BLOG DO ALEX MEDEIROS

28/03/2019
O vestuário de David Bowie

A primeira vez que vi um homem vestindo uma calça vermelha foi no começo dos anos 70, numa imagem do rei Roberto Carlos que mais parecia uma alegoria da escola de samba Mangueira. A camisa era verde limão. Roberto iniciara aquela fase dos cabelos longos, do medalhão e sapato cavalo de aço.

A rebeldia inerente à idade e ao momento cultural do País já instalara em mim, além da cabeleira e gosto por rock "n" roll, uns surtos de iconoclastia que eu alimentava com aversão à autoridade escolar, às religiões e à seleção brasileira, então uma unanimidade nacional após a conquista da Copa 1970.

Aquele Roberto Carlos pós Jovem Guarda já não era referência de transgressão para minha geração, de modo que sua calça vermelha não gerou rasgos de influência. Mas numa certa noite de domingo, o então novo programa da TV Globo, Fantástico O Show da Vida, surgiu outra calça rubra.

Era uma matéria sobre o cantor inglês David Bowie, sobre um novo disco - creio que o LP Diamond Dogs - e sua postura irreverente, como um cara sozinho incorporando o grupo brasileiro Secos & Molhados, que estava na crista da onda naqueles dias. Dessa vez, a calça vermelha atraiu meu olhar.

Na reprodução que eu tentava fazer do psicodelismo no mundo pós Woodstock, aquela calça era o que faltava complementando o visual: camisa tingida com círculos irregulares brancos, tamanco de madeira, cordões coloridos no pulso, cinto de tecido, anel de caveira e cabelos nos ombros.

Na minha legião de ídolos do universo pop, Bowie não existia musicalmente. Adotei a cor da calça, mas levei anos para curtir algumas das suas canções. Quando mudei do bairro das Quintas para a Candelária, em 1975, fiquei algum tempo sem a música do camaleão britânico. Ouvi um disco na beira de 1980.

O título gigante do disco de 1972, "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", lembrava a lombra de Sgt Peppers e remetia às histórias em quadrinhos. Depois conheci outros LPs e hoje guardo "Aladdin Shane" (1973), Pin Ups (mesmo ano), Low (1977) e Black Tie White Noise (1993).

Hoje cedo, navegando em sites ingleses, dou de cara com uma matéria envolvendo a figura saudosa do grande artista do pop rock e do glam rock. Anunciando mais um dos tantos tributos que não param desde aquele janeiro de 2016 quando ele se foi na nave imaginária do anti-herói Ziggy Stardust.

A lendária marca de calçados e roupas, Vans, criada para vestir surfistas e skatistas, decidiu lançar uma coleção inspirada na performance fashion e comportamental de Bowie, como já fizera em relação ao pintor holandês Van Gogh e à banda inglesa Led Zeppelin. Bowie inspirou quatro modelos de tênis.

O Duque Branco do rock é homenageado com os modelos "Era", "Slip-On 47 V DX", "Sk8-Hi" e "Old Skool", onde a estética e os logotipos são baseados nos discos "Aladdin Shane", "Space Oddity" e "Hunky Dory". Vou comprar um par de tênis, mergulhar num vórtice ciclônico, e entregar para um garoto de calças vermelhas ali em 1974.

Aproveito e cumprimento Médici e Geisel.

       



27/03/2019
Chico Mão de Seda

A música brasileira e, especialmente a potiguar, está de luto com a morte do baixista Chico Guedes, que fez história por aqui nos anos 70 com o mítico grupo Impacto Cinco. Era considerado um dos grandes baixistas do país, acompanhou Geraldo Azevedo no início da carreira e estava há anos com Zé Ramalho.

Francisco Canindé Guedes Cavalcanti foi meu colega da geração 1959 (completou 60 anos em fevereiro). Convivemos durante o ginásio na escola estadual Winston Churchill no início dos anos 70. Testemunhei o processo black power em sua cabeça quando cabelos longos se tornaram rito de passagem.

