BLOG DO ALEX MEDEIROS

Veja o video:

19/11/2019
O gol mil do rei Pelé

Foi numa noite de um dia como hoje, em 1969. O estádio Maracanã recebia 65.157 torcedores para o confronto entre o Vasco e o Santos pela décima quarta rodada do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, criado em 1954 reunindo times do Rio e São Paulo, e que a partir de 1967 teve o acréscimo de outros estados. Enquanto o mundo olhava para a Lua, onde os astronautas da Apollo 12 andavam sobre ela, o Brasil inteiro acompanhava a bola nos pés de Pelé.

Depois de alguns jogos do time santista em solo nordestino, o rei convertera uma meia-dúzia de gols, chegando na cena carioca somando 999. Não era o primeiro brasileiro a atingir 1.000 (dois meses antes havia morrido Arthur Friedenreich, autor de 1.329 gols), mas para a imprensa esportiva da época só havia ele, prestes a estabelecer a marca. O País respirava o assunto e palpitava pelo rei. A tarde se prolongou na angústia e na expectativa do gênio.

O jogo era às 23h, o Santos chegou no Maracanã às 20h, Pelé vestindo a mesma roupa que vestia quando do desembarque no Galeão no meio da tarde. Repetiu o dia todo aos colegas: "só vou me acalmar quando o jogo começar".

No vestiário, o lateral Rildo tentava descontrai-lo: "rei, não mexe no meu armário que aqui eu mando". O cantor e amigo Wilson Simonal esfregava as mãos rodando no recinto: "estou nervoso, parece até que eu quem vou jogar".

As equipes entraram em campo e a banda dos Fuzileiros Navais executou o Hino Nacional; Pelé hasteou a bandeira nacional. Os capitães Acelino, do Vasco, e Carlos Alberto, do Santos, cochicharam algo antes do apito do juiz.

Não foi um primeiro tempo bom para o rei e seu time, que tomou um gol aos 17 minutos, feito por Benetti. No intervalo, perdendo por 1 a zero, a impaciência real era visível, que diminuiu aos 10 minutos do segundo tempo com o empate.

O zagueiro vascaíno Renê mandou a bola para dentro das próprias traves. E o Santos correu atrás da virada, mas o preciosismo dos jogadores em buscar Pelé para passar a bola era um problema. E o goleiro Andrada pegava tudo.

A quinze minutos do fim da partida, o juiz não deu um pênalti reclamado pelo Vasco, e na sequência o Santos fez um contra-ataque e Pelé entrou na área, sendo esbarrado pelo zagueiro Fernando. E o apito do árbitro foi um sinal.

Um pênalti para compor uma história, uma nação inteira atenta ao rei do futebol com a bola na marca de cal, o goleiro argentino com o nervosismo que já durava semanas. Um chute no canto esquerdo, raspando a mão de Andrada.

Pelé correu para buscar a bola nas redes, Andrada esmurrava a grama, um exército de repórteres invadiu o campo, os jogadores do Santos e do Vasco se reuniram no centro, como estabelecido no cochicho inicial dos seus capitães.

As arquibancadas eram uma caixa de ressonância de um país, as duas torcidas comemoravam uma epopeia de uma lenda do futebol, que cercado por jornalistas chorava copiosamente e pedia para todos ajudarem as crianças.

Nos dias posteriores, o presidente da República, Garrastazu Médici, e a TV Tupi lhes entregaram uma bola de ouro. As manchetes dos jornais tinham fotos enormes da madrugada mágica no Maracanã, e mensagens publicitárias.

No Jornal do Brasil, produtores de açúcar e álcool de SP publicaram um anúncio com um texto-poema: "Pelé chuta / Pelé marca / Pelé marca / Marca 1000 / que é 999 / marca mil vezes / e outras mil / porque é Pelé / Pelé energia / gol de Pelé / é gol alegria / doçura de gol / obrigado, Pelé".

       



17/11/2019
De Niro e Scorsese ao infinito

Aprendi por experiência própria a não temer entrar no escuro do cinema quando o filme em cartaz tem um astro ou estrela de primeira grandeza. Dificilmente haverá insatisfação após a exibição, salvo nalguns casos de pipocas e refrigerantes com seus preços dos tempos de hiperinflação. Tem um filme com Meryl Streep, Clint Eastwood, Di Caprio, John Deep, Emma Stone, Robert Downey Jr., Julia Roberts, Cate Blanchet, não titubeie, entra que é bom.

