BLOG DO ALEX MEDEIROS

29/12/2018
A irmã de Chico

Morreu quinta-feira a cantora Miúcha. Não era integrante do meu clube de preferências musicais, mesmo sendo parceira de João Gilberto e mãe de Bebel Gilberto. Dos seus anos de vitalidade artística, minhas impressões sobre ela resumem-se ao belo sorriso nicotinado, tal o riso alcoolizado do irmão.

Entretanto, em 1999, quando eu estava prestes a fazer quarenta anos, Miúcha entrou quase que inadvertidamente no meu seleto acervo de vinil. E graças a uma obra do irmão Chico Buarque, que em 1977 colocou letra numa melodia de Sivuca e que acabou chegando às paradas de sucesso na voz de Nara Leão.

A canção João e Maria (agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês. ..) encantou meu coração pós-adolescência entre 1977 e 1978, ouvia repetidamente e cantarolava nas rodas de violão em Candelária. É daquelas que jamais provocam enjoos nos meus ouvidos nas muitas vezes que ainda ouço.

Pois bem. Naquele passeio ocioso por Recife em 1999, avistei num sebo um LP de Miúcha, que apesar de recém-lançado estava num lote de discos antigos. Alguém se desfez e o comerciante não percebeu a novidade da oferta. Na capa, a cantora sorrindo, com um gato nos braços, e o título "Rosa Amarela".

Ao manusear o disco, vi que ela regravara João e Maria, a bela obra do irmão que tanto marcou minha juventude. Peguei, paguei e levei a bolacha. À noite, no hotel, me inteirei melhor do repertório e vi que outras belas canções compunham o LP, como Valsa de uma Cidade, um hino ao Rio do cronista Antônio Maria.

Gravou também Querelas do Brasil, a irônica composição de Aldir Blanc que estourou na interpretação de Elis Regina em 1978. E um destaque histórico com "A Mesma Rosa Amarela", letra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho com música do mestre Capiba, o ícone dos carnavais recifenses com seus frevos.

Na passagem de 1959 para 1960, Pena Filho passou o poema pra Capiba como encomenda para um frevo, mas o compositor achou tão bonito que preferiu fazer um samba com pegada de bossa nova. E aí foi gravada por Maísa em 1962, fazendo enorme sucesso que o poeta não viu, pois morreu dois anos antes.

Saí num lucro enorme com o único vinil de Miúcha em minha coleção. Além da balada dos meus anos de boy, ganhei a sua afinada interpretação do velho samba de Capiba no lindo poema de Pena Filho, escrito nos seus últimos dias. Segue abaixo o texto de A Mesma Rosa Amarela, que resumida virou título do LP.

Você tem quase tudo dela
O mesmo perfume
A mesma cor, a mesma rosa amarela
Só não tem o meu amor
Mas nestes dias de carnaval
Para mim você vai ser ela
O mesmo perfume, a mesma cor
A mesma rosa amarela
Mas não sei o que será
Quando chegar a lembrança dela
E de você apenas restar
A mesma rosa amarela
A mesma rosa amarela