BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/02/2020
100 anos de Gilda

Há exatamente um século, em 12 de fevereiro de 1920, nascia Heleno de Freitas, o primeiro jogador do futebol brasileiro que reunia numa só pessoa o talento do craque, o charme do astro de cinema, a valentia de um gangster e a malemolência de malandro carioca.

Fora dos padrões de época, era culto, formado em Direito, pinta de galã e um temperamento na mistura de Almir Pernambuquinho, Edmundo e Romário. Heleno o foi nosso primeiro bad boy.

Encantava mulheres com seu físico e galanteios, e atraía homens com jogadas incríveis. Genial e genioso, ao tempo que dava dribles desconcertantes também trocava sopapos, com um espírito conflituoso e um corpo atacado pela sífilis, um fantasma que o acompanhou até à morte.

Disse dele Armando Nogueira: "O futebol, fonte das minhas angústias e alegrias, revelou-me Heleno de Freitas, a personalidade mais dramática que conheci nos estádios do mundo".

Atuou no Fluminense, Madureira, Vasco, Boca Juniors, Santos Junior Barranquilla, América-RJ, mas foi no Botafogo onde construiu em 8 anos a mística do seu nome, defendendo também por 4 anos a seleção brasileira.

A estampa de "latin lover", sempre bem vestido, os cabelos engomados com gel e dirigindo carrões foi mais que suficiente para gerar comparações com a estrela americana Rita Hayworth, que em 1946 interpretou a vedete Gilda.

A bela mulher, sensual, tipo fatal, pronta para a aventura e para a vingança, foi um prato cheio para as torcidas contrárias. Rubronegros, cruzmaltinos e tricolores logo trataram de batizar o matador bonitão do Botafogo de Gilda.

No cartaz do filme, a chamada "Nunca Houve uma Mulher como Gilda" provocou paixões pela diva de Hollywood em todas as partes do mundo. O mesmo acontecia com a figura de Heleno dando seus shows nos gramados.

O apelido, evidentemente, era uma denunciadora provocação com sua visível vaidade, mas que ele tirava de letra, assumia com muito sarcasmo e muitas bolas nas redes adversárias. O gramado era um tablado a dançar os zagueiros.

Os mais distintos intelectuais também foram enfeitiçados pelo futebol e pelo comportamento de Heleno. O historiador e poeta uruguaio Eduardo Galeano, ao assisti-lo, o chamou de "Cara de Rodolfo Valentino e humor de cão raivoso".

Quando foi jogar numa liga pirata da Colômbia, criada por milionários rebeldes, e onde estava também o gênio Alfredo Di Stefano, ele chamou a atenção do escritor Gabriel Garcia Marquez, que o definiu "autor de romances policiais".

Conterrâneo do craque, o mineiro Roberto Drummond disse que Heleno era "aquele que aqui na Terra foi um deus, que multiplicou gols como se fossem peixes". Até o poetinha Vinícius de Moraes, craque das letras, se encantou.

O autor de Garota de Ipanema se inspirou em Heleno para escrever "O Poema dos Olhos da Amada", homenagem ao casamento do jogador com a filha de um diplomata seu amigo. Depois virou música gravada na voz de Sílvio Caldas.

Na passagem pelo Boca Juniors, assanhou corações de belas hermanas e dizem ter provocado instintos libidinosos até em Eva Perón, que mesmo sem provas cabais não elimina sua fama de mulherengo e conquistador sem limites.

Viveu entre o sétimo céu e o primeiro inferno, ganhou grana, se antecipou em duas décadas ao irlandês George Best, mas foi vencido pela bebida, drogas e pela sífilis, a pantera que foi companheira inseparável, a la Augusto dos Anjos.

Único talento comparado ao maior craque da época, Leônidas da Silva, foi chamado de "diamante branco", o avesso cromático. E na Colômbia, uma estátua em Barranquilla simplificou sua grandiosidade no título "O Jogador".

       



29/01/2020
Nossos tataranetos astronautas

O escritor suíço e pesquisador de pseudociência Erich von Däniken publicou em 1968 o livro "Eram os Deuses Astronautas?", que se tornou um clássico de sci fiction e até hoje é sucesso de vendas.

