Literatura

29/03/2016 11:28:57
O spleen dos puramente malditos

Por Alex Medeiros

Quando o poeta Baudelaire despetalou esperanças com seu livro "As Flores do Mal" e resgatou um termo anglo-saxão já então esquecido naquele tuberculoso século XIX, os poetas de todo o mundo descobriram que todo aquele que se preza tem enraizado na alma o seu próprio "spleen",

Foi com o seu "O Spleen de Paris - Pequenos Poemas em Prosa", de 1875, que a literatura passou a parir, em ritmo perpétuo, seus poetas decadentes, tristes e tétricos. O niilismo e o tédio se incorporaram ao corpo e mente dos chamados malditos, como tatuagens infinitas.

Homens de sensibilidade e talento burilados pelo sofrimento pessoal e uma espécie de náusea do mundo, os portadores de "spleen" se multiplicaram pela Europa, Américas e África e continuam a surgir, a conta-gotas é bem verdade, no meio de um contexto pós-moderno que de modernidade aguda já morreu.

Essas figuras, puras, belas e controversas no espírito maldito uno, são até hoje - é só pesquisar suas parcas e suculentas obras - entrelaçadas, linkadas entre si como se o "spleen" coletivo fosse uma rede de internet orgânica e plasmática. As "Flores do Mal" de Baudelaire ganham forma singular na "Flor do Mal" do brasileiro Cruz e Sousa.

Na mesma melancolia sem fim o "Corvo" do americano Alan Poe voa em versões pelo Brasil com o "Urubu" a pousar na sorte de Augusto dos Anjos e o "Corvo" lusitano de José Duro, talvez o mais representativo na tristeza histórica desses portadores da poética especial do carrasco "spleen". A desesperança com a vida tanto em Verlaine quanto em Mallarmé encontra eco nos textos do português Cesário Verde.

É a mesma "inefável vida" de Cruz e Sousa que carrega a tristeza em Ferreira Gullar, a perdição de Rimbaud no coração de Florbela Espanca, a hemoptise torturante de Noel Rosa rolando nas veias moribundas de Cazuza. O que é a declaração de amor do africano José Caveirinha em suas "raízes de uma canção negreira", senão a dor lancinante a gritar emudecida nos porões dos navios de Castro Alves?

O mesmo "spleen" do velho Baudelaire é o "spleen" de Alberto Osório, uivando na primavera de Coimbra em 1890, enquanto as diatomáceas da lagoa afundavam o grito augusto de anjos caídos, aqueles mesmos de Plínio Marcos na contemporaneidade da melancolia de Gonzaguinha. O choro dos séculos que falava o angolano Agostinho Neto não é só da África, é do mundo.

O mundo duro de José Duro, esse poeta que descobri na travessia, com dois pequenos grandes livros, de títulos definitivos, "Flores" e "Fel". Seus versos de amargura penetram na gente com as agulhas sangrentas da reflexão. Vejo nele uma fossa abissal a concentrar a mais melancólica carga do "spleen" que ainda pulsa por aí. É de José Duro, morto aos 23 anos pela turberculose, os versos que seguem:

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,
Quando olham para mim é certo que estremeço;
E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,
O contrário talvez daquilo que pareço...

Espírito irrequieto, fantasia ardente
Adoro como Poe as doidas criações,
E se não bebo absinto é porque estou doente,
Que eu tenho como ele horror às multidões.

   


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