BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/04/2018
Debate sobre o Descobrimento em Touros

A Assembleia Legislativa do RN promoveu na manhã desta quinta-feira (12) um debate em torno da teoria que defende o município de Touros como local de descobrimento do Brasil. Proposta pelo deputado Carlos Augusto Maia (PCdoB), a audiência pública "Touros, o Brasil nasceu aqui" reuniu na Câmara Municipal de Touros, historiadores, estudiosos do assunto, vereadores de Touros, Natal e representantes do setor turístico do estado e município. O debate aconteceu dez dias antes da comemoração de 518 anos da descoberta do Brasil.

"Trata-se de uma reparação necessária ao nosso Estado. Essa teoria mexe com a autoestima do povo potiguar. Precisamos abraçar esse tema para que o povo tenha acesso a esses argumentos e quem sabe, possamos mudar a história. As potencialidades turísticas que podem resultar a partir desse assunto são inestimáveis", destacou o parlamentar.

Para o historiador e escritor Antônio Holanda a história do Brasil é feita através de conveniência. Ele defende a apresentação de documentos que comprovem as teorias. "Há 20 anos que defendo a teoria que o Brasil nasceu aqui no RN. E isso é muito importante para a gente. E me incomoda essa falta de reconhecimento. Também considero uma agressão a retirada do marco de Touros do local de origem para colocar dentro do Forte dos Reis Magos, ele é o documento mais antigo do Brasil", disse.

Autora do estudo "O Brasil começa aqui" e professora do curso de Turismo da UFRN, Rosana Mazaro, destaca as características culturais dos habitantes do território potiguar - conhecidos pela prática do canibalismo - e outras questões para que o título de local de descobrimento do Brasil tenha ficado com a Bahia. "Temos que ter inteligência para transformar essa história em atrativos e reverter isso para o RN".

O historiador e publicitário Marcus César prefere destacar a cerimônia de posse do Brasil por Portugal, que segundo ele, ocorreu em Touros no ano de 1501 com a fixação do Marco. "A descrição topográfica contida na carta de Pero Vaz de Caminha coincide com Porto Seguro, já o marco não cabe contestação. É o documento jurídico mais antigo do Brasil", frisa.

No dia 7 de agosto de 1501 foi colocado o Marco de Touros, um dos símbolos da colonização de Portugal. Há inclusive uma lei estadual (Nº 7.831) criada pelo ex-deputado estadual Valério Mesquita, assinada pelo então governador Garibaldi Alves Filho, comemorando o 7 de agosto como Dia do Rio Grande do Norte. Lei embasada a partir de estudos desenvolvidos pelo historiador Marcus César Cavalcanti de Morais.

A presidente da Câmara de Vereadores de Touros, Isabel Cristina de Melo, enalteceu o debate promovido pela Assembleia. "Hoje é um dia histórico uma vez que reuniu autoridades de diversas áreas em torno dessa tese que envolve não só o município de Touros, mas todo o Rio Grande do Norte". Representando a prefeitura de Touros, o vereador Diego França também agradeceu a presença da Assembleia Legislativa no município.

A importância dos ganhos para a cultura e economia de todo o estado foram ressaltados pelo vereador de Natal, Robson Carvalho, que vai levar o debate para a Câmara de Natal no próximo dia 27. "Não posso ser hipócrita e negar os ganhos econômicos de comprovação dessa teoria", disse após apresentar projeto de lei de sua autoria que garante a abordagem desse assunto em sala de aula.

O olhar estrangeiro também foi contemplado na audiência pública. O português Paulo Gouveia destacou que apesar de os indícios que confirmem essa teoria serem muitos, é preciso ter provas. "Por isso sugiro que os interessados e defensores dessa teoria pesquisem as cartas dos navegantes, guardados no Arquivo Nacional da Biblioteca do Tombo, em Portugal. Não acredito que eles tenham rasgado esses documentos", sugeriu.

           



12/04/2018
A politicagem dos zumbis

Os petistas num todo, militantes ou simpatizantes, decidiram transformar as pitadas diárias de sectarismo ideológico numa massa compacta de fanatismo religioso. Num surto de causar espanto no mais radical dos evangélicos, começam a inserir o nome de Lula nos seus próprios nomes.

A ideia de jerico consiste em anexar o apelido do ex-presidente entre o nome e o prenome, grafando assim, por exemplo, Gleisi Lula Hoffmann, Lindbergh Lula Farias, Fátima Lula Bezerra, Fernando Lula Mineiro ou Natália Lula Bonavides. Muitos já editaram a esdrúxula mudança em seus perfis nas redes sociais.

Diante da insanidade mental que a dicotomia "coxinha x mortadela" espalhou pelo País, é de se imaginar que ativistas da extrema direita responderão à tresloucada atitude com a mesma disenteria cerebral dos petistas. Veremos em breve o nome de Bolsonaro compondo perfis republiqueta afora.

Além de Olavo Bolsonaro de Carvalho, Alexandre Bolsonaro Frota, Rachel Bolsonaro Sheherazade, José Bolsonaro Aldo e Danilo Bolsonaro Gentili, quem sabe aparecem uns mais radicais e adotem nomes assim: João Pinochet Silva, Maria Médici Souza, José Ustras Dantas ou Pedro Paranhos Fleury Rocha.

           



12/04/2018
Gustavo Carvalho apela por gerador em hospital

Em pronunciamento na sessão plenária dessa quinta-feira (12), na Assembleia Legislativa, o deputado Gustavo Carvalho (PSDB) lamentou a interdição do Centro de Cirurgias de Alta Complexidade do Hospital Maternidade Matilde Santina, no município de Cerro-Corá, em razão da ausência de gerador elétrico na unidade de saúde. O parlamentar fez um apelo ao Governo do Estado solicitando a "urgente" aquisição do equipamento.

"O hospital atende a um número considerável de pacientes que, em razão da possibilidade de interrupção no fornecimento de energia e falta do gerador elétrico, correm sérios riscos de saúde", argumentou Gustavo Carvalho.

Na oportunidade, o deputado lembrou o requerimento apresentado em julho do ano passado, ocasião em que solicitou ao Executivo Estadual a aquisição do equipamento. "Há quase um ano encaminhamos essa solicitação ao Governo do Estado, justificando a clara necessidade de instalação desse aparelho no hospital de Cerro-Corá. O Governo precisa nos ouvir mais, pois aqui na Casa recebemos as demandas de todo o Rio Grande do Norte", concluiu.

           



11/04/2018
Barcelona, Manchester e os estaduais

Domingo o Botafogo sagrou-se campeão do Rio de Janeiro, após um gol desesperado aos 49 minutos do segundo tempo, quando a torcida do Vasco já festejava o seu 24º título. O gol do argentino Carli levou o jogo para os pênaltis e o Fogão conquistou a 22º taça.

Assisti a partida sem muita pompa, o coração dividido entre a paixão juvenil e a razão adulta de quem sabe e prega que ganhar um campeonato estadual é como ser milionário no Banco Imobiliário ou ser o maior prefeito no aplicativo Foursquare. Defendo o fim dos estaduais e o aumento de séries inferiores no Brasileirão, como na Inglaterra.

Ontem, quem assistiu aos dois duelos pela Champions League entre Roma x Barcelona e Manchester City x Liverpool pode fazer um exercício de raciocínio cerebral para imaginar o que digo. O City e o Barça, favoritos nas apostas, estão fora da competição, mas fazem suas melhores temporadas nas respectivas ligas nacionais.

Depois do naufrágio de ontem, que tal imaginar o que deve estar passando pela mente dos fanáticos torcedores dos dois clubes? Será que os dois espetaculares desempenhos de Barça e City na temporada pesaram na hora da decepção. Vale a pergunta: prefere ganhar a liga local ou a Champions?

A maior copa interclubes do planeta seguirá a partir de agora com outros favoritos a ocupar os lugares dos derrotados de ontem. Duvido que a conquista das ligas espanhola e inglesa seja um unguento doce para fazer esquecer o tropeço continental. Campeão carioca, paulista ou potiguar pra quê mesmo?

           



09/04/2018
A hora da xepa partidária

Desde os anos 1950 que várias gerações de brasileiros aprenderam o significado da palavra "xepa" a partir das artes. Primeiro em 1952, quando o ucraniano Pedro Bloch escreveu a peça teatral Dona Xepa, lotando o histórico Teatro Rival, no centro do Rio de Janeiro, durante três temporadas.

Cinco anos depois da última temporada, em 1959, a obra do jornalista, literato e médico ganhou uma versão cinematográfica com o papel-título da mesma atriz celebrada no tablado, Alda Garrido. Coadjuvando com ela, a atriz Odete Lara e o ator Colé Santana, ambos não menos célebres que a protagonista.

Dezoito anos se passaram e o roteiro atingiu os lares das famílias brasileiras com uma novela às 18 horas na TV Globo. Herval Rossano dirigiu a trama escrita por Gilberto Braga, então um jovem de 32 anos que explodiria de sucesso dois anos depois, 1979, com um clássico chamado Dancin' Days.

E finalmente, as gerações atuais conheceram o termo com a novela de 2013, na TV Record, onde a atriz Ângela Leal interpretou o papel principal (em 2015 a emissora reprisou). A mesma canção, "Xepa", que foi tema de abertura da Globo na voz de Ruy Maurity, foi regravada por Eliana de Lima.

É, pois, "Xepa", o nome dado para os restos de mercadorias que são vendidas nas feiras livres. E no mercado depreciado e execrável da política eleitoral, a hora da "xepa" ocorre agora, em vésperas de convenções partidárias, quando legendas e personagens repugnantes se vendem na feira dos apoios.

No âmbito do Executivo e Legislativo, começam os troca-trocas, o embarque e desembarque de restos de mercadorias e mercadores. No "mangaio" dos favores, gente desqualificada assume funções públicas apenas por ser moeda de negociação.

Em outubro, os partidos fazem uma feira mais ampla e deixam pra sociedade o trabalho de consumir a "xepa" com gosto de atraso.

           



06/04/2018
A bicicleta chilena

O gol espetacular de Cristiano Ronaldo contra a Juventus, surpreendendo o grande goleiro Buffon em pleno estádio de Turim, fez a imprensa esportiva internacional enaltecer mais uma vez aquela que talvez seja a jogada de maior beleza plástica do futebol.

Por mais repetida que ela seja, há sempre uma estupefação quando um jogador aplica uma bicicleta da maneira que o craque português fez, o corpo suspenso no ar em perfeita horizontal a dois metros ou mais distante do gramado. Uma imagem eternizada por Pelé serve de referência.

