BLOG DO ALEX MEDEIROS

20/11/2018
A última ceia do Diners

O conceito "não existe almoço grátis" remonta ao século XIX, quando o americano Water Scott abandonou a profissão de impressor para vender comida numa carroça, antes utilizada em períodos de guerra ou catástrofes. Depois dele, T. H. Buckley abriu vários carrinhos e conceituou o restaurante.

Quando os restaurantes invadiram o século XX, a frase continuava em voga nos EUA até que em 1966 o escritor de ficção científica Robert Heinlein a colocou num romance, gesto repetido nove anos depois, em 1975, pelo renomado economista Milton Friedman que a espalhou pelos continentes afora.

Numa noite de 1949 em Nova York, o advogado Frank McNamara foi para um jantar de negócios no restaurante Major's Cabin Grill, e quando a conta veio, percebeu que havia esquecido a carteira no hotel. Após alguma discussão, deixou o seu cartão de visita e a conta assinados, como garantia de voltar.

No dia seguinte tudo foi resolvido. E um ano depois, em fevereiro de 1950, McNamara retornou aquele restaurante, na companhia de dois colegas, Ralph Schneider e Casey Taylor. Ao término do jantar, ele pediu a conta e puxou da carteira um cartão de papelão, onde havia seu nome abaixo de outro maior.

Nas letras em destaque, Diners Club Card, no português livre "o cartão do clube do jantar". Explicou ao proprietário que já haviam quase trinta restaurantes de Nova York recebendo o cartão, usado apenas por pessoas importantes e abastadas, cerca de duzentas, todas amigas do advogado.

Começava ali a história do cartão de crédito, uma revolução na economia mundial e nos negócios. O Diners Club cobrava das empresas conveniadas um percentual de 7% sobre o valor da despesa, como taxa de serviço, e também dos usuários que tinham 60 dias para quitar tudo, com taxa anual de US$ 3.

A marca Diners Club logo se tornou componente dos elementos que compunham a essência do glamour dos anos 50, se tornando símbolo de sofisticação, presente nos ambientes chiques e no imaginário das pessoas através de propagandas e de inserções em contextos do cinema e da moda.

Na década seguinte, marcada por sonhos, loucuras e desejos de liberdade, o Diners tratou de contextualizar e se enfiou no universo cult, com publicidades criativas oferecendo seus serviços nas compras de discos de rock, ingressos de shows e cinema, consumo em lanchonetes, bares e boates fumegantes.

Chegou no Brasil quando os primeiros acordes da Bossa Nova surpreendiam um país ainda afeito ao samba-canção, ao baião e aos boleros, e quando a TV engatinhava como um rádio com imagem. O empresário checo Hanus Tauber e o brasileiro Horácio Klabin abriram em 1956 uma franquia do Diners Club.

Como símbolo de glamour daquelas décadas, o Diners é comparado à saudosa companhia aérea americana Pan Am, aliás por várias vezes juntas num mesmo anúncio publicitário. Inclua-se no contexto nacional a Pan-Air, a Varig, a Cruzeiro do Sul e a Vasp com suas lindas aeromoças com o cartão na mão.

Nos anos 90, o cartão Diners chegou a vender antecipados discos brasileiros, como o LP de Caetano Veloso, Fina Estampa, de 1994. A promoção ganhou páginas de revistas e jornais nacionais. Esta semana foi anunciado o fim do Diners, cuja história se confundirá com a dos restaurantes na imagem da "primeira ceia" em fevereiro de 1950. Amém!