BLOG DO ALEX MEDEIROS

17/01/2019
Janete e as rosas

A dramaturgia televisiva brasileira tem que ser dividida entre antes e depois de Janete Clair, a escritora mineira que desde os 19 anos, em 1944, até morrer, em 1983, não ficou um só ano sem criar e roteirizar radionovelas e telenovelas, impondo uma marca que até hoje é copiada.

Depois de grande experiência nas décadas de 1940 e 1950 no rádio, ela começou a década seguinte entrando na seara dominada pelas tramas da escritora argentina Glória Magadan, 5 anos mais velha e maior referência na feitura das novelas de TV. Janete estreou em 1963, na TV Rio.

Até ser convidada pra levantar a audiência da então jovem TV Globo, ela emplacou novelas seguidas na TV Tupi, TV Itacolomi e na própria TV Rio, onde chegou a adaptar texto de ninguém menos que Oduvaldo Vianna, o teatrólogo que abrilhantou ainda mais a carreira do ator Procópio Ferreira.

Foi em 1967 que Clair estreou na Globo com a novela Anastácia, a Mulher sem Destino, que tinha de protagonista a estrela Leila Diniz, aos 22 anos, que naquele mesmo ano brilhava no cinema com Todas as Mulheres do Mundo e Mineirinho, Vivo ou Morto, além das rebeldias de tons feministas.

A chegada de Janete Clair na Globo foi um terremoto, no sentido ilustrativo e no sentido cenográfico. Ocorre que a trama, adaptada de um folhetim francês, não empolgava e foi preciso o improviso da escritora para minorar o desastre, após convite de Glória Magadan, a supervisora de novelas.

"Tenho um abacaxi para você", dissera a argentina, preocupada com o enredo confuso e a profusão de atores que o autor Emiliano Queiroz contratava como política empregatícia. Clair passou uma noite em claro, discutindo com o marido Dias Gomes, e meteu um terremoto no roteiro, matando mais da metade do elenco.

Antecipando o fim da trama, já fracassada, ela escreveu em tempo hábil Sangue e Areia, a primeira novela de um casal que se misturaria aos móveis e utensílios dos lares brasileiros: Tarcísio Meira e Glória Menezes. A atriz Arlete Salles também ali estreava na Globo, oriunda da TV Tupi.

Em 1968, Janete conseguiu trabalhar para duas televisões ao mesmo tempo. Fez Passos dos Ventos na Globo e Acorrentados na Record. Para completar a ousadia, fez um lance arriscado com dois pares românticos e tão queridos quanto Francisco Cuoco e Regina Duarte na TV Excelsior.

Tarcísio e Glória e Carlos Alberto e Yoná Magalhães encantavam os telespectadores, aí Janete Clair arrisca um suingue proposto por Magadan, juntando Yoná com Tarcísio na novela Gata de Vison e Glória com Carlos Alberto em Passos dos Ventos. O diretor Daniel Filho perdeu o emprego.

Pra não dizer que não falei de rosa, em 1969 ela adapta um texto que fez para o rádio, Rosa Malena, e batiza como Rosa Rebelde, sobre uma mulher revolucionária na França napoleônica. Há quem diga que o marido comunista influenciou na escolha do título como um drible na censura militar.

Fazia 50 anos da morte de Rosa Luxemburgo, a filósofa polaca de origem alemã, símbolo do comunismo internacional. Janete fez questão da novela estrear em janeiro, no mês da morte. E agora, faz 50 anos da Rosa Rebelde e 100 anos do falecimento de Rosa Luxemburgo. E nunca mais apareceu na TV ninguém como Janete Clair.

       



16/01/2019
Colecionando alguns sonetos

                         1
A saudade penetrando pela porta
refletindo nas noites sem espelho
o olhar se fechando de vermelho
e o poeta pisando em folhas mortas

A saudade noturna é uma fogueira
a queimar meu corpo que te espera
o teu vulto na esquina é uma quimera
um delírio, uma lombra passageira

Onde estás, em que beco, em que universo
tu se escondes de mim e do meu verso
numa espera que em mim nunca se cansa

Quando o corpo requer tua presença
eu te busco em tua estrela de nascença
e espero esperando de esperança.

