BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/07/2018
O esquema bancário suspeito de Toffoli

A revista Crusoé chegou às bancas exibindo uma reportagem-bomba na capa, representada graficamente na foto do ministro do STF, Dias Toffoli, futuro presidente da corte, o órgão máximo de defesa da Constituição.

Segundo a matéria, baseada em minuciosa investigação técnica de profissionais do Banco Mercantil, o ministro mantém uma conta gerenciada por um assessor do próprio STF onde depósitos mensais de R$ 100 mil são feitos, oriundos de uma conta do Itáu pertencente à sua mulher, que adminisrra um escritório de advocacia.

O rastreamento dos depósitos e também das retiradas sugerem um esquema suspeito que não passou pela fiscalização do COAF - o Conselho de Atividades Financeiras, nem pelo Banco Central. Há também uma espécie de triângulo afetuoso-pecuniário com transferência de metade dos R$ 100 mil para uma ex-esposa de Toffoli.

Veja a íntegra da explosiva reportagem no site da revista Crusoé, aqui: 
www.crusoe.com.br

       



26/07/2018
Textos liberados para todos

Alguns nomes icônicos estão na lista dos autores com textos sob domínio público a partir deste 2018. A começar pelo americano Winston Churchill, o romancista que durante o início do século XX foi bem mais conhecido que o mítico político britânico, que por sinal também foi escritor e até ganhou o Nobel.

Apesar de ofuscado pelo inesquecível primeiro-ministro do reino, o Churchill romancista conseguiu a proeza de ser inclusive um best-seller. Muitos dos seus livros foram por vezes atribuídos ao Churchill inglês, que só escreveu um romance, chamado Savrola. Ambos também eram pintores e trocaram cartas.

A iniciativa foi do político da Inglaterra, solicitando um entendimento com o xará dos EUA quanto à autoria nas capas dos respectivos livros. O inglês informou que publicaria suas obras como Winston S. Churchill (S de Spencer), deixando ao americano o uso do Winston Churchill. E assim foi acertado e feito.

No meio dos escritores com textos liberados dos direitos autorais está um inglês não muito famoso quanto Churchill, mas cultuado até hoje por tribos de contraventores culturais e filosóficos. Seu nome é Aleister Crowley, que ficou notório como ocultista, pintor, poeta e romancista. Foi até espião recrutado.

Frequentou a Universidade de Cambridge e praticava montanhismo, período em que aderiu a uma espécie de seita chamada Ordem Hermética que o treinou nos rituais de magia cerimonial. Se aventurou em regiões inóspitas na Escócia e no México, e estudou práticas hindus e budistas na Índia.

No começo do século XX, enquanto passava a lua de mel com a esposa Rose Edith no Egito, declarou ter sido contatado por uma entidade sobrenatural de nome Aiwass. Tal figura teria lhe fornecido o Livro da Lei, com o qual ele compôs sua própria seita chamada Thelema, onde tudo é permitido, é da lei.

Crowley se tornou guru de onze entre dez roqueiros durante as décadas de 1960 e 1970, influenciando músicos, poetas e compositores, com destaque no Brasil para Raul Seixas e Paulo Coelho, que se inspiraram na Thelema para compor a música Sociedade Alternativa, cuja letra cita o satanista britânico.

Sob domínio público também estão as obras surrealistas do pintor belga René Magritte, que subverteu percepções da realidade com imagens provocativas de objetos comuns, mas inseridos em contextos incomuns. Ele dizia que suas criações evocavam mistérios. E muito influenciaram a geração da pop art.

Por falar em obra provocativa, quem também está na lista é a americana Alice Babette, personagem importante da transgressora vanguarda de Paris no início do século XX. Ela e a escritora Gertrude Stein se encontraram na capital francesa, sobreviventes do devastador terremoto de 1906, em São Francisco.

Se tornaram amantes e nos anos da "geração perdida", entre a Primeira Guerra e o "crash" de 1929 montaram acampamento na casa parisiense para abrigar artistas expatriados como Hemingway, Picasso, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Matisse, John dos Passos, T. S. Eliot e posteriormente James Joyce.