Quando Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Led Zeppelin já haviam me invadido os sentidos, Chico me apresentou o LP Pet Sounds, da banda americana The Beach Boys. Seu encantamento nem era com o grupo, mas com a baixista convidada pelo líder Brian Wilson, a então balzaquiana Carol Kaye.

Kaye foi o ponto inicial que desencadeou o talento virtuoso de Chico pela vida afora. Ninguém talvez tenha colocado tanto arranjos em canções - e composto tantas - como a baixista que segue trabalhando aos 84 anos. Anos depois, baixista consagrado no Brasil, ele deu o "Método Kaye" para o amigo Babal.

Chico e Babal foram parceiros em várias canções, tendo quatro delas gravadas no primeiro disco do autor do clássico "Avenida Dez". Nos anos de gazeta, quando íamos ouvir rock na loja Discol, ele discorria sobre as técnicas do beatle George Harrison e do baixista Davey Rimmer (do Uriah Heep), que ele curtia.

Hoje cedo, assim que foi confirmada sua morte, o cantor Zé Ramalho postou nas redes sociais: "Comunico a todos os fãs o falecimento do baixista da minha banda... Chico era amigo fiel, honesto e músico dotado de alta técnica e virtuose. Foi um privilégio tê-lo comigo em tantas passagens das nossas vidas".

Bateu saudade da nossa juventude, lembranças claras dos seus primeiros sonhos musicais, os primeiros acordes. Viveu do seu talento, de uma técnica refinada que lhe abriu portas após a fase do Flor de Cactus, quando Geraldo Azevedo o levou pelos palcos do Brasil e a lua se levantou em cinemascope.

Partiu o músico da mão de seda e do coração de linho. Um desses artistas que conseguem fazer da vida uma aventura além desse xarope que agora nos invade os ouvidos e os sentidos. Adeus, Chico Guedes, valeu ter te encontrado lá nos tempos de sonhos e delírios juvenis. A gente segue, tocando o mesmo disco.

       



21/03/2019
O mestre Telê na história

Todos os anos, desde 1956, com um breve intervalo que culminou na junção com um troféu similar da FIFA, a revista esportiva parisiense France Football faz a entrega do prêmio Bola de Ouro que define o melhor jogador do mundo por temporada. Os maiores vencedores, todos sabem, são Messi e Ronaldo.

Na última edição, a publicação resolveu elencar os melhores técnicos de futebol de todos os tempos, com votos de jornalistas especializados, pesquisadores e figuras que vivem ou viveram o universo do esporte mais mágico do planeta. Na lista dos maiores, apenas um brasileiro em destaque.

No comando da melhor performance mundial de um time brasileiro, o São Paulo, e regendo uma das melhores gerações de craques do Brasil nas copas de 1982 e 1986, o mestre Telê Santana aparece na 35ª posição da lista, na frente de nomes consagrados como Rafa Benítez, Bobby Robson e Aragonés.

O trabalho de Telê no São Paulo jamais será esquecido pela imensa torcida tricolor, enquanto que sua passagem pela seleção brasileira ainda está na memória do mundo todo. A imprensa internacional sempre lembra do futebol glamouroso dos craques Zico, Falcão, Sócrates, Junior, Leandro, Cereso...

Na memória afetiva do povo brasileiro, a participação do Brasil de Telê na Copa do Mundo de 1982 tem mais peso emotivo, por exemplo, do que a própria conquista do pentacampeonato, em 1994 nos EUA. A pele de quem presenciou aquela orquestra até hoje arrepia ao lembrar dos espetáculos.

Telê Santana incorporou com seu futebol de pura fantasia o sonho coletivo da nação em busca de mudança. Todos esperavam modificações políticas e econômicas, assim como o resgate do bom futebol brasileiro carente de glória desde a geração de Pelé em 1970. O mestre nos deu fé no quase impossível.

Confiram a lista dos 50 técnicos escolhidos pela revista francesa. O holandês responsável pela revolução do futebol total da "laranja mecânica" encabeça, enquanto o maestro daquele time aparece em quarto. Telê Santana é um dos quatro sul-americanos elencados, sendo que os três são todos argentinos.


