Literatura

30/10/2013 11:43:04
Plinio Marcos, o anjo maldito

A biografia do dramaturgo e o livrinho que ele me deu

Televisão para mim tem três funções: assistir futebol em qualquer horário e dia, assistir filmes quando houver bons filmes nos canais, e acompanhar de manhã cedo ou na madrugada os telejornais espanhóis, portugueses e, agora, também argentinos.
Daquilo que a TV brasileira produz, além das ridículas novelas, dos programas de auditórios incultos e dos noticiários policiais, uma das poucas coisas que se salvam - pelo menos pra mim - é o bate papo noturno de Ronnie Von com seus convidados.
Com aquele mesmo charme de quando se tornou "o pequeno príncipe" da Jovem Guarda e com o mesmo intelecto que o fez guru de alguns roqueiros nacionais (pra quem não sabe foi Ronnie quem batizou Os Mutantes), ele se apresenta na TV Gazeta.
O nome do programa é "Todo Seu", bem sugestivo para quem oferece bons debates e ótimos entretenimentos aos telespectadores, abdicando do velho costume de alguns que usam a TV para a autopromoção e para satisfazer os próprios gostos e manias.
Ronnie Von nos apresenta novos talentos de verdade, cantores, músicos e escritores que estão à margem do esqueminha besteirol dos auditórios das grandes redes de televisão. E também resgata antigos e bons artistas ou profissionais que a "moda" esqueceu.
Há alguns meses, estava lá Oswaldo Mendes, um craque da dramaturgia e do jornalismo nacionais, que dirigiu o jornal Última Hora a partir de 1969 - ainda sob a batuta de Samuel Wainer - e continuou com os novos donos após 1971 até 1992.
Oswaldo foi um dos mais íntimos e diletos amigos de um gênio da cultura brasileira, o escritor, ator, diretor de teatro e jornalista Plínio Marcos, que entre 1958 e 1999 (quando morreu) militou na cultura como um maldito tanto para a direita quanto para a esquerda.
O papo entre Mendes e Ronnie Von foi uma das mais prazerosas coisas que às vezes a TV possibilita. Na pauta, claro, o livro que o jornalista lançou com a biografia do velho amigo Plínio Marcos, e que - obviamente - tratei de pedir a um amigo viajante.
O livro, com mais de 500 páginas, foi lançado pela Editora Leya, o maior grupo editorial de Portugal que já está devidamente instalado no Brasil com promessas de sacudir o combalido mercado tupiniquim aonde seus aldeões só leem um livro por ano.
Oswaldo Mendes narra a vida e carreira do genial dramaturgo de Abajur Lilás, Madame Blavatsky, Dois Perdidos Numa Noite Suja e Navalha na Carne, entre tantas obras grandiosas. Levou anos confeccionando uma biografia rica para um perfil tão vasto.
Plínio chegou a ultrapassar o restrito mundo intelectual dos livros e dos palcos e atingir a larga avenida da cultura de massa. Foi entre novembro de 1968 e novembro de 1969, quando atuou na novela Beto Rockfeller, exibida pela saudosa TV Tupi.
A obra, composta por Cassiano Gabus Mendes e roteirizada por Bráulio Pedroso, teve direção de dois monstros da teledramaturgia: Walter Avancini e Lima Duarte. Conquistou o Brasil de Norte a Sul e deu a Plínio Marcos um prêmio pelo papel de Vitório, o melhor amigo do personagem principal interpretado por Luiz Gustavo.
Anos depois, o gênio maldito diria em entrevista que nunca gostou de novela e TV, mas aceitou o papel para poder escapar do governo militar. Enquanto estivesse em evidência nos lares nacionais, ninguém iria perturbar um artista adorado pelo povo.
Oswaldo Mendes conta também as fantasias e folclores em torno do artista, em muitos casos consciente de cada um deles. Durante a vida inteira, diz o biógrafo, Plínio estimulou a estória de que Patrícia Galvão, a endiabrada Pagu, foi sua incentivadora.
Um caso curioso e espetacular no livro é quando se refere a uma outra paixão do filho de Santos: o futebol. Plínio, que chegou a jogar bola pela Portuguesa Santista, foi também repórter esportivo e teve entre os colegas o atual técnico Estevam Soares, que lhe deve a carreira e a vida.
Nos anos 70, quando o presidente Geisel aprovou um fundo de assistência ao atleta profissional, o jovem Estevam Soares jogava no Guarani e havia fraturado uma perna, cujo mau tratamento apontava praticamente para o fim da sua carreira.
Plinio escreveu uma longa matéria sobre a situação dos jogadores no Brasil, espinafrando a CBD (atual CBF) e alertando para o caso do Estevem, que ele tratou de enriquecer com fantasiosas e dramáticas palavras. Era craque nisso.
Foi o próprio Geisel, estarrecido com o drama do jogador, quem mandou se tomar providências para dar bom tratamento ao amigo do redator. Estevam nunca foi um grande zagueiro, mas nunca mais deixou o futebol e o futebol não lhe deixou.
Já na sua fase maldita e inglória, Plínio Marcos perambulava pela vida noturna de São Paulo vendendo seus livros de bar em bar, nas portas dos teatros. Certa madrugada, nos inferninhos do Bixiga, o bairro italiano, um garoto de cabelos longos recebeu das suas mãos um exemplar de "Inútil Canto e Inútil Pranto Pelos Anjos Caídos".
Era um livreto dividido em três contos, narrando o fato real e cru de 25 prisioneiros numa cadeia de Osasco, gente com pequenos deslizes misturada no caldeirão do sistema prisional que transforma homens em feras ao invés de recuperá-los.
Eu guardo aquele livro até hoje, quando folheio "Bendito Maldito", a fabulosa biografia de Plínio Marcos composta por Oswaldo Mendes. São Paulo, aliás, nunca saiu de mim, mas penetrou para todo o sempre pela força do atavismo que nos carrega.

   


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