BLOG DO ALEX MEDEIROS

01/12/2016
Sonhos de Eleonora

Por Augusto Fontenele



       "Não pode ser". Foi o que Eleonora pensou tão logo viu o tal sujeito. "Como ele pode estar aqui?". Seguiu-o com os olhos até ele desaparecer atrás de uma das gôndolas do supermercado. Teve que se voltar para frente porque chegara sua vez e a menina do caixa estava esperando ela passar os produtos do carrinho. Continuou olhando para trás, tentando ver novamente o homem.
Fora do supermercado, ainda pensou em voltar e falar com ele. Mas chegou à conclusão de que seria ridículo se aproximar de alguém e perguntar por que ele estava aparecendo em seus sonhos nas últimas semanas. De qualquer forma, demorou mais do que o normal até chegar ao carro, guardar as compras, ligar o veículo e sair, na esperança de ainda vê-lo no estacionamento.

                 -ooOoo-

       - É ele - apontou Eleonora quase gritando, enquanto entravam no restaurante para almoçar.
A princípio, Cris não levou muito a sério a conversa da amiga sobre as aparições do homem dos sonhos. Pensou que fosse imaginação dela. Mas, depois de quase esbarrar com ele na porta do restaurante, não teve outro jeito se não concordar, pois já era a segunda vez que o via. A primeira fora no dia anterior, quando andavam pelo shopping e ele passou pelas duas.
- Que coisa estranha... - comentou Cris, enquanto dirigiam-se para a mesa.
- Você acha estranho? Eu acho assustador.
Eleonora chegou a vê-lo ainda outro dia, quando saía do trabalho e ele estava entrando num táxi. Além de assustada, estava intrigada com a situação e já decidira que iria falar com ele, saber por que a perseguia ali e, o mais incrível, em seus sonhos. O problema é que o homem sempre surgia de forma rápida, sem dar chance dela se aproximar.
- Como ele aparece nos sonhos? - perguntou Cris, enquanto folheava o cardápio.
- De diversas formas...
No último sonho em que o homem misterioso apareceu, Eleonora estava se afogando numa piscina, quando ele chegou e a salvou. No anterior, ele estava ao seu lado num carro, enquanto ela dirigia para algum lugar distante.
- Ainda bem que você o viu... Pelo menos, assim, não vou achar que sou doida.
- Eu ficaria horrorizada se fosse comigo.
- Se ao menos eu conseguisse falar com ele...
- Porque você não tenta se comunicar com ele nos sonhos?
Cris contou que leu na Internet que existe uma forma de controlar os sonhos, tendo o que chamam de sonho lúcido, quando você tem consciência de que está sonhando. Disse que era coisa séria, comprovada, utilizada, inclusive, em alguns tipos de terapia. Eleonora achou a ideia de controlar os sonhos fascinante, mas não menos assustadora...

                  -ooOoo-

           Na Internet, Eleonora leu o que pôde sobre controle dos sonhos e aprendeu que o segredo estava em fazer com que o cérebro tomasse consciência de que estava sonhando. Para isso, começou uma série de exercícios diários de concentração, como se perguntar se estava ou não acordada, apagar e acender a luz - a iluminação não muda durante o sonho. Depois de alguns dias, conseguiu seu primeiro sonho consciente.
Estava em uma sala com uma longa mesa à sua frente, cercada por umas 30 pessoas comendo, bebendo e se divertindo exacerbadamente. O ambiente estava impregnado pelas conversas e gargalhadas. De imediato, começou a andar na lateral da mesa procurando o rosto do homem que costumava ver em seus sonhos. Finalmente encontrou-o numa das extremidades. Ao contrário dos outros, que a ignoravam totalmente, ele olhou em sua direção e sorriu. Pediu para ela sentar ao seu lado, numa cadeira que repentinamente apareceu vazia.
Eleonora sentou, mas nesse momento o homem se integrou novamente à conversa do grupo à sua volta e a deixou de lado. Tentou por mais de uma vez chamar sua atenção, mas ele voltava o olhar em sua direção, dava o mesmo sorriso, e a deixava novamente sozinha.
Isolada, sem um mínimo de atenção, começou a sentir-se abandonada. Teve vontade de chorar, mas se segurou, com receio de parecer ainda mais humilhada.
- Por que você não participa? - Ele perguntou.
Meio atordoada com o interesse repentino, ela respondeu:
- Como?
- Participando, se entrosando.
- Mas ninguém me dá atenção...
- Você fica aí do lado, com essa cara de choro, parece criança.
De repente, a sala ficou em silêncio. Ela notou que todos pararam para olhar em sua direção. Todos os rostos ganharam a mesma expressão forte, de quase condenação. Sentiu-se como um réu que espera apenas a sentença final. Sem se aguentar, saiu correndo e chorando. E, antes de acordar, chegou a ouvir todos rirem às suas costas. Abalada, quase não dormiu naquela noite, entre sonhos aleatórios e pesadelos.
No final da tarde, encontrou-se com Cris num café onde as duas costumavam ir. A amiga ficou assustada com a aventura noturna de Eleonora e temeu pela sua saúde emocional. Mas antes que pudesse expressar a sua preocupação, as duas veem a cena se repetir, com o mesmo homem saindo apressado do café.
- Não vou desistir. Vou até o fim... Quero saber o que está realmente acontecendo - garantiu Eleonora.