Uma curiosidade na obra de Gertrude é que seu livro mais popular foi exatamente a biografia de Alice Babette, de 1933. A autobiografia viria 30 anos depois, quase 20 anos depois da morte de Gertrudes. Alice publicou também um livro cheio de receitas próprias, entre elas uma mistura de frutas, nozes e maconha que acabou batizada com o nome "brownies de Alice B. Toklas".

       



26/07/2018
Ronaldo paga 19 milhões de euros ao fisco espanhol

A Receita Federal da Espanha aprovou o acordo entre Cristiano Ronaldo e as autoridades de Justiça do país para que o ex-jogador do Real Madrid pague uma multa de quase 19 milhões de euros e seja condenado a dois anos de prisão. Fontes jurídicas informaram à agência EFE sobre o acordo, que implica que o jogador português, que a partir da próxima temporada defenderá a Juventus, da Itália, não será preso caso se declare culpado de cometer quatro delitos fiscais.


O acordo alcançado entre a acusação e a defesa do jogador estava pendente da aprovação da Receita Federal, organismo que denunciou Cristiano. As autoridades acusaram Cristiano de quatro delitos contra a Agência Tributária, cometidos entre 2011 e 2014 e que supõem uma fraude de 14.768.897 euros. As quotas defraudadas são de 1,39 milhões em 2011; 1,66 milhões em 2012; 3,20 milhões em 2013 e de 8,5 milhões em 2014. O acordo final através do tribunal criminal reduz esse montante defraudado para 5,7 milhões de euros, mas o montante total a ser pago adicionando a multa e juros chega a quase 19 milhões. Também pagará os custos da Barra Estadual no processo, de acordo com as fontes consultadas.

       



25/07/2018
Resta o Prêmio Multishow

Neymar não precisa brigar este ano pela "bola de bronze" de terceiro melhor do mundo. Se bem que não seria fácil superar uns quinze caras que jogaram mais que ele na temporada. Ontem, a FIFA pôs uma pá de cal no fracasso da Copa e no deboche mundial a que o jogador foi exposto, num recorde de memes.

Dez craques estão na lista da disputa do The Best, o prêmio criado como paralelo à Bola de Ouro da revista France Football, e nela não consta o camisa 10 da seleção de Tite, que, aliás, também ficou fora da lista dos melhores técnicos do mundo. Foram selecionados onze treinadores, sem o brasileiro.

Horas depois da divulgação dos candidatos ao prêmio, a mídia de Pindorama tratou de buscar argumentos que servissem de unguento ao universo pacheco que desde as eliminatórias da Copa 18 sonhava e delirava com um Neymar absoluto, como Pelé, ou mágico, como Garrincha, levando o Brasil ao título.

O jogo sujo das simulações de faltas, as quedas como armas de malandragem, os chiliques de menino mimado, tudo isso forjou os resultados pessoais que afastaram o jogador das honrarias que ele sonha como glória, mas caindo no pecado de não se inserir no sucesso coletivo. Tem sido assim desde o Santos.

Pois foi assim na trágica final interclubes em que o time paulista tomou um vareio de bola do Barcelona; e Neymar assistindo Messi jogar para depois atirar elogios que vislumbravam a transferência para o clube catalão. E lá chegando, viveu incomodado com a coadjuvância, até nos gols de Suarez.

Se foi para o PSG deixando a porta do Barça fechada exatamente no setor da torcida, que o bombardeou de desaforos. Baixou em Paris como um invasor mal-humorado, peitando Cavani sem entender que o uruguaio era o ídolo da bastilha. Agora já sabe que terá outra sombra, bem maior, de MBappé.

Na semana passada, o portal de notícias Onda Cero, da Espanha, publicou matéria revelando que a diretoria do PSG só considera invendível o garoto que virou símbolo da conquista francesa em campos russos. Se Neymar não sentiu o problema, seu despreparado pai decerto já viu que não vai ser tão fácil.

