História

29/10/2018 09:44:01
Editorial Bom Dia Cidade

Alex Medeiros e Jener Tinoco

O Brasil elegeu domingo, 28 de outubro, o seu trigésimo oitavo presidente da República. O deputado federal e ex-capitão do Exército, Jair Messias Bolsonaro, foi eleito com os votos de 57.796.972 eleitores, com um percentual de 55,13% dos votos válidos. Sua vitória é, em todos os aspectos, um fenômeno na história do processo eleitoral brasileiro. Porque nada, nada mesmo em se falando de estrutura material e condições pessoais, indicavam no começo da campanha que Bolsonaro fosse provocar em toda a nação a onda de simpatizantes, seguidores, admiradores e eleitores que avançou pelas ruas e pelas redes sociais como um tsunami que não respeita obstáculos, por maiores que eles sejam. Ele venceu a eleição nas regiões Sul, Sudeste, Norte e Centro-Oeste, perdendo apenas no Nordeste.

As análises em toda a imprensa nacional repetem como um bordão que esta foi a eleição mais atípica da nossa República. Mais é preciso destacar e enumerar aqui os principais elementos que levaram pela primeira vez um candidato a presidente ser eleito sem sair de casa. Ou seja, aquilo que sempre foi uma mera ilustração para exemplificar o impossível - quantas vezes dizemos que fulano tem tantos votos que se elege sem sair de casa - se materializou numa realidade que surpreendeu a todos, estabelecendo um quadro eleitoral onde a maioria dos cidadãos se moveram emocionalmente não por um partido, nem por uma bandeira, ou mesmo uma grande liderança carregada de credibilidade e carisma suficientes para remendar um tecido social que andava dividido em trapos de ilusão.

O fenômeno Bolsonaro foi um enorme mosaico de emoções e perspectivas que foi se montando com as peças de um inconsciente coletivo que fervilhava de angústias diárias, e que só esperava um gatilho para fazê-lo explodir. Enquanto as legendas de esquerda, quase todas na órbita ideológica do PT, priorizavam pautas identitárias e produziam discursos e retóricas para grupos específicos, Bolsonaro e seu minúsculo PSL tocavam nas feridas cotidianas da sociedade brasileira. No ambiente de pânico social com a violência urbana, ele pregou o direito ao porte de arma do cidadão de bem, já que os bandidos monopolizavam o uso. Enquanto o PT amplificava as vozes de cantoras e atrizes na defesa do feminismo, o capitão bradava para as donas de casa que desejava vê-las tranquilas com a volta dos seus filhos após as aulas da faculdade.

Sem tempo de TV no horário gratuito, sem dinheiro do fundo partidário, sem um partido com diretórios pelo país e sem apoio de grandes celebridades, além de não ter simpatias de quase nenhum veículo de imprensa, Jair Bolsonaro se agarrou nas redes sociais e ao dar volume aos seguidores, logo estes se tornaram também eleitores. Em pouco tempo, tinha números no Facebook, Twitter e Youtube equivalentes aos de grandes astros do show bizz, superando o maior líder popular da esquerda nacional, Luiz Inácio Lula da Silva. A adesão popular tomou dimensões jamais vistas, espalhou-se pelo território nacional com um sentido quase religioso, adultos, jovens e até crianças envolvidos na produção e proliferação de material de divulgação da sua imagem e das suas ideias. A grosso modo, talvez nesses poucos meses a camisa de Bolsonaro vendeu mais do que a de Che Guevara em uma década. Entrou na campanha como "violento", foi esfaqueado; como machista, elegeu dezenas de mulheres e fez as duas mais votadas da história; como racista, fez de um amigo negro o deputado mais votado da história do Rio; foi taxado de antidemocrático, quando o partido de Haddad é que prega controle da mídia e do Judiciário.

Vai demorar ainda para que a sociologia e os analistas políticos expliquem direito o que foi a onda Bolsonaro no Brasil pós mensalão e petrolão. Sabemos que foi algo muito além do fato da existência do sentimento antiPT. A nova realidade do país é que o povo elegeu um candidato que pregou o resgate de valores morais, o respeito à família brasileira, a proteção à infância hoje exposta a atos escatológicos e libidinosos, o combate rígido e sem compaixão ao crime, os limites do Estado na vida econômica, a geração de empregos. Poucos minutos após ser eleito, falou à nação com três livros na mesa: a Constituição, a Bíblia e a biografia do Duque de Caxias. Um para ser o grande guia da sua missão, outro para ser referência de reconstrução pessoal, e o terceiro como exemplo de patriotismo a ser seguido. Enquanto Haddad dirigia a palavra aos eleitores que votaram nele, Bolsonaro dizia que a partir de janeiro será presidente de todos os brasileiros. Nas democracias é assim: há ganhadores e derrotados, só até acabar a eleição. A tolerância é essencial para alimentar o processo político. Assim sempre diz a esquerda que se jacta democrática. Intolerantes são os outros.
Para Bolsonaro, as urnas de 28 de outubro geraram a celebração de um país pela liberdade. Quem não leu as urnas, vai perder o trem da história sem sequer ter visto o destino da viagem.

           


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