Música

25/06/2019 09:38:17
Dez anos sem Michael Jackson

Alex Medeiros

As luzes se apagaram ao final da terceira e última gongada. Na escuridão do Cinema Nordeste, a loirinha amiga, desejada e adorada, abriu a embalagem do drops Dulcora. Eu tirei os tênis e estiquei os pés embaixo da cadeira da frente.

Na tela, o então novo filme do diretor John Landis, um cara que já havia arrancado gargalhadas do mundo com duas comédias. Naquele dia, ele nos dava o terror trash de "Um Lobisomem Americano em Londres". Arrepiava mais do que as pernas da coleguinha.

Meia hora antes, nós haviamos armado barraca, na espera da sessão, no quadrado da loja Modinha. Ali era meu point musical e para muitos jovens natalenses um dos únicos recantos apropriados numa Natal ainda sem shoppings e botecos na Ribeira e Zona Sul.

No clima de redemocratização do Brasil, com eleições diretas para governador, senador e deputado, 1982 prometia sonhos amorosos, inclinações musicais e aventuras futebolísticas em gramados espanhois. Tínhamos Zico, Falcão e Sócrates.

Ali, eu não sabia ainda que os astros de uma geração pertencem, geralmente, a uma outra geração anterior a dos fãs. Nas pickups da Modinha, por exemplo, eu jamais coloquei um vinil de Michael Jackson. O cantor era ícone da minha geração, mas não era do meu clube de ídolos.

Há uma diferença básica entre ser ícone e ídolo. Michael Jackson é ícone da minha geração por ter nascido no mesmo tempo, do mesmo top dos que nasceram em 1958, 59, 60. Mas os nossos ídolos eram caras mais velhos, John Lennon, Chico Buarque, Jim Morrison, Elis, Janis Joplin, Eusébio e Pelé.

Nunca me vi discutindo ou curtindo Michael Jackson, exceto numa única vez, ainda adolescente, num debate curioso, sem qualquer interesse musical, para descobrir se a voz que cantava "Ben" era de um homem ou de uma mulher. Era Michael, em 1972.

Voltando ao escuro do Cine Nordeste. O que ali eu não sabia era que enquanto me imaginava possuído pelo mesmo mal do protagonista David Naughton, com grandes dentes prontos a rasgar a minissaia da parceira de sessão, o álbum Thriller saía nos EUA.

O disco que catapultou definitivamente Michael Jackson à estratosfera dos fenômenos, teve seu videoclip todo inspirado no filme do lobisomem, inclusive com a participação de Rick Baker, o dono dos incríveis efeitos especiais do thriller de John Landis.

O ano de 1982 foi a plataforma para a explosão universal de Jackson. E quanto mais o mundo assistia o cantor se transformando no clip, mais ele avançava o passo - dançando fantasticamente - como monstro do show bizz e se modificando fisicamente.

Virou rei do pop, ameaçou o reinado de Elvis Presley nas vendas de disco e de quebra ainda lhe tirou a filha, de quem se tornou marido. Michael mudou a cara do marketing da indústria fonográfica. E mudou também a sua, exagerada e grotescamente.

Viveu prisoneiro entre o mundo real que lhe venerava e um universo fantasioso construído ao longo de uma vida cheia de conturbações psicológicas. Fugindo da realidade, construiu sua própria Terra do Nunca e reencarnou Peter Pan.

Olhando à distância - agora também com sua ausência de dez anos - sem sequer ter o componente do fã, pois nunca fui ouvinte fiel das suas músicas, penso que ele tinha na composição da alma angustiada um pouco dos fantasmas que atormentaram figuras como Marilyn Monroe, Kurt Cobain e James Dean.

Seu melhor amigo, e também advogado da família Jackson, Brian Oxman, tentou achar o melhor argumento para sua morte. E disse à imprensa na época que "se a morte de Anna Nicole Smith foi por abuso de medicamentos, nem se compara ao que houve na vida de Michael".

Quem sabe o caráter infantil do artista tenha sido insuficiente para mover um corpo cinquentão na árdua batalha de retomar o glamour perdido. Com uma saúde irregular, como dizia a mídia, Michael Jackson não conseguiu forças para mais uma transformação.

O peso da vida real caiu-lhe nos ombros e na alma. E aí, eu suponho, a fada Sininho lhe veio salvar pela porta da morte. O astro foi em busca dos meninos perdidos de Neverland. O Peter Pan que supostamente abusava de crianças não resistiu ao abuso dos remédios.

Peço vênia aos fãs de Michael Jackson por não ter vestido de luto o coração na sua partida. Estou me guardando para a viagem de Mick Jagger, Bob Dylan e Paul McCartney. Dele, Michael, só guardo aquele cheiro de drops Dulcora em cima de um colo vestido numa minissaia.

       


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