de prática, senhor deputado Jair Bolsonaro?"

Como tudo o que vem do PT, nada disso é casual. A narrativa da "fraude eleitoral" se junta ao esforço petista para que o partido se apresente ao eleitorado - e, mais do que isso, à História - como o único que defendeu a democracia e resistiu à escalada autoritária supostamente representada pela possível eleição de Bolsonaro.

Esse "plano B" foi lançado a partir do momento em que ficou claro que a patranha lulopetista da tal "frente democrática" contra Bolsonaro não enganou ninguém. Afinal, como é que uma frente política pode ser democrática tendo à testa o PT, partido que pretendia eternizar-se no poder por meio da corrupção e da demagogia? Como é que os petistas imaginavam ser possível atrair apoio de outros partidos uma vez que o PT jamais aceitou alianças nas quais Lula da Silva não ditasse os termos, submetendo os parceiros às pretensões hegemônicas do demiurgo que hoje cumpre pena em Curitiba por corrupção?

Assim, a própria ideia de formação de uma "frente democrática" é, em si, uma farsa lulopetista, destinada a dar ao partido a imagem de vanguarda da luta pela liberdade contra a "ditadura" - nada mais, nada menos - de Jair Bolsonaro. Tudo isso para tentar fazer os eleitores esquecerem que o PT foi o principal responsável pela brutal crise política, econômica e moral que o País ora atravessa - e da qual, nunca é demais dizer, a candidatura Bolsonaro é um dos frutos. Como os eleitores não esqueceram, conforme atestam as pesquisas de intenção de voto que expressam o profundo antipetismo por trás do apoio a Bolsonaro, o PT deflagrou as denúncias de fraude contra o adversário.

O preposto de Lula da Silva na campanha, o candidato Fernando Haddad, chegou até mesmo a mencionar a hipótese de "impugnação" da chapa de Bolsonaro por, segundo ele, promover "essa campanha de difamação tentando fraudar a eleição".

Mais uma vez, o PT pretende manter o País refém de suas manobras ao lançar dúvidas sobre o processo eleitoral, assim como já havia feito quando testou os limites legais e a paciência do eleitorado ao sustentar a candidatura de Lula da Silva. É bom lembrar que, até bem pouco tempo atrás, o partido denunciava, inclusive no exterior, que "eleição sem Lula é fraude".

Tudo isso reafirma, como se ainda fosse necessário, a natureza profundamente autoritária de um partido que não admite oposição, pois se julga dono da verdade e exclusivo intérprete das demandas populares. O clima eleitoral já não é dos melhores, e o PT ainda quer aprofundar essa atmosfera de rancor e medo ao lançar dúvidas sobre a lisura do pleito e da possível vitória de seu oponente.

Nenhuma surpresa: afinal, o PT sempre se fortaleceu na discórdia, sem jamais reconhecer a legitimidade dos oponentes - prepotência que se manifesta agora na presunção de que milhões de eleitores incautos só votaram no adversário do PT porque, ora vejam, foram manipulados fraudulentamente pelo "subterrâneo da internet".

           



