BLOG DO ALEX MEDEIROS

26/11/2018
O último imperador italiano

Quando a censura no Brasil liberou em 1979 a exibição de O Último Tango em Paris, o filme de Bernardo Bertolucci que escandalizou o mundo em 1972, minha geração aos vinte anos tinha nas paredes do quarto um pôster do filme 1900, feito por ele em 1976, e se chocava no roteiro transgressor de La Luna.

Quem viveu os movimentos estudantis do final dos anos 70, praticamente adquiriu - com uma obrigação ideológica - a enorme foto dos camponeses italianos marchando na cena icônica do filme 1900. Era figura fácil nas barracas e toalhas da galera que vendia souvenires cults durante a SBPC.

No atraso de sete anos da chegada no Brasil do polêmico filme em que Marlon Brando lubrificava Maria Schneider, nós consumimos Bertolucci nas sessões tipo cine clube dos centros acadêmicos. Pouco tempo após conferir a obra que o popularizou, vi Estratégia da Aranha, baseado em livro de Jorge Luís Borges.

Diretor, produtor, poeta e roteirista, Bernardo Bertolucci abriu um buraco de luto nos cinéfilos quando sua morte foi anunciada ontem. Muitos fãs sequer sabiam que ele enfrentava um câncer. Morreu em casa, na cidade de Roma, de insuficiência respiratória, como estampou o diário italiano La Repubblica.

Filho de um poeta e professor amigo do cineasta Pier Paolo Pasolini, logo cedo foi atingido pela magia do universo artístico, arriscando alguns curtas metragens com o seu irmão Giuseppe, estreando em 1962, com apenas 21 anos, dirigindo duas produções: A Morte (inédito aqui) e Antes da Revolução.

Virou auxiliar de Pasolini e decidiu beber na fonte de Godard e Kurusawa, os também cineastas francês e japonês já consagrados. As referências ao cinema noir e ao realismo cotidiano denunciaram a inspiração de Bertolucci em ambos. Em 1970, com O Conformista, ele apresentou o cartão de visita ao mundo.

A trama baseada em livro de Alberto Moravia o ajudou dois anos depois quando lançou O Último Tango em Paris, abrindo as portas da distribuição, em que pese o choque moral das pessoas e a censura em alguns países, como no Brasil de Médici e no Chile de Pinochet, além da Itália, liberado só em 1987.

Polêmicas e debates intelectuais à parte, Bertolucci passou a ser tratado como um monstro da sétima arte com os filmes 1900, um drama sócio-político da própria Itália (com Robert De Niro), e O Último Imperador, de 1987, em que um garoto é tirado da mãe para ser rei e viver recluso numa cidade proibida.

Após o duplo sucesso, sua criatividade explode nos anos 90 e nos presenteia com grandes obras, como O Céu que nos Protege (1990), O Pequeno Buda (1993), Beleza Roubada (1996) onde Liv Tyler brilha aos 19 anos; e entra no terceiro milênio em 2003 com Os Sonhadores, uma crítica ao "maio 1968".

Seu último filme, Tu e Eu, de 2012, é um retorno ao tema de Os Sonhadores, uma abordagem dos conflitos e alienações juvenis. Em quase sessenta anos de militância cinematográfica, Bertolucci nunca deixou público e crítica indiferentes às suas obras, garantindo assim que jamais será esquecido.