BLOG DO ALEX MEDEIROS

11/04/2018
Barcelona, Manchester e os estaduais

Domingo o Botafogo sagrou-se campeão do Rio de Janeiro, após um gol desesperado aos 49 minutos do segundo tempo, quando a torcida do Vasco já festejava o seu 24º título. O gol do argentino Carli levou o jogo para os pênaltis e o Fogão conquistou a 22º taça.

Assisti a partida sem muita pompa, o coração dividido entre a paixão juvenil e a razão adulta de quem sabe e prega que ganhar um campeonato estadual é como ser milionário no Banco Imobiliário ou ser o maior prefeito no aplicativo Foursquare. Defendo o fim dos estaduais e o aumento de séries inferiores no Brasileirão, como na Inglaterra.

Ontem, quem assistiu aos dois duelos pela Champions League entre Roma x Barcelona e Manchester City x Liverpool pode fazer um exercício de raciocínio cerebral para imaginar o que digo. O City e o Barça, favoritos nas apostas, estão fora da competição, mas fazem suas melhores temporadas nas respectivas ligas nacionais.

Depois do naufrágio de ontem, que tal imaginar o que deve estar passando pela mente dos fanáticos torcedores dos dois clubes? Será que os dois espetaculares desempenhos de Barça e City na temporada pesaram na hora da decepção. Vale a pergunta: prefere ganhar a liga local ou a Champions?

A maior copa interclubes do planeta seguirá a partir de agora com outros favoritos a ocupar os lugares dos derrotados de ontem. Duvido que a conquista das ligas espanhola e inglesa seja um unguento doce para fazer esquecer o tropeço continental. Campeão carioca, paulista ou potiguar pra quê mesmo?





09/04/2018
A hora da xepa partidária

Desde os anos 1950 que várias gerações de brasileiros aprenderam o significado da palavra "xepa" a partir das artes. Primeiro em 1952, quando o ucraniano Pedro Bloch escreveu a peça teatral Dona Xepa, lotando o histórico Teatro Rival, no centro do Rio de Janeiro, durante três temporadas.

Cinco anos depois da última temporada, em 1959, a obra do jornalista, literato e médico ganhou uma versão cinematográfica com o papel-título da mesma atriz celebrada no tablado, Alda Garrido. Coadjuvando com ela, a atriz Odete Lara e o ator Colé Santana, ambos não menos célebres que a protagonista.

Dezoito anos se passaram e o roteiro atingiu os lares das famílias brasileiras com uma novela às 18 horas na TV Globo. Herval Rossano dirigiu a trama escrita por Gilberto Braga, então um jovem de 32 anos que explodiria de sucesso dois anos depois, 1979, com um clássico chamado Dancin' Days.

E finalmente, as gerações atuais conheceram o termo com a novela de 2013, na TV Record, onde a atriz Ângela Leal interpretou o papel principal (em 2015 a emissora reprisou). A mesma canção, "Xepa", que foi tema de abertura da Globo na voz de Ruy Maurity, foi regravada por Eliana de Lima.

É, pois, "Xepa", o nome dado para os restos de mercadorias que são vendidas nas feiras livres. E no mercado depreciado e execrável da política eleitoral, a hora da "xepa" ocorre agora, em vésperas de convenções partidárias, quando legendas e personagens repugnantes se vendem na feira dos apoios.

No âmbito do Executivo e Legislativo, começam os troca-trocas, o embarque e desembarque de restos de mercadorias e mercadores. No "mangaio" dos favores, gente desqualificada assume funções públicas apenas por ser moeda de negociação.

Em outubro, os partidos fazem uma feira mais ampla e deixam pra sociedade o trabalho de consumir a "xepa" com gosto de atraso.





06/04/2018
A bicicleta chilena

O gol espetacular de Cristiano Ronaldo contra a Juventus, surpreendendo o grande goleiro Buffon em pleno estádio de Turim, fez a imprensa esportiva internacional enaltecer mais uma vez aquela que talvez seja a jogada de maior beleza plástica do futebol.

Por mais repetida que ela seja, há sempre uma estupefação quando um jogador aplica uma bicicleta da maneira que o craque português fez, o corpo suspenso no ar em perfeita horizontal a dois metros ou mais distante do gramado. Uma imagem eternizada por Pelé serve de referência.

