BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/02/2018
Quincy Jones e Paulo Cezar Caju

Abril-maio de 2002, Rio de Janeiro. Eu lançava na cultuada Livraria Argumento, no Leblon, o livro "Todos Juntos, Vamos - Memórias do Tri", a coletânea com crônicas de personalidades locais e nacionais narrando seus testemunhos da conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira, em 1970, no México.

O seridoense Augusto Ariston, figura respeitada na cena carioca desde os anos 60, advogado e jornalista, naquele instante chefe do gabinete do Palácio Guanabara, conseguiu arregimentar boa parte da colônia potiguar e gente badalada dos mundos do futebol, jornalismo, política e empresariado.

Na companhia do seu compadre Ismael Wanderley, armou mesa no charmoso e aconchegante Restaurante Severino, nos fundos da livraria, me deixando no centro da loja entregue aos convidados que chegavam para os autógrafos. O programa Quintal da Globo, da rádio homônima, botou um repórter para entradas ao vivo com alguns craques que para lá foram atraídos.

Carlos Alberto Torres, o eterno capitão do tri; Rogério, o ponta do Botafogo que foi cortado mas acompanhou a seleção como olheiro de Zagallo; o canhota Gerson, gerente das feras; e Paulo Cezar Caju, cracaço de bola em todos os times onde atuou, principalmente no meu Botafogo. Não demorou, conseguiu me convencer, com um drible de lábia, liberar a cerveja no bar.

Em pouco tempo, emulado pela loura suada, Caju ficava interrompendo a feitura de um autógrafo e puxando conversa comigo com o seu exemplar folheando na minha cara. A conversa se transformou em queixa, em crítica, em verdadeira ira com todas as fotos de Pelé e algumas de Jairzinho. Queria paridade, mesmo destaque pra ele. Batia no peito e gritava, "PC black panther, Pelé negro branco".

Lembrei do hilário episódio quando li ontem no site americano Vulture (traduzido no Google, obvio) uma entrevista com o lendário produtor e arranjador Quincy Jones, hoje com 84 anos e com a língua tão afiada quanto a de Paulo Cezar. O velho detona dois mitos da história da música pop, Beatles e Michael Jackson.

Dizendo que só fala a verdade e que não tem medo de nada, acusou Michael Jackson de roubar canções e letras alheias, chamou o quarteto de Liverpool de péssimos músicos, e não economizou autoelogios e bravatas ufanas como "não tenho nada a perder". O amigo de Donald Trump só livrou a cara de Eric Clapton, aquele apelidado de "Deus".

Em 2002, meus argumentos com o jogador bêbado foi que todos reconheciam seu talento, mas os donos da bola na Copa 70 foram aqueles que ele apontava como paparicados no livro. Ele era Paulo Cezar, mas os caras eram Pelé e Jairzinho.

Faltou ao repórter da Vulture trazer o entrevistado para a realidade, apenas prestando uma informação: ele era Quincy Jones, gênio, mas os outros eram Beatles e Michael Jackson. Que nem cabe adjetivação.





09/02/2018
Alemanha poderá liberar maconha

O assunto já é velho nos EUA e a liberação do uso recreativo da maconha já é realidade em algumas cidades. No Brasil, um ex-presidente da República reforçou o coro de intelectuais, artistas e usuários e há anos defende publicamente uma atenção não policial ao caso.

"Na história da humanidade, nunca houve uma sociedade sem o uso de drogas. Isso é algo que deve ser aceito". As aspas não são do colunista, mas de um grupo de estudo pertencente à Polícia da Alemanha, que acaba de enviar ao governo a sugestão de descriminalizar a maconha em todo o país.

A entidade policial BDK, sigla em alemão para Associação de Diretores Criminais, passou a defender abertamente a descriminalização total do consumo de maconha. O diretor do grupo e deputado, Andre Schulz, disse ao jornal Bild que a proibição estigmatiza pessoas e acaba "estimulando que carreiras criminosas comecem".

Ele argumentou que "a proibição da canabis sempre foi, historicamente, arbitrária e não inteligente". Lembrou que já é aceito na Alemanha o uso medicinal da planta, e que o uso recreativo deveria ser encarado como é com os cigarros e as bebidas alcóolicas. Schulz defende que continue proibido para quem vai dirigir automóveis e similares.