Jamais tive dúvidas na escolha por filmes estrelados por Robert De Niro e Al Pacino, a dupla que melhor representa o antes e o depois dos anos dourados de Hollywood. O melhor nos dois é que qualquer adjetivo elogiável cabe nos seus papeis e nas obras em que atuam. Ao longo dos anos, citar ambos como melhores atores parece-nos um voto siamês, como se fossem inseparáveis.

E quando ambos se juntaram ao diretor Martin Scorsese, não só todos nós ganhamos histórias inesquecíveis como a própria indústria cinematográfica demarcou sua história a partir da grandiosidade artística desse triunvirato.

Estamos de novo emulados na expectativa de mais uma vez assistir De Niro e Pacino dirigidos por Scorsese, agora num filme produzido pelo serviço de streaming Netflix, essa coisa tecnológica que não nos deixa mais sair de casa.

O filme O Irlandês, que estreou apenas em cinemas norte-americanos, com algumas migalhas de salas na Europa, está em cartaz na Netflix, o trailer disponível desde setembro, como uma vitrine de doces para atrair crianças.

Por enquanto, as resenhas pelo mundo são mais que favoráveis, afora uma suspeita levantada de que o roteiro baseado no "I Heard You Paint Houses", de Charles Brandt, não trata com fidelidade os autoproclamados fatos reais.

É a história do sumiço de Jimmy Hoffa, um mafioso supostamente assassinado por outro, Frank Sheeran. O primeiro interpretado por Pacino, o segundo por De Niro. O jornal Daily Beast foi o primeiro a questionar a versão do livro.

Mas não é uma questão que vá comprometer a qualidade do filme, já que cinema abordando a vida real tem sempre a licença poética para alcançar os objetivos do diretor. Que se apaguem as luzes do quarto ou da sala de estar.

O Irlandês é tão somente o nono filme com Martin Scorsese dirigindo Robert De Niro. Um gigante orientando um monstro; e de sobra com mais dois dos velhos tempos das fitas de máfia, Al Pacino e Joe Pesci. Ah, e Harvey Keitel.

Enquanto isso De Niro acaba de ser o escolhido para uma homenagem especial no American Actors Guild, o sindicato onde ele é filiado há mais de meio século. O prêmio será entregue em 2020, pelo conjunto da sua obra.

No comunicado à imprensa sobre a honraria, a presidente da entidade, Gabrielle Carteis afirmou que "De Niro é um ator de extraordinária profundidade e habilidades, os personagens que cria cativam nossa imaginação".

De tudo espetacular que ele fez, não esqueço a cena de violência mais tensa que alguém já fez, sem, no entanto, não haver a violência. O diálogo entre ele e Juliette Lewis num teatro, em Cabo do Medo, antecipa em nós um estupro ausente. Uma parceria dele com Scorsese. Gênios.

       



15/11/2019
Ford V Ferrari

No começo dos anos 1960, a indústria Ford atingiu um nível de engenharia automotiva que botava no mercado um carro com quase todas as qualidades para satisfazer os desejos e fantasias dos seus consumidores. E se dizemos quase tudo é porque em que pesem a tecnologia e o design, faltava nos carros Ford aquela emoção que brotava nos motoristas com a velocidade que eles assistiam na televisão durante as corridas de Fórmula Um e outros motores.

Segundo o entendimento dos próprios engenheiros e executivos da marca, faltava um toque sexy para atrair a clientela mais jovem, exatamente aquela que estava mudando o mundo em todos os sentidos. Os anos 1960 tinham nas ruas do mundo uma revolução de juventude, e então a Ford decidiu comprar uma empresa que não se comparava em nada com ela, mas tinha exatamente o que faltava para seu intento de renovação. A Ford queria a sexy Ferrari.

Em 1963, o agradável se uniu ao útil quando a empresa italiana começou a fabricar carros extremamente rápidos e visualmente mais bonitos do que todos. Foi o sinal para a Ford oferecer a quantia que a Ferrari exigisse para a venda.

Quando a imprensa procurou o comendador Enzo Ferrari e indagou sobre o negócio, ele discorreu sobre o assunto e gastou longos minutos que poderiam ser resumidos em um não. Nos EUA, Henry Ford II sentiu-se humilhado.

E se a humilhação provoca às vezes silêncio ou às vezes acorda instintos primitivos, a segunda situação ocupou a mente de Ford e ele partiu para dar o troco nas pistas. Mandou fazer um carro para vencer a Ferrari numa corrida.

Não houve qualquer prurido financeiro, a ordem foi não economizar na construção de um supercarro, um bólido que superasse a marca italiana na disputa da tradicionalíssima prova das 24 Horas de Le Mans, na França.

