BLOG DO ALEX MEDEIROS

01/02/2019
Nos telhados da história

Quase todos os fãs dos Beatles sabem que a data do fim da banda é tido como abril de 1970, quando o mundo tomou conhecimento do comunicado oficial divulgado por Paul McCartney. Mas, na verdade, ali era apenas a assinatura do divórcio, posto que os quatro caras já estavam separados em espírito desde quinze meses antes.

Em janeiro de 1969 o clima entre eles não era nada amistoso. A harmonia afetada por desentendimentos e mais das vezes destroçada na intromissão de Yoko Ono, aproveitando o lado manicaca de John Lennon. Os negócios do grupo em conflitos financeiros e havia ainda um filme e um álbum por fazer naquele mesmo ano.

Durante o almoço do dia 30 de janeiro, onde o quarteto discutia com produtores e técnicos a conclusão do filme, que McCartney queria que se chamasse Get Back, alguém comentou sobre continuar o papo na laje do prédio da gravadora Apple. O resultado que todos sabem foi o último show dos Fab Four juntos, no telhado.

Com duração de 42 minutos, a apresentação atraiu curiosos e a polícia, que atendeu centenas de chamadas reclamando do barulho. O baterista Ringo Starr disse anos depois que ficou frustrado por não ter sido preso, o que seria um fator de marketing excelente para propagar o filme e o álbum lançado posteriormente, chamado Let it Be.

Também muitos anos depois, George Harrison comentaria o inusitado do show no alto do telhado e destacaria o ato revolucionário dos Beatles, que naqueles anos já havia mexido com as estruturas culturais e sociais do planeta. "Ninguém fez aquilo", disse.

Mas aquele que, dos quatro, tem os fãs mais apaixonados (capazes de definir os Beatles como uma banda inglesa feita por George e três caras), estava redondamente enganado ao cantar o pioneirismo da performance de 30 de janeiro de 1969. Simplesmente porque dois anos antes, em 1967, alguém fizera o mesmo no Brasil.

No ano do verão do amor, que explodiu nomes que virariam ícones da cultura pop, como Jimi Hendrix, Pink Floyd, Janis Joplin, Lou Reed e The Doors, a influência da beatlemania por aqui ainda azeitava a Jovem Guarda. Mesmo na subversão do álbum Sgt Peppers, ainda reverberava a fase yeah, yeah, yeah dos garotos de Liverpool.

O diretor de cinema Roberto Farias (irmão do ator Reginaldo) foi um entre tantos milhares de brasileiros que curtiram o filme dos Beatles, A Hard Day's Night, lançado dois anos antes e ainda em exibição no Brasil com o título Os Reis do Iê, Iê, Iê. Ele teve a ideia de botar o rei local, Roberto Carlos, numa aventura semelhante.

Surgiu então o filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, que também virou disco, com cenas gravadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Flórida e Nova York, tendo o renomado ator José Lewgoy como vilão e a participação dos atores Reginaldo Farias e David Cardoso. Entre sopapos e perseguições ao rei, duas cenas foram marcantes.

A primeira é com Roberto pilotando um helicóptero com a cena urbana do Rio de Janeiro em destaque. Num dado momento, a aeronave atravessa o Túnel do Pasmado, que liga o bairro de Botafogo à Copacabana e Urca. A proeza, evidentemente, foi feita por um piloto profissional, de nome Comandante Nascimento.

A segunda tomada é um show de Roberto Carlos na cobertura do Edifício Copan, naquele 1967, um cartão postal de São Paulo inaugurado em 1966, obra espetacular de Oscar Niemeyer. Toda uma estrutura de som foi levada ao telhado, inclusive o órgão Hammond B3 do tecladista Lafayette, preferido de dez entre onze cantores da Jovem Guarda.

O disco de Roberto com o mesmo nome do filme saiu em novembro de 1967. O filme Let it Be dos Beatles foi concluído em novembro de 1969, quando o quarteto deixou de se reunir. O disco saiu em 1970, assim como também o álbum Abbey Road, tudo previamente gravado. Muitos não sabem que o telhado de Roberto Carlos foi das poucas coisas que ele não copiou dos Fab Four.