BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/11/2018
O rei é azul

Depois de vinte e dois anos, o rei Roberto Carlos está lançando um LP em vinil, recheado de músicas inéditas, muitas cantadas em espanhol. Nada de muito diferente na capa, que segue a tradição da sua estampa em destaque. E por dentro, uma bolacha que é azul e não preta como o velho padrão universal.

Um vinil azul é fato inédito em se tratando do cantor maior da MPB, mas no histórico fonográfico já teve coisa semelhante no passado. Nos anos 1960, os discos de contos e músicas infantis, principalmente os compactos, tinham cores variadas nos vinis. As fábulas rodavam em vermelho, azul, amarelo...

Um dos grandes clássicos do rock inglês, o LP "Athomic Heart Mother", lançado pelo Pink Floyd em 1970, ganhou depois uma versão em vinil vermelho. Por aqui, no começo dos anos 1980, a banda paulistana Língua de Trapo lançou um LP em vinil de cor verde, recheado de ritmos diferentes.

A cor azul se tornou uma constante na vida e obra de Roberto Carlos, em virtude do TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo - que o levou a usar apenas roupas de tons azuis - ou brancos - e aplicar a cor em todos os seus discos desde 1980. Por décadas, o rei não se aproximava da cor marrom.

A ligação na cor celeste e rejeição ao marrom ou preto nem sempre foram presença na patologia do rei. No auge da fase Jovem Guarda, num LP de 1965, um dos seus maiores sucessos praticamente desprezava o azul: "De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar...". E aí mandava tudo pro inferno.

Um ano depois, em 1966, ele berrava nas rádios e nos auditórios a versão que Getúlio Côrtes fez de um hit pop americano: "Eu sou um negro gato, miauuuu!". E em 1969, chorou o fim do azul na canção As Flores do Jardim da Nossa Casa: "As nuvens brancas escureceram e o nosso céu azul se transformou...".

Já em 1971, numa das suas composições de maior beleza poética, a compaixão real com um súdito exilado o fez ilustrar os caracóis dos cabelos de Caetano Veloso no azul das praias baianas: "Um dia em areia branca seus pés irão tocar, e vai molhar seus cabelos a água azul do mar...". Virou clássico.

Apesar de há algum tempo o cantor ter noticiado que se curou da moléstia, a chegada de um novo LP vinil com o disco azul não deixa de remeter ao problema que muito lhe atrapalhou na vida e na carreira. O novo disco, chamado Amor sem Limite, chega às lojas no próximo dia 16 de novembro.

Desde quando passou a sofrer do TOC, Roberto passou umas três décadas cultuando a cor do céu e do mar. Ao ponto de inserir nos seus shows anuais e nas turnês marítimas que faz a bordo de navios de cruzeiro um clássico da Jovem Guarda de autoria do compositor maranhense Nonato Buzar.

Morto em 2014 aos 81 anos, Buzar fez músicas para nomes como Luiz Gonzaga, Elizeth Cardoso, Maysa, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Wilson Simonal, Jair Rodrigues e outros. Em 1968 compôs Vesti Azul, que se tornou popular em 69 e 70 nas gravações de Adriana e Simonal, respectivamente.

Roberto tem cantado Vesti Azul, mas nunca a colocou em disco. O novo LP Amor Sem Limite é o primeiro vinil dele desde 1996. Apesar da cor da bolacha, a velha patologia parece ter sumido mesmo. Que a nova fase da vida e da carreira do rei seja, então, definitivamente azul. O cara merece, senão pela longevidade artística, mas principalmente por ter colorido o coração dos milhões de fãs.