Foram milhões de dólares investidos na empreitada, que não foram suficientes para encarar a então imbatível Ferrari nas corridas de 1964 e 1965. A última chance foi em 1966, era tudo ou nada, a Ford precisava da sua autoestima.

Grife da modalidade, a corrida no circuito francês é a mais importante do mundo automobilístico, em atividade desde 1923. Na prova de 1966, a Ford também tentava inserir a presença norte-americana, ainda sem uma vitória.

Disputada nos dias 18 e 19 de junho, a corrida apresentou ao mundo dois nomes que ficariam conhecidos também na F1, o francês Henri Pescarolo e o belga Jacky Ickx, que venceria Le Mans seis vezes, três delas consecutivas.

Foi naqueles dois dias que uma escuderia americana venceria pela primeira vez em Le Mans, com o piloto Carroll Shelby pilotando o Ford GT40 em duelo com a Ferrari do piloto inglês Ken Milles, um veterano da Segunda Guerra.

Na espetacular corrida de 53 anos atrás, a Ford não apenas superou a Ferrari, como Henry Ford II saboreou o terceiro lugar de Enzo Ferrari, cuja equipe ficou atrás da alemã Porsche. E agora o duelo virou filme que estreou ontem.

Os protagonistas na pele dos pilotos são Matt Damon (Shelby) e Christian Bale (Miles) e o diretor é James Mangold, conhecido pelos longas Wolverine (2013) e Logan (2017). O filme está em exibição nas três redes de cinema de Natal.

Numa entrevista, o ator Matt Damon disse "parafraseando Ernest Hemingway, toda história verdadeira termina em morte, e o filme se baseia numa história verdadeira". E depois acrescentou, "bom, mas é uma história muito bonita".

       



12/11/2019
A cabeça de Virgínia

Só agora os jornais americanos e europeus divulgam a morte da atriz Virginia Leith, a norte-americana que estrelou o primeiro longa-metragem do diretor Stanley Kubrick, no filme Medo e Desejo de 1953, uma obra do gênero dramalhão de guerra onde alguns soldados caem num avião atrás das linhas inimigas e ao serem vistos por uma camponesa passam a estudar uma forma de sair dali, enquanto um deles, enlouquecido, tortura a mulher, que é Virgínia.

A atriz morreu no último dia 4 aos 94 anos, uma idade inimaginável aos desejos pedófilos de Arthur Clarke, autor do livro 2001 - Odisseia no Espaço, que Kubrick filmou, e que diante do desvio sexual viveu seus últimos anos numa casa do Sri Lanka, o único país cujas leis não seriam obstáculos aos seus interesses sexuais.

Virginia Leith conheceu Kubrick nos anos 1950, quando serviu de modelo fotográfico para um material que ele realizou para uma revista chamada Look. Jovens, ela tinha 25 anos e ele 22.

Uma década depois do filme, Virginia seria a estrela de um filme de ficção científica que se não foi um sucesso de bilheteria, se tornou um ícone do gênero pela abordagem inusitada sobre os transplantes no âmbito médico.

Produzido em 1962, o filme O Cérebro Que Não Queria Morrer só passou no Cine São José, nas Quintas, em 1970, causando um impacto na cabeça de um garoto de onze ou doze anos acostumado com as aventuras do Flash Gordon.

Gravado em 1959, a obra estreou nos EUA em 1962 e já era antiga quando chegou na pequena sala do "purguinha" - como chamávamos o cineminha do bairro - chocando todos os garotos presentes na sessão vesperal do sábado.

Baseado no velho romance do monstro de Frankenstein, o roteiro trata de um cara que tentava manter viva a cabeça da sua amada, toda ligada por fios e eletrodos e alimentada por um soro especial. Era a cabeça de Virgínia Leith.

Após aquela sessão, enquanto o grupo de meninos voltava para casa na escuridão da rua Pedro Novôa, entre corredores de barracas da feira, a discussão era sobre onde estaria a alma humana; na cabeça ou no coração?

A personagem de Virgínia morreu num acidente automobilístico e seu noivo carrega sua cabeça decepada para tentar juntar a um novo corpo, que ele vai procurar entre garotas que frequentam strip-tease e concursos de beleza.

Aquela imagem da cabeça se manifestando sozinha, sem um corpo, ficou por quase uma década na minha mente, até que reencontrei a atriz nos seriados Baretta e Barnaby Jones, sucessos policiais da televisão nos anos 1970.

