BLOG DO ALEX MEDEIROS

24/11/2016
UFRN tira o peru dos monitores

Para os estudantes que fazem monitoria na UFRN, o saco do Papai Noel estará tão vazio quanto suas contas bancárias. A instituição anunciou que a partir do dia 30 de novembro, ninguém mais receberá o salário que mensalmente vinha sendo depositado para centenas de alunos que ajudam os professores no atendimento às dúvidas dos discentes.

Há uma remota possibilidade de tudo voltar ao normal em meados de 2017, segundo conversas nos corredores. Os jovens estão revendo as listas de presentes, a roupa nova das festas e os ingredientes para a ceia em família. 





24/11/2016
Visita ilustre no Jesuino

A neta levou o avô para almoçar no Jesuino Brilhante, o restaurante que Rodrigo Levino transformou em consulado gastronômico do sertão potiguar no coração do bairro Pinheiros, em São Paulo.

Logo que entrou, o senhor se interessou pelas fotos nas paredes, algumas retratando cenas e geografia do sertão do RN pelo foco de Giovanni Sergio. E danou-se a perguntar sobre cada uma delas.

- O que é isso?
- É a pega do boi.
- Aonde é?
- Em Acarí, Rio Grande do Norte.
- Você conhece esse lugar?
- Não, mas é nas terras de Paulo Balá.
- Você conhece ele?
- Não, mas é um escritor e intelectual que estuda o sertão.

O interrogatório encerrou aí, quando o avô da cliente assídua do Jesuíno arrematou:
- Isso é lá em casa. Paulo Balá sou eu.





24/11/2016
No estacionamento

Por Augusto Fontenele

Toda semana a cena se repetia no estacionamento daquele prédio. Ele parava com um sedan de luxo preto com vidros escuros. Pouco depois, ela chegava em um SUV branco; estacionava o veículo, entrava rapidamente no carro dele e os dois saíam juntos. Cerca de duas horas depois, estavam de volta. Ela entrava novamente no SUV e cada um seguia seu caminho.

Como era uma das últimas quadras residenciais antes da região de motéis- e convenientemente escondida dos olhares da avenida principal -, não era incomum os casais se encontrarem ali e deixarem um dos carros estacionado. Mas aquele casal chamava a atenção pela regularidade. Todas as segundas-feiras, alguns minutos depois das 15 horas, eles apareciam e repetiam o mesmo ritual.

- Não tem erro. Toda semana é a mesma coisa, parece relógio - explicava a moradora a uma nova vizinha, enquanto as duas olhavam os filhos brincando na praça arborizada em frente ao prédio.
- Será que eles saem do trabalho e vêm se encontrar aqui? Com um carro desse, ele deve ser chefe dela. Talvez seja até mais velho.

Enquanto as duas conversavam, a mulher entrava mais uma vez no sedan preto. Ela aparentava ter um pouco mais que trinta anos, era uma morena bonita e bem-feita de corpo. Estava sempre bem arrumada, normalmente com óculos escuros, saia justa, salto alto e usando algumas joias.

- Não dá para saber a idade dele com esses vidros escuros. Ele nunca sai do carro, só ela... Mas eu acredito que não trabalhem juntos. O encontro é num dia certo da semana. Acho que ela deve inventar alguma desculpa para o marido, como ir ao psicólogo, à academia, ou algo do gênero.

- Pode ser que eles trabalhem juntos e nesse dia tenham algum compromisso de trabalho que permite dar uma fugida...
- Você notou que ela estava com o cabelo molhado? Assim, ninguém vai saber se tomou banho ou não.
- Mas será que é ela quem que está traindo o marido? Será que ele não é casado?
- Quem esconde o carro é ela.

Embora não se soubesse qual era a verdadeira relação do casal, e para onde iam depois que saiam dali, o destino imaginado era um dos motéis da região, até pelo costume de outros casais, não menos suspeitos, de também usarem o estacionamento como ponto de encontro.

É bom que se diga que não se tratava de uma vizinhança reconhecidamente fofoqueira, até porque era um bairro de classe média, com muita gente trabalhando ou ocupada com seus afazeres - embora isso não evitasse que alguns encontrassem tempo para dar uma atenção maior à vida do próximo.

-oo0oo-

O sinal que algo não ia bem surgiu com um grupo de meninos que jogava voleibol na quadra da praça. Eles ficaram curiosos com o fato da mulher estar demorando bem mais do que o normal para chegar. Já fazia mais de 20 minutos que o sedan preto estava lá sem nem um sinal dela.

