Literatura

26/07/2018 17:17:32
Clássico-rei e rock n roll

Por Alex Medeiros

Era apenas no pensamento, nos livros e na Internet que René Zerossanto explorava o conhecimento e viajava pelo mundo, sempre utilizando - como dizia - as três vias de tempo que nos leva e traz para a realidade desejada. Ele acreditava na existência simultânea do passado, do presente e do futuro.

Há cinco anos que ele viajava assim, depois que descobriu o misterioso laboratório instalado no subsolo da Escola de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Documentos encontrados ali por ele, sugeriam que o lugar fora construído nos anos 40 do século XXI.

Desde que se deparou com uma caixa cheia de objetos relacionados com futebol, tentava compreender coisas desconexas, como as faixas de campeão mundial da seleção da Iugoslávia em 1942 e algumas edições da revista El Gráfico de 1946 com reportagens e fotografias de uma Argentina campeã.

Os deslocamentos no tempo passaram a ser constantes, sempre em direção ao passado, onde visitava ambientes esportivos, principalmente jogos de futebol. Duas coisas exigiam grande atenção nas viagens: um celular para acionar sinais de wifi atemporais e um potente carregador de baterias.

Passar pela fenda de tempo aberta no laboratório já não lhe causava náuseas nem cefaleias dilacerantes, seu organismo se acostumara às confusões moleculares. Naquele dia, ao aparecer do outro lado, o visor do telefone acusou o ano 1957. Demoraria a entender o wifi na dobra do tempo-espaço.

Levou horas para vencer, caminhando, a distância entre o terreno da faculdade e o centro de Natal. Sabia que dali a um ano a UFRN seria inaugurada e feliz ficou por presenciar a área já desmatada para o início das obras. Circulou pelo Tirol, Petrópolis e Cidade Alta, e se entusiasmou com as primeiras lambretas.

Natal tinha pouco mais de 150 mil habitantes e ainda exibia nas ruas e nos costumes a influência da presença de militares norte-americanos durante a Segunda Guerra. Naqueles dias, o Diário de Natal repercutia a rebeldia jovem com a chegada do rock ‘n' roll nas telas dos cinemas Rex e Rio Grande.

O filme Rock Around the Clock (No Brasil, Ao Balanço das Horas) com Bill Haley e Seus Cometas havia estreado em 1956 em São Paulo e Rio, chegando em Natal naqueles dias de 57. Outros dois filmes, Juventude Transviada (com James Dean) e O Selvagem (com Marlon Brando), estavam em cartaz.

Os três eram nitroglicerina para algumas famílias e para a segurança pública, em pânico com as notícias das explosões de rebeldia da juventude influenciada pelas obras cinematográficas e suas canções. Zerossanto presenciou pais assustados com o 1º Festival de Rock ‘n' Roll, anunciado na sede do América.

E por falar no clube rubro, René esteve no Juvenal Lamartine, acompanhando atentamente o clássico ABC x América, concluído em paz com vitória alvinegra por 3 x 0. Gostou das grandes defesas dos goleiros Ribamar (ABC) e Marçal (AFC) e dos dribles de Jorginho e Cocó (ABC) e Saquinho e Wallace (AFC).

Antes de partir, procurou dirigentes do modesto Alecrim FC e os convenceu a reforçar o time a partir de 1960. Garantiu que um dos dois grandes passaria por dificuldades e seria a vez do alviverde crescer. Mas alertou que o Globo FC teria um quinteto perigoso com Chicó, Ivo, Aladim, Jorginho e Furiba.

           


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