E só então percebi a beleza morena de Virgínia Leith em sua maturidade, principalmente no uso dos cabelos curtos, um estilo que sempre gostei.

Naqueles anos de meninice, outros filmes mais antigos com ela passaram na TV Tupi, TV Record e TV Globo, tempos das novelas Beto Rockfeller, A Menina do Veleiro Azul e Rosa Rebelde, que dominavam as atenções.

A partir de 1972, quando a TV Universitária foi fundada, velhos filmes entravam na sua grade, e numa noite vi Virgínia na companhia de Ginger Rogers em A Viúva Negra, de 1954, logo após o costumeiro musical de Herb Alpert.

       



10/11/2019
Mário Lira Futebol Clube

Meados de 1972, a cidade no clima da Minicopa da Independência, iniciativa da antiga CBD (que daria lugar à CBF) para os festejos do sesquicentenário do grito de Dom Pedro I. Em Natal jogariam as seleções de Portugal, Equador, Chile e Irlanda, tendo o Equador atuado no Castelão em três das suas quatro partidas. Numa delas eu estava lá, menino de 13 anos, torcendo por Eusébio num frasqueirão ainda descoberto. Pelé o havia chamado de "meu irmão".

Junte duas festas esportivas de ufanismo grandioso, como foram a Copa de 1970 e aquela Minicopa, e temos uma geração de moleques multiplicando em larga escala o prazer diário pelo futebol. Foi assim que aconteceu com a minha turma das Quintas, garotos apaixonados pela bola e invariavelmente tocando nela todos os dias, com sol ou chuva, no barro da rua Mário Lira e nos descampados do bairro, nos tarugos do Potengi e no gramado do quartel CIAT.

Na foto, de pé: Del, Nilson, Augusto, Bosco, Gero e Doca; agachados: Geninho, Edvanilson, Neto Barata, Toinho e Alex. Duas saudades maiores na foto: o único sorridente, Augusto, e o fotógrafo, Murilo, já não estão em campo.

Murilo, um dos mais próximos a mim, se foi há um mês, dediquei-lhe uma crônica aqui na coluna e falei dos seus dotes fotográficos desde guri. Augusto, que introduziu o skate nas calçadas do bairro, se foi jovem, violentamente.

Éramos mais de vinte meninos, unidos num grude de lealdade familiar, fruto dos ensinamentos dos nossos pais, todos pobres e com espíritos civilizatórios de fazer inveja às elites que sempre dominaram Natal e todo o nosso RN.

Na foto, uma das tantas formações do Mário Lira FC, o time de camisas brancas com golas azuis e as mangas margeadas em amarelo. Se não surgia adversários, nos dividíamos em peladas diárias que duravam toda uma tarde.

Havia ainda Júnior Vovô, Zé Paulo, Cacau, Bezo, Mauri, Heriberto, Naelson, Beaugeste, Juarez, Zé Filho, Joatan, Jorge Cantor, Jorge Pescador, Darinho, Eliezer, Sergio, Eliomar, Mineirinho, Edilson, Percinho, os filhos do ferreiro...

Todos conectados numa afinação lúdica que tinha no futebol o centro de tudo, e em todas as suas variações. Jogávamos bola na rua, futebol de caixa de fósforos nas calçadas, botão nas mesas dos primos Soares (cinco deles estão na foto) e disputávamos no jogo de bafo as figurinhas dos craques de então.

Garotos sem frescura, amadurecíamos na psicologia da picardia, quando as provocações não eram tratadas como bullying e sim como ritos de passagem. Todos tinham algum apelido irritadiço que poderia ser sanado com gargalhadas em grupo ou troca de sopapos com luvas de camaradagem.

Conflitos eram solucionados em horas, se um tanto graves, em dias, durante as brincadeiras.
O time reforçava a amizade com jogos de biloca, triângulo, xadrez, aliado, Banco Imobiliário, bandeirinha, garrafão, preguinho, totó. E com as demoradas horas de filmes e seriados na televisão em preto e branco ou telas colorizadas.

Naquela irmandade, quase todos saíram da puberdade numa mesma época, e juntos experimentaram os primeiros goles de cerveja, cachaça e vinho barato. Lembro do primeiro réveillon alcoolizado e da sensação da primeira ressaca.

Os primeiros flertes com as meninas têm o cheiro do cigarro e a lembrança da adesão às calças boca-sino, aos cintos de grandes fivelas e aos sapatos cavalo de aço. Alguns aderiram à moda hippie deixando crescer os cabelos.