Outro fato que a jogada gera na mídia é matérias sobre a paternidade do lance. A imprensa brasileira sempre se refere ao artilheiro da Copa de 1938, Leônidas da Silva, como sendo o inventor, de acordo com registros de 1932, ano em que aplicou o golpe de perna pela primeira vez.

Mas o nosso "diamante negro" é como Leonardo da Vinci, dado como inventor do veículo de duas rodas, mas que há registros anteriores na China. Pelo menos das décadas antes dele, o espanhol naturalizado chileno Ramón Unzaga surpreendeu a assistência com uma bicicleta em 1914.

Na cidade em que viveu, Talcahuano, há uma estátua dele (foto) na posição clássica da jogada espetacular que até hoje causa impacto. Logo depois de Unzaga, o chileno David Arellano exportou o lance para a Europa, e por isso a coreografia é chamada de "chilena" e não de bicicleta. Mesmo no Brasil, Leônidas não foi o primeiro; bem antes havia Petronilho de Brito.

O feito maior do atacante revelado pelo São Cristóvão é que deu bicicleta numa Copa e em duelos no Maracanã e Pacaembu, assim como fez Ronaldo diante da Juventus, numa Champions League. Mas o seu gol foi cópia plástica e acrobática de Pelé, Rivaldo, Ibrahimovic, Hugo Sánchez, Van Basten e tantos outros malabaristas da bola.





05/04/2018
Na onda pop há 50 anos

O clássico longa-metragem animado dos Beatles, "Yellow Submarine", lançado em 1968, vai retornar às telas em 8 de julho, nos EUA, comemorando os cinquenta anos da icônica produção cuja inovação gráfica inseriu as crianças no universo dos Fab Four e virou marca de uma série do grupo Monty Python.

A película original foi restaurada em resolução digital 4K, realizada manualmente, quadro a quadro, sem a utilização de software automatizado. O filme foi uma consequência da série animada televisiva "The Beatles", que foi ao ar entre 1965 e 1967. Os quatro artistas em princípio não aprovaram.

Em 1969, quando já havia boatos da desintegração da banda, saiu o álbum homônimo com a trilha sonora que continha apenas o lado A com canções autorais. Apesar de ter sido um disco considerado fraco, já que não alcançou liderança nas paradas como os demais, trouxe hits que se perpetuaram.

Além da própria marchinha de coreto que leva o título do filme, o disco trouxe um hino ao amor de todos os verões desde então, "All You Need Is Love", executada em julho de 1967 na BBC com a participação de ícones como Mick Jagger, Eric Clapton, Graham Nash, Keith Moon e Marianne Faithfull.

No caso do filme, outras músicas consagradas entraram na trilha, como "Eleanor Rigby", "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Lucy in the Sky With Diamonds". O desenho animado é uma espetacular viagem psicodélica inserida num período histórico em que os Beatles experimentaram o desbunde.

Caricaturas de John, Paul, George e Ringo viajavam a um mundo chamado Pepperland onde tinham que enfrentar criaturas malignas chamadas Blues Meanies. Quando viu a série na TV, o quarteto rejeitou a produção e alguns deles tornaram isso público, mas anos depois todos se declararam satisfeitos.

Em 1972, John Lennon disse que ainda se divertia assistindo aos desenhos dos Beatles na televisão. Já nos 90, George Harrison disse que a animação era tão ruim e boba que ele acabava gostando. "Acho que o tempo pode fazê-la mais divertida", comentou. Meio século depois, o mundo vai agora conferir.





