Cotidiano

09/10/2017 00:00:00
Quintas, minha Terra do Nunca

Homenagem aos 300 anos do bairro das Quintas feita no Conselho Estadual de Cultura em 26/09/2017.

Senhor presidente,
Colegas conselheiros,
Amigo e colega jornalista Edivam Martins

O escritor americano Charles Bukowski definiu um bairro bom como um lugar onde a gente não tem condições econômicas para morar e para viver. Foi em meados de 1969, quando a situação financeira da minha família caiu de nível, que meu pai decidiu vender a casa em que vivíamos, no pequeno e bucólico bairro de Santos Reis, para refazer as economias numa casa alugada em um bairro bem distante dos limites conhecidos por meus olhos de menino prestes a completar dez anos.

Na primeira vez que vi a pequena casa na estreita Travessa Mário Lira, nas Quintas, senti que meu universo lúdico doméstico perderia espaço, dado o tamanho do quintal em relação ao da casa anterior. Boa parte do meu tempo para entretenimento naqueles anos era realizado dentro de casa, e naquela nova morada eu precisaria de mais imaginação para o lazer solitário, interrompido às vezes nas poucas saídas para a rua e na solidária parceria do meu irmão mais velho quando se envolvia com minhas figurinhas, soldadinhos dos vidros de Toddy e tampinhas de garrafas que se transformavam em times sobre a mesa-estádio de jantar.

Quando chegamos nas Quintas, numa aventura rodoviária do caminhão de mudança que eu imaginava a nave Enterprise atingindo os confins do Cosmo, a visão da Avenida Mário Negócio se estendendo como um tapete de pedra sem fim ficou como imagem primordial do novo universo que se abria para mim. Naqueles dias, os astronautas Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin chegavam à Lua a bordo da Apollo 11. Não se falava noutra coisa nas emissoras de rádio que se alternavam no dial do rádio ABC Canarinho que papai comprara nas promoções que anunciavam transmissões ao vivo no ano seguinte diretas do México, onde a seleção de Pelé e Tostão iria jogar em busca da conquista definitiva da Taça Jules Rimet.

Conquista era um dos substantivos femininos mais repetidos naquele tempo em todo lugar. Na televisão em preto e branco o homem conquistava a Lua, o rock conquistava a Terra e a rebeldia conquistava estudantes aqui e alhures, quer seja no aspecto da contracultura com o movimento hippie e inclinações musicais como a Tropicália, quer seja no campo político na luta que se acirrava por liberdade no Brasil e paz no planeta.

No meio disso tudo, como pequena fresta da Matrix universal, recanto da aldeia global, se elevava o bairro das Quintas com seu cotidiano simples, de famílias felizes na também simples concepção de felicidade que os humildes sabem estabelecer em suas vidas.

Enquanto o mundo girava e espocava nas ondas do rádio e no sinal fragmentado da TV, o velho bairro seguia seu roteiro diário de essência operária, em torno da feira das ruas Pedro Novoa e São Geraldo, nas mercearias multiplicadas nas esquinas, no trânsito às vezes mortal da sua maior via, ponto do infinito onde se encontravam as regiões da cidade; nas missas da igreja matriz de Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro - onde fui poucas vezes na pré-adolescência movido por interesses particulares que respondiam às primeiras palpitações do coração; nas sessções vesperais e noturnas do minúsculo Cine São José, que se antecipou em minha emoção ao agora clássico Cinema Paradiso do italiano Giuseppe Tornatore; nas idas e vindas dos seus meninos e meninas com singelos uniformes das não menos singelas escolas públicas.

Lembro que passei por uma espécie de mini-vestibular particular para que minha mãe conseguisse uma vaga no Grupo Escolar Felizardo Moura, onde fui retomar o primário interrompido pela mudança de casa.

Para quem experimenta num mesmo lugar as emoções e porções cognitivas da fronteira entre infância e adolescência, tal lugar se perpetuará na memória e no coração, ou onde bem queiram cientistas e poetas, conforme suas distintas compreensões. Vivi nas Quintas os melhores momentos da minha vida, e lá me alimentei daquilo que nutre o cérebro para o futuro e molda a alma para a eternidade.

Quando lá cheguei já era um leitor voraz de revistas em quadrinhos e colecionador idem de álbuns de figurinhas, tudo sob a cumplicidade paterna. Não era fácil ao meu pai Luiz disponibilizar trocos para meus desejos, o que muitas vezes só ocorria quando eu optava em dispensar o lanche do recreio no colégio e corria nas cigarreiras para alimentar a lúdica fome. Foi naquele distante 1969 que eu li o primeiro livro de capa a rabo: Fernão Capelo Gaivota, do ex-piloto americano Richard Bach, que acabara de invadir as livrarias do mundo num sucesso extraordinário. Uma curiosidade da obra é que entre os atos de escrevê-la e publicá-la, o autor levou 11 anos, exatamente a idade que eu estava para fazer quando a li.

Tudo - ou pouco - do que sou hoje devo aos livros que aprendi a consumir nas Quintas e ao curso de datilografia que minha mãe Dona Nenzinha estimulou a fazer com a professora Maurina Teixeira, que vem a ser a saudosa mãe do meu amigo daqueles tempos, Edivam Martins.