A iniciativa dos policiais da BDK repercutiu na Inglaterra, que também debate no momento um pedido parlamentar em favor da descriminalização. O jornal The Independent entrevistou o analista político Steve Rolles, que declarou ser "sempre bom ouvir pedidos de reforma sobre o tratamento da canabis proveniente de setores da Polícia, porque ele tem a autoridade da experiência diante do fracasso da guerra travada até agora".

O debate na Alemanha e Inglaterra ganhou força após pesquisas revelarem que o uso da maconha para fins médicos levou a uma redução significativa dos crimes violentos nos EUA. Nove estados americanos e o Distrito de Columbia legalizaram a droga. Um estudo foi publicado no The Economic Journal confirmando a redução de roubos e assassinatos em 12,5%.





07/02/2018
Sangue no YouTube

O maior portal de vídeos do planeta não consegue estabelecer um critério para sua política comercial com anúncios publicitários, que mais das vezes abrem vídeos de violência ou inadequados até para maiores. Há um vídeo, por exemplo, que mostra o Comando Vermelho decapitando uma jovem, logo após exibição de propaganda do Midway Mall.





05/02/2018
Hoje é o Dia Mundial da Nutella

Evidentemente não foi alguém "raiz" que inventou a data, mas o fato que me faz agir como blogueiro nutella em divulgar isso é que o dia de hoje é dedicado ao famoso creme de avelã, criado na Itália em 1963 e que desde fevereiro do ano passado provocou uma das maiores ondas de memes no planeta.

Não se sabe bem como a frescura começou, nenhum ´pesquisador de Google ou acadêmico de boteco realizou estudos para historiar as comparações que se multiplicaram em escala exponencial e que agora estão aí, como ilustrações verbais e plásticas da cena urbana, de Natal a Vladivostok, do Oiapoque ao Jiqui.

E como a provar que esse mundo anda nutelado, raquítico pela ausência da musculatura dos grandes valores morais e culturais, muita gente pelo mundo vai comemorar a nascitura efeméride, estimulada pelos restaurantes, bares, cafés e bistrôs, que oferecerão promoções com guloseimas inventadas a partir do produto italiano.

Portanto, hoje nada de oferecer nada à base de chocolate para o seu amor, quer seja ele uma paquera raiz ou um crush nutella. Leve-o para um bar com decoraçãozinha oriental e paredes em dégradée, ouvindo som sertanejo ou forró pasteurizado.

Não vá emborcar garrafas em botecos de mesas com tamboretes, rolando CD de rock ou samba, enfumaçado no cigarro e com o cheiro de gordura encharcando vossas narinas.

Desenvolva uma conversinha sobre o processo criativo da comédia, mostre como sociologicamente é dispensável piadas que chateiem quaisquer tipos de raças, grupos sociais, religiões, torcidas de futebol e fãs do Pablo Vittar.

Uma discreta simpatia pelos partidos de esquerda tem tudo a ver para demonstrar sua essência avelã dos trópicos. Ah, e na hora do sexo, peça licença para mordiscar os bicos dos seios e se desculpe caso seu joelho faça pressão involuntária nas coxas do mozão. Viva o dia da nutella!





05/02/2018
Cair, sim, tropeçar no passo, não

O bloco carnavalesco pernambucano O Galo da Madrugada é o maior do mundo, e completa 40 anos neste 2018 com um formato simples para explicar o sucesso: é gratuito. O bloco paraibano Muriçocas do Miramar é o maior do mundo no quesito pré-carnavalesco, faz 32 anos e segue o esquema do homólogo recifense: é gratuito.

O carnaval de rua de Olinda, Recife e Rio de Janeiro, com suas centenas de blocos e fanfarras contaminaram o resto do país e agora contam com a companhia de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e outras que experimentam um boom na folia de rua graças à gratuidade do passo no meio das ruas, independente de quem compra camisa.

Há anos, várias pessoas em Natal batalham para devolver à cidade um carnaval de rua nos moldes do que já existiu até princípio dos anos 70 e depois entrou numa entressafra de décadas. O esforço rendeu os frutos que estamos colhendo dos últimos anos para cá, em que pese o caldo de cultura que o modelo baiano impôs com o sucesso estrondoso do Carnatal.

