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26/03/2019 17:02:28
O amor nas dobras do tempo

Por Alex Medeiros

É Superman, sim, o grande culpado da minha obsessão por ficção científica, especificamente por viagens no tempo. Não eram poucas as aventuras nas revistinhas da editora Ebal dos anos 1960 que traziam meu super-herói preferido atravessando a barreira do tempo, voando acima da velocidade da luz.

Tatuou-se na memória uma contracapa que se repetiu por meses divulgando um almanaque, as edições volumosas e coloridas que circulavam anualmente, com Superman atravessando uns grandes anéis luminosos, cada um com números de anos do passado. Foi a primeira imagem que vi sobre viagem no tempo.

Daqueles anos para cá, vão-se meio século, consumi milhares de histórias sobre o tema, em revistas, livros, filmes e documentários. O tempo é presença constante nos meus pensamentos diários, como um chip emocional que me acompanha desde a infância. Vivo a lembrar dos instantes que pensava nele.

E vivo também fazendo reparos nos roteiros que leio e vejo, como a buscar uma realidade impossível na concepção de acontecimentos no passado, presente e futuro. Algumas vezes gosto, acho verossímil, instigante; noutras vezes gosto, mas critico exageros que passam ao largo de conceitos físicos ou quânticos.

A trilogia De Volta Para o Futuro se tornou uma das obras preferidas, ao lado do clássico Máquina do Tempo, de H. G. Wells; do primeiro Planeta dos Macacos; do romance Linha do Tempo, de Michael Crichton; dos românticos Em Algum Lugar do Passado e Meia Noite em Paris; e óbvio das revistas do Superman.

Semana passada, após assistir ao bom filme espanhol Durante a Tormenta, que aborda inteligentemente a temática, dou de cara com a série Se Eu Não Tivesse Te Conhecido, também produzida na Espanha e que foi ao ar no ano passado pela rede catalã TV3, estando agora disponível na grade de ofertas da Netflix.

São dez episódios da primeira temporada que eu vi num só fôlego. Aliás, a série de tão boa é de tirar o fôlego. Um roteiro primoroso e que sugere grandes dificuldades de concepção. A trama mostra o tempo com diversas variáveis através de mundos paralelos, onde a vida ocorre a partir de outras escolhas.

Conta a história de Eduard, um pai de família com bom emprego e que após sentir-se culpado pela morte da mulher e de um casal de filhos, tenta pular de uma ponte e é salvo por uma velha senhora, cientista especializada em física quântica que lhe mostra um portal que o levará a outros universos.

A perspectiva de poder encontrar outras experiências de vida, ou cópias do nosso mundo, faz o protagonista desejar reencontrar sua família; só que cada vez que ele interfere uma nova tragédia ocorre. Sua mulher é Elisa, um grande amor surgido nos tempos de faculdade, mas que ele conheceu na infância.

Eduard e Elisa irão se reencontrar em diversas situações, em épocas distintas, gerando momentos tensos, loucos e amorosos. O rapaz só tem um intento: consertar o erro que provocou o acidente e salvar a vida da família. Entre desesperos e dúvidas, ele vai estreitando a convivência com a cientista.

Uma das alternativas que Eduard imagina para salvar a vida do seu amor é evitar o encontro na universidade, o primeiro olhar que acendeu a chama. Mas há um fator preponderante, uma explosão inicial como o big bang. Um primeiro beijo durante uma dança quando eles tinham dez e sete anos respectivamente.

É esse beijo que se tornará o efeito borboleta, como na Teoria do Caos sobre o bater de asas num extremo do planeta ter a força de causar uma tormenta no outro extremo. Ou seja, a mínimo alteração no início de um evento gera consequências enormes e desconhecidas no futuro. Ou noutra realidade.

Num dos mundos paralelos, Elisa trocou artes por ciência e especializou-se numa teoria do tudo, tornou-se uma cientista famosa e casou com o grande amor da sua vida, desaparecido tragicamente. Ela usará a força maior do universo para recompor seu mundo.

A bela série espanhola é sobre amores sem fim. E a trilha sonora nos arranca uns pingos d'água dos olhos. 

       


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