Quando eu iniciei o ginásio, em 1972, uma edição apareceu lá em casa, trazida por meu mano por empréstimo ou comprada na pequena livraria O Templário, ponto de encontro de roqueiros, esotéricos e hippies que coloriam a estamparia humana do Grande Ponto, em Natal.

Eu já era ligado em aventuras de viagens no tempo, tanto nas aventuras dos super-heróis dos quadrinhos quanto nas séries da TV, como Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço e Quinta Dimensão.

Então a obra de Däniken virou leitura obrigatória; era prazeroso gazear aulas para folheá-lo sentado nas calçadas do colégio ou do Banco do Brasil, ali na Rio Branco. O livro produzia altos papos sobre visitantes das estrelas e de pilotos de aviões oriundos do nosso futuro.

Os anos passaram e o tema sempre esteve em evidência, envolvendo até mesmo grandes e renomados cientistas. Muitos livros, revistas e filmes foram produzidos sobre viagem no tempo; e são inúmeros os programas de TV.

Nesse tempo todo, gente de todas as idades e nacionalidades narra avistamentos de objetos voadores, e só aumentam as narrativas sobre contatos imediatos que os governos e militares teimam em esconder do povo.

E também cresceu a tese de que os prováveis extraterrestres a bordo de tais naves podem ser na verdade homens do futuro se deslocando no tempo com algum objetivo científico ou simplesmente gozando de um lazer da sua época.

No caso mais famoso de suposta visita interestelar, na cidade americana de Roswell, em 1947, o oficial da Marinha chamado George Hoover revelou anos depois que os viajantes capturados ali eram apenas humanos extratemporais.

O tema está voltando à mídia com o lançamento do livro "Eles Somos Nós no Futuro", do professor Michael Masters, da Universidade de Tecnologia de Montana, EUA. Diferente do velho Däniken, ele não é um pseudocientista.

Além de ser um pesquisador sobre fenômenos ufos, Masters também é professor de antropologia. Ele acredita que com a velocidade dos avanços científicos, é possível que nossos descendentes se desloquem no tempo.

Nem a tese de Stephen Hawking o faz desconsiderar suas suspeitas. Antes de morrer, o inglês disse que "a melhor prova de que a viagem no tempo é impossível é que não somos invadidos por uma legião de turistas do futuro".

Masters diz que os viajantes tanto podem ser cientistas, historiadores ou linguistas colhendo informações sobre o passado deles, ou turistas ricos curiosos de testemunhar os períodos favoritos da história da humanidade.

O autor declarou que o livro não foi escrito para convencer ninguém de uma pretensa tese, mas apenas estimular uma nova discussão a partir de outra abordagem que possa servir para as conclusões dos crentes e dos céticos.

"Adotei uma abordagem multidisciplinar para tentar entender as esquisitices do fenômeno. Algo está acontecendo aqui, e devemos conversar sobre isso. Temos que estar na vanguarda quando se trata de descobrir o que é", disse.

Para ele, a possibilidade de que os visitantes sejam nós mesmos é de longe a mais plausível. "Sabemos que estamos aqui, que os humanos existem, e sabemos que nossa tecnologia será mais avançada no futuro", concluiu.

Numa das vezes em que minha turma papeava sobre ficção na calçada do colégio Winston Churchill, eu brinquei com uma colega chamada Solimar, que olhou para um cara bonitão: "cuidado, ele pode ser seu tataraneto piloto".

       



27/01/2020
Consagração no Grammy Awards

A cantora e compositora Billie Eilish, de apenas 18 anos, arrebentou domingo na festa do Grammy, ganhando 6 gramofones de ouro (a estatueta do evento) e se tornando o artista mais jovem com tamanha dimensão. Em julho do ano passado, publiquei aqui um artigo sobre a garota, avisando aos leitores para anotarem o nome dela. Segue abaixo, pra reforçar a certeza que eu tive quando a vi e ouvi pela primeira vez no YouTube.

O Século de Billie

Billie Eilish. Anote esse nome. É uma garota de apenas 18 anos, americana com ar adolescente que entrará para a história da música como a primeira pop star do século XXI. Nasceu em Los Angeles, em dezembro de 2001, e está simplesmente reescrevendo o papel do songbook contemporâneo.

