BLOG DO ALEX MEDEIROS

23/01/2019
Trinta anos sem Dali

Ontem fez 30 anos da morte do pintor espanhol, de origem catalã, Salvador Dali, senão a maior expressão surrealista das artes plásticas, talvez o próprio surrealismo, como ele mesmo se auto definiu um dia. Foi talvez o artista que mais reuniu unanimidade positiva quanto à arte e negativa quanto ao perfil pessoal, misto de ironia desbocada e ira fina com viés ideológico.

A pintura de Dali quando explodiu em cores vastas e cenários oníricos, praticamente fundiu a cuca do planeta. Não foi fácil aos críticos de arte, com seus vocabulários limitados pela razão narrar ou explicar suas imagens desconectadas das sinapses bem-comportadas da maioria da humanidade.

Os primeiros contatos da minha geração com as estranhas pinturas de Salvador Dali foram em visões miniaturizadas. Seus quadros reproduzidos em quadradas figurinhas de álbum, colecionadas juntamente com imagens de frutas, animais, roupas típicas, calhambeques e artistas de TV e cinema.

Ali em meados da década de 60, lembro que uns cromos com obras dele - uns relógios amolecidos e estendidos como roupas, e tigres avançando sobre uma mulher nua - chamava nossa atenção muito mais com as figurinhas de El Greco, Da Vinci, Rembrandt, Monet, Velázquez, Degas, Renoir e outros.

Pinturas que sugeriam viagens lisérgicas e que se aproximavam, pelo menos aos nossos olhos juvenis, à ficção das histórias em quadrinhos. Aqueles felinos saltando das nuvens, como atravessando uma fenda do espaço-tempo, lembravam as revistinhas do Fantasma, do Mandrake ou do Flash Gordon.

O que nós não sabíamos naquela época é que, enquanto Dali era festejado por seu talento com os pincéis, era execrado pelas pinceladas verbais da sua língua inquieta e por posicionamentos sócio-políticos considerados incorretos pelo establishment intelectual. O que tinha de espetacular, tinha de execrável.

Uma coleção de adjetivos acusatórios se acumulou em torno da sua figura, quase tão triste quanto o Quixote de Cervantes, que por sinal ele ilustrou por duas décadas, entre 1946 e 1964: egomaníaco, interesseiro, covarde, ganancioso, farsante, reprimido sexual e fascista. Um perfil tão plural que acabou mitificado na cultura de massa.

Há um livro, "Clube do Execrável", escrito pela dupla Malcolm Otero e Santi Giménez, com capítulos dedicados a diversas personalidades da história que teriam comportamentos condenáveis unidos às virtudes. Gente como Marx, Chaplin, Hitchcock e Churchill. A vastidão negativa de Dali se espalha por várias páginas.

Misture-se num acelerador de particularidades todos os adjetivos pejorativos e os elogios direcionados a Dali, que mesmo assim será sempre difícil defini-lo com alguma precisão, a mais mínima possível. Não dá pra entender quem derramou amor pela mulher, Gala, e se derreteu com outras e até com alguns homens, como Garcia Lorca.

Criou um estilo revolucionário que encantava artistas e intelectuais de esquerda, enquanto se declarava simpático a Franco e Hitler. Só ele mesmo para ser expulso do movimento surrealista por André Breton, um dos mentores, e ter se tornado sua maior representação. Foi da escrita automática de Breton que saiu o anagrama do seu nome endinheirado: Dólares A Vida.