BLOG DO ALEX MEDEIROS

10/03/2019
A velha imprensa em queda livre

Os governadores eleitos em 1986 tomaram posse no ano seguinte, quando eu comecei a escrever os primeiros textos de jornal. Em março de 1987 o jornalista Geraldo Melo assumia o governo do RN no mesmo mês em que um novo LP de Raul Seixas chegava às lojas de discos de todo o Brasil.

O álbum Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! trazia a música Cowboy Fora da Lei cuja letra tinha um trecho pra lá de instigante, "eu não preciso ler jornais / mentir sozinho eu sou capaz". Um chute no balde da imprensa, até então só questionada publicamente por Leonel Brizola, que odiava o sistema Globo.

Dali a um ano, comecei pra valer o ofício de escrever periodicamente, assinando a coluna Portfolio no Diário de Natal, onde fiquei por doze anos até me transferir para O Jornal de Hoje, onde foram mais dezesseis bons anos. Ao longo desses mais de trinta anos, sempre prezei por não omitir minha opinião.

Se sei digo que sei, se não sei digo que não sei, só pra ilustrar com o personagem Armando Volta da saudosa Escolinha do gênio Chico Anysio. Não escondo do leitor o que penso de qualquer assunto, nem faço dois discursos - um na mídia e outro nas rodas de amigos. Expressar é obrigação do ofício.

No âmbito da política, creio ter sido o primeiro a dividir com os leitores o segredo do voto nas eleições. Por vários pleitos nominei os candidatos da minha preferência, para que tudo ficasse bem claro ao público quando estivesse lendo os meus comentários, minhas análises e os meus palpites.

O melhor e mais honesto cartão de visita do homem (ou mulher) de imprensa é a sua opinião. Se seu maior dever é informar, nada mais legítimo que o seu leitor saiba com que texto ou voz está lidando. Jornalista não deveria levar o seu público a adivinhar seus interesses. Ah, não existe jornalismo neutro, viu?

Ninguém tem, nem pode ter, neutralidade em nada. Ninguém está nu de algum interesse quando os assuntos são política, dinheiro e religião. Bradar independência jornalística é retórica de classe, um charminho para encantar audiência desprevenida. A imprensa é um mar com sereias cantarolando.

Na última eleição presidencial, a máscara de muitas vestais da mídia caiu ao escorregar na espuma das urnas. Jornalista dizia X em petit comitê e propagava Y nos microfones, nas páginas, nos vídeos, nas redes sociais. E o nome disso é desonestidade intelectual, um disfarce para ludibriar o público.

Verdades assim são os principais e mais graves motivos que estão aniquilando a chamada velha imprensa, representada por grandes veículos que perdem credibilidade a olhos vistos. O fenômeno está nos EUA, poderá chegar na Europa e já chegou com força na América Latina, obviamente também aqui.

A agência Reuters acaba de constatar que a sociedade americana está abandonando a imprensa, um dos clássicos pilares da democracia. Acredita mais nas Forças Armadas, na Suprema Corte e no poder de Washington. Mais de 30% dos aparelhos de TV não sintonizam canais, mas games e internet.

No Brasil, os números de jornais como a Folha e O Globo são risíveis; a audiência da TV despencou a níveis preocupantes; as revistas já não pautam a semana. Figurinhas carimbadas da mídia colecionam desaforos por causa do jornalismo em favor do grotesco. Viraram cowboys fora da lei e fora da ordem.