Cotidiano

21/09/2018 18:56:36
De volta às ondas do rádio

Alex Medeiros

Na infância, eu conseguia converter as narrações dos locutores de rádio em imagens. Quando entrei pela primeira vez no pequeno estádio Juvenal Lamartine, tudo me pareceu familiar. Quadro sobre quadro, cada parte do campinho do Tirol confirmando o desenho que eu fazia no som do rádio.

Quando a puberdade se foi, ainda não havia chegado televisão lá em casa. O mundo até então se apresentava pra mim pelo rádio, após o cacarejo do Galo Informa (o Jornal Nacional dos potiguares), nos seriados de Gerônimo, Direito de Nascer, Ronda do Fantasma e nas canções dos Beatles e Jovem Guarda.

O futebol local entrava por meus tímpanos e deslizava na pele nas vozes de craques como Roberto Machado, Mário Dourado, Rubens Lemos, João Machado, Hélio Câmara, Celso Martinelli, Cassiano Arruda e Aldir Dudman, entre tantos que eu não sabia como cabiam em tão poucas emissoras AM.

Esses caras alicerçaram meus conceitos sobre ícones domésticos como Marinho Chagas, Alberí, Véscio, Vasconcelos, Icário, Pancinha, Djalma, Capitão Edson, Bagadão, Talvanes, Waldomiro, Petinha, Hélcio, Demolidor e outros que habitavam meus times de tampas de garrafa em feitio de botão.

Nos anos ginasiais, tinha sempre o ouvido colado nos velhos rádios valvulados, tentando sintonizar emissoras cariocas em busca de jogos do Botafogo. Quando o rock entrou nas veias, devotei fidelidade à rádio dos padres, a Rural, que dedicava horários generosos ao ritmo e também ao melhor da MPB.

Fui um dos tantos jovens enlouquecidos que atenderam a chamada mais maluca ainda do disk jóquei Big Terto para ver de perto a rainha do rock Rita Lee, que deixou o conforto de um hotel para se espremer no beco da Rádio Nordeste e conceder entrevista ao futuro publicitário Tertuliano Pinheiro.

Quando a publicidade me empurrou para o jornalismo, nos anos 80, e comecei a assinar uma coluna - lá se vão trintanos (dá, licença mestre Serejo?) - um dia me vi envolvido na feitura radiofônica. Os culpados foram Aluísio Lacerda e Casciano Vidal, dois viciados nas prolongadas marchas das apurações.

A estreia no microfone da histórica Rádio Poti me fez lembrar o impacto quando ouvi pela primeira vez o som de uma rádio FM. Estava dentro de um Fusca quando a Reis Magos (96) começou a operar em ritmo de degustação, abrindo a era da música em tempo integral. Hoje as AM se tornaram FM.

Há alguns anos, Marcos Aurélio de Sá me fez puxar pela memória para contar a uma turma de alunos da UFRN fatos e casos do mercado radiofônico em Natal. Foi por essa época que Jânio Vidal inventou o programa Questão Política e me chamou pra tocar a balbúrdia que o RN chamava de debates.

A partir da experiência na FM Tropical, comecei a sentir que se iniciava uma virada nostálgica em ritmo de AM. De repente, os programas jornalísticos foram se enfiando nos espaços ocupados por música e se tornaram donos da audiência. Hoje há noticiários, resenhas e análises em todas as faixas e para todos os gostos.

E toda essa minha narrativa é para dizer que a partir de segunda-feira, estarei de volta às ondas do rádio, dividindo com o amigo Jener Tinoco a bancada (na verdade, uma mesa redonda) do programa Bom Dia Cidade, no ar das 6h às 7h na 94 FM, a Rádio Cidade. Vou disposto a interagir com o público e reviver a emoção de tocar conversa no rádio.

           


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