Billie uma cantora, compositora e musicista rebelde (também, com um nome desse de uma diva transgressora) que fez sua primeira música com 11 anos. Aos 16 chutou o pau da barraca dos candidatos a produtores e foi manufaturar seu talento na companhia de um irmão, um trabalho em família.

Hoje com a idade do iPod, ela é a essência pura do seu tempo, já considerada a primeira virtuose do terceiro milênio, compondo canções que falam desse cotidiano de instantaneização da loucura, de interação das angústias e sofreguidão pela acumulação. Ela canta sangue, morte e pesadelo.

Em 2016, ainda uma debutante e já independente do irmão Finneas que seguia uma carreira confortável, ela surpreendeu todo mundo com o single "Ocean Eyes", que caiu no gosto das tribos e logo viralizou nas redes sociais. A menininha mostrando o cartão de visitas de embaixadora do eletropop e indie.

Sobre a primeira composição, aos 11, é uma letra inspirada no badalado seriado Walking Dead, um universo de zumbis e violência, perfeito como espelho da garota malcriada que quer atirar sua raiva na cara do planeta, como um aviso de que só quer espaço para desenvolver sua forma de atuar.

Legítima representante da chamada geração X, Billie Eilish navega loucamente pelo rock, hip hop e até k-pop, sem se preocupar com o hit perfeitinho que por acaso seja imaginado por quem a olhe como a gatinha da cidade dos anjos. Um jornalista de lá viu nela uma releitura do Nirvana do fim século XX.

E tem mais, sua tenra juventude é desproporcional aos interesses de talentos experimentados; quando faz questão de afirmar não ter interesse que a toquem no rádio, que o que quer mesmo é ser curtida nos discos, ignorando a tese de que tanto o CD quanto a bolacha preta estariam obsoletos no século dela.

O sucesso estrondoso do primeiro single resultou numa disparada série de outros em 2017, contaminando a todos os fãs já enfeitiçados pela bruxinha má. Vieram "Bellyache", em fevereiro; "Bored", em março; "Watch" e "Copycal", em junho; e aí o pipoco com o EP de estreia "Don't Smile at Me", em agosto.

Fisicamente, ela se apresenta em diversos formatos, com cabelos loiros, pretos, ruivos, maquiagem carregada, suave, mezzo hard mezzo rock. Seus vídeos transmitem a conjuntura sonora do seu tempo, como trailers de séries de horror, de aventura, um mundo nerd, punk, geek. Anote esse nome. Billie Eilish.

       



27/01/2020
Morre Kobe Bryant, lenda do basquete

O ex-jogador do Los Angeles Lakers, Kobe Bryant, 41 anos, perdeu a vida neste domingo, 26 de janeiro, em um acidente de helicóptero enquanto sobrevoava a cidade de Los Angeles.

O icônico número 24 dos Lakers estava com sua filha Gianna Maria, 13 anos, seis amigos e o piloto da aeronave. Todos morreram quando o dispositivo acabou atingindo o chão por causa, de acordo com as principais hipóteses iniciais da Polícia, da baixa visibilidade produzida por nevoeiro.

O helicóptero em que o astro da NBA estava voando era um Sikorsky S-76 Spirit, especificamente o modelo S-76B de 1991. Uma aeronave com a qual era costume ver Bryant se movendo por Los Angeles a partir de seu palco como jogador.

Desta vez, ele estava prestes a ir de sua residência, em Orange County, sul da cidade, para a Mamba Sports Academy, em Thousand Oaks, onde sua filha jogaria uma partida de basquete.

A trágica morte de Bryant comoveu o mundo e milhares de celebridades, do mundo esportivo, do show bizz e da própria mídia postaram mensagens desoladas nas redes sociais.

Ele era considerado por muitos analistas como aquele que mais se aproximou em talento do mito Michael Jordan.

       



20/01/2020
Magia e aniversário no Castelão

Ontem lembrei de um América x Palmeiras no Campeonato Nacional de 1973, tarde de domingo, antes do meu aniversário de 14 anos. O ingresso do jogo foi presente de papai, um mimo muito caro para um menino pobre das Quintas.

Além da data especial, havia outros estímulos para o meu desejo de ir ao Castelão, como a boa campanha americana e a presença da estampa elegante de Ademir da Guia, uma versão sarará do negão Alberi, o gênio da cidade.