O inferno astral do jogador e os esforços da mídia pacheca em tentar esconder a rejeição mundial me lembra aqueles tempos em que o peladeiro Robinho era o sonho de consumo da torcida nacional. A imagem catapultada por robustos jabás travestidos de marketing era quase um novo símbolo cívico da Pátria.

Na coluna de O Jornal de Hoje e no Twitter, eu remava contra a corrente pra frente em favor do boçal da Vila. Qualquer pedalada ridícula que ele aplicava num zagueiro botocudo era motivo de louvação da choldra. Até dondoca semiletrada me abordava em restaurante repetindo as loas de Galvão Bueno.

No ano passado, fui fuzilado por não apostar na ascensão europeia do PSG só pelo fato da presença de Neymar. Pra provocar, apostei que o time não iria longe na Champions; e que não foi mesmo. Antes e durante a Copa do Mundo, era uma expectativa só no país: o hexa estava no papo e Neymar reinaria.

Aí vieram os fricotes do rapaz (chamam-no de menino Ney), as quedas premeditadas, a histeria contra juízes, imprensa e até colegas de bola. Depois veio o deboche internacional e agora a ausência na lista da FIFA. Mas, quem sabe, o tosco estágio de ator mambembe reserve ainda o Prêmio Multishow.

       



24/07/2018
A figurante inesquecível

Na penumbra do mundo de glamour do cinema, por trás dos holofotes, longe das câmeras de Hollywood, há muitos sonhos destruídos, episódios sórdidos, carreiras efêmeras e talentos que se dissolvem no ar da noite para o dia, artistas que jamais experimentaram a glória, mesmo por um tempo breve.

E há também, em grande quantidade, estrelas e astros que brilham por algum tempo, mas que a escuridão dos traumas e das angústias pessoais acabam apagando esse brilho. Gente como a atriz Grace Lee Whitney, a loirinha que em 1966 conquistou a geração Star Trek na pele da ordenança Janice Rand.

A personagem assessorava o Capitão Kirk, eterno papel de William Shatner, e mesmo tendo a aprovação dos fãs do épico seriado de Gene Roddenberry logo começou a ser empurrada para os corredores e o fundo de cena da nave Enterprise. Tímida e discreta, Grace Lee tinha então 36 anos naquele tempo.

Não se sabe os motivos da evaporação gradual do seu papel, principalmente para os fatos cenográficos e reais ali expostos, já que a paquera entre o capitão e sua ordenança contaminara os artistas Shatner e Whitney. Mas ele próprio concordara em reduzir a presença de Janice perto de James T. Kirk.

A vida real de Grace era um buraco negro de sentimentos contidos, que não escapavam para o mundo lá fora. Tudo só veio à tona em 1998, quando ela aos 68 anos publicou sua autobiografia, revelando feridas que atravessaram sua juventude sem qualquer cura e sonhos que nunca conseguiu realizar.

No auge da participação em Star Trek, ela encarou uma dura jornada de assédios no ambiente de trabalho, até que um dos produtores a estuprou no próprio set de filmagens da rede de televisão NBC. Isto somado à revelação de que era filha adotiva (fato doloroso desde os 7 anos) foi um choque estelar.

Depois do estupro, sua batalha diária se dividiu em três frentes: manter o emprego na série, fazer terapia contra depressão e tentar escapar do vício do álcool e das pílulas de dieta pra segurar o corpo sedutor. Mas não há mal que não traga o pior, e ela foi demitida do seriado 24 horas após ser violentada.

Grace Lee merecia um destino de êxito profissional e de equilíbrio pessoal; já buscava o mundo artístico aos 3 anos cantando na luz da geladeira e estreou nos palcos ainda adolescente, chegando depois a Broadway. Os primeiros passos no cinema foram num filme de Billy Wilde e na série Gunsmoke.