Senhor presidente, caros conselheiros, vivi uma emoção silenciosa há poucos dias quando o governador Robinson Faria fez uma visita às obras da Biblioteca Pública Câmara Cascudo, que finalmente deverá ser aberta após tantos anos fechada. Impossível não lembrar do percurso entre Petrópolis e Quintas, que eu fazia a pé diversas vezes por mês pegando e devolvendo livros com minha carteirinha de sócio, um dos mais importantes documentos que eu já tive. Subia a íngreme ladeira de casa, pegava a infinitude da avenida Mário Negócio, cortava caminho pelas ruas numeradas do Alecrim e tomava a Avenida 9 até a descida ao Baldo, nova subida pela Rio Branco, buscava a Deodoro, penetrava em Petrópolis até aos degraus do templo do saber.

O bairro das Quintas foi meu Eldorado emocional, é agora minha Terra do Nunca, onde eu vivo menino a rememorar a vida tranquila das décadas de 60 e 70. Revejo as cadeiras nas calçadas após o crepúsculo, quando o Sol se deitava no colchão negro dos tarugos do Rio Potengi, nossa escolinha de natação sem conhecimento dos pais. O constante apito do trem, as correrias para saltar com precisão e se pendurar com segurança na carona arriscada até os campinhos de pelada já nas proximidades do Bairro Nordeste e Igapó. Saudade enorme da feira, do mercado, as famílias escolhendo víveres fresquinhos no labirinto de barracas; o sabor matinal das pinhas, goiabas e mangas que chegavam em casa na sacola de tecido listrado do meu pai. O vai e vem dos ônibus das empresas Unidos, União e Guanabara que transportavam seu povo por toda a cidade.

Pena que meus filhos nunca souberam o que significa uma mistura de férias e chuvas no mesmo período em um bairro popular daqueles anos. O barro umedecido das ruas sem calçamento era ideal para as partidas de futebol com as bolas de plástico ou borracha que os meninos das Quintas podiam ter. Quantas bolas Pelé eu tive, quantas bolas Dente de Leite você teve, Edivam. O suficiente para nos embalar em delírios saborosos, se imaginar nos gramados do mundo por onde bailavam nossos craques e ídolos.

E nenhum outro bairro, meus amigos, teve tantos campinhos de futebol disponíveis para nossas folgas e nossos sonhos. No mesmo barro duro da invernada, a superfície se tornava especialíssima para as bilocas - que hoje as escolas particulares ensinam a chamar de bolas de gude. Bolinhas coloridas adquiridas nos armarinhos, nas bodegas, às vezes até nas padarias. Uma meia velha já sem uso servia de saquinho para guardá-las. Quando a chuva parava, o Sol escaldava as calçadas e estas se tornavam grandes maracanãs ou pequenos juvenais para os torneios dos times de caixas de fósforo; as fotografias dos jogadores pregadas com grude ou cola Tenaz num lado da caixinha, tendo no verso seu nome e número. Mas quem chutava a bola de cortiça nas traves de arame era o dedo da gente.

E quando chegava fevereiro? Ah, fevereiro as Quintas se arborizava de sons e cores nas fantasias de papangus, nas bagunças com tambores de lata, e, principalmente, nos ensaios da grande escola de samba do bairro, a Imperadores do Samba, liderada no asfalto pela saia rodada de Mamãe Dolores, a gorda passista baiana que representava a nossa alegria periférica. Só vi em solo das Quintas duas festas mais animadas que o carnaval: as comemorações pelo tricampeonato do Brasil na Copa de 1970 e os dias em que - ano a ano - o povo dali festeja o aniversário do bairro, em setembro. Eu vejo setembro nas Quintas como os moradores do oitavo "arrondissement" de Paris encaram o julho da Bastilha ou como Ipanema se manifesta no dia da sua famosa banda. Natal inteira precisa viver o aniversário das Quintas, caros conselheiros.

As Quintas é alicerce cultural da minha profissão e dos meus "hobbies" literários. A gênese das minhas leituras emprestadas na biblioteca pública e o gosto musical adquirido na programação da Rádio Rural ouvida no rádio de válvulas são meu legado que desejaria atávico pelos anos além. Havia um caderninho de capa azul cheio de sonetos, decassílabos e versos de pé-quebrado. Foi uma sobra na compra do meu material escolar de 1974, não utilizado nas aulas da Escola Estadual Winston Churchill e que virou a versão moleskine do moleque que fui nas Quintas. O tempo o levou, não sei ao certo como. Tenho como meu primeiro livro de poesia, a partir do prefácio de mim mesmo que restou daquilo que não esqueci. Na terceira página: "Meus escritos são momentos / de alegrias ou de desertos / nada mais que sentimentos / algo muito mais que versos".

De lá para cá, fiz muita poesia, depois enjoeei um tempo, depois perdi muitas, depois arrumei algumas em três livros, hoje posto-as diariamente nas redes sociais. Dediquei crônicas e poesias ao velho bairro da minha tenra vida. Neste setembro de festividades pelos três séculos de história, quero afirmar aqui que das denominações que a vida me deu - poeta, publicitário, jornalista - aquela que muito me orgulha é ser Comendador das Quintas. E, acreditem, tenho a honraria dobrada, recebida no aniversário de 294 anos e renovada neste 2017. Encerro registrando a emoção da saudade que bate agora, das Quintas do fim da infância, do início da juventude, dos frios na barriga com as primeiras paixões, da vontade de ser gente na vida a partir dos livros. Sinto-me sempre o mesmo menino, versão papa-jerimum de Peter Pan. No meu coração, parece que já se foram 300 anos.

Como dizem as estampas das camisas dos jovens de hoje: Quintas Forever!.

Obrigado ao Conselho Estadual de Cultura por essa manifestação.

   


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