- Vai ver o marido descobriu e não deixou ela vir, opinou um dos meninos.
- Talvez seja só o trânsito. Ela deve estar chegando.
- Sei não... Algo me diz que ela não vem. Sou capaz até de apostar.
- Eu aposto que vem... tá vendo... ela chegou.

A mulher estacionou o carro e entrou correndo no sedan, que logo depois saiu apressado, como se quisesse compensar o tempo perdido. Com ela de volta, os meninos retornaram com o jogo de vôlei, sem que o assunto tivesse tido maiores consequências.

Isso até a outra segunda-feira, quando ela, embora tenha chegado na hora habitual, saiu do carro com uma expressão muito séria, até agressiva, e passou bem mais tempo dentro do sedan, antes deles saírem.

Mas a surpresa foi maior quando os dois chegaram quase que ao mesmo tempo dois dias depois, na quarta-feira. Nesse dia, ela estava bem menos arrumada, de vestido solto e sandália baixa, e visivelmente abatida. Ficou mais de meia hora no sedã e, ao contrário das outras vezes, não saiu dali com ele. Pegou o SUV e foi embora apressada. O homem ainda ficou alguns minutos parado, para só depois deixar o local.

- O negócio esquentou. Será que eles acabaram? - Perguntou o homem que passeava com o cachorrinho para a mulher.
- Pode ser, tenho quase certeza que ela saiu chorando.

Passaram-se duas semanas sem os dois aparecerem, o que aumentou a especulação de que o casal realmente tinha rompido e não voltaria mais. Até que na terceira semana, na mesma segunda-feira, e praticamente no mesmo horário, chegou o sedan preto.

Como de costume, quem estava na praça ficou esperando ela aparecer logo depois. Qual não foi a surpresa quando chegou um carro diferente e desceu uma mulher totalmente desconhecida.

Ela entrou rapidamente no sedan, antes que o veículo partisse do estacionamento, deixando todos perplexos, tentando assimilar o que acabara de ocorrer. De certa forma, todos se sentiram tão traídos quanto imaginavam ter se sentido a mulher do SUV.





17/11/2016
Conversa na van

Mais uma crônica de Augusto Fontenele:

****

- E aí linda, não vai entrar?
Sem dar atenção ao que o cobrador acabara de dizer, a morena bonita entrou na van lotada. O cobrador espremeu mais ainda o banco e sentou ao lado dela, próximo à porta de correr que acabara de fechar.
- Para onde a princesa tá indo? - Perguntou ele com o rosto quase encostado no dela, enquanto a van seguia seu caminho na avenida movimentada pelo trânsito do começo da noite.
- Para casa me vestir para virar puta - respondeu ela de forma brusca.
O cobrador e os passageiros ficaram se olhando surpresos.
- Puta?... Puta mesmo?
- Sim, isso mesmo, você entendeu direitinho. É para aquele cachorro aprender com quem ele está lidando. Se quer sair por aí se esfregando com as outras, que assuma as consequências.
- Seu marido?
- Sim, é ele. E eu acabei de ver o cachorro agarrado com uma vagabunda lá no cabaré. Mas eu também sei ser puta. Eu vou em casa botar uma roupa bem provocante que eu tenho e vou voltar pro cabaré. Vou agarrar os homens na frente dele... Ele vai ver.
- Mas a senhora não está exagerando? - perguntou uma mulher que estava na outra extremidade do banco.
- Estou não, dona. Eu já fui mulher da vida. Foi assim que o cachorro me conheceu. Foi ele que me tirou do cabaré, me pediu em casamento e tudo. Eu nem titubeei, aceitei logo. A senhora sabe, a gente quer sempre alguém que cuide da gente, principalmente com a vida que eu tinha, solta no mundo.
- Você pode botar tudo a perder - afirmou outra mulher sentada no meio do banco de trás, também espremida com outros passageiros.
- Perder o quê, senhora? Não tenho nada a perder com aquele traste. Vocês tinham que ver a conversa dele no começo, era a mais bonita do mundo. Pensei que Nossa Senhora tinha atendido minhas preces. E olha que eu rezei, e como rezei, para ela me trazer um homem decente. Estou achando agora que não foi coisa da santa, mas do diabo, do coisa ruim, só pode ser. E pensar que o peste me fazia até chorar com a enganação toda dele.
Parou de falar, respirou fundo, como se estivesse tentando se acalmar.
- Sabe, dona? Eu sempre tive uma vida difícil. Tive que vir do interior, porque éramos muito pobres, não tínhamos nada. Minha mãe ficou viúva muito cedo. Eram cinco filhos para dar de comer. Eu vim para cá atrás de trabalho, mas, depois de procurar sem encontrar nada, terminei caindo na vida. Fazer o quê? No começo, a gente sempre acha que é só por um tempo, só até conseguir juntar algum dinheiro, que nada, o tempo passa e a gente começa a se envolver, sem ter mais volta. Mas com toda a coisa ruim da noite, tinha algumas coisas boas, não vou negar, e uma delas é não ter que ficar dependendo de homem, de cabra sem futuro. Não ter que ficar dentro de casa, trancada, esperando um cachorro que passa dias sem aparecer, sem deixar nem o que comer, tendo que depender da bondade dos vizinhos. É triste, não tem coisa pior, pode acreditar, por isso que eu quero voltar. Não quero nunca mais depender de homem na vida, nunca mais. Deus é pai.
- Não tiro sua razão, tem muito homem safado no mundo - comentou a passageira do banco de trás.
- Pode ter certeza que tem dona. E como tem.


