Futebol

18/04/2016 22:26:26
Pelé rastafári

Por Alex Medeiros

Das muitas canções que o saudoso Bob Marley fez o mundo balançar ao ritmo do reggae, nenhuma tem um componente político e filosófico, um apelo social, um grito de protesto como "War", em que prega a paz e uma sociedade sem discriminações.
A letra tem a força de uma reação digna dos negros do movimento Black Power, uma poesia de fúria e indignação com a triste realidade de uma raça sobreposta à outra, de uma pele melhor que outra. E um refrão em forma de um grito declarando "guerra".
Mas, a música não foi concebida apenas pelo grande poeta da Jamaica, é obra de parceria, de uma dobradinha iniciada ainda na sua infância, quando trocava passes de futebol nas ruas do povoado de Nine Mile com o melhor amigo, chamado Alan Cole.
Até aos 13 anos, o sonho de Marley era ser jogador de futebol. No início dos anos 70 conheceu Cole numa pelada de futebol. E foram também contaminados pelo rock ‘n' roll que ecoava dos EUA e começava a reverberar na Inglaterra.
Na adolescência, enquanto a música lhe atraía, viu Alan Cole, ainda um moleque de 15 anos, encantar o povo com um futebol de rara habilidade, o que o levou aos 16 a ser convocado para a seleção do país. Mas o reggae e a bola não separaram os amigos.
Marley foi conquistando o mundo com a sua música e Cole foi enlouquecendo a Jamaica com um talento que repercutiu pelas Américas, ao ponto da mídia compará-lo ao craque maior do Brasil. Num amistoso com o Santos, Cole deu uma saia em Pelé.
Àquela altura, o nome do craque já havia recebido um aposto, Alan "Skill" Cole, o termo em inglês para destacar sua fabulosa habilidade com a bola. O domínio da bola era tamanho que rara foi as vezes em que disseram que ele não tinha pele, e sim velcro.
Alan Cole era uma vedete que roubava a cena do espetáculo. Driblando, lançando, atacando, defendendo, organizando, improvisando, obstruindo, cabeceando, preparando e concluindo o gol. Poucos naqueles anos eram astuto, habilidoso e inteligente.
E o futebol vertia do seu corpo na mesma competência para discutir com o velho amigo de infância as novas canções. Quando Cole e Marley já eram ídolos, cada um no seu quadrado, o músico convocou o boleiro para acompanhá-lo em suas turnês.
Isso foi um pouco depois da experiência de Alan Cole como jogador em gramados brasileiros, quando o Náutico de Recife excursionou pelo Caribe e seus diretores viram a genialidade do negro rastafári, que formou uma dupla hippie com Marinho Chagas.
A presença do craque caribenho no Brasil foi determinante para a visita de Bob Marley ao país, quando fez amizades e jogou bola com Chico Buarque, Alceu Valença, Toquinho e Paulo Cezar Caju, a quem confessou uma idolatria desde a Copa de 1970.
Em 1976, Alan Cole girou o mundo com o amigo na condição de executivo da turnê. A longeva amizade e a empatia poética impuseram a ambos uma confidência mútua. Mas o regime político na Jamaica quase os separou, num aterrador e maligno episódio.
A situação estava braba nas ruas de Kingston, um clima quase de estado de sítio. As canções de Marley tinham o peso de um coquetel molotov. E era do álbum "Rastaman Vibration", daquele ano, um dos hits mais tocados, exatamente "War" (Guerra).
Havia também um mal-estar entre os amigos, segundo os jornais da época, por causa de desentendimentos autorais. E o governo aproveitou o fato. O seqüestro de Bob Marley foi colocado na conta de Alan Cole, por estar aborrecido e sentindo-se prejudicado.
Felizmente, pouco tempo depois a farsa foi descoberta e os dois amigos puderam continuar a dobradinha que começou no barro das ruazinhas de Nine Mile. Em 1980, Alan Cole foi o gerente da última turnê de Bob Marley, pelos Estados Unidos.
E estava com ele fazendo "cooper" no Central Park quando o cantor sofreu um colapso e foi tentar um tratamento em Munique. Durante a Copa 2010, Cole anunciou o livro "The Bob Marley I Know" (título de um disco do amigo) narrando a parceria.
Alan Cole encerrou a carreira no Santos de Kingston, clube criado em 1964 em homenagem a Pelé e que dominou a Jamaica até o ano 1974, quando o país participou da Copa e ele viu seu colega de Náutico, Marinho, ser eleito um dos craques do torneio.
Vive até hoje na Etiópia, no continente africano que tantas vezes defendeu ao lado do velho parceiro rastafári. Amigos em comum juram que alguns passos de Bob Marley no palco não eram de puro reggae. Havia a mistura da ginga boleira do habilidoso parceiro.

   


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