Em 1976, quando se recuperou do álcool e administrou os traumas, ela foi procurar o próprio Gene Roddenberry, que a colocou nos filmes da saga. A série havia parado desde 1969 e ela retorna na versão das telas, mas não conta com o apoio moral dos colegas, apenas de Leonard Nimoy, o Dr. Spok.

Em seu livro, ela conta sobre os ataques sexuais sofridos pelas atrizes naqueles anos. Tornou-se uma voz presente nos eventos sobre Star Trek, interagindo com os fãs, e manteve uma forte amizade com Nimoy, o prefaciador da sua autobiografia. Morreu em maio de 2015, pouco tempo depois do velho amigo. Tinha 85 anos.

       



23/07/2018
Mentiras de um ditador vermelho

Engana-se quem pensa que os grandes arsenais de armas nucleares e a força tecnológica dos exércitos de países ricos são os maiores riscos para a continuidade civilizatória do planeta. Há outras armas, de destruição em massa, que não se enquadram em qualquer convenção armamentista.

Nada pode superar em poder letal a arma da mentira, da dissimulação política, tão bem manejadas por ditadores e governos corruptos. Quanto maior a mentira, melhor para os interesses escusos de tais regimes e seus canalhas de plantão. No mundo atual, Putin, Trump, Maduro, Temer e Lula são useiros.

O chefe russo jura que não existem tropas russas na Ucrânia; o boneco americano garante que acredita na democracia; o jagunço venezuelano afirma todo dia que não mata seu povo de fome; o vampiro brasileiro vende o fim de uma crise que nem chegou no meio; e o sapo petista é um poço de mentiras.

Nesse momento, o mundo assiste aos crimes bárbaros de um grande aluno desses bostas citados no parágrafo acima. Seu nome é Daniel Ortega, um verdugo socialista que na juventude se fantasiou de arauto da liberdade e que agora, no poder absoluto da Nicarágua, aponta canhões para as massas.

Na passagem dos anos 70 para 80, minha geração acompanhou atentamente a luta dos partidários de Ortega para derrubar a ditadura de Anastácio Somoza. Nas praças, nos botecos, nos cinemas e nos corredores da faculdade, torcíamos pelos jovens nicaraguenses - como nós - da Frente Sandinista.

Mas hoje aquilo tudo é passado, apodrecido na mentira do presente em que se transformou o governo Ortega, agora a repetir as mesmas maldades, a mesma violência que um dia sofreu das tropas somozistas. Daniel acusa os estudantes de delinquentes, os padres católicos de satânicos, num discurso canalha.

Como bom companheiro de Lula e seus asseclas, Ortega utiliza a mesma prática de aplicar a mentira para forjar sua falsa verdade. Chama de golpistas as massas que se levantam contra sua ditadura, manda seus gorilas milicianos atacar os estudantes, num saldo de horror com 400 mortos em três meses.

A Nicarágua dominada pela ditadura socialista já não busca ajuda do movimento de direitos humanos, como no tempo da juventude do seu chefão. Pelo contrário, os representantes da ONU agora são "personas non gratas", tratados como inimigos da revolução mentirosa que um dia Ortega inventou.

O cinismo e a mentira do regime truculento nicaraguense enojam. E pensar que a cada geração há sempre jovens dispostos a crer na fantasia comunista, com disposição de levantar bandeiras e sustentar partidos como se tudo isso fosse realmente a prioridade de suas vidas ainda em estágio seminal.

Em quase 40 anos de domínio sandinista, Daniel Ortega foi eleito presidente pela primeira vez em 1984, e após perder algumas eleições voltou ao poder em 2007, numa ampla aliança onde couberam malandros sindicais e empreiteiros ladrões (lembra alguém?). E segue no poder dominando milicos e juízes.

Na Nicarágua de Ortega, a militância socialista ocupou os espaços no serviço público, criou um Estado fanático e assassino, e a mentira virou um programa de governo. Uma prática que já ergueu ditadores por toda a América Latina, como já fizera no Leste da Europa. Desde 1989, o Brasil a tem ouvido também.