A folia foi se espalhando, sem corda e sem abadá, nos devolvendo a espontaneidade dos tempos dos blocos chamados de elite, onde carros alegóricos eram puxados por tratores. As paradinhas em ambientes residenciais pré-estabelecidos, também chamadas de "assaltos", deram lugar aos bares e botecos. Os blocos se multiplicam entre Petrópolis e Ponta Negra.

Mas nesse passo e compasso da alegria momesca, não se pode perder o rumo do resgate que ainda não se concretizou e que depende bastante desse formato descontraído e relativamente barato para os foliões.

Eu temo um retrocesso quando vejo blocos em crescimento adotando formatos oriundos das micaretas do axé. Já basta a compra de camisetas, bem baratas em comparação aos abadás; e vejo um risco na venda de ingressos para shows em locais fechados.

O nosso carnaval de rua vem superando os contratempos do passado, não pode comprometer o futuro com um contrapasso.





05/02/2018
Começa o ano parlamentar

Após 45 dias de recesso, começou o ano do Congresso Nacional - embora haja uma nova interrupção com o feriado de carnaval em alguns dias. As atenções estarão voltadas para a tentativa do governo de aprovar a reforma da Previdência. O presidente Michel Temer não esteve presente na abertura dos trabalhos, mas mandou uma mensagem em que pede urgência no assunto da reforma. O pré-carnaval de SP foi marcado por duas mortes em uma briga em um posto de combustível.

Abrindo os trabalhos
Pela Constituição, deputados e senadores deveriam ter retornado às atividades na última sexta, mas o presidente do Congresso, Eunício Oliveira (PMDB-CE), marcou a abertura para hoje. O presidente Temer mandou uma mensagem em que afirma que "consertar" a Previdência Social é a "tarefa urgente" do momento. Conforme o calendário anunciado, a votação da reforma está marcada para o próximo dia 19.





02/02/2018

Concluí o livro "3 Por 4", uma coleção de 50 poemas em estilo hai-kai, todos dedicados a dos maiores mitos da cultura mundial no século XX: Os Beatles.

Os pequenos poemas de três linhas rimam sempre a primeira linha com a terceira, sendo que nesta última eu cito o título de um sucesso musical da banda britânica.

O professor de inglês, músico e compositor João Galvão, um dos renomados beatlemaníacos do RN, que desde os anos 60 interpreta e executa canções dos Beatles, escreverá o prefácio do livro.

Aguardem.





01/02/2018
Abril também é mentira no Vietnã

Quem gosta de trama política (politicalha idem) e de jornalismo à moda antiga (sem blogs e Google), não deve deixar de assistir "The Post - a Guerra Secreta", filme dirigido por Steven Spielberg, e com Meryl Streep e Tom Hanks de protagonistas. A batalha entre o jornal The Washington Post e o governo do presidente Richard Nixon, no alvorecer dos anos 1970.

O ponto central do filme é a luta contra a censura e pela liberdade de imprensa. Um documento secreto sobre a Guerra do Vietnã, vazado dos escaninhos governamentais, é publicado pelo diário The New York Times, que é imediatamente proibido de prosseguir com a revelação das verdades que não chegavam à sociedade americana.

Uma cópia do material chega à redação do The Post, cuja proprietária é amiga pessoal de um secretário de Estado, assim como o editor havia sido amigo de John Kennedy. Entre relações festivas com o poder e o espírito investigativo da redação, vem o conflito sobre enfrentar os desejos da Casa Branca publicando o material bombástico. O resto, vocês conferem no cinema. Corram!

Um salto aqui para outra frente de luta contra a censura. Dessa vez naquele Vietnã dominado por regime comunista que acabou dividindo o país em dois até os dias de hoje. O tempo passou e a repressão contra a opinião e a informação ficou como legado do ditador Ho Chi Min, que tudo fez - assim como os EUA - para esconder os acontecimentos na Guerra do Vietnã.

E é isso a temática central de um livro chamado "Um abril silencioso em Saigon", escrito pela romancista vietnamita Thuân, um dos nomes mais excitantes e versáteis da geração de escritores do Vietnã nascida nos anos 70. Ela vive em Paris e lá já escreveu quatro livros que foram muito bem recebidos pela crítica e pelo mercado literário europeu. Os quatro foram publicados no Vietnã, mas o quinto, não.

