BLOG DO ALEX MEDEIROS

04/12/2018
O amor que contamina o mundo

Os amantes sempre morrem, um dia hão de morrer, mas o amor, somente o amor, resistirá ao tempo com a sua eternidade. Isto é fato e a ninguém cabe ou é permitido explicar. Tanto no aspecto do macrocosmo fictício, como nos romances tipo Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, quanto no microuniverso de um jovem e comum casal, como os americanos Christian Kent e Michelle Avila.

Pouco sabemos deles, apenas que viviam com os seus pais, em Newport Beach, na ensolarada Califórnia, sonho de consumo dos surfistas nos delirantes anos 60, 70 e 80. Além de viverem sobre as ondas, como no desejo da canção de Nelson Motta interpretado por Lulu Santos em 1982, Michele (23 anos) e Christian (20) se amavam de forma apaixonada.

Não foi o surf que permitiu a ambientação para que o casal se tornasse célebre. O mundo tomou ciência dos jovens por causa do seu amor, que eles escancaravam com paixão, alegria e plasticidade em imagens postadas nas redes sociais. Indivisíveis em seu idílio juvenil, eram um só corpo em cada foto, em cada vídeo, em cada singela frase de declarações amorosas.

O francês François de La Rochefoucauld, que longe de ser filósofo ou poeta foi um aristocrata apaixonado por compor conceitos amorosos e poéticos, disse que "o que faz com que os amantes nunca se entediem de estar juntos é o falar sempre de si próprios". E a vida de Michelle e Christian era assim, uma bolha só deles, imune às desgraças e maledicências desse mundo tão hostil.

Viviam apenas um para o outro, curtindo juntos o surf e as aventuras que o seu amor alimentava. O amor presente, sem pressa, sem adiamento e sem planejamentos que gerem dúvidas com o futuro. Eles eram a ilustração em vida da poesia de Chico Buarque em Futuros Amantes: "não se afobe, não, que nada é pra já, o amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio..."

Eles contaminaram de amor as redes sociais, um ambiente totalmente afetado por ódios, frustrações, invejas e neuroses de toda espécie. As fotos, muitas fotos, postadas diariamente com juras de amor, com palavras de mimo e gestos de carinho de um para o outro, emocionaram pessoas de todas as idades, de tantas cidades, de várias nações. Eles choveram amor entre nós.

No entanto, desde o dia 14 de outubro, Michelle Avila e Christian Kent saíram do mundo, se foram, apareceram mortos, abraçados como nos romances que há séculos emocionam e ao mesmo tempo entristecem os mais distintos corações e mentes. A morte do casal é um mistério para as famílias e a Polícia. Não havia sinais de violência, nem cartas de despedida, nem resíduos de substâncias proibidas.

O quarto da garota, onde o casal foi encontrado morto, é um retrato da sua juventude e do seu amor; cartazes nas paredes, lençóis floridos, fotos do mar e deles, ela e Christian em momentos felizes, os mesmos que eles publicavam nas redes sociais e que conquistaram as pessoas.

Em seu perfil do Instagram, a garota escreveu "A vida é uma aposta", como a justificar as escolhas pelo estilo aventureiro e o gosto por música e viagens. Suas cinzas foram espalhadas nas águas do Hawaí, local preferido do casal, enquanto o corpo do namorado foi sepultado no mausoléu da família.
Os corpos dos amantes se foram, mas ficou o amor, imutável como sempre.

E como todos os amores adiados, um dia, quem sabe, serão elementos de estudo dos escafandristas do futuro, como cantou Chico. Ou voltarão todos, procurando seus pares, como a gritar na imorredoura poesia de Maiakovski: "Ressuscita-me, nem que seja só por isso". Porque todo o amor não terminado será recompensado com inumeráveis noites de luas e estrelas.