BLOG DO ALEX MEDEIROS

18/12/2018
Há um bairro Roma em nós

Quem viveu a infância e a puberdade na periferia de alguma cidade brasileira durante as décadas de 60 e 70 do século XX, decerto vai se ver retratado, de alguma forma, na narrativa do belo filme Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, uma ode que ele dedica à doméstica da sua casa de classe média.

Ausente das grandes telas há cinco anos, desde que nos surpreendeu em 2013 com a instigante abordagem de Gravidade, que lhe deu duas estatuetas do Oscar por direção e montagem em 2014, Cuarón sai da ficção científica e penetra na biografia de si mesmo, bebendo e relendo na fórmula de Fellini.

O bairro Roma da cidade do México no universo da infância de Cuarón é como a cidade de Roma na reminiscência de Fellini, sendo que há uma dimensão poética bem mais escancarada na obra do mexicano. O espaço-tempo da sua infância é o mesmo de quando o italiano rodou sua obra para-biográfica.

Roma também nos faz voltar aos nossos subúrbios, lembra a vida provinciana de Natal da infância, tem pitadas de Quintas, de Alecrim, de Rocas, os nossos bairros mais populares no tempo em que Cuarón narra a vida no México. Certeza que remete também às periferias de Recife, São Paulo, Salvador.

A empregada Cleo, protagonista do filme e da formação do cineasta, teve múltiplas versões nos lares da nossa realidade latina dos anos de sonhos e conflitos, num tempo em que as relações de fraternidade saltavam do núcleo familiar e se ramificavam nos agregados que quase sempre se eternizavam.

O filme em preto e branco romantiza mais ainda o amoroso teor da mensagem de louvor a quem foi tão maternal ao autor como a própria mãe, essa às vezes ausente nas angústias pela ausência do marido infiel. Cleo é a ingenuidade que se doa pela cria alheia, e que não sabe assimilar o fruto do próprio ventre.

Alfonso Cuarón utiliza com maestria uma técnica literária para enriquecer sua narrativa; inserindo o cotidiano da sua infância na conjuntura real daqueles anos. Coloca Cleo e a avó no cenário das revoltas estudantis de 1968, quando o sangue do "Massacre de Tlatelolco" banhou a cidade das Olimpíadas.

O rock inglês passeia entre os ponteiros das rádios Êxitos e La Pantera, que até o final do século XX mantiveram o gênero na crista da onda. Os brinquedos com referências à missão Apollo estão pela casa, os cartazes da Copa de 1970 decoram o quarto dos garotos. Beatles e Credence embalam os passeios de carro.

Lavando pratos ao som do rádio valvulado, as mulheres da infância do diretor reproduzem as tantas empregadas dos bairros do continente. O mexicano José José no original do argentino Dino Ramos cantarolando "La Nave del Olvido", que aqui Nilton Cesar versou com "Espere um pouco, um pouquinho mais".

Roma é um grandioso romance de história particular que nos arrebata numa nesga de história coletiva. É uma quase biografia de uma geração latina, aquela que sobreviveu na infância dos subúrbios de cidades que quarenta anos depois experimentariam a explosão demográfica que agora diariamente ameaça nossa ternura e nossa memória.