BLOG DO ALEX MEDEIROS

28/01/2019
A ditadura sitiada

O momento presente na Venezuela parece título de livros do jornalista Elio Gaspari, o napolitano que herdou parte da biblioteca do general Ernesto Geisel. O regime bolivariano do ditador Nicolás Maduro tem o aparente controle da situação, mas os militares que lhes dão suporte sabem que o fim está próximo.

Desfalcados de uma parte considerável do regimento, os militares ainda ao lado do poder comunista percebem a complicação que é o grosso da nação seguindo a liderança do presidente interino Juan Guaidó, que já prometeu imunidade aos soldados e oficiais patriotas que optarem pelo apoio ao povo.

A maioria dos militares que seguem ordens do ditador é dividida hoje em dia entre as conexões com o tráfico de drogas e o monitoramento do setor da inteligência cubana. Mas todos sabem que precisam tomar uma decisão urgente, talvez a mais importante das suas vidas, antes que o regime caia.

Terão que escolher entre abandonar um navio à deriva ou se afundar num apoio inglório à uma ditadura sitiada pela opinião pública local e externa. Enquanto a pressão internacional fecha o cerco em torno do fantoche de Hugo Chávez, o tempo corre numa última chance de escaparem ilesos no processo.

A Assembleia Nacional liderada por Guaidó já garantiu e ofereceu imunidade a todos os militares que desejarem ficar ao lado da maioria. A derrota anunciada de Maduro guarda uma esperança de futuro para homens que ainda podem garantir seus empregos e liberdade que possibilite ganhar algum dinheiro.

O militar americano e professor da US Army War College, Evan Ellis, disse ao Los Angeles Times que "Maduro se encontra em uma situação muito difícil". Disse também que a solidariedade russa e chinesa não garante a manutenção do governo, as duas potências só querem o reequilíbrio econômico do país.

A resistência popular está tomando dimensões perigosas e cada vez chegando mais perto do centro do poder. Ellis diz que não há garantias de que Maduro saia disso ileso, falta-lhe cada vez mais estrutura, dinheiro e legitimidade, um tripé essencial para o atual governo encarar um confronto de teor radical.

A fala do ministro da Defesa, Vladimir Padrino, bradando "nada faremos fora da Constituição", foi tão somente uma reação de retórica, um suspiro de voluntariedade para vender a ideia de coesão no governo. Só que no centro do comando militar já é visível o desgaste do chavismo dividindo as patentes.

A parte que foi doutrinada ao tempo de Hugo Chávez e treinada com tática e logística cubanas já envelheceu em sua prática de máfia. Não consegue liderar outra parte mais jovem que se ergueu na crise indefensável e adotou postura patriótica e moralista. É nesse quadro conjuntural que o fim do regime entrou em contagem regressiva. Depois de sitiada, a ditadura cairá de madura.