Meia-dúzia de moleques, quase todos vestidos em camisas vermelhas, apanhou um ônibus da Empresa Unidos até o cruzamento da Bernardo Vieira com uma Prudente de Morais ainda de barro.

O longo percurso até o estádio foi feito a pé, num cenário de interior. Eu me acostumara, desde a Minicopa 1972, a ficar no setor costumeiramente ocupado pela torcida do ABC, mas naquela noite, me juntei à torcida do América, onde ficou a maior parte dos colegas.

O time natalense tinha uma plêiade de grandes jogadores, a começar pelos dois zagueiros, um de notoriedade nacional, o gaúcho da seleção brasileira, Scala. O outro, produto doméstico, um garotão de Macaíba chamado Djalma.

Nas laterais, dois negros de grande vigor físico e habilidosos, Ivan e Cosme. E no meio-campo o apoquentado Paúra, madeira de dar em doido, e o discreto Careca. O dentuço Mário Braga, zagueiro duro, ainda entrou no lugar de Ivan.

Na frente - naquele tempo jogava-se e escalava-se um quarteto - o genuíno ponta direita Bagadão, João Daniel fazendo a ligação com os volantes, o matador Élcio e na ponta esquerda, cheio de reputação nacional, Gilson Porto.

O goleiro do Mecão era Ubirajara, que tinha feito miséria contra o Atlético Mineiro anteriormente. Na trave inimiga estava o jovem arqueiro reserva da Copa de 1970, Leão, protegido por Eurico, Alfredo, Luís Pereira e Zeca.

A melhor dupla de meio-campo daqueles anos, com a devida vênia a Zé Carlos e Dirceu Lopes e Carlos Roberto e Gérson, era sem dúvida Dudu e Ademir da Guia. Nem Lennon & McCartney compuseram tantas coisas belas quanto eles.

No ataque palmeirense, o velocíssimo Edu Bala, o boa pinta e bigodudo Careca, o imprevisível Fedato, que não era craque mas tinha faro de gol, e o ponteiro Ronaldo, que naquele ano seria tricampeão do Campeonato Nacional.

Por dois ou três dias eu comentei na rua e na escola as jogadas daquele jogo como se estivesse distribuindo as fatias do bolo da festa de aniversário que não houve. O Palmeiras venceu por 1 x 0, gol de um tal Edson Cegonha.

Duas jogadas ficaram marcadas na memória, uma de Ademir da Guia e outra de Scala, como sinais de que os deuses da bola queriam seus filhos num empate de genialidade. Como coadjuvantes, os atacantes Fedato e Bagadão.

Em dois longos lançamentos, as imagens do talento. Um rasteiro para Ademir, que pisa na bola ignorando sua velocidade. E um rodopio de várias voltas em torno de si mesmo com o rival rodando atrás como quem procura o intangível.

O outro lançamento, pelo alto, cairia sob domínio de Fedato, se Scala não enfiasse a perna por entre as duas do adversário com a bola amortecendo no seu pé e puxada para si, sem desgrudar-se da sua chuteira esquerda.

Uma noite espetacular para os olhos de um menino, um aniversário inesquecível na quarta, para quem aprendeu a cultuar a bola dos gênios. Há décadas não entro nos estádios. Eles estão sem os resíduos daquela magia.

       



19/01/2020
Vem aí De Niro e DiCaprio

Todas as premiações do cinema e televisão que antecedem ao Oscar estão criando aquele clima sem grandes expectativas, principalmente quanto aos melhores atores e atrizes da temporada.

No domingo, mais uma vez, o que vimos foi a repetição de prêmios para Joaquin Phoenix, Brad Pitti e Laura Dern, que desde o começo do ano acumulam estatuetas e bustos por suas atuações em "Coringa", "Era Uma Vez... em Hollywood" e "História de um Casamento".

Mas a grande novidade durante a cerimônia do SAG Awards, honraria ofertada pelo Sindicato dos Atores de Hollywood, acabou sendo uma notícia em primeira mão sobre a dobradinha de Robert De Niro e Leonardo DiCaprio num filme do diretor Martin Scorsese, que só havia dirigido a dupla num curta-metragem realizado em 2015. O fato foi revelado quando DiCaprio entregou a De Niro o prêmio especial da noite, uma homenagem aos 50 anos de carreira.

