BLOG DO ALEX MEDEIROS

04/02/2019
A subcultura da fake news

As redes sociais desses tempos digitais deram mais dimensão e velocidade aos velhos boatos, que desde Orson Welles se utilizam da comunicação para se alastrar. As falsas notícias, ou fake news, os casos mentirosos narrados na web, chamados de hoax (embuste, farsa), estão presentes todo dia no Whatsapp.

A tragédia de Brumadinho levou incautos a se emocionarem com um vídeo do jornalista Sergio Cursino, como se ele fosse o proprietário da pousada que sumiu no mar de lama da Vale. Um textão sem autoria definida, circulou nos últimos dias como se fosse mais uma bela crônica do jornalista J. R. Guzzo, da revista Veja.

Até hoje, muitos desavisados acreditam que os Beatles já vestiram a camisa do Botafogo e passearam de jumento no interior do Ceará. O cineasta Arnaldo Jabor e o escritor Luiz Fernando Veríssimo aparecem todo dia como autores de textos que jamais escreveram. Como já ocorreu com o colombiano Garcia Marquez.

A mais recente invencionice da indústria do hoax nacional cita a música "Xote dos Cabeludos", sucesso do mito Luiz Gonzaga no ano de 1967, como sendo uma composição que o rei do baião fez como revide a um suposto comentário de outro rei, Roberto Carlos, que teria esnobado o maior artista do Nordeste.

A estória é fake news em todos os sentidos. Primeiro porque o rei Roberto Carlos jamais teria sido deselegante com um símbolo da cultura nordestina, cujo povo sempre o idolatrou, até hoje, e consumiu com adoração seus discos, ano a ano. Segundo porque Gonzagão não fez a música, obra do cearense José Clementino.

No ano que ficou marcado no mundo como o Verão do Amor e que repercutiu no Brasil a partir dos movimentos Jovem Guarda e Tropicália, o cantor e sanfoneiro Luiz Gonzaga vivia num quase limbo fonográfico, meio esquecido no meio de uma onda modernosa iniciada com a beatlemania e prosseguida em diversas versões.

O velho campeão de audiência das décadas de 40 e 50, que foi copiado nas campanhas políticas e na Copa do Mundo de 1950 nas muitas paródias cantaroladas de Norte a Sul, perdera espaço para a iniciante cultura de massa inserida nas canções e comportamentos preferidos pela juventude transviada.

A esperteza herdada do sertanejo Januário fez Luiz Gonzaga perceber o universo consumidor que se abria na década de sonhos e loucuras. Um dia, na cidade do Crato, no Ceará, pediu ao compositor José Clementino, então com 31 anos, uma canção que falasse daquele mundo novo e dos artistas daquela nova moda.

A música "Xote dos Cabeludos" estourou nas rádios de todo o Brasil e devolveu Luiz Gonzaga aos holofotes da mídia, estreitando sua relação com os jovens artistas que começavam a ocupar a preferência popular. Em 1968, o ano do desbunde geral, a obra de Gonzagão chegou a Caetano, Gil e companhia.

No verão de 1968, o "Xote dos Cabeludos" ainda era uma das mais tocadas no país, disputando ouvido a ouvido com hits moderninhos como Alegria, Alegria (Caetano), Domingo no Parque (Gil), Roda Viva (Chico), Hey Jude (Beatles), Baby (Mutantes) e As Canções que Você Fez pra Mim (Roberto Carlos).

A resiliência do rei do baião consolidou a parceria com José Clementino, que continuou produzindo sucessos em sequência até os anos 1970. Dele também são Capim Novo e Apologia ao Jumento. Aliás, foi naquele tempo que surgiu a primeira fake news com Gonzagão: Carlos Imperial espalhou que os Beatles haviam gravado o hino Asa Branca.

Toda a imprensa nacional acreditou.