Outro fato que a jogada gera na mídia é matérias sobre a paternidade do lance. A imprensa brasileira sempre se refere ao artilheiro da Copa de 1938, Leônidas da Silva, como sendo o inventor, de acordo com registros de 1932, ano em que aplicou o golpe de perna pela primeira vez.

Mas o nosso "diamante negro" é como Leonardo da Vinci, dado como inventor do veículo de duas rodas, mas que há registros anteriores na China. Pelo menos das décadas antes dele, o espanhol naturalizado chileno Ramón Unzaga surpreendeu a assistência com uma bicicleta em 1914.

Na cidade em que viveu, Talcahuano, há uma estátua dele (foto) na posição clássica da jogada espetacular que até hoje causa impacto. Logo depois de Unzaga, o chileno David Arellano exportou o lance para a Europa, e por isso a coreografia é chamada de "chilena" e não de bicicleta. Mesmo no Brasil, Leônidas não foi o primeiro; bem antes havia Petronilho de Brito.

O feito maior do atacante revelado pelo São Cristóvão é que deu bicicleta numa Copa e em duelos no Maracanã e Pacaembu, assim como fez Ronaldo diante da Juventus, numa Champions League. Mas o seu gol foi cópia plástica e acrobática de Pelé, Rivaldo, Ibrahimovic, Hugo Sánchez, Van Basten e tantos outros malabaristas da bola.

           



05/04/2018
Na onda pop há 50 anos

O clássico longa-metragem animado dos Beatles, "Yellow Submarine", lançado em 1968, vai retornar às telas em 8 de julho, nos EUA, comemorando os cinquenta anos da icônica produção cuja inovação gráfica inseriu as crianças no universo dos Fab Four e virou marca de uma série do grupo Monty Python.

A película original foi restaurada em resolução digital 4K, realizada manualmente, quadro a quadro, sem a utilização de software automatizado. O filme foi uma consequência da série animada televisiva "The Beatles", que foi ao ar entre 1965 e 1967. Os quatro artistas em princípio não aprovaram.

Em 1969, quando já havia boatos da desintegração da banda, saiu o álbum homônimo com a trilha sonora que continha apenas o lado A com canções autorais. Apesar de ter sido um disco considerado fraco, já que não alcançou liderança nas paradas como os demais, trouxe hits que se perpetuaram.

Além da própria marchinha de coreto que leva o título do filme, o disco trouxe um hino ao amor de todos os verões desde então, "All You Need Is Love", executada em julho de 1967 na BBC com a participação de ícones como Mick Jagger, Eric Clapton, Graham Nash, Keith Moon e Marianne Faithfull.

No caso do filme, outras músicas consagradas entraram na trilha, como "Eleanor Rigby", "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e "Lucy in the Sky With Diamonds". O desenho animado é uma espetacular viagem psicodélica inserida num período histórico em que os Beatles experimentaram o desbunde.

Caricaturas de John, Paul, George e Ringo viajavam a um mundo chamado Pepperland onde tinham que enfrentar criaturas malignas chamadas Blues Meanies. Quando viu a série na TV, o quarteto rejeitou a produção e alguns deles tornaram isso público, mas anos depois todos se declararam satisfeitos.

Em 1972, John Lennon disse que ainda se divertia assistindo aos desenhos dos Beatles na televisão. Já nos 90, George Harrison disse que a animação era tão ruim e boba que ele acabava gostando. "Acho que o tempo pode fazê-la mais divertida", comentou. Meio século depois, o mundo vai agora conferir.

           



02/04/2018
Beco sem saída pela direita

É inegável, além de bastante visível ao mais ingênuo observador da cena geopolítica, que há uma onda conservadora avançando pelo mundo. Assim como há um esfacelamento da esquerda no Brasil após o lamaçal moral e ético da corrupção petista.
Nos EUA, Donald Trump soube capitalizar com um discurso moralista e nacionalista os anseios mais prementes de uma sociedade que navega há décadas num paradoxal sentimento, misto de provincianismo moral e cosmopolitismo tecnológico.
Na Europa, a partir da França com Emmanuel Macron, partidos e personalidades com pensamento à direita do espectro dominante da social democracia seguem em crescimento e alcançando vitórias eleitorais relevantes. O mesmo já aconteceu na Argentina, com Mauricio Macri, se reeditou no Chile e desponta na Colômbia.
No Brasil, a esquerda se divide em acompanhar com expectativa o cortejo panfletário de Lula - liminarmente nas ruas por um "habeas esperneandus" - e "histerializar" o cadáver de Marielle Franco numa versão tropical do cavaleiro cristão El Cid, que morto sobre um cavalo batalhou pela unificação espanhola.
E o que faz a direita brasileira para ocupar espaço nesse vácuo aberto pelo descrédito no PT? Que estratégia política e eleitoral para surfar na onda conservacionista? Será que tudo que a direita tem para oferecer é o tripé Jair Bolsonaro, João Amoêdo e Flávio Rocha? É muito pouco em forma e conteúdo.
Incrível que uma direita que já teve formuladores político, econômico e ideológico como Golbery do Couto e Silva, Roberto Campos e José Guilherme Merquior se resuma hoje a um sargentão de caserna, um garoto de recado do mercado financeiro e um milionário em busca de resgatar a popularidade perdida.
Se a saída brasileira pela direita está nessas três vias, temo que a esquerda moribunda ameace uma ressurreição, liderada por um lazarento que já conseguiu em passado recente plantar um poste de anágua e vestido no imaginário do analfabetismo cidadão. Em assim sendo, melhor o trio pegar o beco e liberar a avenida para o centro de Geraldo Alckmin montar banca.

           



01/04/2018
Só um poeminha transgressor

Ideologia virou coisa raivosa
fanatismo na cabeça e na pele
nos partidos, de PT ao PSL
feminismo, da feia ou gostosa
na ditadura, pobre ou poderosa
o que há de bom ela repele
ideologia é arma mentirosa
que cria mitos como Marielle.

           



30/03/2018
O Rio de Janeiro continua feio

Meninos eu vi. Eu vivi para ver o torcedor e a mídia potiguares repercutirem muito mais um clássico paulista do que um carioca. Quarta-feira, pouco se falou em Botafogo e Flamengo desde as primeiras horas da manhã até o horário do jogo, transmitido para o RN pela Globo.

O que testemunhei nas redes sociais e nas conversas pessoais e pelo WhatsApp foi o assunto dominante da decisão paulistana entre Corinthians e São Paulo, que foi transmitido apenas por canais fechados ou nos pacotes pagos. Foi-se o tempo em que natalenses e vizinhanças só consumiam o estadual do Rio.

Entre os anos de 1950 e 1980, o RN ignorava completamente o futebol de São Paulo, consequência da audiência das rádios cariocas Nacional e Tupi, quando os canais de televisão exerciam pouco influência no imaginário papa-jerimum. Eu mesmo, só vi clubes paulistas tocando bola nos filmetes do Canal 100, dominado pelos espetáculos no Maracanã.

Nem mesmo a onipresença divinal do rei Pelé conseguiu alterar a relação dos potiguares com os times cariocas. Havia, claro, os torcedores do Santos, mas jamais ocorreu de alguma sala de visita, bar ou boteco reunir grupos para ver uma final do estadual paulista. O oposto em se tratando de confronto carioca.

Foram as transmissões ao vivo pela TV e as constantes conquistas dos clubes de SP, como o tricampeonato mundial do São Paulo FC, os shows de bola do Palmeiras da Parmalat e o reencontro do Corinthians com as vitórias que fizeram brotar paixão nas novas gerações de Natal e interior.

Some-se a isso o processo de decadência do futebol carioca, o empobrecimento das gestões clubistas e o avanço da violência urbana que contaminou as torcidas de Vasco, Fluminense, Flamengo e Botafogo, anexando a isso a ineficiência policial no combate aos embates das ruas.

Hoje o que vemos é que os chamados quatro grandes do RJ só jogam pra consumo interno, estão longe do padrão continental dos paulistas e até de gaúchos e mineiros. Para servir de referência, o Flamengo (time de maior tradição no País) não ganha uma Libertadores há quase 40 anos.

Não há time grande na Europa nem na Argentina que fique tanto tempo numa seca dessa. O Flamengo que perdeu para um Botafogo tipo série B é um amontoado de jogadores medíocres comandados por um Diego moribundo, refugo europeu em fim de carreira. Chega de ilusão: ganhar estadual não vale grande coisa. É como ser rico no Banco Imobiliário.

           



28/03/2018
Spielberg desperta nossa meninice

Quem ainda não foi assistir o filme Jogador Nº 1, nova produção do gênio Steven Spielberg, é bom fazer um pequeno, mas profundo ritual antes de comprar o ingresso. Convém se desnudar da alma adulta e vestir a fantasia do adolescente que já foi um dia.

Se na superfície da trama há um filme futurista com jogadores celebrando os prazeres da brincadeira, na profundidade do roteiro (baseado num livro de 2011 cheio de referências aos anos 80) há o mergulho filosófico na existência, nas buscas cotidianas que muita gente abandona diante da dura realidade.

Deixe a criança interior se acomodar na poltrona do cinema, pegue a pipoca e o refrigerante, e não se preocupe por não entender os games dos dias atuais ou não lembrar dos jogos do passado. Basta confiar a Spielberg o joystick da sua imaginação, que a distopia da aventura lhe carrega.

Jogador Nº 1 é entretenimento puro, com aquela pitadinha de recados psicológico e filosófico tão presentes nas obras desse produtor e diretor que parece não cansar de nos chamar para se divertir com ele. Spielberg surpreende com uma improvável mistura de tecnologia e saudosismo.

Garantia de arrepios emotivos e vontade de se esconder no escuro imaginando as segundas sessões de antigamente.

           



26/03/2018
Começa a Copa da adivinhação

No final do ano passado, como é de praxe para a alimentação do imaginário esotérico das pessoas, videntes de todas as espécies trataram de avisar que 2018 seria melhor do que 2017, que para muitos foi um ano carregado de negatividade e outros babados.

Mas, bastou se aproximar a Copa do Mundo na Rússia e a atração por oráculos dos tempos modernos tomou conta das editorias de amenidades e também de futebol. Todo mundo quer saber o que dizem os astros, os números, as runas, os orixás, as cartas sobre o torneio mundial de futebol.

Num canal português, um programa de auditório repleto de frescuras entrevistou uma senhora especializada em tarot, que arrisca nova glória da seleção de Ronaldo, repetindo o que ocorreu na Eurocopa. Num tablóide londrino, um quase bruxo garante uma nova era para o jovem "real team".