****

Ainda naquela noite, quando a van voltou mais uma vez ao ponto onde tinha pegado a mulher antes, o cobrador a viu descer de outra van. Usava salto alto e um vestido preto colado ao corpo que deixava as pernas quase totalmente à mostra. Quando passou por ela caminhando na calçada, ele gritou do veículo:
- Vai pra luta, princesa?
A mulher mal se virou, e, sem responder nada, continuou firme em seu caminho.





14/11/2016
A hora do PDT

Ensaia-se uma invasão de petistas nas fileiras do PDT por todo o País. Com o PT vivendo seu pior momento desde a fundação, com impopularidade nacional após a derrota acachapante nas eleições municipais, a ideia é se abrigar na sigla que já foi de Dilma Rousseff.

Para as eleições de 2018, o nome do PDT à Presidência da República será muito provavelmente Ciro Gomes, que pode atrair inclusive o apoio de Lula, que também vive seu inferno astral particular com as denúncias da Lava Jato.

Nas regiões Sudeste e Sul, o PDT já tem três pré-candidatos aos governos, todos com chances de disputa. Em São Paulo o nome é Gabriel Chalita; No Paraná é Osmar Dias (cujo irmão Álvaro poderá ser riva de Ciro pelo PV) e no Rio Grande do Sul é José Fortunati, atual prefeito de Porto Alegre.

No Rio Grande do Norte, a vitória em Natal do prefeito Carlos Eduardo o coloca naturalmente como pré-candidato para enfrentar o atual governador Robinson Faria (PSD). Já o PT, que teria, em tese, a candidatura da senadora Fátima Bezerra, poderá compor com o PDT, hoje um partido tão aliado quanto o PCdoB.

Um militante com três décadas de partido garante que a ideia de formar chapa com Carlos Eduardo é uma possibilidade, mas jura que nada disso nunca foi discutido em reuniões formais do PT.





14/11/2016
Salário de Trump será 1 dólar

O magnata e recém-eleito presidente dos EUA anunciou que irá renunciar ao salário presidencial de US$ 400 mil/ano pago pela Casa Branca aos seus comandantes. Donald Trump disse que vai determinar que seja depositado apenas US$ 1 dólar em sua conta pessoal.

Foi numa entrevista à rede de TV CBS que o presidente eleito disse que renegará ao salário, depois que perguntou ao apresentador quanto ganhava Barack Obama. Ao ouvir a resposta, reagiu: "Não, não aceitarei isso, não receberei".

Após revelar que aceitará apenas US$ 1, ele disse também que em tempo hábil colocará o seu imposto de renda, tanto de pessoa física quanto jurídica, à disposição da imprensa e da sociedade. É praxe nos EUA não se revelar patrimônios de candidatos durante as eleições.

Desde que venceu a democrata Hillary Clinton, o presidente eleito tem sido alvo de manifestações em dezenas de cidades, onde imigrantes se juntam aos eleitores insatisfeitos para protestar pela vitória do milionário, que insinua deportar 3 milhões de cidadãos em situação de irregularidade nos EUA.