19/10/2018
Efeitos de frases feitas

Todo homem é poeta quando está apaixonado. (Platão)
Só sei que nada sei. (Sócrates)
É melhor corrigir os seus próprios erros do que os outros. (Demócrito)
A felicidade depende de nós mesmos. (Aristóteles)
O caráter do homem é o seu destino. (Heráclito)
Não importa o quão devagar você vá, desde que você não pare. (Confúcio)
A boca fala do que está cheio o coração. (Jesus)
O coração tem razões que a própria razão desconhece. (Pascal)
Uma mentira pode salvar seu presente, mas condena seu futuro. (Buda)
Uma longa viagem começa com um único passo. (Lao Tsé)
Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável (Sêneca)
Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco. (Epicuro)
Viver sem amigos não é viver. (Cícero)
A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar (Sun Tzu)
Daria tudo que sei pela metade do que ignoro. (Descartes)
Uma mentira vem logo no encalço de outra (Terêncio)
É preciso viver, não apenas existir. (Plutarco)
Um amigo sensato é um bem precioso. (Homero)
Nada se espalha com mais rapidez do que um boato. (Virgílio)
Os grandes sucessos dependem de incidentes pequenos. (Demóstenes)
Só a educação liberta. (Epiteto)
As frivolidades cativam os espíritos levianos. (Ovídio)
A minha língua jurou, o meu coração não. (Eurípedes)
Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram. (Voltaire)
Não há regra sem exceção. (Cervantes)
O mal sempre vai e volta. (John Milton)
O homem pinta com o cérebro e não com as mãos. (Michelangelo)
Quem não estima a vida não a merece. (Da Vinci)
Aos amigos os favores, aos inimigos a lei. (Maquiavel)
Temos a arte para não morrer da verdade. (Nietzsche)
A medida do amor é amar sem medida. (Santo Agostinho)
O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele. (Kant)
A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo. (Flaubert)
O amor não se vê com os olhos, mas com o coração. (Shakespeare)
Não é possível ser bom pela metade. (Tolstoi)
O essencial é invisível aos olhos. (Saint Exupery)
Ser bom é fácil, o difícil é ser justo. (Victor Hugo)
Prefiro morrer de paixão que morrer de tédio. (Van Gogh)
Tudo o que você precisa é amor. (John Lennon)
Melhor morrer de vodca que de tédio. (
Maiakovski)
Ler é melhor que estudar. (Ziraldo)
Viver é desenhar sem borracha. (Millôr)
Nem sempre as coisas são como parecem. (Fredo)
Aplaudam meus amigos, a comédia acabou. (Bethoven)
A comissão faz o ladrão. (Jô Soares)
Lula tá preso, babaca! (Cid Gomes)

           



18/10/2018
TRT elege novos dirigentes

Concluída na manhã dessa quinta-feira a eleição por aclamação dos novos dirigentes do Tribunal Regional do Trabalho no Rio Grande Norte.

O desembargador Bento Herculano será o novo presidente, acumulando ainda a função de corregedor. Já sua colega Maria do Perpétuo Wanderley será a vice-presidente e também ouvidora. 

           



18/10/2018
O fenômeno Pokemon Go

Dia desse um amigo e atento leitor aqui do Galo e da coluna do jornal Agora RN me indagou sobre uma nota a respeito de diversas aglomerações pelo Brasil de usuários (jogadores) do jogo de realidade aumentada - feito para smartphones - Pokemon Go, lançando em 7 de julho de 2016 pela empresa norte-americana San Francisco Niantic.

Ele não acreditou que milhões de jovens e adultos ainda estavam envolvidos na captura de monstrinhos (tipo Pikachu, o mais popular), nos cinco continentes, e que no Brasil a adesão à brincadeira virtual só cresce. E a concentração de usuários ocorre mensalmente com as datas especiais.

As empresas administradoras do jogo, Niantic, Nintendo e Pokemon Company, criaram um "dia da comunidade Pokemon", que ocorre mensalmente numa data previamente divulgada e que gera os encontros coletivos para a caça dos bichinhos em locais já conhecidos como férteis na existência dos personagens.

No próximo domingo, 21, é a data de outubro já propagada como dia da comunidade, e vai movimentar mais uma vez milhões de usuários pelo mundo. Em Natal, centenas de jogadores irão se encontrar na UFRN, um dos locais com maior presença de monstros, além de Ponta Negra e Parque das Dunas.

Para quem achava que o Pokemon Go já tinha diminuído a febre mundial do lançamento, há poucos meses o jogo registrou o segundo maior volume de usuários online desde 2016. Em setembro passado, os lucros chegaram a US$ 84,8 milhões, quase a metade do que faturou na estreia em julho de 2016.

Para se ter uma ideia do fenômeno, basta uma comparação entre os três mais populares jogos da App Store e da Google Play (as lojas virtuais de aplicativos): o Clash Royale faturou US$ 124 milhões naquele; o Candy Crush, US$ 25 milhões; e o Pokemon Go, US$ 200 milhões. Dados da Sensor Tower.

Dois anos depois de lançado, o jogo atingiu sua maior taxa de downloads agora em 2018, com 8,84 milhões de vezes num aumento de 100% em relação ao ano passado. O faturamento total desde 2016 é de US$ 2,01 bilhões com espetaculares 552 milhões de downloads realizados em todo o planeta.

No próximo domingo, os caçadores de monstrinhos do Pokemon Go já sabem que haverá um estímulo especial para eles: um personagem considerado raro será disponibilizado, o que vale como um valioso bônus para a comunidade. Entre os milhões de usuários do mundo, estarão algumas centenas de natalenses caçando na paisagem e corredores da UFRN.