No Brasil, o popular astrólogo João Bidu não comunga com a torcida pacheca numa confiança total na seleção de Tite. Diz que apesar de favorito, o Brasil pode ser atrapalhado por Júpiter e Saturno e tropeçar diante de adversários experientes. Avisa que será muito difícil a conquista da taça, bem diferente do que imagina os torcedores da Canarinho.

A sensitiva Márcia Fernandes, figurinha fácil nos programas de bobagens de pequenas TVs abertas, sente um astral divergente do prenunciado pelo colega de adivinhações. Não sei se ficou empolgada com o amistoso em que o Brasil titular vencer a Alemanha reserva por 1 x 0, mas revela que pode pintar uma final como revanche dos 7 x 1.

Envolvida com os mistérios da quiromancia, Sara Zaad vai nos detalhes e avisa que a seleção brasileira vai perder a final para uma seleção europeia. E a decisão será nos pênaltis. Diz que Neymar não fará uma boa Copa e que um outro bom jogador irá se machucar nas quartas-de-final. Ainda diz França, Inglaterra e Portugal vão dar trabalho.

As previsões mais negativas para o Brasil são do vidente Carlinhos e do premonitor Jucelino Luz, talvez os dois mais famosos. O primeiro antecipou a contusão de Neymar e garante que o craque não jogará a Copa. Foi ele quem previu a queda do avião da Chapecoense. O segundo informa que problemas técnicos derrubarão a seleção precocemente.

Mas nem tudo é notícia ruim para a nação dos pachecos. Os dois adivinhões são taxativos: nem Lula nem Bolsonaro ganhará a eleição para presidente do Brasil. Ufa!

           



23/03/2018
No Brasil, a Justiça vareia

Muita gente já disse que o STF virou um circo. E a sessão dessa quinta-feira, me fez lembrar o saudoso programa Os Trapalhões, o original com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Não lembrei pelas palhaçadas do quarteto (respeito a atividade dos palhaços), mas por um bordão de Renato Aragão.

Encarnando o cearense misto de bobo e esperto, o comediante atropelava o vernáculo bradando "aí vareia", tirando o verbo variar do padrão culto da linguagem e o lançando como neologismo no padrão coloquial da matutice nacional.

Ontem fiquei prostrado na TV, como na meninice diante dos Trapalhões, acompanhando a sessão do Superior Tribunal Federal, que julgava a aceitabilidade do direito de habeas corpus apresentado pelos advogados do senhor Luiz Inácio.

Impressionou-me a capacidade de eloquência do doutor Batochio, que cuspiu um francês fluente na augusta Corte e encarnou um arauto das liberdades em favor de Lula, como se reeditasse a defesa de Sobral Pinto para tirar Carlos Prestes das garras da ditadura getulista.

Vomitou décadas de juridiquês na tese da presunção de inocência; umedeceu militantes de grelo duro ao bradar sobre a volúpia do encarceramento numa onda de autoritarismo; sensibilizou o companheiro Lewandowski, no outro lado do balcão, que logo falou em uso generoso do habeas corpus.

Aliás, mais bonito fez Marco Aurélio, o primo de Collor, que ilustrou seu voto com um "heroico habeas corpus", para logo a seguir preferir honrar uma poltrona de avião do que a cadeira do Supremo. Foi um festival de português castiço, quase galego, para defender um condenado por corrupção.

E os dez minutos de intervalo que duraram cinquenta? No tempo dos Trapalhões, os humoristas davam pausa para aprimorar a palhaçada, improvisar a piada, estender o riso da plateia. O STF tramou o que já era premeditado, variou o tempo num buraco de minhoca da conveniência.

Ora, tanto contorcionismo jurídico e tamanho esforço linguístico em favor de um político ladrão, líder dos dois maiores escândalos de desvios do dinheiro público - Mensalão e Petrolão. Tentar subverter a Constituição para não prendê-lo, apesar de julgado, enquanto outros corruptos seguem presos sem um julgamento.

A Justiça do Brasil é para todos, mas vareia muito.

           



22/03/2018
Letras de A até agora

Nas páginas da mídia impressa, lá se vão trinta anos desde os primeiros artigos, crônicas e poemas publicados no semanário Dois Pontos (a pedido de Rejane Cardoso), nos alternativos Preto no Branco e A Franga, e na revista RN Econômico. Ah, jamais esquecer os panfletos poéticos e folhetos de cordel.

Nesta quinta, 22, seria aniversário de 96 anos da minha mãe, Dona Nenzinha, falecida em 1993. Devo tudo a ela e ao meu pai, que apesar da ausência de estudos foram incansáveis no incentivo para que eu estreitasse a relação com os livros, com a leitura em geral.

Seu Luiz cuidava dos mimos em quadrinhos, mas só depois que ela me desarnou no alfabeto, me colocou em aulas de reforço quando faltava matrícula e me deu lápis e papel para rabiscar o A do meu nome, a primeira letra que aprendi enchendo a superfície de um saco de pão como a fazer uma carta.

Ali pelos meus 13, 14 anos, ela me pegou pela mão e botou para estudar datilografia, uma iniciativa que moldou meu destino. Devo aquele gesto a vida até aqui; virou meu ofício teclar por três décadas. Se não aprendi a trocar lâmpadas ou pneus, é porque só restou escrever. Só faço isso.

Há poucos dias, uma jovem perguntou porque escrevo muito, bem além das obrigações profissionais. Pensei nos primeiros rabiscos e nos dias em que fui empurrado para as letras na preocupação dos meus pais com algum futuro. Na puberdade ainda, fiz versinhos, escrevi cartas a pedidos, tirei boas notas.

Então, depois de tanto tempo, percebi que escrevo para entender o mundo e a mim mesmo; escrevo porque me tornei um bom leitor; escrevo para me relacionar com outras pessoas, com aquelas que me leem, e para compartilhar meu aprendizado. Também para me distrair no prazer de pesquisar sobre um tema.

Escrevo porque além de gostar, o ato se tornou meu ofício, minha obrigação e também meu legado, iniciado naquele saquinho de pão que eu pensei ser papel-carta. E escrevo, finalmente, porque escrever e publicar é um fator individual de alcance coletivo. Escrevo no presente para que no futuro alguns saibam que tive passado.

           



22/03/2018
Contos e crônicas

O engenheiro e músico Fernando Fontes, guitarrista da banda de rock e blues Efeito Doppler, está lançando seu primeiro livro, "Dois Consecutivos", no próximo sábado, 19h, no Barões do Café, no Shopping Seaway. Tem duas capas (lado A e B) para que o leitor leia até de trás pra frente. O livro sai pelo selo independente Máquina, do próprio autor.

           



22/03/2018
Abril vermelho, azul e amarelo

Ontem me chamaram a atenção duas colunas do diário paulista O Estado de São Paulo, a do valente paraibano José Nêumanne Pinto e a da versátil repórter Vera Magalhães, que acompanho desde seus tempos na Ilustrada com o editor potiguar Rodrigo Levino.

Nêumane escreveu que Lula poderia ser "beneficiário de anistia num lance sórdido, conhecido no popular como tapetão". Depois alfinetou o STF que poderia se "configurar como puxadinho da mal afamadíssima justiça desportiva".

Confiando no feeling e na própria leitura de conjuntura, Vera afirmou que "o senador Aécio Neves não deve ser candidato a nada nas eleições em outubro". E logo após, reafirmou no microfone da Rádio Jovem Pan, informando que o mineiro conversou com os advogados e tomou a decisão.

Ambos alvos da Operação Lava Jato, Lula e Aécio não tem em comum apenas a condição de ícones dos dois partidos que há quase três décadas dividem o fanatismo partidário no País. Num ilustrado túnel das suas carreiras, a luz que se vê ao final é a de uma cela de cadeia.

Enquanto um se debate nas ruas, tentando vestir-se de mártir, o outro se recolhe ao limbo eleitoral. Agem de forma diferente, mas sabem que há similaridade em seus futuros. A Justiça - leia-se establishment - vai buscar uma saída salomônica para amainar as trincheiras petistas e tucanas: xadrez para os dois. E pode ser em abril.

Aguardemos.

           



22/03/2018
Justiça tardia e pai fujão

O ator Dado Dolabella, 37 anos, está preso há mais de um mês numa cadeia de São Paulo por não pagar a pensão alimentícia referente a um dos seus três filhos.

De acordo com o portal G1, o artista deve mais de 190 mil reais a um filho que teve com uma estudante de direito. A informação foi confirmada pela mãe do ator, a também atriz Pepita Rodrigues.

"Ele está lá e eu estou como uma mãe pode estar nesta situação: muito mal", disse Pepita. Dado Dolabella foi preso no dia 5 de fevereiro e, segundo as autoridades, poderá ficar preso durante mais um mês se não pagar o que deve.

O ator já tinha contestado o valor cobrado pela mãe do filho. "O valor da pensão está errado, eu não recebo mais o que recebia. Eu queria poder dar mais ao meu filho", afirmou quando foi preso.

O caso de Dolabella não é o único em que alguém célebre acaba na cadeia por não pagar pensão de alimentos. No começo da semana, amigos do jogador de basquete Lucas Tischer, ex-pivô da seleção brasileira, pagaram sua dívida de R$ 4,7 mil para tirá-lo do xadrez.

Um caso que deu audiência foi o do ator Paulo Cesar Pereio, que foi preso e chorou na TV, em 1994; já os ex-craques de futebol, Romário, Roberto Carlos e Edilson também sofreram ordem de prisão.

Há poucos dias, muitos se comoveram com a desventura da jogadora Cristina Pirv, tentando ajuda do pai dos filhos, o ídolo do vôlei Giba.

Dizem que a prisão por não pagamento de pensão alimentícia é a única coisa no Brasil que não distingue rico de pobre nem famoso de anônimo. No entanto, um caso que se arrasta por anos num forum de Parnamirim excede a regra.

Tratado até como "segredo de Justiça", o processo de ação de alimentos contra um canalha chamado Gil Tomás começou quando sua filha era bebê; hoje a menina tem 16 anos e jamais recebeu auxílio do safado. No Brasil, a justiça tardia é patifaria.

           



20/03/2018
Os amarelinhos de Flávio

A inteligência do empresário Flávio Rocha é suficiente para não lhe deixar se iludir com uma multidão uniformizada.
O marketing preliminar na imagem de um comício repleto de camisas amarelas não pode nem deve fazê-lo crer que uma candidatura está madura.

           



20/03/2018
Os goleadores da Europa

Apesar de algumas ligas já apresentarem seus prováveis campeões da temporada, graças às campanhas impecáveis do Manchester City na Inglaterra, do Barcelona na Espanha, do Bayern na Alemanha e do PSG na França, a disputa pela Chuteira de Ouro está cada dia mais acirrada.