14/11/2016
Hoje tem lual





13/11/2016
Como trocar de roupa

Por Augusto Fontenele

E
le não saiu para comprar cigarros, ir ali à farmácia ou qualquer coisa do gênero, e nunca mais foi visto. Na verdade, ninguém sabe muito bem quando ele sumiu, até porque se passou muito tempo para que chegassem a sentir sua falta - tempo mais do que suficiente para dar a impressão de que ele nunca mais seria lembrado.

Foi um dia, em que alguém, quase do nada, talvez por ter visto algo que lhe era familiar, perguntou se tinham notícia dele. Todos se olharam e notaram, surpresos, sua ausência, mas, como ninguém tinha uma resposta para o sumiço e muito menos a mais remota ideia do seu paradeiro, o assunto também se perdeu entre outros mais recentes, como o jogo da noite anterior ou o novo plano do governo para combater a inflação.

E, se nada ocorresse para alterar o ritmo normal da história, ele continuaria eternamente assim, sem que alguém tivesse sequer lembrança da sua existência - como a de um ancestral que, à medida que vão sumindo os descendentes mais próximos, vai sendo esquecido, até ter como único registro uma velha foto amarelada, dentro de algum compartimento empoeirado e também esquecido, onde jazem as fotos também amareladas da família.

Mas a história mudou seu ritmo quando aquela mulher apareceu procurando por ele, que era seu pai, há muito desaparecido. Ela ainda era criança quando ele saiu para trabalhar e nunca mais voltou. Agora, recebeu uma informação de um conhecido da família de que o teriam visto por aqueles lados. Sim, ele viveu ali, mas ela chegou tarde. Já há tempos ele sumiu.

Disseram ainda que ele vivia com uma mulher, mas ela cansou de esperar notícias dele e foi embora, sem deixar pistas do seu destino. A filha também sabia o que era esperar: sua mãe aguardou a volta do marido por mais de vinte anos e morreu ainda na esperança de que um dia ele, do nada, aparecesse na porta - quem sabe trazendo o pacote de pão para o jantar, como ocorria todo santo dia.

Mas a filha também esperou pela volta do pai, e como esperou, não só por sentir sua falta, mas também por um certo sentimento de culpa. Criança, não entendia porque aquele pai tão afetuoso, que a enchia de carinhos e beijos, que passava na padaria para trazer o pão ainda quente, abandonou as duas, ela e a mãe, de um dia para outro.

Talvez elas tivessem feito algo que ele não gostou e o fez sair de casa para sempre; talvez seja a culpa que mova sua busca por ele, embora agora, adulta, veja que esse sentimento já não faz tanto sentido. Uma vez soube da história de um homem muito rico que se suicidou e a família ficou desolada quando descobriu que nada ia mal nas empresas e nos negócios, que seu desencanto com a vida poderia vir de casa, da própria família.

Não, ninguém é culpado, imagina ela, algumas pessoas apenas resolvem um dia sair de cena, ou se suicidando, ou, como seu pai, mudando de vida e de lugar, com a facilidade de quem muda de roupa. É isso: como quem muda de roupa. Uma roupa nova, uma nova vida, e, o que é mais cruel, não importando o que acontece ao seu redor; se as pessoas vão ficar desesperadas com a sua ausência, com medo que algo de ruim lhe tenha acontecido, não saber se está vivo ou morto, se foi alvo de alguma violência.

Não, não importa, é apenas e simplesmente como trocar de roupa. Uma roupa nova, uma nova vida. Sem encontrar o pai, restava à filha apenas voltar para casa, para o marido e para seus próprios filhos; encerrar a busca e continuar sua vida, embora, no fundo, soubesse que a espera, como a busca, nunca para, mesmo sendo por um pai cruel o bastante para deixar uma garotinha triste e desolada com sua ausência.

O problema é que sempre fica o vazio de algo que foi interrompido antes de completar o seu ciclo natural. A garotinha sempre estará lá, aguardando ansiosa a volta do pai amoroso com o pão ainda quente para o jantar.

A história da busca da filha pelo pai ainda foi motivo de muitas conversas. Durante um tempo, se especulou sobre o destino dele e as chances dela de encontrá-lo. E, mais uma vez, o assunto começou a ser esquecido, entre tantas outras histórias novas e não tão tristes - não é segredo que as pessoas tendem a esquecer das experiências menos agradáveis.

Até que alguém trouxe um cartaz desses de desaparecido. Surpresos, todos notaram que a foto do cartaz era daquela filha que chegou ali procurando o pai sumido. Para o desespero do marido e dos filhos, um dia, ela trocou de roupa, saiu de casa e nunca mais foi vista.

