BLOG DO ALEX MEDEIROS

16/11/2018
O largo coração do Atheneu

Dona Sílvia tinha uma legião de filhos, bem além dos seus quatro herdeiros biológicos Késia, Karla, Keila e Odeman Jr. Tratava a enorme clientela com aqueles cuidados das mães, com atenção permanente e distribuindo sorrisos e gentilezas, fazendo da Confeitaria Atheneu um lar doce bar de nós todos.

Várias gerações e um porrilhão de gente de estilos e gostos distintos se uniformizavam num só ambiente de descontração quando buscavam as mesas do bar do casal Odeman e Dona Sílvia. As tardes-noites e os carnavais em Petrópolis ganharam outra dimensão quando eles se instalaram no Largo.

Comecei a frequentar o lugar no final dos anos 70, quando a confeitaria ainda era na casa da esquina, onde hoje está a Chopperia Petrópolis. Vi ali os mais destacados intelectuais e personalidades potiguares; todos eles referências da minha geração que frequentava o local como que para um rito de passagem.

Sob o olhar generoso do bom casal conquistei amigos em suas mesas, vi nascerem e morrerem amores, acompanhei debates políticos acalorados, escrevi poemas em guardanapos, participei de animadas confraternizações e até fiz horas extras produzindo trabalhos publicitários regados a muita cerveja.

Presenciei a naturalidade com que as tradições boêmias são transferidas de pais para filhos. Assim como é natural a mistura de gerações compartilhando noitadas, gente de todas as idades naquela calçada onde o tempo parece não parar, como se os ausentes estejam sempre sentando ao lado dos presentes.

Dona Sílvia era uma proprietária de bar que não sentia falta do cliente, sentia saudade mesmo. Sua primeira abordagem era sempre querendo saber o porquê dos breves desaparecimentos, para só depois perguntar o que iríamos beber ou comer. O carinho no diminutivo cervejinha, queijinho, paçoquinha.

No atavismo da minha boemia, ela passou a perguntar por mim quando minha filha passou a ser mais assídua no local. Quer uma moelinha, minha linda? Seu pai não tem aparecido, ele está bem? Sempre foi como uma avó da menina, que pisou ali pela primeira vez no dia do próprio aniversário de três anos.

Quando estava com quatro anos, voltou comigo à Confeitaria e ficou quietinha lendo revistinhas da Mônica, enquanto eu me dividia entre a cerveja e segurar o irmãozinho de menos de um ano, ainda com fraldas. Dona Sílvia tinha o mesmo estereótipo da minha mãe; corpo raquítico e um coração gigantesco.

O poema que fiz pra ela na sexta-feira, logo que me chegou a triste notícia da sua partida, foi regado a lágrimas e brotou num chão de saudade. Das dezenas de amigos que conversei, todos sem exceção demonstravam tristeza, uma desolação como aquelas que sentimos na perda de algum familiar querido.

Poucas pessoas foram tão queridas em Natal como Dona Sílvia, na mesma proporção da consideração que era depositada em seu marido Odeman, o parceiro de uma vida inteira, o grande amor que em algum lugar já marcou encontro com ela, para juntos de novo construir a eternidade de um legado.