Domingo, com os quatro gols marcados contra o Girona, o português Cristiano Ronaldo entrou de vez na briga que vem sendo liderada gol a gol pelo egípcio Mohamed Salah, pelo argentino Lionel Messi, o britânico Harry Kane, o uruguaio Edson Cavani e o brasileiro Jonas (que tem peso menor devido à liga portuguesa).

Confira abaixo os onze (11) artilheiros que brigam no momento pelo prêmio que ano a ano confronta Messi e Ronaldo (cada um com 4 troféus), e que tem Suarez em busca do seu terceiro:

Salah (Liverpool) 56 pontos (28 gols)
Messi (Barcelona) 50 pontos (25 gols)
Kane (Tottenham) 48 pontos (24 gols)
Cavani (PSG) 48 (24 gols)
Immobile (Lazio) 48 (24 gols)
Jonas (Benfica) 46,5 (31 gols)
Lewandowski (Bayern) 46 (23 gols)
Icardi (Inter) 44 (22 gols)
Ronaldo (R. Madrid) 44 (22 gols)
Luis Suárez (Barcelona) 42 (21 gols)
Agüero (Manchester City) 42 (21 gols)

           



19/03/2018
O ibope de Marielle

O assassinato da vereadora Marielle Franco deu uma dimensão eleitoral à sua imagem que não existia na cena carioca. A covardia da execução universalizou indignações, sua morte unificou tendências distintas, a ausência dos seus atos na conjuntura do Rio ampliou pelo País o grito contra a violência.

Marielle se tornou bandeira à esquerda e à direita, amplificou discursos de paz, virou plataforma política de todos. Quando viva, os seus agora milhões de órfãos sequer tinham noção do ativismo dela nas periferias. Nenhum jornalista ou sociólogo prognosticou sua importância no processo eleitoral que se avizinha.

Em recente pesquisa para deputado estadual (ela seria candidata), seu nome não apareceu na lista dos 60 mais lembrados pelo eleitor (a AL-RJ tem 41 cadeiras). Há dez mulheres citadas, duas delas liderando a preferência popular: Adriana Accorsi, do PT, e Adriete Elias, do PMDB.

Ontem, analistas dos mais variados veículos de comunicação, estimavam o papel de Marielle no contexto da crise de segurança e nas ações de apoio aos direitos das mulheres. E exibiam a repercussão da tragédia na mídia estrangeira. Mostravam a revolta popular em atos públicos por todo o Brasil.

Na pesquisa, outras mulheres com mandato político são lembradas, talvez pela atuação parlamentar ou militância partidária: Cristina Lopes (PSDB), Dária Rodrigues (PP), Eliane Pinheiro (PMN), Flávia Morais (PDT), Isaura Lemos (PCdoB), Lêda Borges (PSDB) e Vanuza Valadares (PMDB).

O filósofo Nietzsche dizia que "o que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte". No caso de Marielle Franco, pelo menos no impacto dos primeiros dias de indignação, ocorreu o contrário. A morte fortaleceu sua imagem. Morta, ela fez iluminar no consciente coletivo um surpreendente legado que em vida estava invisível.

PS - O cartoon é de César Lobo

           



14/03/2018
Para sempre 14 de março

Éramos jovens, a vida deslumbrante
em nossas roupas o tempo celebrado
cabeça ao vento, o passo descuidado
olhar armado no futuro de um instante

A poesia, o nosso rumo doravante
verso e reverso no avesso, o outro lado
recosturando os estilos do bordado
e aproximando o presente do distante

Quarenta anos das primeiras passeatas
de comunhões e diferenças democratas
as oficinas de sonhos tão profundos

Hoje ainda somos os sacos de batatas
e de areia cercando velhas casamatas
nas mesmas ruas do nosso fim de mundo.

           



14/03/2018
O latíbulo de uma espécie

Lembrando de Stephen Hawking

Por Anjo Augusto*

Eu nasci e cresci como um arbusto
na indiferença transeunte das estradas
um rebento do amor das empregadas
na prenhez ectópica de um susto
sou bisneto daquele outro Augusto
como aponta meu nome de batismo
não morri por um puro preciosismo
da genética e do jogo do destino
fiquei velho sem deixar de ser menino
sou a antítese de todo silogismo


Meu sangue formou-se em nebulosas
transfusões de uma suruba etnia
sou a soma carmática da anarquia
dois pedaços de raças raivosas
atavismo de almas poderosas
duas faces de pútridas feridas
uma vida lembrando de outras vidas
dois odores de vômitos ideológicos
eu sou claro e escuro, sou ilógico
a resposta de perguntas indevidas.


Tenho forte teor de panclastite
misturado no mijo e na saliva
gamogênese por força radioativa
condutora voraz de cervicite
sem antídoto algum pra que evite
minha ardente e sexual pantofagia
provocada por toda hebefrenia
alomórfica, caliente e pueril
tenho orgasmo vandálico e varonil
e amor quiasmático sem valia.


Nunca quis o equilíbrio, sou tumulto
não semeio a paz, eu planto guerra
sou da roda o ferrugem que a emperra
sou sem alma um cadáver insepulto
não me apraz o cortejo, sim o insulto
organizo a inércia num tormento
faço graça onde pede-se um lamento
prego horror onde impera mansidão
rasgo bíblias e incendeio alcorão
sou liberto de todo sentimento.

Há espectros de carnes apodrecidas
flutuando em minha sala de estar
e por estar nesta sala um pop star
não se assombram ninfetas raparigas
voluptuosas, são todas ensandecidas
trepadeiras em flor adolescente
e os fantasmas querendo virar gente
me imploram a mediúnica paixão
mas, um ateu, prometeu, vate pagão
exorcizo uma gata em cama quente.


Há um odor de entranhas estelares
nos lençóis encardidos dessa moça
marcas de pus e de sangue, uma poça
entre anéis, algemas, cintos, colares
há vestígios de missas e altares
na fumaça de incenso de maconha
vídeo, foto, sexo, muita bronha
nas digitais encarnadas na vagina
que mistérios envolve essa menina
quando mata, morre ou quando sonha?


Quis um dia encarnar Gregory Peck
pra beijar muitas divas do cinema
peguei negra, loura e morena
e tracei luluzinhas de pileque
ganhei calos na mão pelas chacretes
nos domingos de mil maracanãs
de quadrinhos, de janes e tarzans
de um Brasil ainda no sossego
sem TV de faustões e descarregos
de amassos inocentes nos divãs.


Quando enfim destroçaram a inocência
da nação estuprada nas legendas
fui partido e espalhado pelas fendas
do tecido social da incoerência
me tornei minha própria experiência
na carência de uma vil ciclotimia
hoje sou um caráter em doze vias
meus apóstolos são eu no coletivo
quando mato é pra manter-me vivo
nos retalhos doutra genealogia


No varal genealógico há vidas secas
penduradas nas pontas retorcidas
há espíritos, almas desconhecidas
esticadas de uma cerca a outra cerca
se enxovalha uma vida que se perca
por tão vis interesses sub-humanos
se é de fome, se morre por engano
se é de guerra, se morre por morrer
não se diga que a morte é renascer
ser fantasma aqui e noutro plano.


A tristeza enjaulada nas manhãs
as manhãs deslizando nas marés
as marés carregando barnabés
barnabés enganando anciãs
anciãs debruçadas em maçãs
as maçãs embrulhadas em papéis
os papéis amassados nos convés
os convés desejados por irmãs
as irmãs enjauladas nas manhãs
e as manhãs começando pelos pés.

*Anjo Augusto é fruto cerebral-uterino cuja figura pulsativa se estampou nessa pobre dimensão a partir do acúmulo cognitivo das histórias em quadrinhos, livros de ficção científica e mitologia, seriados de cowboys e super-heróis, filmes de viagens no tempo e poesias de cordel surrealistas e hai-kais de realismo fantástico. Nasceu em 14 de março de 1994.

           



13/03/2018
Ismael: o melhor dos Alves

Nesses mais de trinta anos rabiscando em jornal e papeando em rádio e TV, tive naturalmente livre acesso à política potiguar e quase todos os seus personagens, contando evidentemente a partir do começo dos anos 1980, quando a política estudantil me atirou no universo partidário.

Ganhei três grandes amizades advindas do mundo político: o saudoso senador Carlos Alberto de Sousa, o atual governador Robinson Faria e o ex-deputado federal Ismael Wanderley, que me entristece agora com sua partida, após três décadas de boa amizade.

Conheci Ismael em 1986, o ano da vitória de Geraldo Melo ao governo do RN numa brava e dura disputa contra João Faustino. Eu era um jovem redator na campanha do candidato a deputado estadual Rui Barbosa, o camisa 10 da Assembleia.

Por duas ou três vezes, participei de conversas entre Ismael e Rui, ambos acordados numa dobradinha nos bairros de Natal, principalmente naqueles em que o presidente do ABC FC gozava da popularidade que faltava no então genro de Aluízio Alves.

Ismael fez uma campanha acirrada dentro do próprio PMDB, disputando voto a voto com José Bezerra Marinho uma vaga na Constituinte a se realizar em 1988. Ganhou com parca diferença e foi um dos dois únicos potiguares da bancada federal a receber nota 10 do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. O outro foi Wilma de Faria.

Naquele ano, ajudou sua então esposa Ana Catarina Alves a se eleger vereadora de Natal estabelecendo um recorde de votos que só foi derrubado quase duas décadas depois. Seu estilo viril na defesa das ideias o aproximou de parte da esquerda; tendo ajudado até candidatos majoritários do PT.

Em 1992, o jornalista Casciano Vidal me procurou dizendo que Ismael estava querendo montar uma equipe para fazer a campanha de Ana a prefeita de Natal. Me juntei com os amigos Osvaldo Oliveira e Eugênio Pereira e fomos comandar a comunicação. O casal perdeu a campanha e eu ganhei dois bons amigos.

Nesses anos todos, Ismael sempre fez parte das minhas rodas de resenhas, participou de diversas confrarias como a do "Porquinho" e a do "Sábado Conduto", ambas com uns trinta anos de animadas e às vezes polêmicas conversas sobre tudo, principalmente política.

Ria muito e ao mesmo tempo me mandava pra merda quando eu dizia "Garibaldi, uma ova! O melhor dos Alves é Ismael!". A brincadeira, em verdade, guardava em si um retrato dele que só quem convivia podia perceber. O homem valentão, contundente, era também o cara que ligava para os amigos chamando para um café só por sentir saudade.