 

Brasília e Natal, novembro de 2016





11/11/2016
So long Leonard

Leonard Cohen, cantor, poeta e compositor canadense que de forma sintética misturou espiritualidade e sexualidade em grandes sucessos como "Hallelujah", "Suzanne" e "Bird on a Wire", morreu ontem aos 82 anos.

Pouco tempo atrás, escrevi aqui uma crônica narrando o episódio de rara amorosidade em que Cohen enviou por um amigo uma carta para sua eterna musa, Marianne Ihlen, que estava no leito de morte, na Noruega.

Ao ler a carta, o amigo do poeta disse ter sentido a mão frágil da moribunda apertar a sua, como quem busca num ponto imaginário uma fenda real para chegar até o amor distante. Marianne faleceu pouco depois da leitura.

Durante uma vida, ela foi inspiração para canções que se tornaram hinos de várias gerações; Cohen derramava carinho e paixão nos poemas que se tornariam composições musicais do seu vasto e qualificado repertório.

"Bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei muito em breve. Sabes que sempre te amei, mas não preciso me alongar-me, porque já sabes tudo isso".

A balada "So Long Marianne" é uma das mais belas canções já feitas para exprimir o amor por uma mulher. "Eu preciso do seu amor escondido... Estou postado num precipício e sua tênue teia de aranha /está atando meu tornozelo a uma pedra", cantou ele.

Seu "Hallelujah", composto em 1984, se tornou um hit de cultuação e foi gravada por mais de 300 artistas e ganhou uma versão consagrada em 1994 pelo americano Jeff Buckley, após beber nos arranjos de John Cale.

Alguns fãs nem sabem, mas Leonard Cohen decidiu fazer música porque não conseguia sobreviver apenas como poeta. Os primeiros anos com Marianne, numa ilha grega, foram de extremas carências materiais, até alimentícias.

Muitas vezes comparado a Bob Dylan na influência exercida sobre tantos artistas, ganhou notoriedade nos anos 60 durante o resgate da música folclórica, exatamente aquela que Dylan usou para abrir portas de popularidade.

Naqueles anos, ele fez parte de eventos na companhia de Joni Mitchell, Joan Baez e do próprio Bob Dylan que dali a pouco contrariaria os fãs tradicionalistas aderindo às guitarras do rock ‘n' roll no rastro dos Beatles.

Certa vez o ator Kris Kristofferson declarou que quando morrese queria as linhas iniciais da canção "Bird on the Wire", de Cohen, na lápide do seu túmulo. Sua voz cavernosa faz da bela balada uma oração de acompanhar defunto.

E seria, aliás, perfeita agora para o epitáfio do próprio compositor: "Como um pássaro em um fio / como um bêbado em um coro de meia-noite / eu tentei em meu caminho ser livre", discorre a poesia como autodefinição de Cohen.

Assim como Dylan, a sua voz sem a limpeza cristalina dos bem afinados serviu perfeitamente para nos tocar de emoção. E enquanto envelhecia, o tom grave ganhava mais profundidade e poder de um cansaço que nos arrepia.

Tanto que em 1992, aos 58 anos, ganhou no Canadá o Juno Award (equivalente local do Grammy) como vocalista do ano. Há pouco tempo, Bob Dylan disse à revista New Yorker que Cohen era "profundo e verdadeiro".

Disse ainda o novo Nobel de Literatura: "Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim, juntamente com suas letras, são sua maior genialidade. Ele é surpreendentemente melódico".

Dylan também afirmou que "até onde eu sei, ninguém mais se aproxima disso na música moderna", obviamente se omitindo por elegância. Oito anos antes, em 2008, Cohen ganhou uma estrela no Rock and Roll Hall of Fame.

Ao longo da fértil vida poética, sofreu crises de depressão que tentava curar com drogas e bebidas alcoólicas. Muitas vezes chamado pessimista, dizia que pessimista era quem esperava chuva: "eu me sinto encharcado de pele".

Agora, quando a pele desce à terra, sua alma sobe ao espaço, de mãos estendidas para reencontrar as mãos e o amor da musa Marianne. E nós ficamos, encharcados na ternura melódica das suas apaixonadas canções.





11/11/2016
E deus cansou

Quando li ano passado a notícia de que o universo parou de fabricar estrelas e que em 13 bilhões de anos de produção, o forno do Cosmo diminuiu seu fogo atômico e praticamente fechou a fábrica, lembrei-me de uma velha tese sobre mundos dentro de mundos.

