BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/12/2018
Os anjos caídos do rock

Quando um livro nos permite compreender temáticas distintas numa só leitura, invariavelmente é tratado como "a bíblia disso ou daquilo", numa expressa referência ao compêndio milenar que com seus muitos livros fundou e sustentou a doutrina cristã e suas diversas religiões criadas depois.

Pois bem, se algum fã do rock ‘n' roll quiser conhecer de uma só vez as origens e vertentes do punk rock, proto punk, grunge, new wave e eletropop, precisa ler a farta bibliografia do livro "Dangerous Glitter - Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop Foram ao Inferno e Salvaram o Rock ‘n' Roll", de Dave Thompson.

É uma bela edição de luxo em capa dura com muito material iconográfico e fotos históricas do triunvirato maldito. Os três levaram aos limites extremos - como diz Galvão Bueno - a tradução metabólica do mantra criado pelos Rolling Stones, "sexo, drogas e rock ‘n' roll". A turma de Jagger não deu pro cheiro.

Vamos para o ano de 1971, quando o britânico David Bowie era apenas uma promessa de sucesso e um fã entusiasmado dos americanos Lou Reed, e seu grupo Velvet Underground, e Iggy Pop, com sua banda The Stooges. E os dois, diga-se, achavam que o inglês tocava alguma coisa muito próxima do lixo.

Mas Bowie tinha a mesma loucura dos seus ídolos e se danou para os EUA só para conhecê-los. Não dava nem para imaginar um empurrão do mercado do Tio Sam, já que naquele ano encerrou o programa Ed Sullivan Show, cuja audiência catapultou Beatles, Rolling Stones e tudo que veio da Inglaterra.

A Guerra do Vietnã seguia sangrenta e a conjuntura cultural demonstrava agitação tanto nos EUA quanto no Brasil. Foi em 71 que Augusto Boal criou o Teatro do Oprimido, que Nabokov lançou "Poemas e Problemas" 16 anos após o sucesso de Lolita, e que o poeta Ferreira Gullar foi empurrado para o exílio.

Não foi fácil para Bowie flertar com a dupla e romper a rejeição artística. Mas no ano seguinte deu namoro e sinais de bom casamento. No primeiro encontro com Lou Reed, numa mesa do restaurante Ginger Man, no coração de Nova York, a conversa fluiu graças à alcova dos executivos da gravadora RCA.

Os dois viviam situações distintas no âmbito musical; com Lou Reed se divorciando da Velvet Underground, pensando numa carreira solo, enquanto Bowie ensaiava voos em direção à estratosfera com o êxito mundial do seu quinto disco, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

O extenso nome, que lembrava a revolução sonora dos Beatles quatro anos antes com o álbum Sgt. Pepper's, caiu na boca do mundo resumido para Ziggy Stardust, que virou um alter ego. E Bowie acabou produzindo o maior sucesso da carreira solo de Reed, o seu segundo disco chamado "Transformer".

O encontro com Iggy Pop seguiu o mesmo clima e se tornou uma boa amizade, invertendo os papeis como já ocorrera com Lou Reed. O bruxo da cultura punk americana também passou a admirar Bowie. Em 2016, disse que o músico inglês não só o entendia como o ressuscitou para a vida e para o rock.

Infelizmente, aqueles primeiros anos da década de 1970 foram os únicos instantes em que o trio trabalhou junto. Uma conectividade tão fértil e transgressora que produziu um pouco que se tornou muito para a historiografia da música pop.

Foram três demônios criativos, anjos caídos que mudaram as abordagens cênica, técnica e comportamental das variações do rock ‘n' roll.