Futebol

12/08/2014 18:30:21
Comunista, mas extraordinário

Perfil do craque alemão Paul Breitner, destaque na Copa 1974.

Dificilmente haja entre os amantes do bom futebol, principalmente dos que foram testemunhas da Copa de 1974, alguém - do Brasil ou das Ilhas Faroes - que não tenha experimentado uma espécie de ira santa na partida final entre Alemanha x Holanda.

O time com camisas de cor laranja encantou o planeta e virou a segunda opção de todos. A estupefação nos invadiu a alma torcedora quando o mágico "Carrossel Holandês" perdeu o jogo para os donos da casa, depois de sair vencendo por 1 x 0.

Mas o tempo, que cura cicatrizes e até grandes amores, nos encarregou de informar que havia vida inteligente também entre os homens de camisas brancas. E foi revendo lances e jogos inteiros que percebemos a força e a categoria dos campeões do mundo.

Liderada pelo seu capitão Beckenbauer, a Alemanha contava com craques como o artilheiro Gerd Müller, o habilidoso meia Overath, o goleiro Maier, o intransponível zagueiro Schwarzenbeck e o atacante Grabowski, único homem a levantar uma taça do mundo no dia do seu aniversário.

E tinha, acima de tudo, aquele cara com trejeito e atitudes de estudante de barricada, um "jogadorzaço" que atuava pela lateral esquerda com o gene e a postura de um Nilton Santos, ou pelo meio com uma perna esquerda digna de Loustau ou Rivelino.

Se já era excepcional desde os 18 anos no Bayern de Munique, aos 22 Paul Breitner foi o craque providencial no time alemão durante aquela Copa disputada em gramados domésticos. Nunca três gols foram tão fundamentais para uma conquista.

A Alemanha abriu o torneio contra o Chile do esplendoroso zagueiro Figueroa. E foi dos pés de Breitner, num chute portentoso de 30 metros, com apenas 6 minutos de jogo, que saiu o único gol da vitória germânica. Vallejos, o goleiro, ainda procura a bola.

A partida contra a Iugoslávia era crucial para as chances de classificação dos alemães, o time não demonstrava força suficiente para seguir em frente. Foi Breitner novamente, com seu míssil canhoto, a abrir caminhos. Müller completou a vitória.

Hoje, 35 anos depois, já não existem recalcados pelo que aconteceu na tarde de 7 de julho daquele 1974. A conquista alemã na virada histórica frente à Holanda de Cruijff, Neeskens e Kroll prescreveu na nossa memória. Merece até louvação.

De Manaus a Vladivostok, de Madagascar a Buenos Aires, o mundo torceu quando a Holanda abriu o placar. Mas quando Müller foi derrubado e o juiz apitou o pênalti, Breitner subverteu a ordem natural e decidiu por si mesmo a batida. Marcou e azedou a "laranja mecânica".

Depois da Copa, o Real Madrid mandou buscar aquele lateral para arrumar o meio de campo galáctico. Com seu estereótipo de guerrilheiro latino, cabelos e barba hippies, rebeldia de roqueiro inglês, o alemão tomou conta do Santiago Bernabéu.

Breitner dividia seu tempo entre partidas magistrais e a leitura de livros como "O Capital", de Karl Marx, e teses maoístas sobre a revolução cultural na China. A foto com Müller, festejando a Copa 74 com charutos, foi como um panfleto pró-Cuba.

Foi um jogador duplamente de classe, tanto no sentido do talento ímpar, quanto no posicionamento ideológico em favor de uma revolução operária na sua mais do que industrial e intelectual Alemanha, terra de ciência e de filosofia.

Começou a jogar aos 10 anos no modesto SV Kolbermoor, e depois no Freilassing, ambos da Baviera. Nos juvenis consagrou sua condição de zagueiro goleador, marcando 464 gols dos 11 aos 16 anos, em 101 partidas devidamente registradas.

Como capitão do Bayern, liderou a equipe em cinco taças da Bundesliga e na seleção venceu a Eurocopa de 1972, além da Copa do Mundo de 74. Levantou duas vezes a taça da Liga Espanhola com o Real Madrid, em 1975 e 1976.

Polêmico e provocador, Breitner foi um misto de gênio indomável, anti-herói nacional e semideus dos gramados. Era odiado por uns, amado por muitos. Escreveu um livro incendiário, fez filme e voltou à seleção em 1982, aos 31 anos, para ser vice-campeão do mundo na Copa da Espanha.

Fez história com a perna esquerda e a mente canhota.

   


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