Ismael faleceu nesta segunda-feira, 12, mas a saudade dele já doía há algum tempo, desde quando os problemas de saúde o prenderam na cama e numa cadeira de rodas. No último encontro, quando com amigos o visitei, eu fiquei buscando em sua fisionomia frágil aquele bravo amigo que a vida me deu e que agora tirou. Não haverá mais café pra matar a saudade.

           



12/03/2018
Chegou o álbum da Copa 2018

A Editora Panini lança oficionalmente hoje, ao meio-dia, na página especial do Facebook, o tão esperado álbum da Copa do Mundo 2018. Durante meses o assunto foi tratado com tons de mistério para estimular os milhões de colecionadores que de quatro em quatro anos se envolvem na lúdica atividade.

Na Europa, o livro ilustrado já está circulando (foto) destacando na capa os craques Ronaldo, Messi, Toni Kroos, De Bruyne e Harry Kane. A capa brasileira certamente foi adaptada para inserir Neymar. Vamos aguardar. O álbum e as figurinhas estarão à venda a partir da quinta-feira, dia 15.

           



12/03/2018
Ensaios em São Paulo

Em meados dos anos 1980 iniciei uma relação afetiva com a cidade de São Paulo, quando com pés de juventude pisei pela primeira vez em sua geografia, num tempo de renascentismo do rock nacional e outros movimentos. Lá, ganhei uma filha e três décadas depois a cidade ganhou um filho meu.

A fase afetiva logo se transformou em cognitiva e desde então minhas visitas à metrópole são um misto de prazer e aprendizado. Ir para lá, hoje, além do prazer de estar perto do rebento querido, é tomar um banho de lazer e cultura que não encontro noutras cidades.

Agora mesmo, estou fazendo conta no calendário e no orçamento para mais uma ida. Ainda mais quando se anuncia para amanhã, 13, a abertura de uma grande exposição sobre a vida e obra do escritor português José Saramago, o autor de "Ensaio Sobre a Cegueira", "O Homem Duplicado" e "Os Poemas Possíveis", entre tantos.

Intitulada "Saramago - os Pontos e a Vista", a exposição será no Farol Santander, o arranha-céu inspirado no Empire State, situado no Centro da Paulicéia. Ficará aberta até o dia 3 de junho, tempo suficiente para o leitor interessado se programar.

Aborda a vida do marido de Pilar, sua produção literária e o pensamento sobre o mundo, tudo inserido em vasto material audiovisual, além de objetos pessoais do ganhador do Nobel de Literatura em 1998.

Entre os objetos, destaque para o computador em que escreveu "Ensaio Sobre a Cegueira", que viraria filme em 2008, sob direção do brasileiro Fernando Meirelles.

São Paulo, São Paulo. Sempre é tempo de viver sua completa tradução.

           



08/03/2018
Frida gera crise na casa da Barbie

No intuito de homenagear o Dia Internacional da Mulher, a indústria de brinquedos Mattel, fabricante da grife das bonecas Barbie, lançou alguns modelos com referência a mulheres importantes nas artes, ciência, jornalismo e outras atividades. Entre as 17 novas barbies, uma é a pintora Frida Kahlo.

O lançamento dos modelos foi nesta quinta, 8, mas as vendas só se iniciam a partir de 20 de abril, em todo o mundo. Isto se a iniciativa comercial não for abortada nas barras dos tribunais, como agora quer familiares da artista mexicana, segundo a entrevista de uma sobrinha neta à Rádio Fórmula, da cidade do México.

Logo após a divulgação da imagem da Barbie Frida Kahlo, sua parente Mara Romeo declarou que a Mattel não pode vender a boneca, já que os direitos de imagem da marca Frida pertencem à família. Ela disse que a fábrica foi vítima de engano, por não saber da verdadeira titularidade dos direitos.

Segundo Romeo, em 2005 a família cedeu os direitos nominativos para uma empresa chamada Frida Khalo Corporation, mas o contrato só tinha validade de cinco anos e expirou em 2010. Essa empresa foi a que negociou com a Mattel os direitos de imagem, que nem constavam no antigo contrato.

"Vamos tomar as medidas necessárias para defender os direitos e evitar que a boneca seja vendida", disse Pablo Sangri, advogado da família que também participou da entrevista na rádio mexicana. Além de Frida, a Mattel criou as barbies Amélia Earhart (aviadora), Katherine Johnson (cientista) e Salma Hayek (atriz), entre outras.

           



08/03/2018
Mulher de todo dia

Não é um dia qualquer
e é também mais um dia
de luta, reflexão, alegria
de festejar se quiser
de Eva, Joana, Salomé
Leila, Pagu e Maria
Nízia, Virgínia, Labé
mulher de paz e energia
no hospital, na padaria
que pensa e diz o que quer
que nada contra a maré
faz história e poesia
na labuta ou fantasia
mete a mão e bota o pé
Elis, Mercedes, Zezé
Billie, Madonna e Lia
senhoras da melodia
Alice, Ana e Esther
do almoço e do café
no bar, na mercearia
Clarice, Rita e Sofia
Gláucia, Sílvia, Nazaré
esse é o dia da mulher
da mulher de todo dia.

           



08/03/2018
Publicidade e comunicação

Foi adiada a reunião que aconteceria hoje às 10h entre o atual secretário de Comunicação do Governo do Estado, Pedro Ratts, e as agências de propaganda licitadas no atendimento à administração Robinson Faria. Não foi divulgada uma nova data para o encontro. 

           



06/03/2018
Scorsese revisita Scorsese

O cineasta Martin Scorsese concluiu as filmagens de "The Irishman" (O Irlandês), seu novo filme produzido com exclusividade para a Netflix e que tem no elenco um trio estelar com Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci. O drama criminal vem sendo produzido desde 2008.

Demorou para Scorsese juntar os três monstros das telas, um desejo pessoal do diretor. Muitos fãs até se confundem imaginando que o trio já atuou junto, mas esta será a primeira vez. Em verdade, De Niro, Pacino e Pesci participaram dos mais importantes filmes sobre máfia e crime, mas separadamente ou no máximo em dois.

O novo longa tem roteiro baseado no livro "I Hear You Paint Houses", de 2003, do escritor Charles Brandt. Na trama, um sindicalista (De Niro) com ligações com a máfia afirma ter participado do assassinato de um chefão em 1975 (o personagem de Pacino), enquanto um lendário detetive (Pesci) investiga tudo.

É o reencontro de Scorsese com as ações de gângsters, autor de obras magistrais do gênero, como Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros, Cassino, Gangues de Nova York e Os Infiltrados. Em princípio, "The Irishman" seria bancado pela Paramount Pictures, mas a Netflix abriu o cofre poderoso e disponibilizou US$ 140 milhões. Estreia somente em 2019.

           



06/03/2018
Julgamento do HC de Lula ao vivo

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) julga nesta terça-feira (6), a partir das 13h, o pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para impedir a prisão após esgotarem os recursos no Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF-4), que o condenou no âmbito da Lava Jato. O julgamento será realizado no prédio sede do STJ, em Brasília, na sala de sessões da Quinta Turma. A sessão será transmitida pelo canal do tribunal no YouTube.

Cinco ministros que compõem a Quinta Turma do STJ vão analisar o mérito do habeas corpus preventivo do ex-presidente. O colegiado é formado pelos ministros Jorge Mussi, Reynaldo Soares, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Felix Fischer - que é o relator do pedido de Lula e dos outros processos da Lava Jato que chegam ao Superior Tribunal de Justiça. A Quinta Turma é responsável pelas matérias de direito penal no STJ, junto da Sexta Turma.

 

           



06/03/2018
Rumos da revolução proletária

Não se sabe ainda se o fato que vou historiar aqui tem ligação direta com o golpe perpetrado pelo Partido Comunista Chinês que perpetuou no poder o presidente Xi Jinping. Nem se há influência do Kremlin após o ousado anúncio de avanço nuclear feito por Vladimir Putin na semana passada.

A questão é que as forças político-ideológicas da esquerda internacional estão em ebulição como nos momentos históricos que provocaram profundas alterações de rumo na concepção dos conceitos que distinguem as ações comunistas das ações socialistas.

Nos últimos dias, os mais atentos sociólogos e comentaristas políticos se debruçam sobre suas leituras de conjuntura para avaliar uma nova divergência nos mesmos moldes daquelas que já dividiram Stálin e Trotsky, Gramsci e Lukács, João Amazonas e Carlos Prestes, Fátima Bezerra e Fernando Mineiro.

As análises ainda são superficiais dado a complexidade da mudança contextual que pode aprofundar o mais novo racha no movimento conhecido como Internacional Socialista. Ninguém arrisca um prognóstico sobre o porvir, estão todos envoltos na perspectiva advinda da troca do vice-governador Fabio Dantas, que está deixando o revolucionário PCdoB para assumir o revisionista PSB.

Nas ruas, um só grito: trabalhadores do mundo, uni-vos!

           



05/03/2018
Poesia do dia

Dia de aniversário
e a rosa púrpura
é do Cairo
Uma manhã ou mais
e a rosa branca
é da paz
A tarde só para ela
feito uma rosa
amarela
Seu olhar que espelha
a boca em rosa
vermelha
A noite é multicor
e a rosa negra
é amor.

           



02/03/2018
Neymar, a seleção e a glória

É neste sábado, 3, a cirurgia num dos dedos do pé de Neymar. Numa clínica de Belo Horizonte, de propriedade do jovem médico Rodrigo Lasmar, o responsável pela saúde dos jogadores da seleção brasileira e do Atlético Mineiro.
O episódio da contusão do craque do PSG transformou-se em mais dos recorrentes dramas envolvendo atletas em vésperas de Copa do Mundo. Analistas esportivos e torcedores tratam de fazer contas sobre o tempo de recuperação.
Todos torcem e rezam para o rapaz se recuperar em tempo hábil para estar 100% na Rússia. A luz vermelha acendeu quando os médicos franceses avisaram que o tempo de convalescença durará três meses. A conta bate na tabela da Copa. E agora? Neymar vai total ou meia-boca pra seleção?
E o drama não é só da canarinho e dos seus 200 milhões de pachecos, mas é também, principalmente, de Neymar. Ele depende das performances do PSG e do Brasil para sonhar com aquilo que o fez ir para Paris: ganhar a Bola de Ouro de melhor do mundo.
No primeiro confronto com o Real Madrid, além do time perder, ele teve uma atuação pífia. Estará fora da partida decisiva, terça-feira, e ficará torcendo para que seus companheiros descasquem o pepino da classificação. Se o PSG dançar, como é provável, restará apenas a Copa na Rússia.
Enquanto Neymar preocupa o país e se angustia com a conquista pessoal, vai crescendo o clube dos craques que orbitam as estrelas Messi e Ronaldo, e que querem quebrar a dicotomia da Bola de Ouro. Neymar tem agora a ameaça de De Bruyne, Harry Kane, Grizmann, Aguero, Salah e Immobile.