Martin Scorsese tem especial predileção pelos dois astros de gerações diferentes, tendo realizado nada menos do que quase vinte filmes com ambos, sendo treze com De Niro e seis com DiCaprio, e um curta onde usou os dois.

Quem ainda estava extasiado com o extenso "O Irlandês", em cartaz na Netflix, não imaginava que Scorsese fosse repetir, ou tentar superar, a aura do evento histórico que foi reunir três caras fundamentais ao cinema sobre gângsteres.

E o que era apenas rumor, tomou corpo de revelação na quase confirmação de que De Niro e DiCaprio estarão sob a direção do nova-iorquino no filme "Killers of the Flower Moon", um thriller policial baseado em livro de David Grann.

O livro se baseia num caso dos tempos de primeiros anos do FBI, na década de 1920, sobre uma série de assassinatos num campo de petróleo. Lançado em 2017, foi eleito pela revista Time um dos dez melhores daquele ano.

A parceria do diretor Scorsese com De Niro vem desde 1973, com o clássico "Caminhos Perigosos". Foi Brian De Palma quem juntou ambos, que fariam em 1976 outro filme espetacular, Taxi Driver, alçando ambos à parceria perfeita.

Anos depois, De Niro repetiria o gesto de De Palma dando referências sobre Di Caprio ao cineasta Scorsese e recomendando seu nome para seu novo filme, "Gangues de Nova York", de 1993. O menino de 19 anos arrebentou na fita.

Agora será o sexto filme Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio, que com ele fez "O Aviador", "Os Infiltrados", "Ilha do Medo" e "O Lobo de Wall Street". Na única vez que o juntou com De Niro foi no curta "The Audition", em 2015.

Já as produções com Robert De Niro são uma seleção quase interminável, uma sucessão de êxitos como "New York, New York", "Touro Indomável", "Cabo do Medo", "Cassino", "Os Bons Companheiros", "O Rei da Comédia", entre outros tantos. Quem venha a dobradinha dos monstros.

       



18/01/2020
O guru deles outros

Até que demorou, mas enfim veio a boa nova. Depois de Bohemian Rhapsody, estrelando a vida e carreira de Freddie Mercury, e de Rocketman, contando a jornada mítica de Elton John, a onda dos filmes tipo biopic anuncia que o poeta maior do mundo pop, Bob Dylan, vai também para a grande tela encarnado pelo jovem ator Timothée Chalamet, o novo queridinho dos tapetes vermelhos e das editorias de cinema que atuam no entorno dos estúdios de Hollywood.

Os jovens leitores perguntarão: como Timothée, em seus 24 anos, vai interpretar aquele velhinho de 79 que ganhou o Nobel da Literatura? É que o filme vai se concentrar nos primeiros anos da carreira, a fase mais fértil começo de 1960.

A época em que os primeiros sucessos, hoje clássicos, se tornaram símbolos dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Das canções "Masters of War", "Blowin in the Wind" e "A Hard Rain's A-Gonna Fall", todas de 1963; "The Times They are a Changin", de 1964; e "Visions of Johanna", de 1966, entre outras.

Essa fase também engloba grandes produções de baladas amorosas, presentes nos primeiros discos. O roteiro mostrará aquele jovem Bob Dylan de visual country-rock, na fronteira da adesão à guitarra elétrica que chocou os fãs.

Poucos ícones do pop rock conseguiram como Bob Dylan ser ídolo de ídolos, um influenciador dos grandes nomes que surgiram na cena cultural dos anos 1960. Nem mesmo o rei Elvis Presley fez a cabeça de tanta gente incrível.

Voz e bandeira dos protestos da década underground, o poeta do Minnesota teve relevante participação na reviravolta criativa de artistas como os quatro rapazes dos Beatles, que na travessia do Atlântico foram pedir-lhe a benção.

Pelo menos por enquanto, o título do filme será "Going Eletric" e tem o próprio Dylan acompanhando de perto todos os passos da pré-produção e do roteiro, inclusive com a aprovação do papel para o franzino francês Thimotée Chalamet.

