BLOG DO ALEX MEDEIROS

13/11/2018
Para sempre stanleenista

Os heróis, assim como os deuses, não nascem, eles são feitos, criados por mentes expansivas. No contexto do planeta Terra, o já saudosíssimo Stan Lee é em grande parte aquele que melhor ilustrou uma mitologia, o historiador de fantasias que estampou uma teogonia própria e mudou a face da nona arte.

Eu viajei para o universo dos super-heróis na metade dos anos 1960, moleque de menos de dez anos, encantado pelas aventuras do Superman nas revistas em quadrinhos da velha Ebal, a Editora Brasil América Ltda., fundada pelo russo Adolfo Aizen em 1945, numa dissidência com o editor Roberto Marinho.

Depois do filho de Kripton, descobri outras figuras poderosas, Batman, Lanterna Verde, Miss América (Mulher Maravilha), Ajax, Flash, Aquaman, Arqueiro Verde e uma legião de heróis adolescentes comandados por Superboy e Mon-El, os primos invulneráveis. Eu rejeitava a tropa da Marvel.

Minha fidelidade aos personagens da DC Comics começou a ficar vulnerável quando apareceu um novo morador na minha rua, um garoto meio nerd que consumia compulsivamente as revistinhas do Homem-Aranha, um herói criado em 1963 e que a editora Ebal passou a publicar suas aventuras em 1969.

Depois vieram Thor, Hulk, Homem-de-Ferro, Demolidor, o Quarteto Fantástico; as figuras poderosas da Marvel passaram a dividir espaço com os meus preferidos da DC. Era a teia de influência de Stan Lee, o cara que fez da sua criação um divisor de águas na história dos quadrinhos de super-heróis.

Talvez não por coincidência, Lee começou a trabalhar no ocaso da Era de Ouro, no final da Segunda Guerra Mundial, como assistente de Jack Kirby - o criador do Capitão América em 1940 - e vinte anos depois ele seria a força criadora da Era de Prata, o resgate mercadológico das revistinhas de HQ.

Kirby seria o grande parceiro da revolução "stanleenista" iniciada em 1961 com o Quarteto Fantástico e estendida com o Homem-Aranha, Hulk e Thor em 1962; Homem-de-Ferro, X-Men e Doutor Estranho em 1963; Demolidor em 1964; e consolidada com o Pantera Negra e o Surfista Prateado em 1966.

A diferença essencial entre a Era de Prata do estadista da Marvel e a Era de Ouro foi a releitura que Stan Lee estabeleceu com seus personagens, inserindo noções populares nos roteiros, dando humanidade aos heróis, que não enfrentavam apenas vilões, mas também seus demônios internos; como nós.

Com Stan Lee, as histórias em quadrinhos deixaram a condição de subliteratura para crianças e se tornaram a mola propulsora de um mercado poderoso que com deuses de papel gerando bilhões de dólares em licenciamentos. As HQs viraram cultura pop na década dourado do rock n roll.

Foram quase 80 anos dedicados ao ofício de entreter os fãs, uma abnegação que mantinha a conexão do senhor de um império com o garoto que iniciou nos anos 1940 para minorar as necessidades da família romena que migrou para Nova York. Ele dizia que criava heróis pensando apenas em pagar o aluguel.

O mundo construído por Stan Lee salvou o mundo do cinema, fortunas erguidas em bilheterias e produtos de inúmeros gêneros, seus heróis arrasando quarteirões, tanto no sentido das batalhas quanto no aspecto comercial. Seu legado se mantém nas revistas que guardo com o carinho de quem preserva imagens de família. Sou um órfão stanleenista.