Música

04/01/2019 00:00:00
O lado escuro da Lua

Alex Medeiros

A China é o primeiro país a pousar no lado escuro da Lua, a banda do nosso satélite que não pode ser vista por nós, por causa da rotação sincronizada que faz com que o astro orbite em torno da Terra sempre com o mesmo lado visível. Essa parte escura nada tem a ver com ausência de claridade solar.

Pelas primeiras imagens divulgadas pelos cientistas chineses, vê-se que há uma diferença rochosa em relação ao outro lado que nos acostumamos a ver desde o auge da corrida espacial, há cinquenta anos. A banda até agora desconhecida é mais íngreme, com montanhas acidentadas e muitas crateras.

Os chineses já tinham pousado com êxito uma sonda na Lua, em 2013, mas no mesmo lado onde já estiveram missões americanas e russas. Quando anunciou que enviaria em 29 de dezembro de 2018 a sonda Chang'e-4 para a banda escura, provocou alusões ao álbum mais famoso do grupo Pink Floyd.

E é exatamente mais sobre o disco e menos sobre a missão chinesa que quero discorrer o artigo de hoje. Lançado em março de 1973, o LP The Dark Side of the Moon surpreendeu o mundo do rock com sua proposta conceitual sobre o universo, o significado da vida, a ganância, e a deterioração física e mental.

Demorou um pouco para o disco pousar no lado obscuro de Natal, cuja rotação de mercado tinha alguns anos de atraso em relação aos grandes centros. A capa apareceu na parede do meu quarto, afixada por meu irmão que dominava dois terços do espaço com pôsteres, souvenires e capas de rock ‘n' roll.

Eu era apenas um garoto adolescente que amava os Beatles, acabara de conhecer os Rolling Stones e arranhava as unhas no violão tentando acertar acordes de canções jovemguardianas e tropicalistas. Praticamente ignorei o primeiro contato com o disco e o grupo britânico naquele rock psicodélico.

Foi mais ou menos em 1977, perto da maioridade e já morando em Candelária, que finalmente estreitei laços com o Pink Floyd a partir da "Esquina do Rock", um agrupamento de boys do novo bairro que supria o isolamento urbano reunidos numa calçada para discutir as bandas e os hits do rock mundial.

Ouvir a bolacha preta após ter visto anos antes só a capa foi uma epifania. Dez músicas especiais, fantasticamente executadas numa pegada instrumental que era um misto de ficção científica e esoterismo. E quase todas elas se tornaram hits pelo mundo afora, de Londres ao Alecrim, de Nova York à Cidade Alta.

The Dark Side of the Moon é uma explosão de energia criativa no quasar formado pelo alinhamento de Roger Waters (vocal e baixo), David Gilmour (vocal e guitarra), Richard Wright (teclados e vocal) e Nick Mason (bateria). Oitavo álbum do grupo, é sem dúvida um dos mais revolucionários de toda a história do rock.

E se falo um dos mais, é porque não foi o único, precedido que foi pelos discos Pet Sounds (Beach Boys), Sgt. Pepper's (Beatles), Their Satanic Majestic Request (Rolling Stones) e Tommy (The Who). Todos são álbuns maravilhosos, onde o do Pink Floyd se destaca pela peculiar coesão filosófica.

Inspirado também na doença mental que abateu um dos fundadores do grupo, Sid Barrett, o disco tinha interação entre as faixas (outra diferença) e ainda hoje exerce uma força reflexiva em nós. A ausência do louco Barrett foi suprida no ápice do space rock que ele inventou e que o tirou da órbita do mundo da Lua.

       


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