           



17/10/2018
Cavalos de troia e fogo amigo

Por mais que o atraso de salários e a violência urbana tenham desgastado a imagem do governo Robinson Faria, os dois fatores não foram responsáveis sozinhos pelo resultado eleitoral. O governador teve contra ele o corpo mole de muitos adversários infiltrados na própria administração.

           



17/10/2018
Gil Gomes aqui agora ontem

Houve um tempo em que as ocorrências policiais pertenciam a uma espécie de série B do jornalismo. Por algum tempo, parte da sociedade natalense dizia que se um leitor espremesse um exemplar do Diário de Natal, o sangue escorreria como se as páginas de papel fossem feitas de esponjas.

O icônico diretor geral do matutino associado, Luiz Maria Alves, repetia como um clichê sempre que ouvia tal crítica: "a humanidade é que gosta de tragédia e miséria, não sou eu". E mantinha a linha editorial sempre destacando fotos dos assuntos policiais na capa, não dispensando até imagens de cadáveres.

A maior vitrine criminal da mídia potiguar nos tempos da minha meninice era o programa Patrulha da Cidade, que registrava na Rádio Cabugi grandes índices de audiência, em especial nas classes populares. Na imprensa escrita nacional, raras eram as matérias policiais, exceto algumas prisões políticas.

As redes de TV, Tupi, Globo e Record, davam poucos espaços aos crimes comuns. Quando um caso escabroso ganhava cobertura, o país inteiro se estarrecia e o assunto era acompanhado como uma novela. A morte da menina Araceli e o sequestro do menino Carlinhos, em 1973, pararam o Brasil.

O jornalismo policial seguiu como editoria secundária por anos, até que o SBT, inventou o telejornal Aqui Agora, com pauta exclusiva para o crime e reportagens que bebiam na fonte do jornalista Goulart de Andrade, que preencheu de crimes as madrugadas da Globo e Band nos anos 1980.

Muito rapidamente, um experiente repórter oriundo da velha rádio Excelsior, que surgiu na cobertura esportiva e trocou os gramados pelas ruas em busca de confusão, se tornou a grade estrela do novo jornal que sacudiu o tradicional horário das novelas com sangue, tiros e assaltos. O Aqui Agora explodiu.

Gil Gomes levou para o vídeo a narrativa espalhafatosa com uma voz gutural que era sua marca no rádio. Sempre com camisa florida e o gesto da mão alisando o ar, ele dava contornos dramáticos ao fato transformando um crime banal numa tragédia fast food. A imprensa europeia veio estudar o telejornal.

Em meados dos anos 1990, eu cuidava do setor de marketing da TV Ponta Negra, afiliada do SBT. Meu amigo e dono da emissora, Carlos Alberto de Sousa, pediu um dia para que eu pensasse algo para homenagear os profissionais de mídia, cuja data comemorativa era e ainda é 21 de junho.

Pensando na figura de Gil Gomes, chamei o repórter Jota Gomes, estrela principal do Aqui Agora local, e bolei um roteiro de um programa fictício com reportagens dentro de algumas agências de propaganda, onde Jota e equipe invadiam os departamentos de mídia para entrevistar os profissionais.

Ninguém entendia nada e danava a responder o repórter sobre aplicação de verba de cliente nas grades de programação da TV Ponta Negra. Ao seu lado, como um cineasta marginal, eu ia dando as coordenadas vestido com um colete negro com as palavras "Agente Federal Publicitário". Foi uma farra.

Então, no dia 21, Carlos Alberto recebeu em almoço numa churrascaria os mídias, agregados, clientes e convidados. Fez um discurso sobre as barreiras do preconceito intelectual com o Aqui Agora e exibiu num telão o material que eu mandei editar pela equipe de produção do telejornal. Risadas em profusão.

No final, Carlos avisou: "esse material vai ao ar amanhã em duas edições especiais do Aqui Agora". E complementou dizendo que se depois ninguém comentasse que viu algum dos entrevistados, não precisava reservar espaços dos seus clientes no programa. Durante semanas, os mídias cansaram de explicar aos curiosos que a presença deles no Aqui Agora era fruto de uma brincadeira da TV.

           



17/10/2018
O mimimi petista

Apesar do pânico de Haddad com o WhatsApp, é lá também onde os petistas resmungam, agridem e deliram. Postam manchetes de alguns jornais europeus e perguntam aos interlocutores: "Será que a Europa está errada sobre Bolsonaro?"; como se parte da mídia representasse o continente inteiro.

