História

25/10/2013 17:52:40
A casa-máquina do tempo

Russo viverá em casa ambientada no século 9.

Sem rádio, sem Twitter das terras civilizadas. Assim viverá até março de 2014 um russo chamado Pável Sapójnikov, que fará uma viagem de volta à Idade Média se instalando numa casa nas montanhas em ambiente inóspito e com utensílios do século IX.
O objetivo do jovem de 24 anos é verificar como se comportam na prática os instrumentos medievais que ainda conhecemos e o que ocorre com o fator psicológico de uma pessoas que salta do século XXI e se torna eremita num passado de mil anos.
A ideia, surgida de um projeto coletivo conduzido por historiadores e estudantes de História nos subúrbios de Moscou, escolhe um voluntário para viver seis meses dependente da tecnologia rudimentar, sem eletricidade e roupas de tecidos modernos.
Um dia antes de embarcar para a aventura medieval, Pável dispensou tudo aquilo que não mais usará em seis meses: iPad, celular, fósforos, lanternas, fita adesiva. No lugar entraram barrinhas de ferro para fazer fogo, pedras de afiar, antigas tesouras de mola.
O instrumento mais importante, segundo ele, é o machado: "pode-se fazer tudo o que quiser com um machado, os nossos ancestrais inventaram a forma ideal", disse ele admirando a ferramenta que lhe servirá de segurança e também de apoio doméstico.
A casa medieval, recriada a partir de objetos achados em escavações arqueológicas, está situada a 45 quilômetros da capital russa, perto da movimentada rodovia de Yaroslawski, nome de suposto ateu convertido na morte, uma invenção dos católicos.
No pátio da casa foram colocadas algumas cabras pastando e galinhas correndo, num cenário enriquecido pela figura humana de um gigante de barbas ruivas, calçando botas de couro feitas à mão e cortando lenha com o machado. É o próprio Pável Sapójnikov.
Aliás, fogo será a coisa mais importante para ele durante os seis meses, pois vai precisar se aquecer bastante para encarar o temido inverno russo que já derrotou até grandes exércitos. Na estrutura de três cômodos, há uma pequena lareira no quarto do morador.
A cama será improvisada num banco de madeira coberto com peles de animais da região, e no teto da casa ficarão pendurados peixe seco e cogumelos, que terão o acompanhamento de toucinho e banha armazenados numa velha tina de madeira.
Existe ainda um celeiro com uma boa quantidade de cereais, mas apenas aqueles que o povo europeu conhecia no século IX, quando ainda sequer o milho era consumido no continente, trazido da América por Cristóvão Colombo quinhentos anos depois.
No último local da casa é para guardar as cabras e galinhas durante a noite. Além de precisar matar alguns desses animais para se alimentar, o rapaz terá ainda que caçar lebres e raposas nas florestas que circundam a região, mas usando velhas armadilhas.
"É interessante observar como uma pessoa daquele tempo vivia a interestação, ou seja, o outono e o inverno, quando a comida e os suprimentos reduziam e quando os dias são mais curtos", disse à imprensa o promotor do projeto, historiador Aleksêi Ovcharenko.
Perguntado se temia o frio e a fome, Pável respondeu que não. Disse que não estava tão preparado para sentir falta das coisas do mundo atual, como livros, internet e jornais. Os animais do sítio também estarão sendo observados pelos organizadores da experiência.
Até o dia 22 de março de 2014, não apenas homem e bichos serão analisados, mas também os objetos, como os sapatos de couro, as peles que cobrem o teto, as meias de lã. Tudo faz parte do projeto que o grupo batizou de "arqueologia experimental".
Observarão quantas vezes Pável cerzirá suas meias, quanto tempo durará os esquis e as facas, qual a diferença na produção de leite das cabras quando ficarem sem a ração moderna e os antibióticos, qual o tamanho dos ovos sem a química nos alimentos?
Pável cursou quatro anos de Medicina de Emergência, mas abandonou quando resolveu dedicar-se às reconstruções históricas, que hoje é sua profissão. O confinamento voluntário no passado testará sua psique e depois vai virar objeto de um filme.

       


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