Um fato curioso teria feito o jovem cair no gosto do cantor: o estilo despojado das suas roupas, que lembram o velho look dos tempos iniciais do artista. Além dos cabelos desgrenhados e dos modelos de óculos escuros que o ator usa.

Não se sabe ainda se Timothée interpretará algumas canções, como fez Rami Malek numas cenas de "Bohemian Rhapsody", ou terá o truque de fusão de vozes que foi a tônica do filme de Mercury. Mas o rapaz tá ensaiando o gogó.

E também está tomando aulas de guitarra (não há notícias sobre a gaita) e também de violão, o instrumento inicial de Bob Dylan quando bebia apaixonadamente na fonte do velho Woody Guthrie, seu padrinho no folk.

Talento é o que não falta ao garoto, que em 2017 se tornou o terceiro mais jovem artista a ser indicado ao Oscar de melhor ator, pelo desempenho em "Me Chame Pelo Seu Nome", filme dirigido pelo cineasta italiano Luca Guadagnino.

       



17/01/2020
100 anos de Pichard

Os coroas podem abrir hoje as caixas que guardam as revistinhas dos quadrinhos eróticos que curtiram nos anos 80, hoje amarradas para evitar que os filhos as danifiquem ou molhem no banheiro.

Porque hoje é dia comemorar os 100 anos de nascimento de uns dos gênios do gênero, o francês Georges Pichard, que compunha o clube dos preferidos dos garotos de antanho ao lado de Guido Crepax, Milo Manara, Alex Varenne e outros de igual talento.

Na histórica coleção Ópera Erótica, lançada no Brasil pela editora Martins Fontes nas duas últimas décadas do século XX, duas edições de Pichard foram marcantes, "A Condessa Vermelha" e "Carmem" (sua versão safada de Mérimèe).

Nascido em 17 de janeiro de 1920, Georges Pichard iniciou estudos de desenho na Escola de Artes Aplicadas de Paris, onde retornaria como professor. Tinha 26 anos quando passou a trabalhar como ilustrador, em 1946.

Dez anos depois, em 56, já com passagens por várias revistas, incluindo Le Rire e Les Veillés des Chaumières, ele estreou precisamente nos quadrinhos com Miss Mimi in La Semaine de Suzette. A virada viria na década seguinte.

Quando conhece o escritor Jacques Lob, em 1964, ele começa a ganhar dimensão ao criar paródias dos super-heróis dos comics americanos, destacando "Tenebrax" (na revista Chouchou) e "Submerman" (na Pilote).

Com os poderes da paródia, vem o grande salto para os desenhos eróticos, contando com o suporte de linguagem de Lob; e ambos lançam em 1967 "Blanche Épiphanie" na V Magazine, e em 1968 "Ulysse" na revista Linus.

Uma outra parceria surge em 1970 com outro George, sobrenome Wolinski, quando explode o seu personagem mais universal, "Paulette", que serviu de matriz anatômico para outras gazelas rabudas e peitudas pelos anos afora.

Em 1976 ele publicou na revista L'Écho des Savanes a gostosa "Caroline Choléra"; depois veio "Marie-Gabrielle" na Glénat, em 1981; e na sequência emplacou "Carmen" nas edições da Albin Michel a partir daquele mesmo ano.

Pichard fez outras dobradinhas com redatores, como Danie Dubos, talvez o mais criativo na composição de cenários para suas mulheres. E enveredou por roteiros de ficção científica de Jean-Pierre Andrevon na saga "Je Réserve".

A primeira edição de A Condessa Vermelha saiu em 1985 pela editora Dominique Leroy (sairia no Brasil mais adiante), iniciando uma fase de versões de grandes clássicos, sacaneando Don Juan, Apollinaire e o Kama-Sutra.

Mulheres enormes, voluptuosas, de olhares carregados nas maquiagens, no mais das vezes um misto de escravas brancas e vadias góticas. Um estilo fácil de reconhecer pelos olhares dos seus colecionadores de calos nas mãos.

Georges Pichard se foi em junho de 2003.