O que os devotos da seita lulista precisam entender é que ambiente jornalístico é um local praticamente dominado por gente de esquerda, que publica o que quer, sem interferência dos donos dos veículos. Os jornais europeus pensam de um jeito, mas a Europa toda vive hoje uma onda de direita e até extrema-direita, como ocorre no momento nas eleições da Alemanha.

           



17/10/2018
Deu Cruzeiro de novo

Não deu pro Corinthians. O Itaquerão estava em festa, a CBF armou um espetáculo quase no nível de competições europeias. A torcida fiel animadíssima.

Mas tinha uma raposa no meio do caminho; tinha um adversário mais organizado e mais estimulado pela vantagem da vitória na partida anterior. O Cruzeiro foi superior, como tem sido quando se trata de Copa do Brasil.

O resultado de 1 x 0 no primeiro tempo foi um retrato fiel da superioridade azul. O time de Mano Menezes mandou em campo e não deu chances ao grupo de Jair Ventura.

Aí, foi só administrar o segundo tempo, superar o susto no empate de pênalti e convocar a arbitragem eletrônica para anular o segundo gol alvinegro, que se não fora isso seria um dos mais belos gols do ano, num chute incrível do garoto Pedrinho.

E para confirmar o favoritismo. E para renovar a realidade de maior vencedor do torneio, foi só executar um rápido e mortal contra-ataque, e num toque genial o Arrascaeta encobrir o goleiro Cássio. Valeu pagar caro para trazer o uruguaio em voo especial direto do Japão para São Paulo. 

Final de jogo, Cruzeiro 2 x 1 Corinthians. De Norte a Sul, todo o país já sabe: o hexa é azul. Salve o Cruzeiro, campeão dos campeões. Data vênia Corinthians e demais coadjuvantes da Copa do Brasil.

           



16/10/2018
Os ciganos virtuais

As redes sociais fizeram surgir os mascates de plantão, gente com uma fome pecuniária proporcional ao vácuo de ética.

Pulam de um candidato pra outro como quem troca de camisa, e se adaptam com incomparável desfaçatez.

E aí sai mordendo quem lambeu na eleição passado.

           



16/10/2018
A mutante empoderada

Primeiramente houve meses de atraso para a divulgação do primeiro trailer; depois aconteceu o adiamento da estreia do lançamento mundial que estava prometido para o próximo dia 31, dia do halloween. Então, finalmente saiu o esperado trailer e uma nova data de estreia do filme para fevereiro de 2019.

Os fãs já podem se acalmar, pois o mistério acabou. A nova aventura do grupo de heróis X-Men está sendo propagada pela tradicional 20th Century Fox. Vai lá na capa de O Galo Informa, na seção "Vídeo do Dia" e veja as imagens liberadas no trailer de "X-Men Dark Phoenix, roteiro e direção de Simon Kinberg.

O novo episódio da grife Marvel é uma espécie de homenagem a poderosa personagem Jean Grey, interpretada pela sempre charmosa e longilínea Sophie Turner, dona de um olhar que é pura execução sumária de marmanjos embasbacados. A trama ocorre em 1992, dez anos antes de X-Men Apocalypse.

No contexto do filme, os mutantes agora são todos reconhecidos como heróis, imunes às patrulhas biológicas e telúricas dos humanos. Mas o professor Charles Xavier, líder do agrupamento, está ampliando ainda mais os limites dos seus estranhos alunos. Um acidente irá super dimensionar o poder de Grey.

Numa viagem ao espaço, a nave dos heróis será atingida por uma explosão solar que, de alguma forma, provocará uma súbita e assustadora evolução nas habilidades mentais e extra-sensoriais de Jean Grey. E aí acontece o motivo do título da nova aventura: Jean se transforma em Dark Phoenix, um mutante de ilimitados poderes.

Quase todos os principais personagens do grupo estarão no filme, e viverão um tumultuado clímax para livrarem-se da terrível interferência de uma Jean Grey desgovernada em força e temperamento. A linda Jessica Chastain vai se incorporar à trama e deverá assumir a função de uma vilã dos discípulos de Xavier.

