Futebol

23/11/2013 12:31:36
O deus de Zidane

O uruguaio Enzo Francescoli chega aos 52 anos lembrado como gênio

O menino magro, de olhar espantado e largo, era o fiel perfil da infância pobre daquele bairro proletário de Montevidéu. Faltava só um empurrão da fome para cair no estágio do raquitismo. Ainda bem que a comida, pelo menos, não faltava.
Ninguém só não entendia como a gula do "el flaquito" não conseguia esconder as suas costelas e como aquele corpo era capaz de ficar horas correndo atrás de uma bola nas peladas diárias da rua sem asfalto ou no campinho da pequena escola.

Aos 10 anos, uma febre o prendeu em casa e coube ao pai ir avisar aos professores. Era dia de festa no colégio. Os mestres entenderam a ausência, mas sem antes avisar que o garoto era imprescindível no sábado, num jogo decisivo do time escolar.

Desde aquela idade, o uruguaio Enzo Francescoli jamais deixou de ser necessário dentro de um gramado. Seus feitos no time juvenil do Wanderes, antigo clube da capital uruguaia, repercutiram logo no país vizinho, um templo de craques.

Entre 1983 e 1986, se tornou um dos maiores ídolos da história do River Plate, imortalizando a camisa 10 do clube com jogadas de rara beleza. Até hoje seu rosto aparece em bandeiras da torcida, ao lado de imortais como Labruna e Di Stefano.

Francescoli foi a mais bela jóia do futebol uruguaio desde a geração de Pepe Schiaffino e Obdulio Varela, os carrascos da Copa de 1950 no Brasil. Superou em categoria e magia até mesmo um mestre da geração anterior à sua, Pedro Rocha.

O goleiro argentino Fillol, velho conhecido do torcedor brasileiro e um dos maiores do futebol latino-americano em todos os tempos, dizia que o craque uruguaio "parecia um menino frágil, mas era um vulcão de talento".

Francescoli jogava e o espectador imaginava o campo como um grande teatro de ópera. Sua elegância no posicionamento tático lembrava um solista conduzindo uma orquestra, e no trato da bola era como um violinista acarinhando seu instrumento.

Mexia-se em campo como um primeiro bailarino, seus passos largos a caminho do gol eram o caminhar de um príncipe no meio de plebeus. Não à toa, ganhou o apelido de "El Príncipe", homenagem a Aníbal Ciocca, o ídolo uruguaio dos anos 30 e 40.

Com Francescoli a seleção do Uruguai quebrou um jejum de glórias e resgatou o glamour do futebol que jogava até a década de 70. Graças a ele, a "Celeste" foi a quatro finais da Copa América, ganhando três delas, 1983, 1987 e 1995.

Sua passagem pelo River lhe fez ídolo entre os vizinhos. Jamais um estrangeiro foi tantas vezes capa das tradicionais e patrióticas revistas esportivas do país. Foi venerado em pleno Monumental de Nuñez, em 1987, batendo a Argentina na fina da Copa América.

Fazia gols com pinta de artes plásticas, cada um mais bonito que o outro. Era especialista em finalizar com bola parada, como na final da CA de 1983 contra o Brasil, ou de chilena e de voleio. Os ex-goleiros do Boca Juniors que o digam.

Virou ídolo também na Europa, vestindo as camisas do Racing Matra e Olympique de Marselha, na França, e do Cagliari e Torino, na Itália. Nos anos 90 retornou ao River e comandou novas conquistas. Encerrou a carreira em 1998, no ano da Copa da França.

O craque teve um forte motivo para sentir-se feliz com o título da seleção francesa no ano da sua aposentadoria. Nos anos 1980, quando atuava no Olympique, o craque era acompanhado até nos treinos pela idolatria de um jovem jogador francês.

Ao tornar-se profissional, o rapaz jogava vestindo por baixo do uniforme uma camisa que pertencera a Francescoli. Quando nasceu seu primeiro filho, batizou-o de Enzo, uma apaixonada homenagem ao ídolo. Até um gênio como Zidane lhe fez louvação.

   


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