       



15/01/2020
Meu companheiro de jornada

Durante o quinto ano primário, no verão de 1971, minha geração se submeteu às provas do Exame de Admissão, um pequeno vestibular para acesso ao ginásio. Fiz as provas, confiante, e curti as férias de final de ano na expectativa de trocar de mundos, sair do pequeno Grupo Escolar Felizardo Moura, nas Quintas, e entrar num dos colégios estaduais de reconhecida competência. Quando o ano virou, o resultado foi publicado nos três jornais da cidade.

A lista saiu num domingo e meu pai comprou a edição de O Poti, mas nem ele, nem eu, conseguiu ver meu nome entre os aprovados. Eu não queria crer na reprovação, ciente de ter feito boas provas. Papai foi buscar a Tribuna, mesmo sabendo que a lista era a mesma distribuída pelo governo à imprensa. No entanto, para alegria geral da nação Cleodon, lá estava meu nome, aprovadíssimo, e a indicação da data de apresentação à minha nova escola.

Foi a única parte insatisfatória para mim, que não queria estudar no colégio Padre Miguelinho, por pura pirraça tribal. Mas no dia de se apresentar, fui lá e fiz uma via crucis de porta em porta procurando minha sala, que não aparecia.

Depois que a multidão de adolescentes sumiu nas salas, eu fiquei praticamente só em busca da minha, até que vi uma senhora com uma prancheta e com meu nome numa das páginas. Aí veio a alvíssara: eu iria para o Winston Churchill.

Tomei o ônibus e desci na Rio Branco, praticamente na calçada do trabalho de papai, a quem nem deu tempo avisar da mudança. Atravessei a avenida subi, feliz, os degraus do colégio, acompanhado por outro garoto retardatário.

Nos comunicamos explicando as mesmas situações, ele vinha a pé desde o Atheneu, onde também não queria ficar. Seu anjo da guarda deveria ser do mesmo time do meu, que também bateu as asinhas premeditando a mudança.

No ano anterior em que fizemos as provas, o Nobel de Literatura saiu para Pablo Neruda, autor da frase "eu acreditava que o caminho passava pelo homem e que dali tivesse que sair o destino". Eu a inverteria por causa daquele encontro.

O garoto nos degraus e que acabou na mesma sala que eu, e depois nas mesmas salas durante o ginásio, e depois na mesma sala do científico, e depois amigo fraterno, e depois parceiro profissional, era Carlos Soares.

Carlos foi meu amigo mais longevo até ontem, 48 anos sem intervalos, que o acaso juntou naquele começo de 1972 e que revirou o dito de Neruda: eu acredito que o homem passa pelo destino e que dali tem que sair o caminho.

Fui testemunha de toda a trajetória do imenso talento de Carlos, desde os quadrinhos em caneta ou lápis, nos roteiros que eu inventava, passando pelos retratos em bico de peno, perfeitos, até tornar-se o artista absoluto que ele foi.

Meu coração disparou no sábado quando meu filho, seu sobrinho, avisou que havia duas ambulâncias na porta da "tia Rose", o amor que Carlos emoldurou para sempre ao conhecê-lo através de mim. Avisaram que o quadro era grave.

Ontem, na notícia da sua morte, o coração não tinha como disparar, pois já passara os últimos dias no mesmo ritmo do primeiro susto. Desabei na mesa de um shopping, riacho nos olhos e sentindo algo arrebentado por dentro.

Das muitas e muitas coisas feitas juntos, meu pensamento estava naqueles degraus do Churchill, e eu pensava que se a vida me deu irmãos sanguíneos, o destino me deu um irmão de alma, um grandioso companheiro de jornada.

Nos meus delírios estudantis, contei com sua arte para compor folders políticos em off set, uma disparidade com os impressos em mimeógrafos. Arrisquei os primeiros textos críticos fazendo apresentação das suas telas em exposições.

Eu vi, numa tarde pardacenta em São Paulo - na rua México do bairro Brooklin - um célebre cearense abrir o tubo de papelão, desenrolar um trabalho de Carlos sobre a mesa e gritar: "porra, o boy é artista mesmo!". Era Belchior.

"Um dia vamos dar um banho de arte nessa Pauliceia, eu pintando e tu poetando", disse ele após os elogios do rapaz latino americano, feliz e sonhando nas ruas longe de casa. Não banhou São Paulo, mas pintou sonhos.