                    -ooOoo-

        - Por que você me persegue? O que você quer?
Estavam em outro sonho e desta vez começou a interrogá-lo assim que o viu, não dando chance para qualquer outro tipo de distração. Estavam mais uma vez no carro, só que quem dirigia agora era ele.
- Mas eu estou apenas aqui, não estou perseguindo ninguém.
- Como não, se você se intromete até na minha vida real?
- Vida real?
Quando ele acabou de falar, o carro entrou na curva e do outro lado surgiu uma serra, dessas de regiões frias, coberta por uma faixa de neve no cume. Aos poucos, uma bela paisagem vai surgindo, eles vão cruzando florestas, lagos e montanhas.
- É lindo, não? - perguntou ele.
- É - respondeu, sem demonstrar muito convicção e interesse em mudar o foco da conversa.
Quanto mais o carro avançava, mais paisagens diferentes descortinavam-se à sua frente. Na verdade, eram lugares que ela conhecera, alguns visitados há muito tempo, ou que sempre tivera vontade de conhecer. Percebendo isso, começou a se divertir, imaginando e automaticamente contemplando lugares de todos os tipos. Quase sem se dar conta, viu-se rindo, deliciando-se por estar ali, vendo o mundo transformar-se à sua frente. Extasiada, quis nunca mais sair... Nunca mais acordar...
Os raios de sol entraram pelo quarto e deixaram o rosto moreno claro de Eleonora iluminado pelo dourado da manhã. A enfermeira que cuidava dela nos últimos meses, e que acabara de escancarar as janelas, notou que, mesmo totalmente imóvel, o rosto de Eleonora estava sereno, cândido e por muito, muito pouco, sorrindo. Olhando a expressão dela assim, ficou se perguntando se realmente as pessoas em coma não sonham.





30/11/2016
As capas mais emotivas

As emocionantes homenagens ao time da Chapecoense feitas por seis jornais esportivos em seis cidades diferentes. 





29/11/2016





29/11/2016
Tragédias aéreas no futebol

A tragédia que abateu a delegação da Chapecoense e o próprio mundo esportivo já é a maior na história do futebol brasileiro - talvez mundial - e vem se somar a uma série de acidentes que marcaram com tristeza e comoção coletiva as trajetórias de outras equipes do futebol internacional.

Dois grandes acidentes aéreos com times de futebol já foram motivos de crônicas que publiquei à época do vespertino O Jornal de Hoje e transcrevi aqui no blog há alguns anos: tragédias com os clubes Torino, da Itália, e Manchester United, da Inglaterra, respectivamente em 1949 e 1958.

Em 4 de maio de 1949, a aeronave que transportava a grande equipe do Torino, um dos melhores do mundo naquele tempo, bateu no campanário da Basílica de Superga, em Turim, matando 31 pessoas. O time voltava de Lisboa, após um jogo contra o Benfica.

Dos craques de então, o maior deles, o húngaro Kubala, só escapou porque retornou de Portugal de automóvel com medo de ser preso no aeroporto por agentes da ditadura comunista da Hungria. Depois fugiu para a Espanha onde se tornou o maior ídolo do Barcelona, sendo superado somente agora por Lionel Messi.

Em 6 de fevereiro de 1958, o supertime do Manchester United, chamado de "Busby Babes" (os meninos do técnico Matt Busby), despencou no aeroporto de Munique por causa de uma tempestade de neve, após voltar de uma partida pela Copa da UEFA contra o Estrela Vermelha, da ex-Iugoslávia, em Belgrado. Morreram 23 pessoas.

Entre alguns sobreviventes, estava aquele que viria a ser o maior jogador da Inglaterra e responsável pelo título da Copa do Mundo de 1966, Bobby Charlton. A base do Manchester era considerada um fator determinante para fazer da seleção britânica uma das grandes favoritas à Copa de 1958, na Suécia, vencida pelo Brasil.