       



20/07/2018
Sharon Tate days

A modelo e atriz Sharon Tate foi barbaramente assassinada em 9 de agosto de 1969.
No ano que vem faz 50 anos, boa oportunidade para instituir o Dia Mundial Contra o Genocídio da Mulher Branca.

       



20/07/2018
A chapa Dudu

Nas eleições do Rio Grande do Norte vai ter uma chapa majoritária formada com Carlos Eduardo (PDT) para governador e Carlos Eduardo (PP) para vice.

Uma unidade de nomes pessoais escondendo a discrepância entre os partidos de Leonel Brizola e Paulo Maluf.

       



20/07/2018
Vestidos para voar

Li num dos jornais ingleses que acesso de manhã cedo a notícia de que um engenheiro britânico chamado Richard Browing acabou de colocar à venda algumas unidades de uma roupa que ele inventou para nos fazer voar. A vestimenta dividida em cinco peças custa a bagatela de 380 mil euros.

A reportagem diz que o mecanismo foi construído a partir de uma impressora 3D e que fica nos braços a propulsão que permite ao usuário levantar voo e atingir velocidade de até 51 km por hora, numa altura que se aproxima dos 4.000 metros. A roupa precisa de gasolina ou diesel para sair do chão.

Voar talvez seja a maior das vontades humanas, quiçá um legado de Ícaro presente nos sonhos de todas as gerações e que alimentou a fantasia dos homens pelos séculos além, tanto na concepção religiosa dos anjos ou na cultura ficcionista dos super-heróis. Todas as pessoas já sonharam voando.

Há também aquele sonho do voo acordado, feito nas asas da imaginação, do pensamento. Eu comecei a voar ainda na primeira infância, correndo num beco da Cidade Alta, a rua Padre Calazans, de uma esquina a outra - coisa de poucos metros - para observar as duas luas cheias nos céus do Potengi.

Um dia, ali por 1965 ou 1966, vi um homem voador. Vestido de azul e vermelho estampado na capa de uma revista em quadrinhos. Foi meu primeiro contato com o Superman, um impacto de rito de passagem. Fazia pouco tempo que eu aprendera a dominar o alfabeto e a partir dali, passei a devorar leituras.

A relação diária com o super-herói da DC Comics, publicado aqui pela Ebal de Adolfo Aizen, provocou alguns prejuízos domésticos, como as toalhas e lençóis de mamãe, puídos de tanto amarrá-los ao pescoço no improviso da capa do homem de aço. Também havia os arranhões e hematomas das decolagens.

Lá pelos dez anos, aprendi a administrar o sonho de voar e a compreender as possibilidades do sonho imaginativo. O Superman já havia me apresentado outros colegas voadores, como Ajax, Supergirl, Shazan, Lanterna Verde, Miss América, Mon-El... Com eles, voei na criatividade de inventar brinquedos.

O voo solitário do pensamento me ensinou a brincar sozinho e não depender de companhia nos períodos de aula, quando os amigos não estavam disponíveis na rua em tempo integral. Criava jogos com tampas de garrafa, papéis de cigarro, caixas de fósforo, botões de roupa coloridos, latas de leite.

Meus desejos de voar, de ter superpoderes, de viajar no tempo, também deram capacidade de inventar roteiros e pegadinhas para trolar colegas desavisados e mais ingênuos. Cheguei a pregar trotes num garoto que hoje se enquadrariam na prática de bullying. O pobrezinho também vivia sonhando.

Diferente de mim, que queria voar mas sabia que não podia, ele queria e acreditava que existiam condições além das leis da física para fazê-lo voar. Eu tratava, então, de alimentar seus desejos inventando coisas malucas que o garoto logo adotava, sem a menor consciência dos desconfortos trazidos.

Entre 1970 e 1971, um livro do acervo do meu irmão me chamou atenção. Li Fernão Capelo Gaivota num voo só e logo descobri que a obra do americano Richard Bach era uma campeã de vendas, como foi O Pequeno Príncipe nas décadas anteriores. A leitura me deu mais autoridade sobre a arte de voar.