Minha primeira dança foi o hit Happy Man, da banda Chicago, dois anos depois da foto. O disco rodando na vitrola portátil e o mundo rodando na disritmia do meu coração. Uma emoção que sempre volta quando lembro daqueles dias.

       



07/11/2019
Nas curvas do tempo

O serviço de streaming Old Flix, empresa genuinamente potiguar e que faz sucesso no Brasil e já com usuários na vizinhança e em Portugal, acaba de disponibilizar no seu acervo de mais de cinco mil filmes e seriados o clássico desenho de animê Speed Racer, criado em 1967 no Japão e que estreou na televisão brasileira há 50 anos, exatamente em 1969 na telinha da TV Globo, como parte dos programas infanto-juvenil Capitão Furacão e Zás Trás.

Speed Racer é o título dado nos EUA e que se espalhou pelo Ocidente. O animê foi oriundo dos mangás (os quadrinhos japoneses) e tem nome original Mach Go Go Go, por isso as letras M e G no capacete e na camisa respectivamente. Foi o segundo produto da TV do Japão a ser exibido na TV do Brasil, na sequência de National Kid, que aqui estreou em 1964 na TV Record e apenas os brasileiros - além dos nipônicos - curtiam a aventura.

As gerações dos anos 80 e 90, acostumadas com os filmes e desenhos de Jaspion, Cavaleiros do Zodíaco, Pokemon, Dragon Ball e outros, nem imaginam que a invasão japonesa começou nos anos 60, há exatos 55 anos.

A Oldflix disponibilizou para os assinantes saudosistas, fãs do desenho, hoje na faixa dos cinquenta e sessenta anos, toda a primeira temporada. Para quem ainda não assina, pode fazê-lo pelo site www.oldflix.com.br, por R$ 12,90.

Natal é atualmente uma das capitais do Nordeste com o maior contingente de adeptos das produções japonesas, um fato que pode ser constatado nos diversos eventos voltados para os mangás, animês e souvenires dos produtos.

Há mais de dez anos, percebi o consumo incrível dos jovens natalenses com a cultura japonesa e também a sul-coreana. Desde então, observo o absoluto sucesso de público nos eventos, onde as filas de cosplays são gigantescas.

Para quem tiver interesse em conhecer toda a movimentada história dos animês na televisão do Brasil e o sucesso dos mangás, há dois bons livros disponíveis para venda em sites como o Estante Virtual e o Mercado Livre.

Em "A Presença do Animê na TV Brasileira", a autora paulista Sandra Monte expõe o resultado de uma grande pesquisa e um profundo estudo jornalístico sobre o assunto, do início em 1964 e da explosão a partir dos anos 80 e 90.

O outro é "Produções Televisivas Nipônicas no Brasil: dos Animês aos Dramas de TV", fruto de um bom trabalho acadêmico de Mayara Araújo, jornalista carioca e que não deve ser confundida com a homônima bailarina do Faustão.

Speed Racer não fez sucesso nacional na época da Globo, até que em 1975 começou a passar na TV Tupi dentro da audiência do programa Clube do Capitão Aza. Na década seguinte, em 1981, passou para a tela da TV Record.

O nome original Mach Go Go Go confundia o Ocidente com o título americano. Na Argentina, a letra M do capacete fez com que a tv hermana batizasse de Capitão Meteoro.

Lá nas Quintas, diante das imagens em preto e branco, eu fantasiava o desenho com as corridas de F1, e aquele M pra mim era Medeiros.

       



05/11/2019
Os 105 anos de Luiz Cleodon de Medeiros

Nasceu em Currais Novos, em 05 de novembro de 1914. No começo dos anos 30 foi pra capital prestar serviço militar no 21º Batalhão de Caçadores, na Avenida Rio Branco aonde hoje é a Escola Estadual Winston Churchill, local em que fiz os primeiro e segundo graus.

Em 1935, o jovem soldado de 21 anos se envolveu com a manifestação rebelde, civil-militar, Intentona Comunista, que tinha dentro do quartel alguns oficiais filiados ao PCB e que lideraram a rebelião que culminou com a tomada do governo estadual, durante três dias, em que o sapateiro José Praxedes foi designado governador interventor.

Com o desbaratamento da revolta e consequente prisão de todos os militares envolvidos, foi preso e enviado a um presídio de Pernambuco de onde só saiu com a anistia concedida por Getúlio Vargas aos soldados que participaram do levante por seguir ordens dos oficiais revoltosos.