02/04/2018
Beco sem saída pela direita

É inegável, além de bastante visível ao mais ingênuo observador da cena geopolítica, que há uma onda conservadora avançando pelo mundo. Assim como há um esfacelamento da esquerda no Brasil após o lamaçal moral e ético da corrupção petista.
Nos EUA, Donald Trump soube capitalizar com um discurso moralista e nacionalista os anseios mais prementes de uma sociedade que navega há décadas num paradoxal sentimento, misto de provincianismo moral e cosmopolitismo tecnológico.
Na Europa, a partir da França com Emmanuel Macron, partidos e personalidades com pensamento à direita do espectro dominante da social democracia seguem em crescimento e alcançando vitórias eleitorais relevantes. O mesmo já aconteceu na Argentina, com Mauricio Macri, se reeditou no Chile e desponta na Colômbia.
No Brasil, a esquerda se divide em acompanhar com expectativa o cortejo panfletário de Lula - liminarmente nas ruas por um "habeas esperneandus" - e "histerializar" o cadáver de Marielle Franco numa versão tropical do cavaleiro cristão El Cid, que morto sobre um cavalo batalhou pela unificação espanhola.
E o que faz a direita brasileira para ocupar espaço nesse vácuo aberto pelo descrédito no PT? Que estratégia política e eleitoral para surfar na onda conservacionista? Será que tudo que a direita tem para oferecer é o tripé Jair Bolsonaro, João Amoêdo e Flávio Rocha? É muito pouco em forma e conteúdo.
Incrível que uma direita que já teve formuladores político, econômico e ideológico como Golbery do Couto e Silva, Roberto Campos e José Guilherme Merquior se resuma hoje a um sargentão de caserna, um garoto de recado do mercado financeiro e um milionário em busca de resgatar a popularidade perdida.
Se a saída brasileira pela direita está nessas três vias, temo que a esquerda moribunda ameace uma ressurreição, liderada por um lazarento que já conseguiu em passado recente plantar um poste de anágua e vestido no imaginário do analfabetismo cidadão. Em assim sendo, melhor o trio pegar o beco e liberar a avenida para o centro de Geraldo Alckmin montar banca.





30/03/2018
O Rio de Janeiro continua feio

Meninos eu vi. Eu vivi para ver o torcedor e a mídia potiguares repercutirem muito mais um clássico paulista do que um carioca. Quarta-feira, pouco se falou em Botafogo e Flamengo desde as primeiras horas da manhã até o horário do jogo, transmitido para o RN pela Globo.

O que testemunhei nas redes sociais e nas conversas pessoais e pelo WhatsApp foi o assunto dominante da decisão paulistana entre Corinthians e São Paulo, que foi transmitido apenas por canais fechados ou nos pacotes pagos. Foi-se o tempo em que natalenses e vizinhanças só consumiam o estadual do Rio.

Entre os anos de 1950 e 1980, o RN ignorava completamente o futebol de São Paulo, consequência da audiência das rádios cariocas Nacional e Tupi, quando os canais de televisão exerciam pouco influência no imaginário papa-jerimum. Eu mesmo, só vi clubes paulistas tocando bola nos filmetes do Canal 100, dominado pelos espetáculos no Maracanã.

Nem mesmo a onipresença divinal do rei Pelé conseguiu alterar a relação dos potiguares com os times cariocas. Havia, claro, os torcedores do Santos, mas jamais ocorreu de alguma sala de visita, bar ou boteco reunir grupos para ver uma final do estadual paulista. O oposto em se tratando de confronto carioca.

Foram as transmissões ao vivo pela TV e as constantes conquistas dos clubes de SP, como o tricampeonato mundial do São Paulo FC, os shows de bola do Palmeiras da Parmalat e o reencontro do Corinthians com as vitórias que fizeram brotar paixão nas novas gerações de Natal e interior.

Some-se a isso o processo de decadência do futebol carioca, o empobrecimento das gestões clubistas e o avanço da violência urbana que contaminou as torcidas de Vasco, Fluminense, Flamengo e Botafogo, anexando a isso a ineficiência policial no combate aos embates das ruas.

Hoje o que vemos é que os chamados quatro grandes do RJ só jogam pra consumo interno, estão longe do padrão continental dos paulistas e até de gaúchos e mineiros. Para servir de referência, o Flamengo (time de maior tradição no País) não ganha uma Libertadores há quase 40 anos.

Não há time grande na Europa nem na Argentina que fique tanto tempo numa seca dessa. O Flamengo que perdeu para um Botafogo tipo série B é um amontoado de jogadores medíocres comandados por um Diego moribundo, refugo europeu em fim de carreira. Chega de ilusão: ganhar estadual não vale grande coisa. É como ser rico no Banco Imobiliário.