1. Rinus Michels (Holanda)
2. Alex Ferguson (Escócia)
3. Arrigo Sacchi (Itália)
4. Johan Cruyff (Holanda)
5. Pep Guardiola (Espanha)
6. Valeriy Lobanovskiy (Ucrãnia)
7. Helenio Herrera (Argentina)
8. Carlo Ancelotti (Itália)
9. Ernst Happel (Áustria)
10. Bill Shankly (Escócia)
11. Matt Busby (Escócia)
12. Giovanni Trapattoni (Itália)
13. José Mourinho (Portugal)
14. Miguel Muñoz (Espanha)
15. Brian Clough (Inglaterra)
16. Marcello Lippi (Itália)
17. Nereo Rocco (Itália)
18. Louis Van Gaal (Holanda)
19. Ottmar Hitzfeld (Alemanha)
20. Béla Guttmann (Hungria)
21. Fábio Capello (Itália)
22. Zinedine Zidane (França)
23. Viktor Maslov (Rússia)
24. Herbert Chapman (Inglaterra)
25. Jupp Heynckes (Alemanha)
26. Bob Paisley (Inglaterra)
27. Jürgen Klopp (Alemanha)
28. Albert Batteux (França)
29. Guus Hiddink (Holanda)
30. Udo Lattek (Alemanha)
31. Diego Simeone (Argentina)
32. Arséne Wenger (França)
33. Vicente Del Bosque (Espanha)
34. Jock Stein (Escócia)
35. Telê Santana (Brasil) ]
36. Vic Buckingham (Inglaterra)
37. Rafa Benítez (Espanha)
38. Hennes Weisweiler (Alemanha)
39. Bobby Robson (Inglaterra)
40. Dettmar Cramer (Alemanha)
41. Mircea Lucescu (Romênia)
42. Tomislav Ivic (Croácia)
43. Stefan Kovacs (Romênia)
44. Luís Aragonés (Espanha)
45. Frank Rijkaard (Holanda)
46. Otto Rehhagel (Alemanha)
47. Raymond Goethals (Bélgica)
48. Marcelo Bielsa (Argentina)
49. Antonio Conte (Itália)
50. Jean Claude Suaudeau (França)

       



20/03/2019
A televisão moribunda

O gigante Google tem todas as ferramentas para controlar uma rede de televisão ou de jornal, duas coisas que por décadas resguardaram sob a superfície da comunicação um profundo poder lucrativo nos negócios da propaganda. Mas o site de buscas preferiu investir na indústria dos games.

A marca vai investir num setor que está bem à frente da TV, do rádio e do jornal, que lidera em crescimento e faturamento os negócios do mercado de entretenimento nos EUA. Ao lado dos serviços de streaming, os games já dominam mais de 35% dos aparelhos de TV nos lares norte-americanos.

Quando a Amazon, outro gigante, comprou o outrora poderoso jornal The Washington Post, se imaginou que se estabeleceria uma corrida do mundo digital em busca do controle do velho universo analógico e de celuloide. Mas ao que parece é que o comportamento das atuais gerações anulou o assédio.

Há poucos dias noticiou-se a incrível realidade do mercado editorial em mais de 1,4 mil cidades americanas, que simplesmente perderam seus jornais impressos, a maioria deixando de circular e outra parte partindo para a opção digital, disputando mercado com zilhões de sites, blogueiros e youtubers.

A mídia como nós conhecemos no século XX vai se tornando literal e tecnicamente coisa do passado. A crise que desde os anos 90 atingiu a televisão aberta, hoje já chegou também nas TVs por assinatura, superadas nos PCs e celulares por atrações como a Netflix, YouTube, Prime Vídeo...

Outro fator preponderante para o esvaziamento da audiência televisiva é, sem dúvida, a indústria dos jogos eletrônicos, que agora chamou de uma vez a atenção do Google. Em países como os EUA, Japão, Coreia e Índia, os games já ultrapassaram a TV e o cinema no quesito preferência dos consumidores.