           



01/03/2018
O peso dos prefeitos

A manchete de capa do jornal Agora RN na edição de ontem me gerou de imediato uma pergunta: por que o deputado estadual Ezequiel Ferreira não é, ele próprio, o candidato a governador, se pode colocar à disposição do vice-governador Fábio Dantas quase 90 prefeitos?
Sem a menor intenção de diminuir funções e biografias públicas de ninguém, me faço a pergunta apenas avaliando friamente os atuais perfis políticos de Dantas e de Ferreira. Ora, o RN inteiro sabe que a presidência da Assembleia Legislativa tem muito mais peso do que a vice-governadoria.
No âmbito pessoal, Ezequiel comanda uma estrutura partidária muito maior do que a de Fábio. Nem precisa - ou sim - lembrar que para viabilizar-se na chapa de Robinson Faria, o atual vice se filiou num partido que em nenhuma circunstância, optativa ou casual, tem ou teve ligação política com suas origens.
Outra indagação é se realmente um agrupamento de 89 prefeitos é garantia eleitoral numa chapa majoritária. Convém lembrar de 2002 quando o então vice-governador Fernando Freire se lançou à sucessão de Garibaldi Filho contando com a força de 111 prefeitos. O favorito era o senador Fernando Bezerra, com mais de 120 alcaides. Wilma atropelou os dois.
Mais recente, a eleição de 2014 tinha um candidato praticamente eleito antes mesmo de começar. Na escala PPP (pesquisas, prognósticos e pitacos) o candidato Henrique Alves ganhava com disparada maioria. Tinha quase a totalidade dos 167 prefeitos do estado. Perdeu para Robinson Faria numa maioria recorde de mais de 150 mil sufrágios.

           



27/02/2018
Temer demite o delegado do MDB

Sai um diretor falastrão que tentava defender seus aliados. Entra um discreto, com perfil mais executivo e que tentará manter a isonomia das investigações. Foi assim que três policiais com trânsito na cúpula da Polícia Federal analisaram a troca de comando na corporação nessa terça-feira.

A demissão de Fernando Segovia na direção-geral da PF e sua substituição por Rogério Galloro foi o primeiro ato de Raul Jungmann como novo ministro da Segurança Pública.

A troca do homem que chegou ao posto máximo da PF pelas mãos de dois figurões do MDB e caiu justamente por minimizou uma investigação policial em andamento contra Michel Temer é vista em Brasília como uma tentativa do presidente de passar a imagem de que não quer interferir em nenhuma apuração, nem as que ocorrem contra ele mesmo.

Logo após a posse de Jungmann, na manhã desta terça-feira, o presidente foi questionado por jornalistas se havia alguma recomendação contra a Operação Lava Jato.

De maneira enfática ele respondeu: "Não há um movimento sequer com vistas à interrupção. Aliás, vamos registrar um fato: segurança pública é combater a criminalidade. Que tipo de criminalidade? Aquela, digamos, mais, podemos dizer assim, vivenciada, tráfico de drogas, a bandidagem em geral, e, evidentemente, a corrupção".

 

           



25/02/2018
A disléxica periferia do mundo

Feliz 2.278! Gritarão os mais de dez mil participantes do réveillon holográfico às margens do Atlântico, na secular Via Costeira que se estende com seu cinturão de cassinos de jogos digitais, pontos de encontro dos turistas africanos e sul-americanos sem acesso às festas na Lua.
Enquanto suas imagens confraternizam em cores e luzes, os dez mil em carne e osso comungam em silêncio a passagem de mais um ano, trancados em prédios bem vigiados por milícias robóticas, aparentemente preservados contra as multidões de famintos e desempregados que ocupam o que resta de Natal.
Tal cenário urbano é apenas mais um entre tantos espalhados pelo território brasileiro, que vive uma crise de profundeza abissal nos aspectos demográfico e educativo. Os governantes apostam as últimas fichas no projeto que se iniciou em 2.256, quando uma revolução cultural se iniciou para tirar o país da miserável dislexia que destruiu seu processo civilizatório.
Os gritos de feliz 2.278 são uma referência animadora ao fato de que no princípio do século 21 um estudo do antigo Banco Mundial apontou como luz no fim do túnel a perspectiva de que em 260 anos os brasileiros conseguiriam um mesmo nível de leitura do mundo desenvolvido.
A chegada do ano novo é, pois, aponta para o momento histórico de redenção de uma parte da sociedade que finalmente estará inserida no contexto cognitivo dos novos leitores em nível de quase excelência. Por toda a nação, começarão as buscas pelos resgatados, e em Natal a estimativa é de que mais uma dúzia chegou finalmente lá, disse o prefeito trans Idalécio Maialves Bezerra.

           



23/02/2018
A erotização dos pequenos

Mais uma operação policial no Sudeste botou na cadeia duas dezenas de pedófilos que compartilhavam e arquivavam imagens de crianças em situações de exploração e exposição sexuais. Tais crimes se avolumam aqui e no mundo, envolvendo tarados de todas as idades, raças e religiões.
A tara por criança é tão antiga quanto a prostituição e a corrupção política. E isso em qualquer cultura ao longo dos séculos, da Grécia à China, de Roma ao mundo muçulmano. Por milênios, os detentores do poder e das leis trataram com tolerância o uso de meninos e meninas para suprir desejos de adultos.
Nos dias atuais, há também uma espécie de tolerância tácita da sociedade com a pedofilia como acontece em relação ao consumo de drogas. Assim como o tráfico se alimenta do dinheiro de todas as classes que usam crack, cocaína e coisa mais pesada, os pedófilos são municiados pela erotização das crianças, promovida pela própria sociedade adulta.
Não há a menor chance de conter a sanha de predadores sexuais enquanto a sexualidade for coisificada por pretensos intelectuais que misturam a exposição fácil de crianças com conceitos tortos de liberdade de expressão. No Brasil, os próprios pais estimulam suas meninas a se vestirem de Anitta, como já aconteceu antes com Tiazinha e as dançarinas do Tchan.
Quanto mais a polícia identifica e prende caçadores de menores ou punheteiros prostrados diante de imagens infantis num computador, mais as mamães modernas aplicam batom vermelho nas bocas das suas meninas e os papais filmam no celular as dancinhas eróticas, algumas supondo até pole dance e remelexo funk.
Desde a década de 90, a indústria cultural inseriu crianças nos estereótipos propagandeados na televisão. Bonecas ganharam namorados e acessórios sensuais, botaram meninas entre 2 e 10 anos pra dançar na boquinha da garrafa, tudo estimulado por adultos sorridentes, os mesmos que vociferam contra pedófilos presos na hora do telejornal.
Rosnam como se o crime fosse um fato psicologicamente isolado, restrito ao criminoso. Quando o jornal acaba, saem para comprar o novo shortinho da Anitta ou o batom de Pabllo Vittar para a filhota de 6 anos. E ainda há o fato da mídia proteger a identidade dos criminosos e a contemporização ideológica de muitos com a pedofilia.
Ano passado, o filósofo católico e reacionário Olavo de Carvalho percebeu uma escrota estratégia daqueles que preferem a tolerância e driblam os incautos com discurso de liberdade e produção artística: "Primeiro dizem que é doença para não dizer que é crime. Depois tornam crime dizer que é doença".

           



22/02/2018
Sai de Baixo, a maldição

Li com tristeza ontem a notícia de um novo internamento hospitalar da atriz Claudia Rodrigues, a comediante que com apenas 47 anos tem uma bagagem no palco e nas telas de altíssimo grau nas escalas Oscarito e Mazzaropi.

Sofrendo de esclerose múltipla desde o ano 2000, ela só passou a ter problemas com a doença seis anos depois e desde lá sua carreira é interrompida por surtos, ao ponto de precisar de um transplante de célula-tronco em 2015.

Claudia fez história como a protagonista de A Diarista e também no papel de Ofélia, histórica personagem e esposa burra de Fernandinho (Lucio Mauro). Mas me chamou a atenção mesmo foi quando assumiu a doméstica do apartamento de Sai de Baixo, o sitcom inspirado na velha Família Trapo dos anos 60.

Sua xará Claudia Jimenez interpretava a empregada Edileuza na primeira temporada, tendo que sair no final por desentendimentos com os produtores. Deu lugar a Ilana Kaplan, que fracassou na função. Aí entrou Márcia Cabrita como a doméstica Neide Aparecida, que devolveu a graça de Jimenez ao programa.

Uma gravidez tirou a terceira empregada, que tempos depois adquiriu uma doença que a matou em novembro de 2017, aos 53 anos. O rodízio na faxina do apartamento do Largo do Arouche trouxe Claudia Rodrigues interpretando a baixinha espevitada Sirene. Um show de riso, uma usina de improviso.

Numa terrível coincidência e ou triste ironia com o humor, todas as mulheres que interpretaram a empregada de Sai de Baixo tiveram sérios problemas de saúde, culminando na morte de Márcia Cabrita, nas crises que bloquearam o talento de Claudia Jimenez várias vezes e nesta esclerose que já comprometeu a voz e a visão de Claudia Rodrigues.

Sugere realmente uma maldição do humorístico criado por Luís Gustavo, numa espécie de releitura como tributo ao sitcom mais importante da televisão brasileira, a louca família formada por ícones da comédia, como Ronald Golias, Jô Soares, Otelo Zeloni e Renata Fronzi. E que bebeu no roteiro de A Noviça Rebelde, de 1959.

E se não bastasse atingir as atrizes que fizeram as humildes trabalhadoras da casa, um dos atores num papel de semelhança social também teve o mesmo infortúnio. Para substituir Tom Cavalcante, que fazia o porteiro Ribamar, foram buscar o ator Luiz Carlos Tourinho, que interpretou Ataíde. Em 2008, morreu aos 43 anos.

Tanto o Sai de Baixo quanto A Diarista e a Escolinha do Professor Raimundo, programas que contam com o talento irreverente da grande pequenina Claudia Rodrigues estão sendo exibidos no canal Viva, a tv de saudosismo da Rede Globo. Seus fãs são inteligentes o suficiente para ensaiar um adeus.

           



21/02/2018
Duelo de titãs na minha juventude

No último dia 15, o longa-metragem Borg vs McEnroe, lançado em outubro de 2017, chegou nas plataformas de streaming. O filme dirigido pelo dinamarquês Janus Metz abriu o Festival de Toronto com boa recepção de crítica e público. É a reprodução artística de uma das maiores partidas de tênis de todos os tempos.

