BLOG DO ALEX MEDEIROS

27/02/2019
Rock e punk na cortina de ferro

Há alguns anos publiquei no site O Galo Informa (ainda está por lá) e no saudoso O Jornal de Hoje uma crônica sobre o cantor americano Dean Reed, que fez sucesso na América Latina e na Rússia com baladas exaltando o marxismo, tornando-se amigo de Neruda, Victor Jara e até de Yasser Arafat.

Nos últimos anos, um outro artista de música pop, de tons ideológicos antagônicos ao "Elvis Vermelho" e também cantando rock em língua inglesa, tem sua vida e carreira sendo resgatadas na mídia e na indústria cultural. Trata-se do britânico Mark Reeder, 61, que encarou a ditadura comunista em Berlim.

Nasceu em Manchester em 1958 e poderia ter sido um astro na Europa quando aos 18 anos fundou a banda The Frantic Elevators, que logo obteve espaço na famosa gravadora Factory Records. Mas um dia, ele rejeitou uma proposta de um milhão de dólares da Warner Bros e decidiu abandonar a Inglaterra.

Foi para Berlim e decidiu atravessar o muro, dizendo que se Iggy Pop e Billy Idol estavam por lá, então as coisas poderiam não ser tão ruins como se falava. As 300 torres com policiais armados não provocaram medo, mesmo sabendo que desde 1961 mais de 500 pessoas morreram tentando fugir do regime.

A Guerra Fria ainda atormentava as relações nos dois lados de uma Berlim dividida, que só iria se livrar do muro dali a 12 anos, em 1991. Mas ele queria encarar o ambiente obscuro e experimentar a audição clandestina dos discos de vinil ocidentais e os alemães Can Neu!, Tangerine Dream e Kraftwerk.

Quando os anos 80 começaram, Reeder iniciou sua resistência musical ao comunismo que ditava regras e perseguia toda manifestação que representasse desvios pequenos burgueses da juventude do mundo capitalista.

Virou compositor, produtor, promotor cultural, engenheiro de som, empresário de eventos musicais, um protagonista do comportamento underground que ganhava novo fôlego com o advento do punk rock e outras viagens. Longe de Manchester, soube que um grande amigo fundara uma nova banda de rock.

Esse amigo era Mick Hucknall, o parceiro da velha banda The Frantic Elevators, que naquele 1979 criava a Simply Red que o deixaria famoso e milionário. E Mark seguiu na guerrilha punk infiltrando o som pesado de Ian Curtis, Iggy Pop, Joy Division e também o rock clássico do The Smiths.

Começou a fazer as coisas mais temerárias daqueles anos de censura total: shows sem autorização legal, usando como argumento aos fiscais a mentira de representante da gravadora onde trabalhara na Inglaterra. As canções que ele promovia significavam para o rito soviético o fracasso moral do capitalismo.

Viu muitos jovens serem presos e por diversas vezes utilizou os prédios em ruínas, dos tempos da Segunda Guerra, como esconderijos. Na sua transgressão roqueira, teve em torno de si figuras como Keith Haring, Tilda Swinton, Blixa Bargeld, Ian Curtis, Iggy Pop e Nick Cave, que morou com ele.

Um outro evento que se meteu a fazer, numa velha igreja, como ato solidário a vítimas romenas, planejou um público de 50 jovens, apareceram 600, que obviamente atraiu a repressão comunista. Revelou que nesse dia o medo foi maior, pois percebeu que a partir dali seria visto como ameaça ocidental.

Nesse período, havia conseguido estabelecer a empresa Die Toten Hosen, a única da Berlim democrática autorizada a distribuir discos no leste. Mark compôs sua última canção em 2 de novembro de 1989. Tirou férias e não mais voltou. Sete dias depois, num hotel na Romênia, viu a notícia de que o muro iria ser derrubado.

Quem há de negar que o rock e o punk que ele infiltrou ali não tiveram a força de uma marreta?