Futebol

12/11/2013 19:57:18
Um gladiador nos Pases Baixos

Em 31 de outubro de 1964 nascia o matador profissional da Holanda

Na gênese da bola, quando os deuses moldaram no barro da imaginação os seres mágicos que habitam nosso sagrado fanatismo, houve uma sobrecarga divina na inspiração dos craques da linha de frente, aqueles que nos dão o gol nosso de cada dia.
Parafraseio o poeta Vinicius de Morais pedindo desculpas aos zagueiros e goleiros, pois, como se sabe, atacar é fundamental. De Andrade a Pelé, de Friedenreich a Maradona, de Bican a Romário, os gols se multiplicam nas assinaturas dos meias.
Meias são homens de meio-campo e de ataque, mas, no sentido estrito da nomenclatura e da função, não são de fato os atacantes de origem, aquelas figuras adiantadas lá na frente, gladiadores entre feras a buscar a sobrevida da equipe e a própria glória.
Atacante mesmo, centro-avante na acepção da palavra, é o matador contemporâneo que herdou ao rolar da bola e dos séculos a força letal dos antigos guerreiros que emulavam as massas, com seus afiados gládios em espetáculos de panis et circencis.
Nesta categoria - e põe categoria - está perfeitamente classificado o holandês Marco Van Basten, o goleador infernal que fez gols de todas as maneiras e circunstâncias, com direito a três Bolas de Ouro de melhor jogador europeu, igualando-se a Cruijff e Platini.
Quem sabe por trama dos deuses, que teriam premeditado um alinhamento de astros, Van Basten nasceu no signo dos gênios, com a natureza mortífera do mesmo escorpião de Garrincha, Pelé, Maradona, Gerd Müller e Fritz Walter, irmãos de decanato.
Entre todos os legítimos atacantes, talvez superado apenas por Müller, uma autêntica máquina de fazer gols, Van Basten foi aquele que melhor representou a espécie dos gladiadores do futebol. Jogava humilhando, à espera do polegar das arquibancadas.
Nele não existia o sentimento da compaixão com os zagueiros. A gíria se transformava em sintáxe de um mesmo tema: a cada jogo, ele matava um leão. E se preciso fosse pisar sobre o corpo inerte, de espada erguida, o holandês o fazia. Era mortal.
Na batalha lúdica dos gramados, a arma em punho e apontada para o pescoço das suas vítimas era uma palavra ferina, um vitupério ao pé do ouvido, a provocação ácida dos peladeiros dos mais longíquos campinhos de areia do Brasil ou Argentina.
Guerreiro de dribles desconcertantes, o escorpião-rei dos Países Baixos detonava adversários à esquerda e à direita, na mais habilidosa ambidestria já vista em ação. Como se as pernas fossem também a cauda, de vez em quando viravam chicotes na bola.
Seus voleios precisos, a metros do chão, pareciam antecipar espetáculos do Cirque du Soleil. Até hoje, seus fãs e os próprios pesquisadores de futebol fazem exercícios de imaginação sobre o que mais Van Basten teria feito se não houvesse parado tão cedo.
Nas muitas vezes em que superou contusões, seus retornos eram motivos de apologias na imprensa da Europa. O Corriere dello Sport estampou manchete com recado ao povo norte-americano consumidor de HQ: "Superman está entre nós, é Marco Van Basten".
Noutra ocasião foi a Gazzetta dello Sport, com direito a afirmação e uma pergunta na capa rosada: "Marco é o rei! Aonde acaba essa magia?". O sueco Gunnar Nordahl, maior artilheiro da história do Milan, acabou engrossando o cordão da idolatria.
Até antes da sua morte, em setembro de 1995, o homem dos 225 gols no Calcio frequentava o estádio de San Siro só para ver os gols de Van Basten: "Ele é um super, não precisa que os outros jogadores lhes entendam, sozinho já é completo", dizia.
Nascido em 1964 na cidade holandesa de Utrech, Marcel Van Basten começou sua carreira no Ajax, onde colecionou títulos e gols. Na infância, tinha dois ídolos, o pai Joop e o mito do país, Johan Cruijff, que o descobriu e o levou para o time famoso.
O líder da geração Laranja Mecânica já estava em fim de carreira atuando pelo Los Angeles Aztecas, quando Van Basten foi assistir a um amistoso do time americano na sua cidade. Emocionado, viu Cruijff pedir a seu pai para levá-lo para o Ajax.
E foi com 17 anos a sua estréia, em 1982, antecipando seu futuro destemor, substituindo o próprio ídolo Johan Cruijff que retornava às origens para pendurar as chuteiras. O menino entrou e marcou um golaço. A fera marcando o terreno com a sua essência.
Com Van Basten, a seleção holandesa conseguiu o mais importante título da sua História, a Eurocopa de 1988, um feito que nem a turma do Carrossel de Cruijff, Neeskens e Krol realizou. Todo o poder ao escorpião-rei do Mar do Norte.

   


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