Há quem diga, não sei ao certo se homens da física quântica ou gente da ficção científica, que o contexto do universo se reproduz "ad infinitum" nas estruturas materiais, desde uma galáxia inteira a um micro organismo unicelular.

Assim como um sistema solar é composto de um padrão de corpos, gases e ácidos que formam um todo, também um planeta, um asteroide, um pedregulho ou um corpo humano tem seu conjunto de partes fundamentais para o seu equilíbrio físico.

Tal tese, ao que parece sem tantos fundamentos científicos, não é a mesma coisa da ideia dos universos paralelos, formulada pelo americano Hugh Everett no começo dos anos 50, nem tem semelhanças com a teoria das cordas e seu mundo de 11 dimensões.

Foi observando a trajetória da luz gerada pelas galáxias nos confins do universo, que chega até à Terra com milhares ou milhões de anos depois da morte dos astros, que os cientistas perceberam uma provável fadiga na maternidade cósmica das nebulosas.

Para quem fundamenta a concepção do universo por vias religiosas, a descoberta sugere o cansaço de deus no ofício de arquiteto do mundo e que se supunha eterno. Como se o dono de tudo estivesse de saco cheio das tantas estrelas sem o brilho do princípio.

Na tese do mundo dentro de mundos, vejo na entressafra estelar a gênese da matriz responsável pelo que também ocorre nas esferas inferiores. No âmbito político e cultural de um pequenino planeta azul, a carência de novas estrelas é hoje uma realidade.

Na música, o modelo Beatles foi copiado ao longo das décadas, dos Monkeys aos Menudos até ao Restart; dos Rolling Stones viemos parar no One Direction; Tom Jobim deu lugar a Carlinhos Brown e Elvis Presley foi substituído por Justin Bieber.

Foi-se o tempo do britânico universal Charlie Chaplin. Agora é o humor nebuloso do seu conterrâneo Sacha Baron Cohen. Vocês que choraram na morte de Chico Anysio, riam no besteirol do Rafinha Bastos. Jerry Lewis já deu lugar ao Jack Black.

O cinema perdeu seus grandes astros e ganhou estrelinhas decorativas, saiu Marlon Brando entrou Bem Affleck; a dramaturgia nacional trocou Paulo Autran por Toni Ramos, Tonia Carrero por Juliana Paes, Paulo Gracindo por José de Abreu.

Na fadiga de deus o forno de estrelas esfriou e o infinito ganhou efemeridade. Na política, qualquer Luiz Inácio se compara a JK e basta um playboy mineiro no patamar de Getulio Vargas. No legado de Winston Churchill o lenga lenga de Barack Obama.

Cadê o brilho filosófico? Enfiaram na estante um Leonardo Boff no espaço onde estava Nietzsche, jogaram um tal de Slavoj Zizek na gaveta destinada a Umberto Eco. Querem vender-me o miolo mole de Noam Chomski numa falsa capa dura de Gay Talese.

Estrelas mudam de lugar, eu sei, como cantou o rei Roberto Carlos; mas não precisava mudar tanto ao ponto de um apagão generalizado. E não adianta tentar aclarar-me as ideias com argumentos de reciclagem cósmica, de renovação estelar de gerações.

Podem ficar com Maria Gadu que eu ficarei com a originalidade de Cássia Eller; não me venham encher com Lady Gaga que eu estou repleto de Janis Joplin; agradeço a Adele que me indicaram, mas já não cabe em mim outra que não seja Billie Holliday.

No berçário dos astros em que nasceu Wilson Simonal, não é qualquer Alexandre Pires que se deita; no meteoro que trouxe Noel Rosa não havia células de Belo ou de Netinho; deus preferiu não manchar com algum Vavá o santo nome de Paulinho da Viola.

Até que pode ser processo natural, mas não creio que esteja certo o apagar de astros como Leonard Cohen, que nos deixou hoje, para surgir Chris Brown. Ou que o fim de Marília Pêra seja o começo de Grazi Massafera. O carbono de John Lennon não materializou em Bruno Mars. Não mesmo.

Tempo sem estrelas esse em que vivemos, e comprovado pela ciência. Evidente que os defensores da vida atual haverão de acusar-me de sofrer um surto de estrelismo nostálgico. Que se danem! Não sou eu quem vai iluminar seu céu escuro.





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