Cotidiano

01/07/2019 00:00:00
A impensável imortalidade do ser

Alex Medeiros

Todos concordam, cientistas, esotéricos e poetas, de que nada é para sempre. As leis da Física garantem isso e, em particular, a segunda lei da termodinâmica, que nos indica governar o destino do Universo e dar sentido organizacional à desordem cósmica que nos cerca.

É o processo da entropia, que aprendemos nas velhas aulas de física e química do segundo grau, que impõe a desordem da vida, onde galáxias afundam em buracos negros, estrelas viram poeira de carbono, motores de carros e aviões se desgastam, o envelhecimento nos encaminha à morte.

Tudo nasce, aumenta em massa e morre. Pelo menos é o que sabemos até hoje, antes de uma equipe de cientistas da Universidade Técnica de Munique e do Instituto Max Planck de Física e Sistemas Complexos anunciar que foi encontrada uma exceção à esta regra universal.

Os pesquisadores descobriram que aquilo que parecia inconcebível em nossa experiência cotidiana pode estar acontecendo no misterioso mundo quântico, hoje tão explorado na literatura e no cinema de ficção científica. Estudos indicaram que lá existem criaturas estranhas chamadas "quase-partículas".

Tais seres minúsculos e invisíveis têm a incrível capacidade de se desintegrar e renascer das próprias cinzas, como ocorreu com alguns super-heróis da Marvel na devastadora batalha contra Thanos. O fenômeno das "quase-partículas" ocorre numa série de ciclos intermináveis, tornando-as, de fato, imortais.

A extraordinária descoberta foi publicada recentemente na renomada revista britânica Nature Physics, onde é descrito o fenômeno como uma excitação coletiva que acontece dentro de corpos sólidos. Um exemplo é um elétron se mover dentro de um sólido e ter interações com muitos elétrons e núcleos atômicos, que também se movem.

O conceito de "quase-partículas" é do físico e vencedor do Prêmio Nobel, Lev Davidovich Landau. Ele cunhou para descrever estados coletivos de muitas partículas, ou melhor, suas interações devido a forças elétricas ou magnéticas, onde essas interações levam várias partículas a atuarem como uma.

Mesmo em se tratando do incompreensível e imperceptível mundo quântico, o fato não deixa de estimular discussões sobre um milenar desejo humano: a imortalidade do corpo, posto que a da alma é crença da maioria da raça. Não são poucas as culturas que nos deram belas narrativas sobre a vida eterna.

Na mitologia grega temos a lenda de Sísifo, que após enraivecer Zeus provocou a própria sentença de morte. O deus da morte, Tânato, foi buscá-lo e foi aprisionado com um colar, gerando a ira de outros deuses como Ares e Hades, deuses da guerra e dos mortos que precisavam da função do preso.

Depois de enganar também a dupla, Sísifo viveu até morrer de velhice, mas foi ressuscitado por Zeus para pagar o preço da rebeldia até à eternidade, empurrando uma pedra até o pico de uma montanha e que sempre rolava para baixo fazendo-o repetir o desgastante gesto todos os dias sem fim.

A Grécia produziu também a lenda da ambrósia, o manjar dos deuses, uma bebida de sabor divino consumida pelos habitantes do Olimpo. Se um deus a oferecesse para um mortal, este ganharia a imortalidade. Na mitologia nórdica havia as maçãs de ouro, que davam vida eterna a deuses como Odin e Thor.

Na cultura cristã, fala-se do poder da imortalidade contido no Santo Graal, a taça em que José de Arimatéia aparou o sangue de Jesus no Gólgota. Já na lenda britânica da Távola Redonda, os cavaleiros do Rei Arthur buscavam o Cálice Sagrado, aventura tantas vezes presente em roteiros de livros e cinema.

A mitologia japonesa também enaltece a vida eterna na figura da sereia Ningyo, que apesar da feia aparência pode adquirir a forma humana se alguém a fizer chorar de emoção. Quem a capturar no mar e comer sua carne será amaldiçoado com a imortalidade, sofrendo para sempre as dores das perdas constantes.

Mas a narrativa mais famosa da literatura universal é a espanhola sobre o explorador Ponce de León, que se embrenhou nas selvas americanas durante a era das grandes navegações em busca da fonte da juventude, cujas águas cristalinas e mágicas devolviam ao corpo velho as formas da verdadeira melhor idade.

E na nona arte, a dos quadrinhos, temos alguns seres superpoderosos que nunca morrem, como o próprio Thor; Savage, vivo desde a pré-história; o Apocalypse, inimigo dos X-Men; o Monstro do Pântano; Dr. Manhattan; Deadpool; Luke Cage; Wolverine; e Superman (desde que não fique muito tempo exposto à kriptonita).

No entanto, na vida real, é possível renascer sempre como as "quase-partículas". E o segredo é deixar um bom legado aos mortais de agora e de sempre.

       


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