Literatura

19/01/2016 02:52:00
Avalovara

Para sempre underground, Osman Lins é autor de um dos mais importantes romances da Literatura Brasileira

 
Nascer um prosador numa terra de poetas iria marcar a ironia da obra do escritor vitoriense Osman Lins (1924-1978), talvez o maior nome da literatura pernambucana depois de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Nome reconhecido pela crítica internacional, o criador de obras como Nove, Novena ainda hoje é pouco lido na sua própria terra, quase ignorado por novas gerações. No ano que sua maior obra-prima, Avalovara, completa 40 anos do seu lançamento, o incômodo é ainda maior: continuamos a desviar os olhos de uma das prosas mais fortes já produzidas no Brasil.
 
É só pensar no próprio Avalovara - o ponto principal de equilíbrio entre o seu experimentalismo formal e a preocupação com as questões humanas - para entender a revolução que a obra significa. O romance traz o personagem Abel e a história de três mulheres de sua vida, relacionadas a cidades como Recife, São Paulo, Amsterdã e Roma Antiga, e tem figuras singulares, como o pássaro feito de pássaros que nomeia a obra.
 
A trama parece simples ou, ao menos, não tão radical assim. É a sua união a experiência (mais do que experimento) radical de narrativa que faz de Avalovarao romance que o argentino Julio Cortázar disse que, se tivesse escrito, passaria 20 anos sem tentar criar outra obra. A partir do palíndromo em latim "sator arepo tenet opera rotas" (com vários sentidos, sendo um deles algo como "o lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita"), ele cria uma narrativa que funciona a partir da inscrição de um espiral em um quadrado, que possibilita inúmeras leituras das frase. O romance é um ápice de uma obra que, desde o início, conseguiu unir experimentalismo formal com uma atenção às questões humanas fundamentais.

   


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