O ano era 1980, o mês era julho, e o mítico Torneio de Wimbledon exibiu uma final masculina entre dois ícones das quadras, o apoquentado americano John McEnroe e o pragmático sueco Bjorn Borg. A transmissão televisiva no Brasil (não lembro o canal) surpreendeu telespectadores acostumados com jogos de futebol e raros embates de basquete.

Um ano antes, minha casa tinha pela primeira vez um aparelho de TV, um Telefunken em preto e branco, que me prendeu mais em casa durante o turnos vespertino, me afastando um pouco das televisões nas casas dos amigos. Naquele 5 de julho, achei sem querer a partida no tal canal.

O bairro da Candelária tinha 5 anos, eu faria 21 em outubro; minha turma que se auto intitulava "esquina do rock" jogava futebol nos muitos terrenos baldios. Alguns também curtiam vôlei e basquete no ginásio do DED ou futsal e ping-pong na sede do centro comunitário.

Apesar da distância emocional que tínhamos do tênis de quadra, aquela partida mexeu com todos os que a testemunharam. Uma batalha épica digna das que vínhamos na TV em outros esportes, Brasil x Argentina, Fla x Flu, Emerson Fittipaldi x Jackie Stewart, Muhammad Ali x George Foreman. Durante quase 4 horas foram corpos estáticos e olhos grelados no duelo.

Borg já era um fenômeno, aos 24 anos disputava sua quinta final consecutiva na quadra britânica. McEnroe tinha 21 anos e pela primeira vez experimentava o sabor de uma decisão, após ter eliminado um mito, o compatriota Jimmy Connors. E para espanto do planeta, o boy meteu 6 x 1 no primeiro set.

O segundo set iniciou dando sinais de que uma luta de monstros estava por vir; o sueco reagiu com sua direita poderosa, enquanto o americano lhe aplicava bolas terríveis com uma esquerda letal. Mais de uma hora depois, Borg quebrou o serviço e empatou, fazendo 7 x 5. O terceiro set durou duas horas, com nova vitória de Borg por 6 x 3.

O quarto set foi uma catarse na audiência, o sueco chegou a fazer 5 x 4 e o americano superou os dois match points e levou o jogo ao tie-break, que durou 22 minutos. McEnroe venceu a parada por 18 a 16, fez 7 x 6 e deixou tudo igual em 2 x 2, com o mundo estupefato. Mas no quinto set o jogador frio, paciente e imperturbável derrotou o agressivo, ousado e imprevisível.

Aquele duelo de titãs foi fundamental para que hoje os jogos de tênis na TV tenham tanta audiência, onde gênios como Sampras, Agassi, Nadal, Djokovic e Federer dividam o fanatismo com grandes craques do futebol. Os garotos da minha turma em 1980, a partir dali, passaram a jogar frescobol em Ponta Negra e tênis de quadra e mesa em todo lugar.

           



20/02/2018
O grão-mestre do haikai

Na foto, a capa do livro "Matsuo Bashô, o Eremita Viajante", um mimo ofertado pelos amigos Roberto Medeiros e Beth Olegario, adquirido na histórica livraria Bertrand, de Lisboa. Organizado e traduzido pelo escritor Joaquim M. Palma, tem edição da Assírio & Alvim, um braço literário da Porto Editora.

Um belo conteúdo com perfil biográfico e versos do maior poeta japonês, Bashô, aquele que quebrou o rigor métrico do hai-kai (ou haiku como denominou o poeta Shikki duzentos anos depois dele) e o democratizou influenciando grandes poetas do Ocidente como Ezra Pound, James Joyce, D. H. Lawrence, Jorge Luis Borges, Allen Ginsberg, Wenceslau de Moraes, Afrânio Peixoto, Guilherme de Almeida, Millôr Fernandes e Paulo Leminski.

Bashô elevou a poesia japonesa, de estilo "waka" feita pelos poetas clássicos séculos antes dele, a uma condição universal mesmo com a temática provinciana das aldeias do século XVII onde ele estabeleceu sua antologia. Rompeu limites poéticos das escolas que seguiu na juventude e consagrou seu próprio estilo quando o Ocidente experimentava o barroco e apontava para a vida moderna.

No livro "1688 - O Início da Era Moderna", de John E. Wills Jr., o autor destaca um período do mundo em que a História estava prestes a dar um giro profundo em virtude da concentração de uma série de circunstâncias no processo social e cultural da Europa, do mundo árabe e do Oriente. É nesse contexto que Bashô compõe sua maior obra, fruto das viagens pelas regiões inóspitas e pobres do Japão.

Ao dimensionar a feitura dos "haikus" para além das fronteiras japonesas, ele inseriu a cultura do seu país no universo literário do planeta. A forma democrática de tratar o estilo foi essencial para a multiplicação de movimentos poéticos ocidentais voltados para o "haikai", a partir do pioneirismo do holandês Hendrik Doef, nos séculos XVIII e XIX.

Um ponto alto da consagração do "haikai" já no alvorecer do século XX foi o Prêmio Nobel de Literatura de 1913 para o indiano Rabindranath Tagore, que após uma viagem ao Japão e ter conhecido a técnica do "haiku", produziu os livros "Pássaros Dispersos" e "Oferenda Lírica", ambos fundamentais para sensibilizar a academia sueca.

No Brasil, enquanto o modernista Guilherme de Almeida adaptou os fonemas do ideograma japonês às sílabas da flor do lácio - assim como fez Borges na Argentina - o anarquista Millôr rompia as amarras fonéticas como bom seguidor de Bashô, que aliás ganhou por aqui uma biografia assinada por Paulo Leminski, outro dínamo de versos rebeldes.

Por falar nisso, sou de uma geração que teve os primeiros contatos com a poesia nipônica no final dos anos 70 e que no alvorecer dos 80 ousou rabiscar tercetos estimulados pela militância literária-coletiva do Grupo Aluá de Poesia, que há bem da memória natalina há muito merece um livro narrando seus férteis dias de becos e bares (di) versos na Cidade Alta. Mas aí já é outro papo.

           



17/02/2018
Tragédias de hoje e de ontem

As mortes executadas por atiradores solitários não são fatos novos no cotidiano dos EUA, ocorrem há décadas com semelhantes volume e circunstâncias dos assassinatos com faca e peixeira na história do Nordeste brasileiro. Entre o direito ou não à posse de armas, está o ser humano.

A adolescente americana Carly Novell, de 17 anos, é uma das estudantes da Marjory Stoneman Douglas High School, o colégio da Flórida que foi palco do sangrento tiroteio que deixou 17 pessoas mortas, todas vítimas de um ex-aluno ensandecido e armado com um rifle AR-15.

Quando os projéteis começaram a voar e sibilar entre corredores e paredes da escola, a menina sentiu uma sensação de déjà vu, ou precisamente uma reprise do que já ouvira algum dia em sua curta vida. Lhe marcou a história contada por seu avô, que sobrevivera a um tiroteio 70 anos atrás.

E foi essa lembrança que a fez escapar das balas de Nikolas Cruz, o autor da tragédia. Carly repetiu o que seu avô, Charles Cohen (já falecido), fez quando tinha 12 anos, se abrigando num armário para fugir do tiroteio perpetrado por um tal Howard Unruh, em setembro de 1949, em Nova Jersey, que matou 13 pessoas.

O crime de Unruh é considerado o primeiro caso de execução coletiva feita por um só atirador civil nos EUA. Entre as vítimas estavam vários familiares do avô de Carly Novell, inclusive pai e mãe. "A mãe do meu avô disse que ele ficasse no armário enquanto os tiros cessassem", contou a garota.

Ela disse ao jornal Huff Post que correu para um armário e chamou outras amigas. Falou que não ouviu os gritos das vítimas, mas sentiu o terror que se espalhou na escola. "Estávamos apertados enquanto acalmávamos uma colega que sofria um ataque de pânico, não tínhamos ideia de quando íamos sair", declarou.

A mãe de Carly, Merri Novell, falou para o jornal que enquanto a filha crescia o avô narrava a desventura de infância. "Me alivia que meu pai não esteja aqui para reviver a dor e angústia de novo, dessa vez com a filha e a neta". Se dizendo orgulhosa da iniciativa de Carly em buscar sobreviver ajudando as amigas, Merri concluiu: "Nada disso é novo, é a História que se repete".

           



17/02/2018
Os contos de Heraldo Palmeira

"Fui para casa completamente enfeitiçado por aquela mulher. O corpo dela na penumbra revelou uma beleza que vivia escondida em roupas premeditadas para a feiura". Trecho do livro Trinta Contos de Réis (Editora Alameda), de Heraldo Palmeira.

O livro terá sessões múltiplas de autógrafos, conforme datas, horários e locais abaixo:

Dia 22/2, 18h, Temis Club (América)
Dia 23/2, 21h, Bombar (Largo Atheneu)
Dia 24/2, 12h, Letra & Música (Petrópolis)
Dia 03/3, 16h, Flora Café (Rodrigues Alves)

           



17/02/2018
Mais prêmio às letras romenas

Minha curiosidade com a literatura do Leste Europeu é maior do que o volume de linhas que já li oriundas dos autores de lá. Em setembro passado, peguei numa livraria do Shopping Vila Olímpia, em São Paulo, um exemplar de Corações Cicatrizados, de Max Blecher, quando em verdade procurava algum livro de Herta Muller, que ganhou o Nobel de Literatura em 2009.

No dia em que ela ganhou o prêmio, escrevi um artigo sobre Herta a partir de uma entrevista num jornal espanhol, me atraiu seu comprometimento com a memória dos anos de ditadura comunista em seu país e o empenho do uso das letras como alerta contra erros futuros.

Na juventude, já havia lido algumas poucas coisas dos poetas Tristan Tzara e Mihai Eminescu, este uma espécie de patrono de toda a poesia da Romênia. Os dois apareciam nos cadernos de cultura do Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, que eu comprava na cigarreira Tio Patinhas nos finais de tarde da Cidade Alta.

Ontem, uma boa surpresa ganhou manchetes nas editorias culturais da Europa com o anúncio do vencedor de 2018 do tradicional Prêmio Thomas Mann de Literatura, concedido anualmente pela Cidade Hanseática de Lübeck e a Academia Bávara de Bellas Artes de Munique. O vencedor: o romeno Mircea Cartarescu.

Nos últimos quarenta anos, ninguém é mais importante na literatura romena do que ele, um craque na poesia, romance, contos e ensaios. A honraria veio por causa de uma trilogia que espero não demorar muito a ter tradução em português como aconteceu com alguns dos seus compatriotas.