                          2

Não embriagues o pudor com a poesia
esparrame a paixão em qualquer cama
nem apague o amor posto que é chama
de maneira que transborde em utopia

Hoje e sempre todo olhar é flamejante
se o desejo dia e noite te incendeia
seja a alma aquecida pelas veias
seja o sangue um riacho escaldante

Não precisa um padrão de movimento
nem ação vocabular de sentimento
tal quem chega como quem vai embora

O que importa é sentir encantamento
no calor de um instante, de um momento
cujo tempo há de ser sempre o agora.

       



15/01/2019
Censura é coisa feia

Um belo filme publicitário da indústria de sandálias Grendene, veiculado em 2009 para divulgar os modelos Hello Kitty Fashion Time e Guga K. Power Games, e que foi alvo de denúncia do Procon, provocado por uma dessas fundações que caçam cabelo em casca de ovo, teve uma multa de R$ 3 milhões confirmada por uma juíza que acatou a absurda acusação de "erotização precoce" na ideia do filme, onde meninas improvisam desfile de moda e são aplaudidas por meninos.

Na lógica censora, a Justiça e o Procon paulistas terão que começar a perseguir as famílias que cotidianamente compram produtos fashions, acessórios e cosméticos para suas meninas, que invariavelmente brincam de modelos em passarelas e telas de TV. A peça publicitária da Grendene é linda. A censura é coisa feia.

Em protesto, o filme está na capa de 
O Galo Informa em "vídeo do dia".

       



14/01/2019
Asterix aos 60, segue o baile

Só pra não perder o costume - travestido de estilo - de me contextualizar na narrativa, informo que eu tinha cinco dias de vida quando a primeira aventura de Asterix foi publicada em Paris, nas páginas da revista Pilote. Era o dia 29 de outubro de 1959 e a tiragem de "Asterix, o Gaulês" foi de apenas seis mil exemplares.

Dois anos depois, em 1961, o personagem criado pela dupla René Goscinny e Albert Uderzo ganhou edição própria e em 1965 passou a ter circulação de dois álbuns por ano num sucesso tão espetacular que uma pesquisa na época revelou que dois de cada três franceses já tinham lido alguma aventura do afobado velhote.

Asterix chegou no Brasil em 1967, em publicações da editora Bertrand Ibis com traduções de Maria José Mauperrin e Paulo Madeira Rodrigues. Depois passou a ser editado pela Cedibra (ex Bruguera, uma das especializadas em álbuns de figurinhas naqueles anos). A paixão por super-heróis impediu melhor contato com as edições que meu irmão levava para casa.

Já na casa dos vinte anos, adentrando a década de 80, passei a fazer melhor leitura das aventuras de Asterix, inclusive adquirindo os velhos álbuns da infância e que ainda guardo no meu anárquico acervo de quadrinhos, misturados com "os capas-duras" de Flash Gordon, Tarzan e Príncipe Valente.

Ao longo das décadas, Asterix foi editado com periocidade bem apropriada para seus qualificados fãs, com álbuns anuais que foram traduzidos para 111 idiomas pelo planeta afora espalhados em 380 milhões de cópias, uma marca que se se assemelha ás vendas dos grandes artistas da música pop.

Agora, quando o personagem que inspirou até um dos mais representativos blocos de carnaval de Natal (orgulho de ter sido folião da Bandagália, levado por Eugênio Cunha e Chico Alves) completa 60 anos, é anunciado o lançamento de mais um álbum especial e que terá a estratosférica tiragem de cinco milhões de exemplares.

A notícia foi dada pelo jornal dominical Le Journal du Dimanche, uma espécie de O Poti de Paris, numa entrevista do desenhista Didier Conrad e o roteirista Jean-Yves Ferri. O álbum de número 38 (o quarto da dupla) está tendo a supervisão de Albert Uderzo (aos 91 anos e fiel à obra que criou com o amigo já falecido).

O jornal publicou os primeiros rascunhos do novo álbum, que terá o roteiro concluído em 6 de junho. Segundo Conrad e Ferry, o lançamento mundial será no dia 24 de outubro, cinco dias antes da obra imortal completar 60 anos.

Nesse dia tão especial, eu também estarei sexagenário. Espero que com a saúde e o espírito irrequieto de um velho gaulês entre a festa e a batalha.

       



10/01/2019
Alô, alô, marciano

Um dos filmes que mais projetou a atriz Jodie Foster (além de Táxi Driver, Acusados e O Silêncio dos Inocentes) foi Contato, produção de 1997 com direção de Robert Zemeckis em roteiro baseado no livro de mesmo nome escrito pelo astrofísico americano Carl Sagan, autor da série de TV Cosmos.

