BLOG DO ALEX MEDEIROS

12/02/2019
O inglês voador

Morreu o segundo melhor goleiro do século XX. Aos 81 anos, o britânico Gordon Banks deixou os campos da vida e se foi, vencido por um câncer que enfrentava desde 2015, com bravura e esperança. "Se eu já parei Pelé, por que não posso parar um câncer?", indagou quando saiu o terrível diagnóstico.

Quando defendeu a quase indefensável cabeçada do rei do futebol em junho de 1970, na segunda partida da Copa do Mundo no México, Banks já estava destinado a virar lenda do esporte que o seu povo criou e organizou. Foi peça importante na conquista da copa anterior, a única da seleção da Inglaterra.

Oriundo do time do Leicester, estreou no "real team" em abril de 1963, já com 26 anos, diante da seleção da Escócia. Em maio, diante de 92 mil pessoas no estádio de Wembley, fechou o gol contra a seleção do Brasil que vinha de um bicampeonato mundial em 1958 e 1962. O jogo terminou 1 x 1, graças a ele.

Na Copa do Mundo de 1966, disputada em solo britânico, Gordon Banks foi uma das grandes figuras responsáveis pela campanha vitoriosa, abaixo apenas (talvez) de Bobby Charlton e Bobby Moore. A vitória por 4 x 2 sobre a Alemanha na final teve nas mãos dele um muro quase intransponível.

Quatro anos depois, a Inglaterra chegou no México como uma das favoritas, ao lado da Alemanha, da Itália e do Brasil. O confronto entre ingleses e brasileiros já na segunda rodada foi uma batalha de logística, com um papel essencial de Banks e também do goleiro da Canarinho, Félix. Era hora do almoço no Brasil.

E era uma sala estreita, na casa do vizinho Seu Daniel, meninos sentados no chão e adultos aboletados no sofá e algumas cadeiras. Todos atentos ao televisor em preto e branco, torcendo pelo escrete de Zagallo e as feras.

Num dos primeiros ataques do Brasil, ficou logo estabelecido que ali se iniciava uma das mais incríveis partidas de futebol da história. O ponta Jairzinho avançou pela direita vencendo dois zagueiros e antes que a bola saísse pela linha do tiro de meta, o craque botafoguense consegue cruzar para a área.

A cena que veio a seguir se eternizou na memória de quem presenciou ao vivo e virou registro histórico para as gerações que vieram depois. Pelé sobe junto com um inglês, um tórax acima no ar e cabeceia com força em direção ao chão. Banks num voo rasteiro, praticamente batido, ergue a mão, num reflexo.

O rei Pelé já havia pousado e iniciava uma corrida para comemorar, mas, estupefato, ele e o mundo, a mão do goleiro inglês havia encontrado a bola mesmo na mudança de trajetória imposta pela cabeçada perfeita do craque. Banks só acreditou que havia feito a defesa porque Pelé brecou a vibração.

O Brasil venceu o jogo por 1 x 0 num gol de Jairzinho que só aconteceu porque o gênio Tostão fez algo que nenhum atacante do planeta jamais ousou fazer: uma sequência de dribles em torno do zagueiro Bobby Moore e de mais dois ingleses, girando na órbita sem desgrudar o pé esquerdo para o direito cruzar.

Na semifinal, a Inglaterra pegou a Alemanha num jogo também histórico, um confronto épico com toques de guerra. Gordon Banks fez defesas incríveis, mesmo sofrendo dores intestinais por causa dos temperos mexicanos. Foi pego pelo Mal de Montezuma, uma vingança contra o império britânico.

Depois daquela copa, mesmo sem ser campeão de novo, Banks consolidou a glória pessoal eleito pela FIFA como o segundo melhor goleiro do século XX, atrás apenas do russo Lev Yachin, além de ter feito a mais espetacular defesa de todos os tempos. Uma defesa que desafiou a física e entrou no campo dos milagres.