Futebol

19/02/2019 00:00:00
Meio século de uma tarde épica

Por Alex Medeiros

Mais um duelo entre ABC e América, nesta quarta-feira, 20. Do encontro na Arena das Dunas para trás lá se vão 104 anos de história, tradição e rivalidade. Os dois clubes só não dividiram Natal ao meio esse tempo todo porque o Alecrim atravessou entre ambos com o seu verde dos gramados sempre presente numa insistente valentia.

O alvinegro e o alvirrubro são partes do sistema nervoso da maioria dos potiguares, já muito impulsionaram e aceleraram as pulsações cardíacas de inúmeras gerações, desde 1915 até aqui. Travaram confrontos nervosos, espetaculares, irados, polêmicos, bagunçados, violentos, cadenciados, efusivos e inesquecíveis.

Pouco sei do clássico até o ano que nasci, 1959, quando um quiproquó generalizado envolveu jogadores, dirigentes e torcedores que transformaram o velho estadinho Juvenal Lamartine num ringue coletivo a céu aberto. A confusão fez o América abandonar a Federação, retornando somente em meados da década de 1960.

De uma partida, especificamente, tenho a memória fresquinha, aquela que muitos consideram a mais incrível batalha que mexeu com os nervos das duas torcidas e, ao final, favoreceu uma recuperação inimaginável do América na disputa pelo título. O ano era 1969 e daqui a nove meses completa cinquenta anos do evento.

Eu tinha só 10 anos e fui levado ao estádio sob a responsabilidade do meu mano Graco, então com 18 e prestes a se inscrever no serviço militar. Pra garantir o privilégio da arquibancada coberta, de madeira, o boy pediu um troco a mais para o meu pai argumentando que era mais seguro para um garoto magricela como eu.

Convencido dos cuidados do primogênito com o pivete, papai salientou na saída: "fica de olho no menino". Havíamos se mudado há pouco tempo do bairro de Santos Reis para as Quintas, bem mais distante no deslocamento ao campinho do Tirol. Um ônibus da empresa Guanabara nos deixou na Rio Branco, e de lá "a pés".

No caminho pela Jundiaí até a Hermes, para cada americano haviam dois abecedistas. Parecia que duas passeatas ocupavam as calçadas. Graco pegou as entradas, picolés e pipocas e nos aboletamos nas chamadas "sociais", onde estava em maioria a "elitizada" torcida americana. E o Frasqueirão fervendo como nunca.

O ABC jogava pelo empate para erguer a taça de 69. Nos dois confrontos anteriores, vitória por 3 x 0 e empate sem gols. O América tinha que vencer para provocar um novo jogo. O "mais querido" tinha Alberí, afiado e completando um ano de clube, e havia acabado de contratar Esquerdinha, um driblador com pés de malabarista.

Já o "diabo rubro" (chamavam assim) tinha dois pontas velozes e capazes de lampejos de craques, além do atacante Alemão, que se não era no nível do "negão" do povo sabia unir força e habilidade. A partida se arrastou sem gols, com jogadas perigosíssimas de ambos os lados; os goleiros Floro (ABC) e Odair (AFC) se despedaçando em saltos atrás da bola.

Cada vez que Alberí matava a esférica no peito e mandava o míssil, o narrador Hélio Câmara improvisava na ilustração, "mais rápido que a Apollo 11" (A Lua havia sido conquistada em junho). Esquerdinha driblou uns trinta americanos e perdeu o famigerado gol-feito. O baixinho Lia, se não me engano, acertou mais de uma vez a trave do ABC.

Jogo quase no fim, a frasqueira festejando o título no empate, lenços tremulando dando adeus aos torcedores rivais que saíam mais cedo do estádio. E eis que o milagre ocorreu, num chute certeiro de Alemão, o gol-lázaro que ressuscitou o América e empurrou a decisão para outra partida, o quarto duelo de novembro.

As imagens que ficaram na memória de muitos, como arquivos vivos de uma batalha épica, são de americanos enlouquecidos retornando para dentro do Juvenal, a massa alvinegra em silêncio, alguns soluços. E eu sendo arrastado por meu irmão em festa, recebendo do engenheiro Roberto Freire uma bandeira vermelha.

No jogo seguinte, nova vitória do América, por 2 x 0 (gols de Bagadão e Alemão), e o título de campeão de 1969, talvez menos festejado que aquela partida que entrou para a história como a mais incrível do futebol potiguar. Alguns heróis da batalha ainda estão por aí, como jóias de um tesouro emocional que fará meio século.

       


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