O Brasil talvez seja hoje o mercado onde é mais visível a decadência das televisões abertas, não apenas no tocante à qualidade da programação, mas também na audiência. Ficaram esquecidos no século passado aqueles índices do Ibope acima dos 50, 60, até 70 pontos. Agora mal se atinge dois dígitos.

Um exemplo foi no último sábado, quando o SBT comemorou a ultrapassagem em cima da Globo com a estreia do programa da adolescente Maísa, que registrou risíveis 9 pontos, mas o suficiente para vencer os 8,7 pontos da outrora poderosa dona da audiência. Atingir hoje mais de 30% é milagre.

Se nos países desenvolvidos a ameaça vem das novas tecnologias dos games e dos serviços de streaming, aqui ainda há a ousadia recente das emissoras de rádio, que fizeram da internet um braço de apoio a suas programações.

Após trocarem o sinal AM por FM, as rádios caíram nas redes, instalaram câmeras e agora também roubam o público das TVs.

       



20/03/2019
Temer e a turma toda

Na virada de século, em 1999, o Senado Federal era dirigido pelo baiano Antônio Carlos Magalhães, ACM para o mundo e para a história, enquanto que a Câmara Federal era presidida pelo deputado paulista Michel Temer. O primeiro liderava com altivez, o segundo com bagagem acadêmica e jurídica.

Um belo dia, a imprensa estampa a reação do coronel do PFL, que chamou o professor almofadinha de incompetente, invejoso, despeitado, sabotador e imoral. O motivo: divergência com a reforma do presidente FHC no âmbito do judiciário. Temer queria manter a justiça do trabalho, ACM queria extinguir.

Fazia só um ano que o filho do senador, Luiz Eduardo Magalhães, morrera de infarto fulminante aos 43 anos e esbanjando capacidade de liderança para governar a Bahia e, quem sabe, enfrentar Lula na corrida do Planalto em 2002. A presidência da Câmara com Temer era fruto do apoio pontual do falecido.

Palavras de ACM na época: "As coisas morais nunca foram o forte do senhor Michel Temer, a prova disso é a luta que ele faz pelo Porto de Santos". O professor de direito constitucional e direito civil desconversou e não rebateu.

Sua alternativa foi tentar desqualificar intelectualmente o velho babalorixá da política baiana, dizendo que o senador não entendia da pauta em questão. Numa nota, disparou: "Reforma do judiciário não é matéria para curioso. É para quem tem autoridade. Eu tenho por ser advogado e professor de direito".

ACM nem acusou a provocação e mandou de volta com desaforo e ironia: "Isso tem a ver com o temperamento do sr. Temer, que não aceita o sucesso dos outros, até por faltar-lhe estatura moral". E o acusou de impedir a votação do código de processo civil, por vil interesse nas prisões em instâncias inferiores.

E soltou uma indireta que ninguém na época, nem da imprensa, entendeu: "Ele não queria a CPI do Judiciário, porque não queria que se descobrissem as imoralidades que estamos descobrindo". Ontem, quando Michel Temer foi preso, décadas de corrupção apareceram acumuladas nas investigações.

Por 40 anos o elegante homem do PMDB (agora MDB) esteve no centro das decisões do maior partido do Brasil, articulando num seleto grupo - que toda a imprensa já sabe os nomes - os mais espetaculares esquemas de desvios de dinheiro público, sendo só nos últimos anos a gorda cifra de R$ 1,8 bilhão.

No auge da quadrilha de Temer, o PT se aproximou para garantir o sucesso da disputa eleitoral na sucessão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois partidos se entenderam e Temer foi ser o vice-presidente de Dilma Rousseff em duas campanhas vitoriosas, até assumir a cadeira da petista.

Faz trinta anos que escrevo diariamente em jornais, com alguns anos divididos em rádio e TV - e de 1999 para cá no mundo da internet. Os leitores já devem ter lido várias vezes uma frase que gosto de repetir, como um mantra: tudo que é bom para os partidos é ruim para o Brasil. PSDB, PT e PMDB provam isso.