Mas não conseguiu escapar da perda dos direitos políticos, perdendo a função no Exército e tendo que buscar trabalho em terras de um parente na cidade de Santana do Matos. Lá conheceu a jovem Francisca das Chagas Pereira, Nenzinha, com quem iniciou namoro e logo foi viver com ela em Ceará-Mirim, já que em Natal era praticamente impossível conseguir algo tendo sido preso por causa da Intentona.

Já em meados da década de 1940, voltou enfim para Natal, recuperou o direito de voltar a vestir o uniforme do Exército e de cumprir serviço no quartel do Centro de Natal. Viveu intensamente a vida militar durante o período da Segunda Guerra e por meses deu guarda nas areias da Praia de Ponta Negra, diante dos supostos riscos de ataque das forças do Eixo, principalmente a Alemanha.

Do casamento com Dona Nenzinha, teve quatro filhos, Graco Medeiros, nascido em 1951; Alex Medeiros, de 1959; Lana Medeiros, de 1961; e Zorilda Medeiros, de 1963. Ao deixar a caserna, foi atuar no comércio de tecidos por muitos anos, até se aposentar em meados dos anos 70.

Luiz Cleodon, meu pai, foi um homem centrado em valores morais e éticos que não revelavam o pouco conhecimento escolar, mas expunham a todos um cabedal de sapiência bem própria de quem aprendeu com a vida. Foi a vida toda um ser carinhoso com os filhos e caridoso com quem lhe pedia auxílio. De pouca conversa e muita reflexão, só falava o necessário, e não tolerava gente falastrona e adepta de gabolice.

Faleceu em julho de 1993, prestes a completar 79 anos, e neste 5 de novembro faz 105 anos do seu nascimento. Sempre me orgulhei do meu velho, do seu olhar de passarinho às vezes perdido e às vezes apontando as portas do firmamento. Durante mais de um ano após sua morte, eu usei suas meias, para jamais desviar do mesmo caminho reto que ele trilhou.

Quando adolescente, adorei saber que seu aniversário era no Dia Internacional da Cultura, data criada pela ONU. E se ele não tinha uma vasta cultura, sabia os rumos para que os filhos a ela chegassem, sempre incentivando a leitura. Devo a ele o gosto pelos livros, sou eternamente grato por me encher de revistas em quadrinhos e garantir ingressos de cinema até quando não tinha o valor no bolso. Do quase nada material que ele não deixou, ficou um tudo de amor, de educação e de destemor com a vida.

O poema abaixo é do meu irmão, o primogênito de seu Luiz, pra muitos amigos o "Véio Lula", eternamente para mim e meus irmãos, papai.

"Cadeira na calçada
Na boquinha da noite
Ele era o guardião
Da palavra pronunciada
Em solilóquio ventríloquo
De águas passadas
Que até hoje movem o moinho do tempo.

Você foi meu Quixote
Nas minhas andanças
Eu, teu mais velho filhote
Que nunca passei de um Sancho Pança.

Você foi meu guerreiro
Meu eterno escudeiro
Sob as bênçãos de Nenzinha
A nossa rainha
Do clâ dos Medeiros.

Eu te saúdo, meu velho
Eu que não mereço
Calçar, sequer, os teus chinelos".

(Graco Medeiros)

       



04/11/2019
Um país tropical há 50 anos

Rio de Janeiro, meados de 1969, o Maracanã lotado com as torcidas do Botafogo e do Flamengo, o clássico que por quatro anos seguidos vinha impondo humilhação ao time da Gávea.

Um jogo abrindo o segundo turno, cujo primeiro havia sido conquistado pelo alvinegro de General Severiano, e que ficaria marcado para sempre como a quebra do tabu e a ascendência da ave urubu como símbolo dos rubro-negros e não mais como imagem pejorativa.

A vitória do Flamengo promoveria também o surgimento de uma das mais belas canções da MPB, País Tropical, que Jorge Ben (ainda sem Jor) compôs inspirado no jogo e embevecido pela paixão clubista.

Muitos anos depois ele disse ter composto após telefonar para uma paquera chamada Tereza logo após os 2 x 1 no Botafogo. A moça foi homenageada na canção e também em "Cadê Tereza", no mesmo LP que ele lançaria em novembro daquele 1969.

Se existiu ou não a "nega chamada Tereza", a verdade histórica é que o rei do samba-rock namorava na época com a baiana Gal Costa e foi a ela que ele entregou a música para ser cantada no show da casa noturna carioca Sucata.

Com acesso às turmas da Bossa Nova, Jovem Guarda e Tropicália, Jorge não tinha pinimba com ninguém, talvez o único artista a se apresentar nos programas de Elis e Jair Rodrigues, de Caetano e Gil e no de Roberto Carlos.

