Quadrinhos

20/12/2017 13:52:51
Milena e a consciência de Maurício de Sousa

Por Alex Medeiros

O incansável Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, o maior sucesso das histórias em quadrinhos brasileiras, apresentou à imprensa e ao seu enorme público uma nova componente, a menina negra Milena.

A repercussão na mídia tradicional saltou para as redes sociais em poucas horas, gerando elogios ao ato de existir na turminha uma legítima representante afrodescendente, inserindo a obra nas lutas contra o preconceito.

Houve enaltecimentos com pitadas ideológicas e também aprovações condicionadas a um suposto atraso da iniciativa de Maurício, cujo acervo lúdico tem quase sessenta anos, desde quando criou o cachorro azul Bidu, em 1959.

Ambas as reações se equivocam, pois não reconhecem dois detalhes essenciais: primeiramente, a garota Milena não é o primeiro personagem negro da nossa versão Disney; e segundo, já existem outros personagens inseridos nas lutas por inclusão social.

Aliás, faz tempo que Mônica e Cebolinha contam com um amiguinho negro, mesmo se considerarmos as características capilares do Cascão e sua namorada Cascuda. Se o menino que não gosta de banho nasceu em 1961, desde o ano anterior já existia Jeremias, que teve o corpo desenhado com tinta preta até os anos 70 e depois ficou marrom nos 80.

Não bastasse a longeva prova do Jeremias, ou do próprio Cascão, é bom lembrar que em 1977 surgiu o Pelezinho, com direito à revistinha própria recheada de amiguinhos negros, como Cana Braba, Teófilo, Zé e a menina Bonga. Em 2006, surgiu o personagem Ronaldinho Gaúcho.

Também não é de hoje que o universo de Maurício de Sousa anexou ao extenso acervo de personagens figurinhas representativas de pessoas com necessidades especiais, sempre com a visão de ajudar no combate ao preconceito. No mesmo ano que criou o negro Jeremias, 1960, criou também Humberto, surdo e mudo por causa de paralisia cerebral.

Nas últimas décadas, novos amiguinhos surgiram com alguma deficiência física, como Dorinha (2004) que é cega e homenageia Dorina Nowill, morta em 2010 depois de fazer história presidindo o Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos. No mesmo ano veio Luca, um cadeirante feliz que os colegas chamam de "Da Roda", por causa da cadeira de rodas motorizada. E tem também Tati, portadora de síndrome de down, e André, um garotinho com autismo.

A chegada de Milena, portanto, é o olhar sempre atento de Maurício de Sousa na consciência atemporal que lhe é tão peculiar. Sua generosidade social nunca ficou omissa, mesmo quando sua criação ganhou contornos de império industrial. Jamais quis deixar a turminha da Mônica alienada das urgências do mundo.

           


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