28/03/2018
Spielberg desperta nossa meninice

Quem ainda não foi assistir o filme Jogador Nº 1, nova produção do gênio Steven Spielberg, é bom fazer um pequeno, mas profundo ritual antes de comprar o ingresso. Convém se desnudar da alma adulta e vestir a fantasia do adolescente que já foi um dia.

Se na superfície da trama há um filme futurista com jogadores celebrando os prazeres da brincadeira, na profundidade do roteiro (baseado num livro de 2011 cheio de referências aos anos 80) há o mergulho filosófico na existência, nas buscas cotidianas que muita gente abandona diante da dura realidade.

Deixe a criança interior se acomodar na poltrona do cinema, pegue a pipoca e o refrigerante, e não se preocupe por não entender os games dos dias atuais ou não lembrar dos jogos do passado. Basta confiar a Spielberg o joystick da sua imaginação, que a distopia da aventura lhe carrega.

Jogador Nº 1 é entretenimento puro, com aquela pitadinha de recados psicológico e filosófico tão presentes nas obras desse produtor e diretor que parece não cansar de nos chamar para se divertir com ele. Spielberg surpreende com uma improvável mistura de tecnologia e saudosismo.

Garantia de arrepios emotivos e vontade de se esconder no escuro imaginando as segundas sessões de antigamente.





26/03/2018
Começa a Copa da adivinhação

No final do ano passado, como é de praxe para a alimentação do imaginário esotérico das pessoas, videntes de todas as espécies trataram de avisar que 2018 seria melhor do que 2017, que para muitos foi um ano carregado de negatividade e outros babados.

Mas, bastou se aproximar a Copa do Mundo na Rússia e a atração por oráculos dos tempos modernos tomou conta das editorias de amenidades e também de futebol. Todo mundo quer saber o que dizem os astros, os números, as runas, os orixás, as cartas sobre o torneio mundial de futebol.

Num canal português, um programa de auditório repleto de frescuras entrevistou uma senhora especializada em tarot, que arrisca nova glória da seleção de Ronaldo, repetindo o que ocorreu na Eurocopa. Num tablóide londrino, um quase bruxo garante uma nova era para o jovem "real team".

No Brasil, o popular astrólogo João Bidu não comunga com a torcida pacheca numa confiança total na seleção de Tite. Diz que apesar de favorito, o Brasil pode ser atrapalhado por Júpiter e Saturno e tropeçar diante de adversários experientes. Avisa que será muito difícil a conquista da taça, bem diferente do que imagina os torcedores da Canarinho.

A sensitiva Márcia Fernandes, figurinha fácil nos programas de bobagens de pequenas TVs abertas, sente um astral divergente do prenunciado pelo colega de adivinhações. Não sei se ficou empolgada com o amistoso em que o Brasil titular vencer a Alemanha reserva por 1 x 0, mas revela que pode pintar uma final como revanche dos 7 x 1.

Envolvida com os mistérios da quiromancia, Sara Zaad vai nos detalhes e avisa que a seleção brasileira vai perder a final para uma seleção europeia. E a decisão será nos pênaltis. Diz que Neymar não fará uma boa Copa e que um outro bom jogador irá se machucar nas quartas-de-final. Ainda diz França, Inglaterra e Portugal vão dar trabalho.

As previsões mais negativas para o Brasil são do vidente Carlinhos e do premonitor Jucelino Luz, talvez os dois mais famosos. O primeiro antecipou a contusão de Neymar e garante que o craque não jogará a Copa. Foi ele quem previu a queda do avião da Chapecoense. O segundo informa que problemas técnicos derrubarão a seleção precocemente.

Mas nem tudo é notícia ruim para a nação dos pachecos. Os dois adivinhões são taxativos: nem Lula nem Bolsonaro ganhará a eleição para presidente do Brasil. Ufa!





23/03/2018
No Brasil, a Justiça vareia

Muita gente já disse que o STF virou um circo. E a sessão dessa quinta-feira, me fez lembrar o saudoso programa Os Trapalhões, o original com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Não lembrei pelas palhaçadas do quarteto (respeito a atividade dos palhaços), mas por um bordão de Renato Aragão.

