BLOG DO ALEX MEDEIROS

29/12/2018
Um Natal em Marte

Quando o amigo Manoel Ramalho fundou e lançou o serviço de streaming Oldflix, uma bela sacada com oferta de filmes e seriados antigos nos moldes do que faz a poderosa Netflix com suas novidades, ele disse numa entrevista que se inspirou numa frase do escritor Michael Crichton publicada por mim.

Numa crônica que escrevi em 2006 no saudoso O Jornal de Hoje sobre o romance Linha do Tempo, o autor americano falecido em 2008 especulou que numa pesquisa sobre preferência de destino de viagem a maioria das pessoas não escolheria Paris ou Nova York, mas uma volta ao passado de si mesmas.

Realmente, quase todo mundo tem ou já teve vontade de poder viajar no tempo, visitar momentos felizes da infância ou instantes importantes da própria história humana. Acho - como achava Crichton - que o passado vence fácil o futuro na preferência de destino de viagem. E lembrar é bem melhor que vislumbrar.

Dia 26 de dezembro é o Dia da Lembrança no calendário promocional, e por ser um dia após as festas natalinas nos aponta bons motivos da escolha. Ninguém vive um "Feliz Natal" sem lembrar dos natais do passado, principalmente quem acumula as perdas que o percurso da vida impõe na trajetória do tempo.

A lembrança é a nossa própria máquina do tempo, e pode nos levar anos e anos para trás se o combustível da memória for suficiente. Nos dias atuais, as pessoas com menor capacidade de memória biológica podem suprir isso com a memória artificial, tamanha é a diversidade de opções de arquivos disponíveis.

Sugiro a quem tem dificuldade com a memória mal armazenada no cérebro - e que sente vontade de reviver dias felizes ou relevantes - que exercitem a memória artificial se utilizando do resgate de narrativas, imagens, cheiros e sons do próprio passado. Tudo isso estimula nossas reminiscências adormecidas.

Uma bela máquina do tempo que temos à mão é o YouTube com seus zilhões de vídeos sobre tudo o que você decidir procurar. Não importa o que seja, vasculhe, faça uma varredura na pesquisa e acabará achando. No dia 26, por ser o Dia da Lembrança, voltei a um Natal da infância viajando no YouTube.

Achei um filme de 1964, chamado "Papai Noel Conquista os Marcianos", uma produção tipo C que foi considerada uma das piores obras do cinema. Passou no Cine São José, das Quintas, com cinco anos de atraso, como era comum na vidinha provinciana de Natal do final dos anos sessenta do século vinte.

O roteiro de tão besta encantava os meninos da minha turminha (não lembro quantos estavam comigo naquela saudosa sessão): o rei do planeta vermelho preocupado com o vício dos dois filhos na programação de TV da Terra. E mais ainda com o efeito de uma entrevista do Papai Noel direta do Pólo Norte.

Aquela conjuntura natalina a mais de 50 milhões de quilômetros da Terra tinha semelhanças com os desejos da minha infância a cada dezembro. Não havia entrevistas de Papai Noel, mas o velhinho estava no rádio, nos jornais e nas imagens em preto e branco dos poucos televisores que havia na vizinhança.

Após o achado no YouTube, a emoção me fez navegar no Google Maps e pousar como quem vem do futuro, ou de Marte, diante da pequena casa em que vivi na infância. A viagem afetiva me pôs na janelinha do quarto, revendo a silhueta de papai colocando o presente debaixo da minha cama. Atrás dele, mamãe era pura satisfação.