Em 16 de julho de 1960, oito jogadores da seleção da Dinamarca morreram num acidente aéreo no aeroporto de Kastrup, na capital Copenhagen, durante a decolagem.

Quase um ano depois, em 3 de abril de 1961, um novo acidente deixou 24 mortos nos Andes, a 350 quilômetros de Santiago, No voo estavam jogadores do Club de Deportes Green Cross, que desde 1985 se chama Green Cross Temuco.

Em 26 de setembro de 1969, um avião que transportava jogadores do time The Strongest, da Bolívia, caiu na localidade de Viloco, a 70 quilômetros de La Paz, em plena cordilheira andina de Tres Cruces. Morreram 74 pessoas, entre elas 17 jogadores.

E em 11 de agosto de 1979, uma aeronave russa despencou entre as cidades de Minsk e Tashkent, no Uzbequistão, matando 178 passageiros, entre eles 17 jogadores do time do Tashkent FK.







25/11/2016
Arte na Black Friday

Um dos mais renomados artistas plásticos do RN, além de excepcional diretor de arte publicitária, Carlos Soares aderiu à gigantesca promoção da Black Friday, que já adquiriu caldo de cultura por aqui como nos EUA, país de origem.

Carlos está disponibilizando uma série de telas em acrílico, no estilo abstrato, com descontos que vão de 20% até 40%. Atualmente, diversos quadros do artista estão decorando halls de entrada de edifícios e condomínios de alto padrão.

Interessados nas cores de Carlos Soares podem fazer contato pelo fone 98810-7773, que também pode ser acessado via WhatsApp.





25/11/2016
Política é o fim?

O título acima cantado por Caetano Veloso pode ser interpretado também como uma maldição da atividade política para quem entra nela com dinheiro. Aqui mesmo, no RN, temos vários exemplos de homens abastados que ao entrarem na carreira política acabaram seu patrimônio.

Um dos grandes milionários do mundo, Donald Trump pode ser mais um atingido pela maldição. Nem bem ganhou a eleição mais importante do planeta e suas contas já demonstram queda, de acordo com o último ranking da revista Forbes que mede a fortuna dos ricaços.

Segundo o ranking da Forbes 400, o magnata e agora presidente dos EUA caiu 35 posições em comparação ao ano passado. Em 2015, ocupava a 121ª posição com US$ 4,5 bilhões, agora aparece somente na 156ª com US$ 3,7 bilhões.

A perda coincide com o momento em que Trump decidiu entrar na disputa pela Casa Branca. E coincide também com o fato dele abrir mão do salário de US$ 400 mil que teria direito como presidente. Mas, ele deve estar dizendo, nenhuma coisa nem outra fazem falta depois de uma consagração eleitoral.





24/11/2016
UFRN tira o peru dos monitores

Para os estudantes que fazem monitoria na UFRN, o saco do Papai Noel estará tão vazio quanto suas contas bancárias. A instituição anunciou que a partir do dia 30 de novembro, ninguém mais receberá o salário que mensalmente vinha sendo depositado para centenas de alunos que ajudam os professores no atendimento às dúvidas dos discentes.

Há uma remota possibilidade de tudo voltar ao normal em meados de 2017, segundo conversas nos corredores. Os jovens estão revendo as listas de presentes, a roupa nova das festas e os ingredientes para a ceia em família. 





24/11/2016
Visita ilustre no Jesuino

A neta levou o avô para almoçar no Jesuino Brilhante, o restaurante que Rodrigo Levino transformou em consulado gastronômico do sertão potiguar no coração do bairro Pinheiros, em São Paulo.

Logo que entrou, o senhor se interessou pelas fotos nas paredes, algumas retratando cenas e geografia do sertão do RN pelo foco de Giovanni Sergio. E danou-se a perguntar sobre cada uma delas.

- O que é isso?
- É a pega do boi.
- Aonde é?
- Em Acarí, Rio Grande do Norte.
- Você conhece esse lugar?
- Não, mas é nas terras de Paulo Balá.
- Você conhece ele?
- Não, mas é um escritor e intelectual que estuda o sertão.

O interrogatório encerrou aí, quando o avô da cliente assídua do Jesuíno arrematou:
- Isso é lá em casa. Paulo Balá sou eu.





24/11/2016
No estacionamento

Por Augusto Fontenele

Toda semana a cena se repetia no estacionamento daquele prédio. Ele parava com um sedan de luxo preto com vidros escuros. Pouco depois, ela chegava em um SUV branco; estacionava o veículo, entrava rapidamente no carro dele e os dois saíam juntos. Cerca de duas horas depois, estavam de volta. Ela entrava novamente no SUV e cada um seguia seu caminho.