É que Thuân aborda um tabu existente até hoje no seu país, mesmo com a adesão ao capitalismo e à democracia (faz tempo que abriu loja McDonald's na Saigon que se tornou Ho Chi Min City). Ela escreve sobre o ano de 1975, quando em abril aconteceu o "Saigon Falls", invasão das tropas do norte na capital do Vietnã do Sul, aliado dos EUA.

Thuân era uma menininha em 1975, oriunda de família do norte, e ouvia as acusações contra os irmãos do sul, tratados como proprietários capitalistas. Lembra de 1979, quando o regime incendiava livros com conteúdos ocidentais. O pai lhe contou sobre literatos e intelectuais sulistas levados para campos de reeducação do governo comunista. Até hoje, o romance "1984", de George Orwell, é proibido por lá.

O novo livro bem poderia se tornar uma conexão cinematográfica para Steven Spielberg, no rastro de "The Post". Os segredos revelados e os nunca revelados por norte-americanos e norte-vietnamitas são provas e contraprovas de que nenhuma guerra foi mais secreta do que aquela na pátria de Thuân.





31/01/2018
Morreu o poeta da antipoesia

Quando minha geração começou a ouvir as canções da chilena Violeta Parra em meados dos anos 1970, ela já estava morta desde 1967 ao cometer suicídio, exatamente um ano depois de compor o clássico "Gracias a la Vida". Suas canções viraram hinos - "Volver a los 17" também era hit obrigatório nos idílios estudantis da minha juventude - a embalar sonhos e ensaios de luta.

Violeta tinha quase uma dezena de irmãos, padrão das famílias camponesas da América Latina em princípios do século XX. Um deles, Nicanor Parra, foi fundamental para sua carreira artística, que além da música se destacavam poesia, artesanato e pintura. Ele foi o porto seguro quando ela se mudou do interior para Santiago.

Três anos mais velho que a irmã, Nicanor nasceu em 1914 e faleceu no último 23 de janeiro aos 103 anos, depois de viver os últimos anos num balneário próximo da capital chilena. Sua morte abre um vácuo profundo nos contextos literário e acadêmico do Chile. Ele foi um dos seus maiores personagens.

A literatura o apanhou a partir dos anos 1930, apesar de uma relação mais estreita com os números do que com as letras, posto que era formado em matemática. O primeiro livro de poemas foi "Cancionero sin nombre", que lhe estimularia a confeccionar outros e a estabelecer o azimute de novos conceitos. Viveu anos entre os EUA e a Inglaterra e retornou ao Chile em 1951.

Se para muitos, aquela era a década dourada, assim também o foi pra ele, que disparou a publicar livros de poesias, tendo em "Poemas y antipoemas", de 1954, a obra mestra em que desenvolveu a criação da antipoesia. "Em poesia tudo é permitido", disse uma vez como a deixar a conclusão "inclusive nada".

Em 1969, quando o fantasma da irmã Violeta flutuava nas passeatas e nas plenárias universitárias cantarolando as canções em outras vozes, Nicanor conquistou o primeiro galardão literário, o Prêmio Nacional de Literatura de Chile com o livro "Obra gruesa". E muitos vieram, inclusive na velhice com o Cervantes, o Rainha Sofia, finalista no Príncipe de Astúrias e algumas indicações ao Nobel de Literatura.

A estrofe final do antipoema "O Homem Imaginário":
E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que o brindou com amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar o coração
do homem imaginário
.

A máquina de escrever de Nicanor Parra, uma extensão do seu enorme talento, foi colocada por ele num plano de seguros, sob o número 1.552, com a ordem expressa de permanecer custodiada no Instituto Cervantes, na Espanha, até o dia 5 de setembro de 2064, quando se fará 150 anos do seu nascimento.





30/01/2018
Violência é sempre violência

Nos anos 70, os direitistas provocavam o movimento estudantil chamando a repressão policial de "cassetete democrático". Os jovens reagiam com gritos de "fascistas".

Não vejo diferença nos dias atuais quando sindicalistas ligados a partidos de esquerda impedem, com violência, que outros trabalhadores adentrem ao local de trabalho.

O ataque à integridade física de qualquer pessoa, por si só, é um ato fascista, não importa a motivação. Agredir e atirar objetos em alguém é repetir eras obscuras que ficaram nos anais.

Servidores públicos impedirem o ir e vir de outros servidores, como os do Legislativo, é violência. E a violência não é uma coisa escrota de esquerda ou de direita, é só violência.





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