Nós, os cegos diante dos mistérios das cores, não imaginamos a visibilidade de algo tangível ou concreto numa tela do gênero abstrato. Carlos nos fazia ver nossos sonhos, nossos temores, nossos amores, em pinceladas mágicas.

De uma vida pessoal discretíssima, jamais afeito a grandes grupos, de uma timidez toda própria dos gênios, falava tudo por suas telas e por elas estabelecia uma relação íntima com o mundo. Acho que pintou mais que falou.

Meu velho companheiro de jornada era um reflexo no espelho, os defeitos comprometedores da saúde que eu tive, não havia nele. Viveu sem álcool, sem fumo e desde a adolescência criticava minha aversão a exercícios físicos.

Já escrevi outras vezes sobre a relação estreita que tenho com a morte desde a juventude; como mantenho a atenção nas sentenças dela. Cansei do formato em que ela só me tira e não devolve. Em seis meses, me levou três irmãos.

Carlos Soares foi o golpe mais forte, me pegou no contrapé da segurança emocional. Me resta Neruda, o mesmo daquele Nobel do ano das nossas provas de admissão: "vale muito ter lutado e cantado, vale muito ter vivido".

Agradeço ao destino por ter nos colocado naqueles degraus do colégio. Pode ter sido acaso o encontro, mas não foi acaso que nossa jornada virou uma grande amizade. Vou catar os cacos da dor da saudade e juntar numa moldura de belas lembranças. Tchau, meu irmão. Até a próxima prova.

       



09/01/2020
Morreu a moça do Prozac

A jornalista americana Elizabeth Wurtzel tinha a idade maldita dos ídolos controversos do mundo pop quando resolveu ser também escritora com a publicação do livro "Geração Prozac". Era 1994 e ela estava com 27 anos, o tempo ideal para bater as botas nas opções que Caetano cantou; de susto, de bala ou vício. Preferiu se agarrar a vida narrando as angústias da depressão que naqueles anos se instalara como fator sociocultural da sua geração.

Transportando uma autobiografia para a personagem principal, Liz, ela desnuda a alma afetada num relato duro e transparente, expondo a infância difícil, o caminho acadêmico turbulento em Havard, com apenas 18 anos, e toda a obscura e dolorida trajetória da depressão, o monstro neural que ataca sem aviso ou cerimônia, como disse um personagem de Hemingway, "gradualmente e depois rapidamente". Um ano após o livro, minha mãe se foi, devorada por esta que é a pior das doenças, que mata uma alma de dor.

Elizabeth Wurtzel faleceu na terça-feira, com apenas 52 anos, após uma batalha contra outra moléstia devastadora, um câncer que a consumiu na metástase a partir do seio. Morreu em Nova York, sua cidade berço e túmulo.

Ela deixou outros livros que também alcançaram sucesso de vendas e crítica, mas nenhum foi tão impactante e essencialmente basilar para estabelecer uma nova narrativa literária numa conjuntura incerta como foi aquela dos anos 90.

Com "Geração Prozac - Jovem e Deprimida na América, Memórias", o título original, Wurtzel sacudiu o mundo e abriu caminho para que muitas pessoas se agarrasse a alguma pilastra emocional para tentar superar a triste patologia.

Ao estender a alma rasgada no varal midiático, estimulou novas narrativas sobre o problema, e outras obras de outras mulheres (e homens) mergulharam no mesmo caminho, que, longe de ser autoajuda, foi um ponto de modulação.

O livro, que virou filme em 2001 (por ironia o ano que aterrorizou Nova York) com a atriz Christina Ricci (a exótica Vandinha da Família Addams), é um retrato ampliado de uma jovem pessoa em extinção também pelas drogas.

Elizabeth escreveu ainda "Cadela: em Louvor a Mulheres Difíceis" (98), "Mais Agora Mais Uma Vez: um Livro de Memórias de Vícios" (2001), e "O Segredo da Vida: Conselho do Senso Comum Para Mulheres Incomuns" (2004).

Em 2014, "Geração Prozac" ganhou uma segunda edição nos EUA. O tratamento do câncer reduziu o tempo para autógrafos e entrevistas. Ainda mais quando no ano seguinte a doença a obrigou a uma mastectomia dupla.

       



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