Aliás, a popularidade musical do Brasil em 1969 era dividida entre o Rei e Wilson Simonal. E foi com o cantor de Sá Marina, sucesso absurdo de 1968, que Jorge foi assistir a um ensaio do show da namorada Maria da Graça.

Um mês depois, Simonal telefonou e convidou o amigo a dar uma passadinha na gravadora. Estava gravada País Tropical, que sairia em julho e ganharia as rádios e as bocas de Norte a Sul. Quando Gal gravou, já era um hino nacional.

Coincidência ou não, a gravação de Simonal começa com uma gargalhada e um discursinho: "em homenagem à graça, à beleza, o charme e o veneno da mulher brasileira". Nem ele nem Gal jamais insinuaram aquela graça no início.

Neste novembro faz exatos 50 anos da versão do dono, já que Jorge Ben foi o último a lançar País Tropical, numa pegada toda peculiar. As três gravações tocaram pelo Brasil, sendo a de Simonal um vetor de arrebatamento musical.

Quando ouço o hit, em qualquer versão, as imagens de 1969 saltam na memória afetiva, me vejo colando figurinhas, lendo gibis, vendo seriados na TV, atravessando a cidade nos ônibus, as peladas no barro da rua Mário Lira.

O médico e poeta Napoleão Paiva relembra bem: "De todas as emoções, nada igual a Wilson Simonal no palco do elegante América, com suingue que só a ele Deus deu, cantando Moro num país tropical, mó num pá tropi... Genial".

A tentativa de dar a Jorge e Simonal as suspeitas dadas aos Incríveis e a Dom e Ravel sumiu com o sucesso e com Aquele Abraço, de Gil. Meu mano Graco Medeiros diz que quase se deixou levar pelo patrulhamento ideológico.

"Aquela música me torrava o saco com os versos do Flamengo, mas no íntimo eu gostava, não estava nem aí para as patrulhas que pegavam no pé até de Roberto Carlos e dos Incríveis. Ainda moro num país tropical, patrulheiros".

A canção é a síntese do suingue e da batida de Jorge, bem representados por Simonal e Gal há 50 anos. Bem disse Caetano: "Jorge é um homem que habita um país utópico trans-histórico, aceito por diferentes tendências musicais".

       



03/11/2019
A jogada da narrativa

Junte numa mesma mente fantasiosa o fanatismo esportivo com o fanatismo político e temos um bicho híbrido para desafiar as classificações sociológicas e os perfis psicológicos.

A mais cega e radical seita religiosa talvez não forme alguém semelhante, por maior e mais maluco que seja o seu preceito filosófico, se é que haja espaço para alguma filosofia na maluquice e nos surtos de delírio. Quando uma só cabeça tem cores clubista e partidária, sai de perto.

Tenho memória da mais tenra idade anterior à puberdade das manifestações de paixão ensandecida nas campanhas políticas em Natal, com bandeiras verdes e vermelhas sendo rasgadas e queimadas durante as passeatas que desciam a rua Padre Pinto em direção à grande ladeira que dava início ao bairro do Alecrim. Seguidores de Aluízio Alves atacavam as bandeiras de Dinarte Mariz e vice-versa, todas pregadas nos telhados das residências.

Nos dias de hoje, as barulhentas e bagunceiras torcidas organizadas dividem com os militantes de partidos o grotesco ranking da delinquência civil. Talvez com menor periculosidade, posto que não agem como cúmplices de crimes.

Superior aos dois exemplos na escala da imbecilidade, está a junção de ambos: o fanático futebolístico com viés ideológico. Não tem quem aguente a chatice de uma figura assim. É um espécime de zé mané elevado ao quadrado.

Há duas semanas, desde que explodiram os conflitos no Chile, com uma horda de baderneiros tocando fogo em automóveis e depredando prédios públicos e privados, tenho lido nas redes flamenguistas-petistas vomitando besteiras.

Temem que o "governo fascista" (sic) de Sebastián Piñera tente alguma jogada para impedir os manifestantes de ocupar o Estádio Nacional e de lá bradar ao mundo os acontecimentos nas ruas de Santiago e demais cidades do país.

Os delirantes fazem logo uma ligação do governo chileno com a CBF, que seria cúmplice em driblar as intenções rebeldes e assim evitar a propagação do conflito. Ora, em plena era digital, impossível não gargalhar com a tal tese.