Como era uma das últimas quadras residenciais antes da região de motéis- e convenientemente escondida dos olhares da avenida principal -, não era incomum os casais se encontrarem ali e deixarem um dos carros estacionado. Mas aquele casal chamava a atenção pela regularidade. Todas as segundas-feiras, alguns minutos depois das 15 horas, eles apareciam e repetiam o mesmo ritual.

- Não tem erro. Toda semana é a mesma coisa, parece relógio - explicava a moradora a uma nova vizinha, enquanto as duas olhavam os filhos brincando na praça arborizada em frente ao prédio.
- Será que eles saem do trabalho e vêm se encontrar aqui? Com um carro desse, ele deve ser chefe dela. Talvez seja até mais velho.

Enquanto as duas conversavam, a mulher entrava mais uma vez no sedan preto. Ela aparentava ter um pouco mais que trinta anos, era uma morena bonita e bem-feita de corpo. Estava sempre bem arrumada, normalmente com óculos escuros, saia justa, salto alto e usando algumas joias.

- Não dá para saber a idade dele com esses vidros escuros. Ele nunca sai do carro, só ela... Mas eu acredito que não trabalhem juntos. O encontro é num dia certo da semana. Acho que ela deve inventar alguma desculpa para o marido, como ir ao psicólogo, à academia, ou algo do gênero.

- Pode ser que eles trabalhem juntos e nesse dia tenham algum compromisso de trabalho que permite dar uma fugida...
- Você notou que ela estava com o cabelo molhado? Assim, ninguém vai saber se tomou banho ou não.
- Mas será que é ela quem que está traindo o marido? Será que ele não é casado?
- Quem esconde o carro é ela.

Embora não se soubesse qual era a verdadeira relação do casal, e para onde iam depois que saiam dali, o destino imaginado era um dos motéis da região, até pelo costume de outros casais, não menos suspeitos, de também usarem o estacionamento como ponto de encontro.

É bom que se diga que não se tratava de uma vizinhança reconhecidamente fofoqueira, até porque era um bairro de classe média, com muita gente trabalhando ou ocupada com seus afazeres - embora isso não evitasse que alguns encontrassem tempo para dar uma atenção maior à vida do próximo.

-oo0oo-

O sinal que algo não ia bem surgiu com um grupo de meninos que jogava voleibol na quadra da praça. Eles ficaram curiosos com o fato da mulher estar demorando bem mais do que o normal para chegar. Já fazia mais de 20 minutos que o sedan preto estava lá sem nem um sinal dela.

- Vai ver o marido descobriu e não deixou ela vir, opinou um dos meninos.
- Talvez seja só o trânsito. Ela deve estar chegando.
- Sei não... Algo me diz que ela não vem. Sou capaz até de apostar.
- Eu aposto que vem... tá vendo... ela chegou.

A mulher estacionou o carro e entrou correndo no sedan, que logo depois saiu apressado, como se quisesse compensar o tempo perdido. Com ela de volta, os meninos retornaram com o jogo de vôlei, sem que o assunto tivesse tido maiores consequências.

Isso até a outra segunda-feira, quando ela, embora tenha chegado na hora habitual, saiu do carro com uma expressão muito séria, até agressiva, e passou bem mais tempo dentro do sedan, antes deles saírem.

Mas a surpresa foi maior quando os dois chegaram quase que ao mesmo tempo dois dias depois, na quarta-feira. Nesse dia, ela estava bem menos arrumada, de vestido solto e sandália baixa, e visivelmente abatida. Ficou mais de meia hora no sedã e, ao contrário das outras vezes, não saiu dali com ele. Pegou o SUV e foi embora apressada. O homem ainda ficou alguns minutos parado, para só depois deixar o local.

- O negócio esquentou. Será que eles acabaram? - Perguntou o homem que passeava com o cachorrinho para a mulher.
- Pode ser, tenho quase certeza que ela saiu chorando.

Passaram-se duas semanas sem os dois aparecerem, o que aumentou a especulação de que o casal realmente tinha rompido e não voltaria mais. Até que na terceira semana, na mesma segunda-feira, e praticamente no mesmo horário, chegou o sedan preto.

Como de costume, quem estava na praça ficou esperando ela aparecer logo depois. Qual não foi a surpresa quando chegou um carro diferente e desceu uma mulher totalmente desconhecida.

Ela entrou rapidamente no sedan, antes que o veículo partisse do estacionamento, deixando todos perplexos, tentando assimilar o que acabara de ocorrer. De certa forma, todos se sentiram tão traídos quanto imaginavam ter se sentido a mulher do SUV.





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