Música

08/01/2018 00:00:00
Ícone francês: meu nome é Gall

Texto Alex Medeiros

Chico Buarque compôs A Banda em 1965 e popularizou a marchinha de coreto em 1966 juntamente com Nara Leão durante o II Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record. Ganhou o festival num empate com Disparada, interpretada por Jair Rodrigues, e logo vendeu 55 mil cópias.

Um ano depois, Astrud Gilbert cantou em inglês e emplacou audiência nos EUA, mesmo feito alcançado pela italiana Mina em seu país. Mas foi em 1968 que uma versão em alemão, intitulada "Zwei Apfelsinen im Haar", rompeu as fronteiras da Alemanha e se espalhou pela Europa, especialmente na França.

A voz de menina na letra composta por Fred Weyrich era da francesa France Gall, legítima representante do movimento beatlemaníaco que Paris também chamava de "iê, iê, iê", como no Brasil, termo simbolizado num grito do hit "She Loves You", dos Beatles.

France Gall foi na música o que Brigitte Bardot foi no cinema, musa da juventude francesa entre as décadas de 60 e 70, a voz feminina que melhor representava os sentimentos de liberdade e aventura daqueles tempos. Era filha de um músico que fazia canções para Edith Piaf e Charles Aznavour.

A beleza estética de Lolita e o DNA musical logo atraíram a atenção do compositor e poeta Serge Gainsbourg, que já tinha no seu cast de beldades as também loiras Jane Birkin e Brigitte Bardot. Dizem que só não levou Gall pra cama porque a menina já estava frequentando os lençóis do cantor Claude François.

Pra quem não sabe, Gainsbourg sacudiu a moral francesa dos anos 60 primeiramente com uma canção na voz de France Gall, em 1966, um ano antes do clássico "Je t'aime", que fez pra Bardot cantar e acabou gravando com Birkin. Paris ficou em chamas com a sensualidade adolescente de Gall cantando "Les Sucettes" (pirulitos) e aparecendo lambendo a guloseima em modo boquete.

A jovem cantora também é responsável por um dos maiores sucessos da carreira do monstro Frank Sinatra, a canção "My Way", uma versão de Paul Anka para o original francês "Comme D'habitude", composição de Claude François para ilustrar o fim do relacionamento com France Gall.

O namorado não suportou o fato de Gainsbourg produzir sua apetitosa donzela. Por mais apaixonada que ela fosse, era mais forte no imaginário do ciúme a fama de conquistador do outro. Claude caiu fora por telefone, em 1965, quando Gall ligou de Luxemburgo para compartilhar com ele a vitória no festival Eurovision com a canção "Poupée de Cire, Poupée de Son", escrita por Gainsbourg.

Nascida em 1947, foi batizada como Isabelle Geneviève Marie Anne Gall, adotando o nome artístico France Gall para não se confundir com a cantora Isabelle Aubret, que já fazia sucesso no país. Gall foi um talento precoce, tocando piano e guitarra desde os 11 anos. A parceria com Serge Gainsbourg acabou quando ela percebeu, tardiamente, o duplo sentido da música "Les Sucettes".

Exatamente naquele período, recebeu um convite de Walt Disney para estrelar uma produção sobre a obra Alice no País das Maravilhas, do britânico Lewis Carroll. Demorou a se decidir na resposta, e quando pensou em aceitar a proposta, o criador do Mickey já estava morto, em dezembro de 1966.

Ela entrou os anos 70 numa espécie de entressafra, como se quisesse repensar a carreira. Em 1973 conhece o cantor Michel Berger, com quem estabelece um amor e uma parceria para a vida inteira. A partir daí, só gravou músicas dele e com ele ficou até sua morte prematura em 1992.


Incontestável mito francês, France Gall morreu neste domingo, 7, aos 70 anos, após longa luta com um câncer de mama. O diário Le Monde resumiu na manchete "Paris perdeu mais um ícone". O Le Fígaro historiou sua importância, "Seu sorriso infantil e sua voz doce representaram a emancipação das jovens francesas do pós-guerra".

O presidente Emmanuel Macron afirmou "Deixa canções que todos conhecemos e deu um exemplo de vida dedicada aos outros". A ministra da Cultura, Françoise Nyssen, descreveu, "ela não pertencia a uma única geração, foi capaz de cantar para todas". Diversos diários europeus publicam hoje obituários de France Gall.

   


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