Encarnando o cearense misto de bobo e esperto, o comediante atropelava o vernáculo bradando "aí vareia", tirando o verbo variar do padrão culto da linguagem e o lançando como neologismo no padrão coloquial da matutice nacional.

Ontem fiquei prostrado na TV, como na meninice diante dos Trapalhões, acompanhando a sessão do Superior Tribunal Federal, que julgava a aceitabilidade do direito de habeas corpus apresentado pelos advogados do senhor Luiz Inácio.

Impressionou-me a capacidade de eloquência do doutor Batochio, que cuspiu um francês fluente na augusta Corte e encarnou um arauto das liberdades em favor de Lula, como se reeditasse a defesa de Sobral Pinto para tirar Carlos Prestes das garras da ditadura getulista.

Vomitou décadas de juridiquês na tese da presunção de inocência; umedeceu militantes de grelo duro ao bradar sobre a volúpia do encarceramento numa onda de autoritarismo; sensibilizou o companheiro Lewandowski, no outro lado do balcão, que logo falou em uso generoso do habeas corpus.

Aliás, mais bonito fez Marco Aurélio, o primo de Collor, que ilustrou seu voto com um "heroico habeas corpus", para logo a seguir preferir honrar uma poltrona de avião do que a cadeira do Supremo. Foi um festival de português castiço, quase galego, para defender um condenado por corrupção.

E os dez minutos de intervalo que duraram cinquenta? No tempo dos Trapalhões, os humoristas davam pausa para aprimorar a palhaçada, improvisar a piada, estender o riso da plateia. O STF tramou o que já era premeditado, variou o tempo num buraco de minhoca da conveniência.

Ora, tanto contorcionismo jurídico e tamanho esforço linguístico em favor de um político ladrão, líder dos dois maiores escândalos de desvios do dinheiro público - Mensalão e Petrolão. Tentar subverter a Constituição para não prendê-lo, apesar de julgado, enquanto outros corruptos seguem presos sem um julgamento.

A Justiça do Brasil é para todos, mas vareia muito.





22/03/2018
Letras de A até agora

Nas páginas da mídia impressa, lá se vão trinta anos desde os primeiros artigos, crônicas e poemas publicados no semanário Dois Pontos (a pedido de Rejane Cardoso), nos alternativos Preto no Branco e A Franga, e na revista RN Econômico. Ah, jamais esquecer os panfletos poéticos e folhetos de cordel.

Nesta quinta, 22, seria aniversário de 96 anos da minha mãe, Dona Nenzinha, falecida em 1993. Devo tudo a ela e ao meu pai, que apesar da ausência de estudos foram incansáveis no incentivo para que eu estreitasse a relação com os livros, com a leitura em geral.

Seu Luiz cuidava dos mimos em quadrinhos, mas só depois que ela me desarnou no alfabeto, me colocou em aulas de reforço quando faltava matrícula e me deu lápis e papel para rabiscar o A do meu nome, a primeira letra que aprendi enchendo a superfície de um saco de pão como a fazer uma carta.

Ali pelos meus 13, 14 anos, ela me pegou pela mão e botou para estudar datilografia, uma iniciativa que moldou meu destino. Devo aquele gesto a vida até aqui; virou meu ofício teclar por três décadas. Se não aprendi a trocar lâmpadas ou pneus, é porque só restou escrever. Só faço isso.

Há poucos dias, uma jovem perguntou porque escrevo muito, bem além das obrigações profissionais. Pensei nos primeiros rabiscos e nos dias em que fui empurrado para as letras na preocupação dos meus pais com algum futuro. Na puberdade ainda, fiz versinhos, escrevi cartas a pedidos, tirei boas notas.

Então, depois de tanto tempo, percebi que escrevo para entender o mundo e a mim mesmo; escrevo porque me tornei um bom leitor; escrevo para me relacionar com outras pessoas, com aquelas que me leem, e para compartilhar meu aprendizado. Também para me distrair no prazer de pesquisar sobre um tema.

Escrevo porque além de gostar, o ato se tornou meu ofício, minha obrigação e também meu legado, iniciado naquele saquinho de pão que eu pensei ser papel-carta. E escrevo, finalmente, porque escrever e publicar é um fator individual de alcance coletivo. Escrevo no presente para que no futuro alguns saibam que tive passado.





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