Mas, também forjava em mim uma superioridade intelectual sobre o amigo ingênuo. Daí ele acreditava que voaria se tomasse café misturado com pó de k-suco de framboesa, ou se amarrasse uma folha de castanhola na cabeça e se jogasse do alto de uma calçada. Queria encontrá-lo agora pra dividir a roupa de voar que está à venda em Londres.

       



18/07/2018
Um campeão restaurado

No intervalo de vinte anos desde a conquista da única copa do mundo, a seleção francesa tinha um ponto de conjunção com aquele passado quando iniciou a corrida pela taça da FIFA em campos russos. O técnico Didier Deschamps era essa figura de ligação com a glória da geração de Zidane.

Em 1998, quando a França esmagou o Brasil na final da copa no Stade de France, em Saint Denis, cidade ao norte de Paris, ele era o volante e capitão do time comandado pelo técnico Aimé Jacquet. Também era jogador da Juventus, saindo nas duas temporadas seguintes para o Chelsea e Valência.

No mesmo ano em que encerrou a carreira no time espanhol, em 2001, ainda com 32 anos, começou a treinar a equipe do Mônaco, levando-o à final da Champions League em 2004. Dois anos depois assumiu a Juventus que havia sido rebaixada à série B, devolvendo o time à principal série do Calcio.

Deschamps voltou pra liga francesa em 2009 para dirigir o Olympique de Marseille, que já amargava 18 anos sem títulos. Encheu a equipe de jogadores argentinos, enfiou um espanhol no meio e completou com pratas de casa, ganhando com autoridade o campeonato e reforçando sua boa reputação.

Foi em 2012 que topou a missão de reestruturar a seleção nacional, que naufragou em três copas seguidas, perdendo a final de 2006 num jogo dramático contra uma rival sempre surpreendente, a Itália. Para piorar as coisas, os azuis deram vexame na Copa de 2010, caindo na primeira fase.

Deschamps tinha então quase a obrigação de reorganizar o time para as copas de 2014 e 2016. Começou bem a campanha no Brasil, batendo Honduras por 3 x 0 e Suíça por incríveis 5 x 2, mas tropeçou no Equador num 0 x 0 preocupante. Avançou nas oitavas com 2 x 0 na Nigéria e seguiu confiante.

Só que nas quartas lhe esperava a Alemanha, a seleção que havia inovado num planejamento ilustrado pelo mistério de uma concentração escondida em bucólicas terras da Bahia. Os franceses caíram por 1 x 0 num gol do zagueiro Hummels, que tinha dez anos quando Deschamps ganhou a Copa 1998.

A desclassificação não comprometeu o trabalho de apenas dois anos na seleção, que logo depois iria tentar ganhar a Eurocopa de 2016 jogando em casa. A final contra Portugal fez acender no treinador a agonia do vice-campeonato do Mônaco, quando o Porto fez 3 x 0 e levou a taça de 2004.

Já disseram que um técnico aprende mais nas derrotas do que nas vitórias. E domingo, após conquistar o bicampeonato mundial, Didier Deschamps revelou numa das tantas coletivas de imprensa que os traumas diante do futebol português o ajudaram a reconstruir a essência campeã da França de 98.

Os títulos perdidos frente aos colegas lusos José Mourinho (2004) e Fernando Santos (2016) estiveram sempre como súbitas sombras em sua prancheta de desenho tático. Foi ele quem expandiu em campos russos o futebol de craques como Griezmann, MBappé, Kanté e Pogba, todos monstruosos na vitória.

Vinte anos depois da glória da sua geração, a geração do gênio Zidane, Deschamps e seu pragmatismo recolocaram a França no topo do planeta bola. Seu time superou os rivais com velocidade, eficiência técnica, solidez tática e um espírito de equipe só inferior à própria Croácia.
O título foi obra da restauração, onde a França voltou a ser exposta no Louvre da Copa.

       



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