De José Sarney até Michel Temer, lá se vão uns 35 anos, os governos que se alternaram no Palácio do Planalto se assemelharam na grande marca da política brasileira, a corrupção. Os desvios com Copa, Olimpíadas, Petrobras, além da má gestão, destruíram economicamente e moralmente a nação.

Se eu não estiver com saudade de João Figueiredo, eu cegue.

       



18/03/2019
A amável leveza de ser

Começou jogando uma bolinha quando criança, e jogou um bolão quando cresceu. O ex-lateral esquerdo Anchieta brincava com o amigo Rui Barbosa no barro da Rua Alberto Silva, em Lagoa Seca, trocando chutes de canhota numa bolinha de borracha vermelha, como tenistas na arena aberta de uma vacaria.

Rui foi ajudar o pai, vendendo leite de bicicleta ou carroça de burro, e Anchieta se deixou levar pelos encantos do futebol. Entrou no modesto Atlético Potiguar e logo foi ser campeão inconteste no belo time do Alecrim de 1968, aquele que nesse mesmo ano hospedou na ponta direita um tal de Mané Garrincha.

Nos torneios de caixinhas de fósforo de 1970, sucesso de público nas calçadas do bairro das Quintas, era dureza escolher o melhor lateral esquerdo, já que os times das figurinhas dos produtos Weston dificultavam a escolha entre Marinho Chagas (ABC), Cosme (América), Everaldo (Brasil) e Anchieta (Alecrim).

No campeonato de verdade, que rolava no gramado do Juvenal Lamartine, o galego Marinho arrebentou naquele ano e atraiu a atenção do Náutico, que o levou por curto tempo, vendendo-o para o Botafogo. A melhor alternativa do mais querido na chaga aberta pelo gênio foi tirar Anchieta do time periquito.

Podia até não jogar a exuberância da "bruxa", mas não permitiu sentimento de orfandade quando os olhares da frasqueira se dirigiam para o lado esquerdo do time. Jogava com a disciplina de um "kung fu negro", como disse uma vez o saudoso Hélio Câmara diante da precisão suave em anular os atacantes.

Tinha em campo a leveza das relações extracampo, jamais meteu a botina com deslealdade, nem lançou desaforos aos adversários e muito menos aos árbitros. Nunca em toda a carreira tomou um cartão vermelho, e só não ganhou o Troféu Belfort Duarte de disciplina porque as súmulas da FNF sumiram.

Na memória afetiva de todas as torcidas potiguares e no testemunho de quem acompanhou de perto os muitos campeonatos do seu tempo de jogador, Anchieta será lembrado como um gentleman com a bola e com os amigos, uma figura de uma leveza quase religiosa, digna do trocadilho "Padre Anchieta".

Depois da carreira, reencontrou o amigo da bolinha vermelha, Rui Barbosa, este na condição de empresário, dono da companhia de vigilância Emserv, que se tornou o primeiro time-empresa do futebol amador do RN, onde ambos voltaram a jogar. Por anos, foi um exímio e cuidadoso motorista do amigo.

No ano de 1992, meu saudoso amigo Ismael Wanderley me convidou para atuar na propaganda da campanha da sua então esposa, Ana Catarina, candidata a prefeita de Natal. Foi disponibilizado para meu uso diário um automóvel Voyage azul, aos cuidados de um motorista. Era ele, Anchieta.

Convivi durante a eleição daquele ano diariamente com o craque mais vezes do que com meus familiares. Almoçávamos e jantávamos juntos todos os dias, onde ele ouvia meu leriado de jornalista bocudo numa paciência de monge. E como nos avisos dos ônibus, ele, o motorista, só falava somente o necessário.

Uma vez minhas irmãs deixaram um recado no comitê da campanha. Anchieta anotou: papai passou mal em Currais Novos, onde tinha ido, sem autorização médica nem de mamãe, visitar parentes. O seu médico avisou que ele não poderia retornar em ônibus, só de ambulância ou automóvel de passeio.

