Futebol

06/10/2016 00:00:00
Um astro chamado Figueroa

Por Alex Medeiros

Como uma ironia que o destino ousou lançar sobre os corações chilenos, o Estádio Nacional de Chile, em Santiago, foi palco de sentimentos avessos nas décadas de 1960 e 1970. Ali pairaram emoções lúdicas e dores lancinantes, a alegria e o medo.
Um jornalista esportivo local dizia que era impossível evitar um "incerto" humor negro ao se imaginar as coisas que ocorreram naquela arena, nos âmbitos do futebol e da política. O fato de estádio multiuso não cabia pés fazendo gols e mãos dilaceradas.
Pois foi ali, como subdividido para cumprir objetivos futebolísticos e ditatoriais, que o povo viu o poeta Victor Jara perder as mãos e a vida, e presenciou a grande poesia nos pés do craque Elias Figueroa, o zagueiro que conquistou o Brasil e o mundo.
Quando Jara cantou "seis de los nuetros se perdieronen el espacio de las estrellas", o grande zagueiro foi salvo da conjuntura do terror no país em campos do Uruguai, onde foi defender as cores do Penharol e comandar o bi-campeonato de 67/68.
Em 1969, quando o mundo inteiro festejava a chegada do homem à Lua, a imensa e fanática torcida do Internacional de Porto Alegre embarcava eufórica num Beira-Rio com ares de espaçonave que acabara de ser inaugurado na capital gaúcha.
Entre os dias 6 e 20 de abril, o novo estádio recebeu uma profusão de jogos, uma espécie de "copinha" com o Grêmio, o Benfica de Lisboa, a seleção da Hungria, o Penharol de Montevidéu e, óbvio, os anfitriões encarnados.
Quando os capitães Scala, pelo Inter, e José Augusto, pelo Benfica, disputaram a moedinha do juiz Roque Gallas, um raio de Sol descia sobre o grande círculo do gramado, como a anunciar a bela praça de espetáculos que se abria ao povo.
A rivalidade em torno do chocho empate de 0 x 0 entre os colorados e os azuis, impediu que a torcida do Inter percebesse na defesa do time do Penharol a presença daquele jovem zagueiro de entradas elegantes e de propulsão quase a jato nas bolas altas.
Dois anos depois daquela semana histórica e festiva, os torcedores vermelhos recebiam o xerife da zaga uruguaia, contratado como uma resposta ao arqui-rival que acabara de trazer do Uruguai o consagrado zagueiro Ancheta, um velho conhecido do Brasil.
Craque da seleção uruguaia, Ancheta jogou o fino da bola em solo brasileiro pelo Grêmio. Foi ele o cara que se atirou na bola em que Pelé dá um corta-luz no goleiro Mazurkiewicz, na mais incrível jogada da Copa de 1970 no México.
A chegada de Figueroa ao Inter mudou para sempre a História do clube. Sob sua jurisdição, a equipe experimentou anos de glórias que culminaram com o penta campeonato gaúcho em 72/73/74/75/76 e o bi nacional em 75/76.
Figueroa marcava os atacantes numa classe de quem administra reunião diplomática, era puro talento para um simples zagueiro, uma clonagem andina do "divino mestre" Domingos da Guia. Quando se lançava ao ataque, parecia entornar poemas de Neruda.
E era um beque matador, fazedor de gols e também especialista na arte dos garçons, ofertando de bandeja grandes lances para a finalização dos seus homens de meio-campo e ataque, entre eles uns rapazes chamados Falcão, Paulo César Carpegiani e Claudiomiro.
Ganhou quatro vezes a Bola de Prata da revista Placar, em 72/74/75/76 (perdeu em 73 para, adivinhem, Ancheta) e a Bola de Ouro de melhor do Brasil em 1976. Por duas vezes foi votado como o melhor do mundo e está na seleção sul-americana de todos os tempos.
Jamais recebeu um cartão vermelho, como se a única manifestação cromática a pairar sobre ele fossem as camisas do Inter e da seleção do Chile. Se não foi o Sol do futebol latino, foi, deveras, uma das mais brilhantes estrelas.
Na conquista nacional do Internacional em 1975, o único gol do jogo, marcado de cabeça por Figueroa, é tido como uma obra divina, "o gol iluminado". Um facho de luz descia sobre seu corpo quando subiu para vencer o goleiro Raul, do Cruzeiro.
Talvez o mesmo raio de Sol de 1969, quando da inauguração do Beira-Rio, que foi a sua casa. A poesia de Neruda parece o craque: "Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela... Sê o melhor no que quer que sejas". Figueroa foi o melhor do mundo.

   


Comentários