Futebol

23/11/2013 12:01:00
No se agride um deus em vo

Crônica de um lance em homenagem aos 53 anos de Maradona

E lá se foram 30 anos, um quarto de século. Um grito de dor, arquibancadas em estado de animação suspensa, um deus caído. "Me rompió, Migueli, me rompió" (quebrei a perna, Migueli). A constatação desesperada dirigida ao parceiro Migueli Bianquetti, defensor espanhol com mais de 500 jogos pelo Barcelona.
Aos urros, mãos buscando cessar a dor da perna fraturada, era Diego Armando Maradona pedindo socorro. O jogo andava pelos 11 minutos do segundo tempo, eram 22h30 da noite na cidade catalã das ramblas, o Barcelona vencia o Athletic Bilbao por 2 x 0, um dos gols marcado pelo craque Alonso num passe magistral dele.
Naquele 24 de setembro de 1983, a sorte estava selada para o time basco. Nem mesmo o poderoso Real Madrid era adversário para um Barça que tinha o gênio argentino com a camisa 10. Na defesa do Athletic, o nativo Andoni Goikoetxea saiu daquele jogo para entrar na história (agá minúsculo) com o apelido de "Açougueiro de Bilbao".
Ainda no primeiro tempo, o zagueiro athleticano tomara uma bordoada do alemão Bernd Schuster, o mesmo que há poucos anos foi treinador do Real Madrid. Apesar de anos depois Goikoetxea ter se vingado com uma violenta entrada em Schuster, a pancada daquela noite haveria de ser vingada ainda quente, ali mesmo no estádio Camp Nou.
Sobrou para Maradona. O segundo tempo iniciou com o craque sendo caçado em campo pelo defensor basco. No seu livro "Eu Sou Diego", o craque argentino diz que nem percebeu a chegada do carrasco. "Eu só pude ver a jogada dois dias depois, pela TV, já estirado na cama do hospital de Barcelona e só me veio uma pergunta: o que você fez Goiko?"
O silêncio nas arquibancadas de Camp Nou só foi quebrado quando as emissoas de rádio noticiaram o primeiro comentário do médico Carles Bestit: "Atingiu o maléolo peronial, provocou rompimento no tornozelo, fratura do ligamento lateral interno e subluxação de toda a região". Pela segunda vez, a torcida barça apupou Goikoetxea.
Na primeira vez havia sido na falta de Schuster sobre ele, motivada por uma rixa antiga iniciada exatamente por uma violenta entrada do basco no alemão. Na retribuição da porrada, os gritos dos torcedores - "Schuster, Schuster, Schuster" - acordaram a ira na alma de Goikoetxea, que escolheu uma nova vítima.
Não havia vítima melhor para se vingar da multidão. Maradona tinha todo um componente psicológico, era o craque, um ícone, a marca do time, aquele que mais rápida e facilmente consagraria a resposta às provocações catalãs. A agressão atingiu Camp Nou como uma explosão do ETA, o extinto grupo terrorista do País Basco.
E o clima era realmente de terror. Naquele ano, um atentado havia matado mais de 40 pessoas na Espanha. O julgamento público do jodador faltoso foi imediato. O então técnico do Barça, o argentino Menotti, disparou: "Será preciso morrer alguém para que se tomem uma medida?". O presidente do time bordô, Josep Lluís Núñez, foi mais radical: "É preciso lutar contra o terrorismo no futebol".
Idiossincrasias étnicas à parte, o fato é que Diego Maradona ficou no molho durante 106 dias, em tratamento intensivo, enquanto a torcida do Barça e toda a nação argentina rezavam por ele. Aquele fatídico jogo terminaria 4 x 0 e o craque retornaria aos gramados em 8 de janeiro do ano seguinte, 1984, jogando contra o Sevilha e marcando dois golaços.
Dois anos depois, no auge da forma física e técnica, aquela perna esquerda carregou a seleção da Argentina para a conquista da Copa do México. A marcha triunfal contra metade do time inglês e o gol com "la mano de dios" marcaram 1986 e deram aos hermanos o bi mundial. E ninguém nunca mais ouviu falar de Andoni Goikoetxea, o herege que agrediu um deus.
Hoje esse deus completa 53 anos de vida. Longa vida a Maradona!

   


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