Futebol

15/08/2014 06:46:43
Filhos dos deuses da bola

Por Alex Medeiros

A conquista por parte de Lionel Messi da sua quarta Bola de Ouro, de forma consecutiva e inédita, colocou definitivamente o craque argentino no mesmo nível dos monstros sagrados do futebol. Aí, depois, veio a Copa no Brasil e o craque empurrou a mediana seleção da Argentina à final no Maracanã.

Desde 2005, quando Messi tornou-se presença obrigatória no time do Barça, um debate se estabeleceu sobre se o garoto de Rosário seria um dos melhores jogadores de todos os tempos, igualando lendas como Pelé, Di Stéfano, Cruijff, Maradona, Zidane, Beckenbauer, Garrincha, George Best...

Nenhum deles (exceto Pelé) quando tinham a idade de Messi nos primeiros anos do Barcelona, imaginavam a honraria em ser chamados de rei do futebol pela imprensa mundial (a revista TIME o destacou na capa assim). Numa década, ele reinou sem a menor sombra a ameaçar seu talento e suas estatísticas.

Entre 2008 e 2012, diversos jornais europeus, da Espanha à Alemanha, da Catalunha a Portugal, da Itália à Inglaterra, instalaram em seus portais de Internet enquetes para a votação dos leitores sobre o assunto. Muitos tinham só cinco nomes: Pelé, Di Stefano, Cruijff, Maradona e ele, Messi.

O diário Mundo Deportivo, um dos mais importantes do mundo e que está em circulação desde 1906, levou a votação também para as redes sociais, com páginas no Facebook, no Google + e no Twitter, este com a hashtag #elmejordelahistoria.

Sabemos que enquetes e pesquisas sobre o melhor disso ou daquilo em todos os tempos não representam fielmente a opinião do mundo, posto que apenas uma geração - aquela que está votando - impõe seus sentimentos acima dos que já morreram e dos que ainda virão.

Sem falar no fato de que as novas tecnologias com ferramentas de aferição estabelecem a supremacia do voto dos mais jovens, dos antenados com as coisas modernas. Tanto é que Maradona já suplantou Pelé numa eleição da FIFA feita pela rede de computadores.

O efeito da Internet numa votação qualquer tem hoje a força que teve a TV diante dos jornais e revistas. Nossos bisavós decerto achavam Arthur Friedenreich um jogador inigualável; meu avô e meu pai diziam que Pelé não amarrava a chuteira de Zizinho e Leônidas.

Um quarentão que quando menino viu Zico jogar, jamais dirá que algum outro superou o talento do gênio do Flamengo, respeitando - por força do registro histórico - o santo nome de Pelé. Mas não são poucos os brasileiros que acham Garrincha maior que o rei.

Nessas discussões, não adianta querer ganhar no grito uma opinião coletiva contra outra opinião coletiva. Assim como os brasileiros cultuam a imortalidade do gênio do Santos, os espanhóis teimam em colocar Di Stefano como o número um da História.

Tentem convencer um alemão de que alguém já jogou bola como Beckenbauer; perguntem a um historiador ou jornalista inglês se houve algum dia um boleiro como Bobby Charlton. Arrisquem o sacrilégio de desmerecer Maradona em Buenos Aires.

As nossas impressões são as do nosso tempo e do nosso espaço. Nada pode ser e jamais será unânime; no mínimo construímos uma referência para estabelecer o início do debate. No futebol, essa referência sempre será Pelé, ungido pela História e pela FIFA.

Mas nada impedirá que as opiniões provoquem celeumas nas ruas do mundo. A experiência da proximidade e da emoção pessoal é preponderante para cada um imaginar infalível uma compreensão de algo. É a síndrome do umbigo do mundo.

Não concordo, mas nunca irei condenar quem acha que Alberi foi melhor do que Zico, Maradona e Zidane juntos. Até porque minhas sensações particulares legitimaram uma opinião de que Marinho Chagas jogou num pé só bem mais do que Junior e Roberto Carlos.

Portanto, não é coisa de outro mundo - mas de outro tempo, o agora - as enquetes internéticas que estão fazendo os europeus (também japoneses, chineses e até brasileiros) decretarem que Messi faz parte do panteão dos deuses sagrados. Não foi à toa, nem protecionismo à sua imagem, que a FIFA o escolheu melhor da Copa 14.
Quem, além de Messi, levaria a Argentina à final na casa do país inimigo?

Das legendas futebolísticas assim consideradas, apenas Pelé, Maradona, Garrincha, Beckenbauer e Zidane conquistaram copas, coisa que muitos começam a entender insuficiente (apenas seis jogos) para definir uma carreira inteira de um craque.

Certo dia, encontrei um velho amigo do meu pai. Quando ele tinha a idade que eu tenho hoje, passava horas com um "Motoradio" no ombro ouvindo resenhas esportivas. Era leitor voraz da Revista dos Esportes. Falamos sobre a Copa, a humilhação da seleção brasileira, de Neymar e de Messi.

No fim do papo, me deu aquele abraço de quem deseja encontrar no filho alheio a figura do amigo ausente, e sentenciou: "Alex, meu filho, eu sei que você adora e estuda o futebol. Pois vou lhe dizer. O que vale é a categoria e a arte, e o mundo só teve dois cabras assim: Garrincha e Jorginho do ABC".

   


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