Jodie interpreta uma cientista, Dra. Eleanor, que atua no projeto SETI que vasculha o universo em busca de vida alienígena. Após detectar fortes sinais de rádio, provavelmente enviados por uma civilização inteligente, ela segue instruções para criar uma máquina que permitirá contato com extraterrestres.

Nesta semana, a ficção do filme Contato ganhou versão de realidade quando astrônomos detectaram fortes ondas de rádio misteriosas e ultracurtas nas profundezas do espaço sideral, levando alguns cientistas a sugerirem que essas ondas podem ser fortes evidências de vida alienígena avançada.

É a segunda vez na história da astrofísica que as rajadas rápidas de rádio (conhecidas no ambiente científico como RRR, ou Fast Radio Bursts) são detectadas. Elas são pulsos de ondas de rádio de milissegundos e ainda desconhecidas. Estudiosos acham que estão bilhões de anos-luz distantes.

O professor Avi Loeb, do centro de astrofísica da universidade de Harvard, defende a tese de que as ondas detectadas agora são oriundas de tecnologia extraterrestre incrivelmente avançada. Outra tese é que são geradas por poderosos fenômenos, como os buracos negros ou estrelas de nêutrons.

A nova descoberta foi feita por uma equipe canadense de astrônomos e foi publicada na revista Nature. O grupo detectou treze flashes usando um novo tipo de rádio-telescópio, batizado de Experimento Canadense de Mapeamento de Intensidade de Hidrogênio (Chime, na sigla em inglês).

Na primeira vez que as rajadas foram detectadas, em 2007, foi por puro acidente, quando uma explosão de ondas foi observada em dados de radioastronomia. Os astrônomos que operam o sistema Chime estão sediados no Vale de Okanagan, situado na Columbia Britânica, no ocidente do Canadá.

A cientista Ingrid Stairs disse que até agora havia apenas uma RRR repetida conhecida, e sugeriu que diante da nova descoberta podem haver outras. Em 2017, os professores Avi Loeb e Manasvi Lingam aventaram a possibilidade de as ondas serem vazamentos de transmissores ETs do tamanho da Terra.

"As rajadas rápidas de rádio são muito brilhantes, pela curta duração e origem a grandes distâncias, e nós não identificamos uma fonte natural com confiança, valendo então a pena considerar e verificar uma origem artificial e inteligente", declarou Loeb num artigo publicado no tradicional Astrophysical Journal Letters, em circulação desde 1895.

       



09/01/2019
O retorno do competitivo Alonso

Notícias na mídia especializada europeia apontam que as mudanças na direção da Ferrari deverão abrir uma nova porta para a volta do piloto espanhol Fernando Alonso à Fórmula Um.

Os comentários são de que se a escuderia McLaren não oferecer um carro competitivo ao bicampeão asturiano, a Ferrari sob nova direção iria em busca do seu talento para as novas temporadas da modalidade.

Seria muito bom um retorno de Alonso na briga por título. A F1 só tem a ganhar na audiência mundial com a sua presença.

       



09/01/2019
Ainda a ousada licitação

Os sismógrafos espalhados nos gabinetes do Ministério Público estadual dão sinais de perigo para alguns comunicólogos que tentaram ao apagar das luzes do governo Robinson Faria impor ao erário uma licitação publicitária no valor de R$ 30 milhões.

Algumas fontes no MP apontam que o assunto ainda vai estremecer debaixo dos pés de alguns malabaristas do dinheiro público. Um promotor chegou a comentar que o ex-governador Robinson teve muita sorte da Justiça ter cancelado o insano certame, posto que tudo poderia cair nas costas dele.

É aguardar os efeitos desses sinais vindos do parquet.

       



09/01/2019
Nordeste de cabo a rabo

Na terça-feira, logo que terminou a reunião do presidente Jair Bolsonaro com seu ministério, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, atendeu ao enxame de repórteres e disse que o capitão pediu à equipe muita atenção nos seus compromissos de campanha, principalmente em relação ao Nordeste.

Uma das promessas foi a formatação de um grupo interministerial para cuidar exclusivamente dos assuntos relacionados com as necessidades da região, a única em que o presidente perdeu a disputa de votos contra o petista Fernando Haddad. O ministro disse que oito pastas trabalharão juntas na missão.