A trilogia se intitula "Cegador", escrita entre 1996 e 2007, com cada um dos livros tendo os títulos seguindo uma linha de aproximação que atrai o leitor. O primeiro volume é "Pela Esquerda", o segundo "Corpo" e o terceiro "Pela Direita". Que não demore a chegar nos trópicos.

           



17/02/2018
Balanço do carnaval potiguar

Não há ainda um quadro geral sobre os efeitos do carnaval na capital e no interior. Os governos do estado e da capital já mostraram que a soma de segurança e organização gerou a festa mais tranquila e animada dos últimos anos. Vamos aguardar o balanço das entidades do comércio varejista, do serviço e do turismo.

Já se sabe, extraoficialmente, que os hotéis, bares e restaurantes não tem do que reclamar. O mercado informal também nunca vendeu tanto. Os blocos carnavalescos geraram um bom número de empregos provisórios, a maioria contratou acima de cem pessoas.

Pra se ter uma ideia, faltou gelo em cubo em Natal.

           



16/02/2018
Enredo eleitoral

O carnavalesco da escola de samba Paraíso do Tuiuti, Jack Vasconcelos, acabou sendo mais vitorioso do que a agremiação com o vice-campeonato na Marquês de Sapucaí. Vai explorar naturalmente o sucesso para tentar fortalecer sua candidatura a deputado federal pelo PT do Rio.

           



16/02/2018

Vem aí Contos do Mundo Delirante, mais um livro da escritora e professora universitária Cellina Muniz, cearense que adotou Natal há sete anos. O livro encerra uma trilogia iniciada com O Livro de Contos de Alice N, de 2012, e Uns Contos Ordinários, de 2014.

           



15/02/2018
Padres, pastorinhas e pastores

Ao final do ano passado, uma aliança inusitada apareceu na imprensa e nas redes sociais, uma sintonia de propósitos e ira santa entre padres católicos e pastores evangélicos, todos liderados por seus bispos. O ponto em comum não era Jesus, mas uma reação moral à Rede Globo.

Acusado de manipular a opinião pública, o império midiático carioca virou alvo dos sermões e homilias; as duas igrejas pedindo abertamente aos seus fiéis para boicotarem sua programação que atentava contra os princípios cristãos e a essência da família brasileira.

Neste começo de ano, o aplicativo WhatsApp vem sendo congestionado com vídeos de lideranças religiosas, novamente católicas e evangélicas, desta feita focando a mira nos políticos e nos governos das três esferas da República. Há padres e pastores se revelando oradores de passeatas e comícios, alguns com leitura de conjuntura de invejar sociólogo de botequim.

Sinceramente, mesmo sendo ateu convicto e blasfemador, eu gosto quando vejo chefes religiosos trazendo seus seguidores para o mundo real e material, alertando para fatos que se não salvam a alma, podem minorar os problemas que afligem o corpo. Só não gosto da hipocrisia do discurso do sujo falando do mal lavado.

Quando ouço a divinização do protesto contra a forma de aplicação dos recursos públicos, contra as reformas fiscais e previdenciárias, não posso evitar de sentir um asco por saber que tal verborragia é emitida por um setor campeão de benesses e de auxílios luxuosos. Não há no mundo, capitalista ou socialista, um setor que se expandiu tanto sem pagar impostos quanto as igrejas.

Os padres e pastores que berram ao céu palavras sobre sonegação, que se solidarizam com os sem-terra e sem-teto, que golpeiam governantes exigindo segurança pública, poderiam liderar a revolução sócio-teológica dando exemplos: pagando impostos sob a atividade religiosa, não usando policiais como guarda-costas e cedendo pedaços do seu enorme patrimônio imobiliário para suas almas pastorinhas.

           



12/02/2018
Os petistas caem matando

Peço perdão pela analogia que faço. Mas observando a condenação de Lula e a reação do PT diante do Poder Judiciário foi automático lembrar do melhor filme de bang bang da história do cinema, Butch Cassidy and the Sundance Kid, uma bela obra de 1969 protagonizada pelos astros Paul Newman e Robert Redford.

Como muitos dos fãs do filme, eu sempre imaginei cenas posteriores ao grand finale, quando a imagem congela deixando na nossa mente a conclusão ou continuação do destino dos dois bandoleiros cercados por soldados bolivianos. Escrevi até uma crônica no Jornal de Hoje como pretenso argumento para um remake.

E o que o clássico de George Hill e William Goldman tem a ver com a politicagem nacional? É que invariavelmente aquele final nos faz imaginar a reação típica do pistoleiro de faroeste, que cercado pelos inimigos escolhem morrer levando com eles algumas más companhias. E é isso que vejo no day after do julgamento de Lula.

A condenação além de inviabilizar uma candidatura do líder partidário, desmonta qualquer alternativa para suprir o vácuo da sua ausência na eleição. O trio de juízes desarmaram o poder de reação do PT, que diante da terrível circunstância saiu estabanado a metralhar (ou petralhar) o Poder Judiciário e suas benesses salariais. E o pior é que conseguiu atingir o reino da toga.

Com a revelação dos gordos e imorais valores pagos como auxílio moradia para os juízes protagonistas da operação Lava Jato, como o paranaense Sergio Moro e o carioca Marcelo Bretas, a militância petista conseguiu, com invejável histeria vingativa, lançar juízes, desembargadores, ministros, procuradores, promotores e o escambau nas barras do tribunal popular.

As redes sociais, contando até com opositores radicais do pensamento de esquerda, logo se contaminaram com críticas duríssimas aos senhores da Lei. A sociedade grita e quer um basta nos penduricalhos que mesmo numa legalidade de letra quase morta carrega a vergonha da imoralidade. O Judiciário está nu após ter praticamente matado o PT, que caiu disparando tiros certeiros.

Brasil que segue...

           



12/02/2018
Quincy Jones e Paulo Cezar Caju

Abril-maio de 2002, Rio de Janeiro. Eu lançava na cultuada Livraria Argumento, no Leblon, o livro "Todos Juntos, Vamos - Memórias do Tri", a coletânea com crônicas de personalidades locais e nacionais narrando seus testemunhos da conquista da Copa do Mundo pela seleção brasileira, em 1970, no México.

O seridoense Augusto Ariston, figura respeitada na cena carioca desde os anos 60, advogado e jornalista, naquele instante chefe do gabinete do Palácio Guanabara, conseguiu arregimentar boa parte da colônia potiguar e gente badalada dos mundos do futebol, jornalismo, política e empresariado.

Na companhia do seu compadre Ismael Wanderley, armou mesa no charmoso e aconchegante Restaurante Severino, nos fundos da livraria, me deixando no centro da loja entregue aos convidados que chegavam para os autógrafos. O programa Quintal da Globo, da rádio homônima, botou um repórter para entradas ao vivo com alguns craques que para lá foram atraídos.

Carlos Alberto Torres, o eterno capitão do tri; Rogério, o ponta do Botafogo que foi cortado mas acompanhou a seleção como olheiro de Zagallo; o canhota Gerson, gerente das feras; e Paulo Cezar Caju, cracaço de bola em todos os times onde atuou, principalmente no meu Botafogo. Não demorou, conseguiu me convencer, com um drible de lábia, liberar a cerveja no bar.

Em pouco tempo, emulado pela loura suada, Caju ficava interrompendo a feitura de um autógrafo e puxando conversa comigo com o seu exemplar folheando na minha cara. A conversa se transformou em queixa, em crítica, em verdadeira ira com todas as fotos de Pelé e algumas de Jairzinho. Queria paridade, mesmo destaque pra ele. Batia no peito e gritava, "PC black panther, Pelé negro branco".

Lembrei do hilário episódio quando li ontem no site americano Vulture (traduzido no Google, obvio) uma entrevista com o lendário produtor e arranjador Quincy Jones, hoje com 84 anos e com a língua tão afiada quanto a de Paulo Cezar. O velho detona dois mitos da história da música pop, Beatles e Michael Jackson.

Dizendo que só fala a verdade e que não tem medo de nada, acusou Michael Jackson de roubar canções e letras alheias, chamou o quarteto de Liverpool de péssimos músicos, e não economizou autoelogios e bravatas ufanas como "não tenho nada a perder". O amigo de Donald Trump só livrou a cara de Eric Clapton, aquele apelidado de "Deus".

Em 2002, meus argumentos com o jogador bêbado foi que todos reconheciam seu talento, mas os donos da bola na Copa 70 foram aqueles que ele apontava como paparicados no livro. Ele era Paulo Cezar, mas os caras eram Pelé e Jairzinho.

Faltou ao repórter da Vulture trazer o entrevistado para a realidade, apenas prestando uma informação: ele era Quincy Jones, gênio, mas os outros eram Beatles e Michael Jackson. Que nem cabe adjetivação.

           



09/02/2018
Alemanha poderá liberar maconha

O assunto já é velho nos EUA e a liberação do uso recreativo da maconha já é realidade em algumas cidades. No Brasil, um ex-presidente da República reforçou o coro de intelectuais, artistas e usuários e há anos defende publicamente uma atenção não policial ao caso.

"Na história da humanidade, nunca houve uma sociedade sem o uso de drogas. Isso é algo que deve ser aceito". As aspas não são do colunista, mas de um grupo de estudo pertencente à Polícia da Alemanha, que acaba de enviar ao governo a sugestão de descriminalizar a maconha em todo o país.

A entidade policial BDK, sigla em alemão para Associação de Diretores Criminais, passou a defender abertamente a descriminalização total do consumo de maconha. O diretor do grupo e deputado, Andre Schulz, disse ao jornal Bild que a proibição estigmatiza pessoas e acaba "estimulando que carreiras criminosas comecem".

Ele argumentou que "a proibição da canabis sempre foi, historicamente, arbitrária e não inteligente". Lembrou que já é aceito na Alemanha o uso medicinal da planta, e que o uso recreativo deveria ser encarado como é com os cigarros e as bebidas alcóolicas. Schulz defende que continue proibido para quem vai dirigir automóveis e similares.

A iniciativa dos policiais da BDK repercutiu na Inglaterra, que também debate no momento um pedido parlamentar em favor da descriminalização. O jornal The Independent entrevistou o analista político Steve Rolles, que declarou ser "sempre bom ouvir pedidos de reforma sobre o tratamento da canabis proveniente de setores da Polícia, porque ele tem a autoridade da experiência diante do fracasso da guerra travada até agora".

O debate na Alemanha e Inglaterra ganhou força após pesquisas revelarem que o uso da maconha para fins médicos levou a uma redução significativa dos crimes violentos nos EUA. Nove estados americanos e o Distrito de Columbia legalizaram a droga. Um estudo foi publicado no The Economic Journal confirmando a redução de roubos e assassinatos em 12,5%.

           



1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21