Eu quase em pânico com a indisponibilidade de ambulâncias, aí Anchieta começou a falar, e muito, me acalmando e dando a solução. Ele iria com minha irmã e traria papai, eu só precisava autorizá-lo, já que o Voyage estava sob minha responsabilidade. Os três anos de sobrevida do velho eu devo a ele.

Liguei pra Rui Barbosa, que estava triste com a ausência do amigo. Eu também fiquei; e com o coração feito uma bolinha vermelha de saudade.

       



15/03/2019
Quem desarma o MST?

Um professor foi preso em Brasília ao entrar armado com arco e flecha na sede da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Ele também carregava uma faca e foi interceptado por policiais e nada de grave ocorreu.

Ontem, na periferia do Rio de Janeiro, um rapaz esfaqueou um jovem. Depois de preso, descobriu-se que ele frequentava foruns de debates digitais em que participavam também os assassinos do massacre de Suzano, em SP.

Já que o clima de medo estimulou precauções tardias, por que as autoridades policiais não começam a desarmar os militantes do MST, que há anos circulam nas zonas rurais e urbanas armados até os dentes com foices, facões, peixeiras e enxadas?

Qual a diferença no risco de crime entre as armas de usuários de video game e dos baderneiros do MST?

       



15/03/2019
O mundo de Paulo Ito

Eu estava apenas procurando notícias sobre eventos e manifestações poéticas em algumas partes do mundo, já que o 14 de março também é dia da poesia em âmbito internacional. É uma antiga curiosidade tentando confirmar se Natal é mesmo uma das poucas cidades a viver a data desde o final dos anos 1970.

Então me danei a navegar por sites europeus, americanos e argentinos, procurando alguma coisa sobre a data nas sessões de cultura da imprensa mundial. E dou de cara com a poesia das tintas, do traço cômico e irônico do grafiteiro brasileiro Paulo Ito, destacado em sites da Holanda, Itália e Espanha.

E quem é Paulo Ito? É um paulista de 41 anos, já consagrado nas paredes e muros do Brasil, mas que ganhou popularidade mundial quando deu o chute mais importante da Copa do Mundo de 2014, um chute de bico na cara da FIFA, da CBF e de todos que vendiam a farsa do legado da Copa no País.

Naquela época, enquanto o governo Dilma Rousseff e todos os governos regionais vendiam a ilusão do maior evento de futebol espalhado nas arenas milionárias que seriam depois um campo de corrupção, Paulo Ito jogava nas tintas a imagem de uma criança faminta com uma bola num prato de sopa.

Aquele grafite ganhou as páginas de sites e jornais de planeta, foi exibido nas telas de canais de TV pelos cinco continentes, e se tornou um símbolo dos protestos contra o que foi um festival de roubalheira, cujo desfecho foi a lambança da seleção brasileira esmagada diante da seleção da Alemanha.

O chute rebelde do grafite de Paulo Ito foi a antítese do chute errado dado por uma geringonça que o neuropetista Miguel Nicolelis anexou no corpo de um homem sem movimentos na perna, cobaia de uma fantasia vaidosa de quem imaginava impactar o mundo com uma revolução tecnológica e medicinal.

Na quinta-feira, no Dia Nacional (e Mundial) da Poesia, a arte de Paulo Ito estava ilustrando as páginas da mídia internacional, encantada com a arte urbana carregada de uma de uma força cromática que leva os transeuntes a refletir sobre os problemas cotidianos dos povos. Degustem alguns grafites do artista.

       



15/03/2019
O jogo real da morte

Com um tremendo sangue frio com pitadas de sadismo, o autor material do massacre na mesquita de Al Noor, na Nova Zelândia, desceu do carro com um rifle, executou as primeiras vítimas na porta de entrada, voltou ao carro para trocar de arma e avançou casa adentro atirando e filmando os assassinatos.