Depois de uma série de episódios em que alguns mutantes foram praticamente protagonistas dos roteiros, como Wolverine, Magneto, Cíclope, Mystica, Tempestade, Vampira, além do próprio Xavier, a nova aventura levará às telas um filme todo centralizado em Jean Grey, mesmo que ela esteja tomada, encarnada e arrebatada pela temerosa força cósmica de Dark Phoenix.

Quando fevereiro chegar, saudade da estreia já não mata a gente.

           



13/10/2018
Nova rodada da Liga das Nações

Mais uma rodada da Liga das Nações da Europa foi iniciada na sexta-feira e encerrada no sábado. O torneio foi criado pela UEFA e reúne mais de 50 seleções do velho continente.

Confira abaixo os resultados:

Polônia 2 x 3 Portugal
Rússia 0 x 0 Suécia
Israel 2 x 1 Escócia
Lituânia 1 x 2 Romênia
Montenegro 0 x 2 Sérvia
Ilhas Faroe 0 x 3 Azerbaijão
Kosovo 3 x 1 Malta
Bélgica 2 x 1 Suíça
Croácia 0 x 0 Inglaterra
Áustria 1 x 0 Irlanda do Norte
Estônia 0 x 1 Finlândia
Grécia 1 x 0 Hungria
Belarus 1 x 0 Luxemburgo
Moldávia 2 x 0 San Marino
Holanda 3 x 0 Alemanha
Eslováquia 1 x 2 República Checa
Irlanda 0 x 0 Dinamarca
Noruega 1 x 0 Eslovênia
Bulgária 2 x 1 Chipre
Georgia 3 x 0 Andorra
Letônia 1 x 1 Kazaquistão
Armênia 0 x 1 Gibraltar
Macedônia 4 x 1 Liechtenstein

           



11/10/2018
Os anos das viagens à Lua

Hoje está fazendo cinquenta anos do lançamento da primeira missão tripulada do Projeto Apollo, gerenciado pela NASA entre os anos de 1961 e 1972, e que tinha como principal meta levar homens à Lua, na tentativa de ganhar a corrida espacial, uma das batalhas inseridas na Guerra Fria com a União Soviética.

Em 11 de outubro de 1968, a nave Apollo 7 subiu ao céu com os astronautas Walter Schirra, Donn Eisele e Walter Cunningham, num voo teste que serviria para aperfeiçoar os sistemas de suporte à vida, controle e propulsão das futuras naves que voariam para a Lua. Foram onze dias em órbita da Terra.

Foi um teste crucial para o futuro do programa, que um ano e nove meses antes quase se encerrou após uma tragédia com a Apollo 1, em janeiro de 1967, quando um acidente matou os três astronautas a bordo. O episódio gerou críticas da imprensa e discursos ásperos no Senado norte-americano.

A navegação orbital da Apollo 7 foi também a primeira que contou com transmissão pela televisão, estabelecendo um efeito midiático nas missões que marcaram os anos 1960, inserindo a figura da Lua num tecido cultural onde se destacavam o rock, a revolução sexual, as revoltas estudantis e as drogas.

A corrida espacial havia completado uma década de disputa entre russos e americanos, iniciada em outubro de 1957 quando o primeiro satélite artificial foi colocado em órbita, num feito pioneiro do país comunista. Era o Sputnik, que foi cantado por Jackson do Pandeiro e virou bloco carnavalesco em Natal.

Enquanto os EUA lambiam as feridas da inveja na pele da vaidade, a União Soviética aproveitou para tripudiar com mais dois avanços: um mês apenas depois do feito, a cadelinha Laika foi colocada a bordo do Sputnik; e em abril de 1961 lançou o primeiro homem ao espaço, o astronauta Yuri Gagarin.

Foi a partir daí que surgiu o Programa Apollo, propagando uma ousadia inimaginável até para os eufóricos cientistas russos. Coube ao presidente John Kennedy dar a boa nova: os EUA iriam enviar homens à Lua. Após sete anos de testes, erros e correções, a Apollo 7 abriu o caminho para a Apollo 11.

E foi a Apollo 11, em 20 de julho de 1969, que finalmente permitiu aos americanos virar o jogo diante dos soviéticos. Os astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins surgiram nas TVs do mundo em órbita da Lua, cabendo ao comandante Armstrong o instante histórico de pisar no satélite.