Horas depois, foi noticiada a formação de uma frente ampla e suprapartidária de parlamentares nordestinos dispostos a operar em bloco em favor das causas mais urgentes do Nordeste. A ideia me parece com duas dificuldades: juntar deputados de ideologias diferentes e ter fôlego para brigar unidos.

Desde os tempos em que eu tinha longos cabelos e a televisão era em branco e preto, coleciono (além de sonetos, como na canção de Chico) decepções como cidadão diante de intenções políticas como esta. Todas as vezes - que me lembro - em que houve isso, só deu para a sardinha dos estados maiores.

A coisa começava, o show de retórica ganhava a mídia regional, cada qual dos envolvidos iludindo seus respectivos conterrâneos, deputados conduzindo governadores e secretários na velha via crucis ministerial, para no fim não dar em quase nada. Exceto para os pernambucanos, cearenses e baianos.

Segundo declaração de Onyx Lorenzoni, a tal força-tarefa dos ministros de Bolsonaro fará uma primeira reunião amanhã. O grupo de parlamentares não divulgou ainda uma agenda de trabalho. Espera-se que dessa vez as conversas não sejam apenas papo-furado de início de governo e legislatura.

E que, em acontecendo um verdadeiro mutirão político-administrativo, as atenções às questões nordestinas possam contemplar cada um dos nove estados e que tenham rápido efeito nas necessidades prementes das comunidades mais carentes. Que não invistam só no cabo de força, mas também no rabo sempre esquecido da região.

       



03/01/2019
2019 nas telas de ontem

A mídia repercute nos primeiros dias do ano novo a reação de muitos cinéfilos com duas produções de ficção científica dos anos 1980 e que destacavam em seus roteiros um cenário futurista contextualizado num 2019 distópico e apocalíptico. O filme Blade Runner (1982) e o desenho Akira (1988).

Ambos tentaram antecipar no nosso imaginário a vida trinta anos adiante, nos aspectos tecnológico, arquitetônico e comportamental. O filme, baseado no romance de Philip K. Dick; e a animação, adaptada do mangá de Katsuhiro Otomo. Ridley Scott dirigiu o primeiro, enquanto Otomo dirigiu sua criação.

Felizmente, o tom profético da ficção não se consolidou agora, pelo menos nesses primeiros dias em que entramos em 2019 e rabiscamos os dias vindouros até que um novo reveillon faça velho o ano novo. Não houve a terceira guerra mundial, nem nos submetemos ao teste de Voight-Kampff.

Até que temos ouvido falar numa provável terceira guerra, quando postos diante de gestos e farpas de figuras como Kim Jong Un, Hassan Rohani, Tayyip Erdogan, Maduro, Putin e Trump. Mas não precisamos aplicar testes nas pessoas para descobrir quem é e quem não é um ser robótico inteligente.

Lembrar do fato que duas obras cinematográficas de mais de trinta anos atrás inseriram em suas tramas o ano de 2019 remete-nos a uma boa coincidência envolvendo ambas, pois depois de Blade Runner e Akira a ficção científica nunca mais foi a mesma nas telas de cinema. Uma mudança de azimute.

Vi Akira há muito pouco tempo, já nos primeiros anos do terceiro milênio, quando passei a comprar mangás para meu filho caçula. Já Blade Runner, assisti poucos anos após seu lançamento no Brasil, em julho de 1982, num momento histórico em que retornavam as eleições diretas para governador.

Para quem, como eu, aos 22 anos, consumia ficção científica nos moldes de velhas produções como Star Trek, Perdidos no Espaço e Túnel do Tempo - e que ainda se iniciava na era Star Wars - o impacto do filme com Harrison Ford e Rutger Hauer foi suficiente para repetecos quando surgiram as fitas VHS.

Na virada dos anos 80 para 90, aluguei inúmeras vezes Blade Runner. Lembro bem que imaginava meus filhos mais velhos com trinta anos em 2019, e ficava tentando vislumbrar o mundo deles. Tinha dúvidas se eu estaria por aqui, como estou agora. Resisti aos vícios, às tormentas pessoais e à tecnologia. Viva 2019!

       



31/12/2018
Feliz ano novo

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre".

(Carlos Drummond de Andrade)

       



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