E se digo autor material é porque o canalha australiano Brenton Tarrant não está sozinho nisso. E nem é um doido solitário, posto que doido não tem método como ficou claro no ritual tipicamente premeditado, o que sugere planejamento criminoso nos moldes de qualquer pequeno grupo terrorista.

O sadismo foi a transmissão ao vivo que ele fez pelo Facebook, instalando uma câmera de vídeo no capacete, evidentemente ligada a um celular, por sua vez linkado na página da rede social e, obvio, contando com o sinal de wifi da mesquita. O cara exibiu para o mundo a versão real dos games de guerra.

Pelo que li nos sites europeus, não ficou claro se ele também foi o encarregado do segundo ataque na mesquita de Linwood, apesar de haver indícios de que foi ele também o atirador. Tarrant tem 28 anos e defendia nas redes uma reação violenta aos migrantes islâmicos que se mudam para o Ocidente.

Mas está claro que o crime foi planejado e bem orquestrado, talvez, durante semanas. O atirador deve ter levado bom tempo para escrever com giz, nas armas e carregadores, os nomes de terroristas que são suas referências ideológicas, como Anders Breivik, que matou 77 pessoas na Noruega em 2011.

Há nomes de autores de massacres contra muçulmanos nos tempos das Cruzadas e também terroristas contemporâneos, como o espanhol Josué Estébanez que apunhalou o jovem Carlos Palomino, no metrô de Madrid, em 2007. E o asturiano Dom Pelayo que combateu muçulmanos no ano de 700.

Assassinos em massa também foram homenageados nos rabiscos de Tarrant, como o canadense Alexandre Bissonette, que em 2017 matou seis pessoas abrindo fogo numa mesquita de Quebec; e o italiano Luca Traini que disparou contra um grupo de imigrantes africanos em Macerata, perto de Roma.

Muitas das inscrições remetem a batalhas históricas e aos pretensos heróis cristãos contra tropas islâmicas, como é o caso da guerra de Lepanto, em 1571, quando os católicos derrotaram os turcos. Entre as figuras dessa batalha destacam-se Sebastiano Venier e Marco Antonio Colonna, ambos italianos.

Alguns nomes foram destacados mais de uma vez, todos eles considerados heróis católicos da era da Inquisição. São eles o ortodoxo eslavo Novak Vujosevic, o veneziano Marco Antonio Baradin, o polaco Feliks Kazimierz Potocki, Segismundo de Luxemburgo e o britânico Edward Codrington.

Por toda a sexta-feira sangrenta, um dia tradicional para os muçulmanos, o terrível episódio da transmissão ao vivo pelo Facebook gerou debates na mídia sobre o controle de atos de tal natureza. E cada vez que citam os games de violência, me lembro dos hipócritas que proibiram armas de plástico como brinquedos. Agora refaçam as teses alarmistas.

       



14/03/2019
Oh, Suzano, choro por ti

Oh! Suzano
choveu a noite toda
no dia em que assistí,
o tom de voz do locutor
estava seco, engasgado
o sol se apagou na TV
as crianças apagadas
Suzano, eu choro

Oh! Suzano,
não chore por mim
não sou do Alabama
eu vim do Alecrim
pulei a bordo do lap top
e trombelado de susto
como um pai perdido

Vi o temor ampliado
no cheiro de morte
eu fecho os olhos
vejo Columbia e Alabama
seguro a respiração
Suzano, eu choro

Eu tive um sonho triste
na noite mais estranha
quando aqui trovejava
como os tiros na tua escola
descia uma colina
com crianças estiradas
e não era guerra de bolo
ou de trigo ou de mourisco

Eu tinha lágrimas nos olhos
tristeza vinda do norte
Oh, Suzano, teus garotos
mortos por outros garotos
aí perto ganhei uma menina
aí perto está meu menino
Suzano, eu choro

A vida vai acabando
aqui, aí, em New Orleans
novas iorques e parnamirins
basta olhar em volta
de Natal, Realengo, Suzano
valores desmoronando
um tempo sem porvir
civilização caída no chão
Oh, Suzano, choro por ti.

       



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