Aos 10 anos, eu vi as pessoas vivendo no mundo da Lua. As imagens da nave, do módulo, das crateras lunares, a pegada do astronauta, o capacete refletindo tudo, a bandeira americana, tudo isso encheu o cotidiano. A Lua estava na TV, nas revistas, nos jornais, nas figurinhas, no cinema, no meu caderno Avante.

Inesquecível a repetição de uma matéria sobre a Apollo 7 onde os três astronautas de 1968 festejavam o sucesso da nova missão ao lado da atriz Bárbara Eden, musa dos meninos como eu fanáticos por sua personagem no seriado Jeannie é um Gênio, obra imortal do escritor Sidney Sheldon.

Aqueles anos do Programa Apollo estarão bem avivados de novo nos próximos dias, quando estrear o filme First Man (O Primeiro Homem), cujo roteiro conta a vida e carreira de Neil Armstrong, o pioneiro das viagens à Lula. O ator Ryan Gosling, que nos fez dançar em La La Land, interpreta o astronauta. Estou no aguardo para pisar no cinema e viajar à Lua. De novo.

           



11/10/2018
O voto no lado da força

Uma foto de Jair Bolsonaro feita há treze anos, em 2005, foi resgatada há poucas semanas e circulou forte nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp. Mostra o deputado no extenso gramado do Congresso Nacional, sozinho, fixando uma faixa contra a campanha do desarmamento.

Na peça de propaganda, estava escrito "entregue sua arma, os vagabundos agradecem". Naquele ano, Bolsonaro era tão somente um parlamentar do baixo clero, brigando solitariamente por uma coisa que viria a tornar-se uma das bandeiras que o ajudaram em 2018 a vencer a eleição no primeiro turno.

A campanha do desarmamento antecedeu o referendo onde o povo brasileiro, em sua maioria, votou em favor da posse de armas. Logo depois, veio o golpe do estatuto proibindo o porte, atropelando a votação soberana da sociedade e impondo um documento elaborado por políticos, notáveis e burocratas.

De 2005 a 2018, as coisas mudaram drasticamente, a violência urbana no país ganhou conotações de guerra civil, as pessoas se vestiram de medo e passaram a conviver com o pânico. E a figura de Bolsonaro, o ex-capitão com discurso militarista e contra bandidos e corrupção, se tornou uma ideia.

Penetrou fácil no confronto politiqueiro de PT e PSDB, corroeu a dicotomia de décadas e se ergueu como a real antítese da esquerda, comprando a briga ideológica com movimentos sociais atrelados a Lula e companhia, afinando o verbo com os interesses da Operação Lava Jato. Aí conquistou o país.

O fenômeno eleitoral serviu também de combustível para alavancar nomes em diversos estados que fazem um mesmo discurso no âmbito da segurança pública. Bolsonaro virou referência e ídolo de militares, delegados, apresentadores de rádio e televisão, estimulando-os direta ou indiretamente.

O que saiu das urnas no domingo, dia 7, é a consagração dessa referência que o candidato do PSL construiu com abnegação e competência, mesmo diante dos atropelos com bate-bocas e histerias das esquerdas. Os muitos parlamentares eleitos com o perfil dele garantem um Parlamento ultraconservador em 2019.

O primeiro colocado para o governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, é um juiz assumidamente alinhado com a postura de Bolsonaro. O deputado mais votado é o subtenente Hélio Lopes, amigo dileto do capitão. Quem também se elegeu foi a Major Fabiana, a loira que em 2014 conteve um tumulto com uma pistola.

Outro grande amigo de Bolsonaro, agora em São Paulo, é o major Olímpio Gomes, eleito senador em São Paulo anulando ninguém menos que Eduardo Suplicy. Lá foram eleitos muitos militares, como o Capitão Augusto (famoso da bancada da bala), e a cabo PM Kátia Sastre, que matou um ladrão em Suzano.

Ainda em SP, foi eleito o General Peternelli, afinado com as bandeiras de Bolsonaro. No Paraná, destaca-se o sargento Gilson Fahur, o mais votado com um discurso de justiceiro, assim como no Espírito Santo os capitães Assumção e Alexandre Quintino e os delegados Lorenzo Pazolini e Danilo Bahiense.

Em Minas Gerais o radialista Carlos Viana estourou de votos pro Senado defendendo o capitão e imitando Datena. Entre tantos nomes, encerro com os perfis do General Girão e de Styvenson Valentim, aqui no RN. A sociedade amedrontada respondeu ao discurso de combate ao crime e à corrupção, exatamente como está fazendo o país inteiro consagrando Jair Bolsonaro.