Deve ser fruto da militância imberbe, emulada por leituras retroativas que remetem aos tempos do embate entre os antagonistas Salvador Allende e Augusto Pinochet, no distante 1972, quando os militares tomaram o poder.

Naquela época, sim, era possível se evitar o trâmite da informação. Aliás, foi pelo Chile que os exilados brasileiros iniciaram um esquema para divulgar o regime militar durante o período da Copa de 1970, disputada no México.

Montaram uma falange chamada FBI (Frente Brasileira de Informação) que enviava textos para a imprensa do mundo inteiro, escritos em português, inglês, francês e espanhol. Alguns exilados foram do Chile para o México

Entre eles, o saudoso jornalista Márcio Moreira Alves, que encontrou João Saldanha no Museu de Antropologia da capital mexicana para que este fizesse chegar aos jogadores da seleção alguns panfletos com denúncias de torturas.

Um dos textos em inglês fora enviado à BBC pela inglesa Jean Maxine Callado, então esposa do escritor Antônio Callado, autor do romance Quarup e da reportagem especial Vietnã do Norte, ambos publicados pouco tempo antes.

Imaginar que Flamengo vs River é o grande canal para propagar o quebra-quebra nas ruas do Chile é viajar num delírio militante, num buraco de minhoca cerebral, que transportam a realidade do terceiro milênio para o próprio atraso.

       



01/11/2019
A psicosociologia retroativa

Winston Churchill dizia que "fanático é aquele que não muda de ideia nem de assunto". Mais de meio século depois da chamada "revolução redentora", da tomada do poder pelos militares brasileiros, toda a narrativa do discurso de esquerda no Brasil cisca no terreno do passado.

Isso se repete de maneira caricata desde a redemocratização, desde a eleição direta para governador em 1982, a primeira após os cinco generais-presidentes entre 1964 e 1985.

Nesses mais de cinquenta anos, as palavras de ordem vomitadas na cantilena do vitimismo são todas galgadas naquele passado que ficou para os anais da história.

Dos primeiros candidatos pós-anistia até agora, pouca coisa mudou no meio e na mensagem da esquerda jeca, cospe uma ira retroativa como se o País do terceiro milênio estivesse com as ruas tomadas de milicos, de urutus e caminhões, dividido entre baionetas e megafones, cassetetes e molotovs.

É risível a disenteria mental de alguns ungindo um corrupto compulsivo, larápio do erário, ao patamar de pai da Pátria. Incrível como na América Latina a esquerda ergue em pedestais de mentira os proto-heróis da sua falácia.

Nas redes sociais, nas ruas, nas faculdades dos "manos de umanas", há um coletivo de imbecis, vivendo matutos delírios em drogas sociológicas de metrópoles. Nas hostes do PT, então, habitam centenas de um novo bicho.

É o militante zé mané, aquele que repete um mantra de apoio incondicional a Lula et caterva, de uma maneira similar aos fanáticos religiosos em suas pregações de papagaio, dando ressonância a teses fabricadas pelos líderes.

Lembram aqueles garotos de prédios históricos (lembram de Olinda?) que decoravam texto e que quando interrompidos precisavam voltar ao início pois o decoreba só funciona num fôlego só, numa tagarelada de ponta a ponta.

Dias desses, numa sequência de três ou quatro observações, ouvi um zé mané da horda petista cuspir a oferenda verbal ao deus preso em Curitiba. É o remake dos anos sessenta, vociferando com o capitalismo e a burguesia.

O zé mané é a versão ideológica dos doidelos dos antigos filmes de bang bang, defendendo o seu mocinho como um cão treinado, sem a menor preocupação de passar ridículo por sua estatura moral de marionete.

Quando defende as teses socialistas, para endeusar falsos heróis dessa contemporaneidade de fantasia, se torna um misto de "Chance", do filme Muito Além do Jardim, de 1979, e "Forrest Gump", do filme homônimo, de 1994.

Um outro zé mané, noutra vez, disse que o socialismo vai governar os EUA e que o mercado financeiro será reduzido na revolução operária internacional, que ele crê que já começou. Seus ícones são Lula, Che Guevara e Marielle.

Versão amalucada de Policarpo Quaresma, o patriótico personagem de Lima Barreto, o zé mané preenche o vazio do intelecto lendo sobre a revolução cubana e navegando nos sites Carta Maior, DCM, Carta Capital e 247.

Afeito a identificar a psicopatia dessa gente, descobri uma espécie de bullying para torturar suas convicções políticas. Quando começa a cagar regras e conceitos canhotos, baforo um charuto e digo: Olavo é maior do que Gramsci.

       



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