           



10/10/2018
Nordeste a los 17

Alô, João Pessoa
apagou o poste
na boa

Valente Maceió
que não deixou
o capitão só

Valeu Recife
já pode criar
um clube do rifle

Aracajuventude
na velha política
não se ilude

Bem-vinda
eterna rebeldia
de Olinda

Xô, petista
tu não se avexa
em Paulista

O que é pior
jamais entrou
em Mossoró

Igualzinho ao Sul
o voto virado
em Caruaru

Puxão de orelhas
nos mensaleiros
em Parelhas


Povo de pique
não vende voto
em Coruripe

Aquela gangue
não enganou
Campina Grande

Natal libertária
não vota aloprado
nem petralha.

           



06/10/2018
Permitido votar com camisa do candidato

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, nesta sexta-feira (5), uma orientação aos tribunais regionais para que liberem o uso de camisetas que façam alusão a candidatos no dia da eleição.

Como uma resolução da Corte limitava a manifestação individual dos cidadãos no domingo ao uso de adesivos, bandeiras e broches, alguns TREs haviam proibido as camisetas e, então, o Ministério Público Eleitoral pediu ao TSE que firmasse um entendimento sobre o tema.

Conforme a decisão, o eleitor poderá usar camiseta com nome de seu candidato preferido, mas como forma de manifestação individual, sem fazer propaganda eleitoral a favor dele e sem aglomeração.

De acordo com a lei eleitoral, está proibida a aglomeração de pessoas com vestuário padronizado, além de manifestações coletivas e ruidosas e qualquer tipo de abordagem, aliciamento ou persuasão de eleitores. A camiseta não pode ser distribuída pelo candidato.

No Rio Grande do Norte, o presidente do Tribunal Eleitoral, desembargado Glauber Rego, emitiu na quinta-feira um ofício-circular dirigido aos juízes e promotores eleitorais orientando sobre o direito individual de manifestação do eleitor, mas pedindo atenção para que seja coibida aglomerações padronizadas e distribuição de propaganda.

Glauber Rego destacou "o direito fundamental à livre manifestação do pensamento, de acordo com o artigo 5º, inciso II e IV, da Constituição Federal Brasileira". 

           



05/10/2018
Choremos por Letícia

Letícia Tanzi tinha apenas 13 anos. Era uma menina linda de subúrbio, morava numa casa modesta, no município paulista de São Roque, perto de Sorocaba. Como quase todas as garotas sonhadoras da região, ela também cantarolava canções românticas dos muitos artistas sertanejos que brotam por ali.

Mas, no olhar de inocência bem próprio da sua idade, ela escondia um inferno que lhe queimava a alma, feria sua dignidade, rasgava suas emoções e sujava seu corpo. Letícia era constantemente abusada sexualmente por um monstro camuflado naquilo que ela pensava ser sua maior segurança: o próprio pai.

Não era ela a única vítima do criminoso, mulheres mais velhas também eram estupradas por ele, algumas inclusive parentes próximas da garota. Um dia o desespero venceu o medo, a angústia superou a ameaça e alguém denunciou o verme imundo, o estuprador contumaz. E então ele foi levado à prisão.

O nome completo do canalha é Horácio Nazareno Lucas, de 28 anos, que em nada se assemelha a cada um dos três nomes que remetem a um dos grandes poetas da antiga Roma, ao maior ícone da cultura e da religião cristãs e ao apóstolo do Novo Testamento que é padroeiro dos artistas e dos médicos.

Estava preso desde julho por estuprar uma cunhada, mas foi solto para responder o crime em liberdade, nessa velha e escrota prática da justiça contemporizar com potenciais predadores. No dia seguinte, menos de 24 horas depois de ser liberado, ele atacou outra vez Letícia. A mãe resolveu agir.

Quando sua esposa tentou ligar para a Polícia, o monstro a agrediu e depois partiu para cima da filha, aplicando-lhe golpes com uma faca. Um filho de apenas 6 anos que presenciou a tragédia correu para a rua e encontrou uma viatura policial: "papai matou minha irmã", gritou o pequenino em pânico.

Enquanto o inseto fugia pela mata, os policiais levavam Letícia para o hospital, onde chegou sem vida. Sua morte é a mais bárbara, violenta e covarde das últimas décadas no terrível histórico de agressões e assédios contra mulheres. O Brasil precisa se indignar com esse crime, principalmente a imprensa.

Letícia Tanzi era uma adolescente frágil diante de um monstro travestido de pai, era uma filha que não merecia tão devastador destino. Letícia Tanzi não era ainda uma eleitora, não tinha simpatias políticas, não pertencia a movimentos ditos sociais. Não teve tempo de viver e encontrar uma bandeira.

Que seja ela a bandeira de todos nós contra a impunidade e a favor de medidas duras contra assassinos hediondos. Que o sangue inocente de Letícia possa lavar as sujeiras debaixo dos tapetes das leis. Que sua memória sirva para que o Estado seja implacável com estupradores. E que o safado que lhe tirou a graça queime no inferno de alguma cadeia insalubre. Pena de morte já no Brasil!

           



04/10/2018
Aznavour à eternidade

Um dos últimos gigantes da música mundial, Charles Aznavour se foi na noite do último domingo, depois de uma vida de 94 anos e uma carreira que atravessou fronteiras, atingiu distintas gerações e avançou além do seu tempo. O mais célebre cantor francês morreu em casa, no Alpilles, no sul da França.

Há trinta anos, ele recebeu uma honraria que define bem sua condição lendária na história da música do século passado. Em 1988, o canal de TV CNN, dos EUA, e o jornal The Times, da Inglaterra, concederam o título de "Cantor da variedade mais importante do século XX". Foram 1,2 mil músicas em 7 idiomas.

Além disso, Aznavour vendeu mais de 100 milhões de discos no planeta, se apresentou em 94 países e teve 60 participações no cinema. Uma consagração em múltiplas terras para quem nasceu numa nação que diversas vezes se viu ameaçada de ser varrida do mapa. A Armênia é uma história de resiliência.

E como bom e resistente armênio, que venceu no mundo a partir da França, sua pátria adotada, ele manteve a voz afinada por 70 anos e que só emudeceu nas horas que antecederam sua partida. Morreu pouco tempo após uma turnê no Japão e se recolher por causa de um braço quebrado numa queda.

Charles Aznavour se encantou cedo pela música, tocando violino aos nove anos por incentivo da mãe, que era atriz. Adolescente, durante a Segunda Guerra Mundial, formou dupla com o amigo Pierre Roche, até que no fim do conflito, quando fez 21 anos, um encontro com Edith Piaf muda seu destino.

A diva da "chanson française" convida os dois jovens para acompanhá-la numa turnê de dois anos pela França, Canadá e Estados Unidos. Diferente da recepção francesa, o ritmo alegre da dupla agrada aos ouvidos de americanos e canadenses. Mas não demora e Roche abandona a carreira musical.

A partir daí, Aznavour resiste e toca a carreira solo, superando as enormes dificuldades que aparecem no caminho. Cantar não é apenas cantar, e ele tem que ser motorista, telefonista, iluminador, sonoplasta e empresário, tudo num só cantor.
Algumas canções surgem, mas distantes de alcançar sucesso.

Preocupada, Piaf chega a sugerir desistência, mas um armênio jamais se deixa abater. Ele compõe sem parar para diversos artistas, Juliette Greco, Patachou, Gilbert Bécaud e a própria Edith, que encanta o público com "Jezebel". E aí, dez anos depois da guerra, a França assiste Aznavou ao vivo na televisão.

Surge o astro e sua peculiar postura, um baixinho de voz suave e quase anasalada, mãos nos bolsos e gestos bem planejados para parecer casuais. Logo, o espaço geográfico francês será pequeno para conter o gigantesco talento, os sucessos que explodem em profusão, um monstro da voz.

Durante as décadas seguintes, os milhões de fãs espalhados pelo mundo se comportam como os franceses: todo mundo sabe cantar - ou arremedar o idioma - pelo menos uma canção dele. Ao lado de Piaf, ele é a mais completa tradução da música romântica francesa. Sempre terá fãs de 19 a 90 anos.

No próximo dia 8 de novembro, ele iniciaria uma turnê doméstica por Saint-Etienne, Rouen, Tours, Dijon e Estrasburgo. Os ingressos já estavam esgotados. Meses antes de morrer, ele disse a uma irmã que iria viver 100 anos. Não há dúvida que Aznavour estará por aqui por 1.000 anos ainda.

           



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