BLOG DO ALEX MEDEIROS

15/03/2019
O jogo real da morte

Com um tremendo sangue frio com pitadas de sadismo, o autor material do massacre na mesquita de Al Noor, na Nova Zelândia, desceu do carro com um rifle, executou as primeiras vítimas na porta de entrada, voltou ao carro para trocar de arma e avançou casa adentro atirando e filmando os assassinatos.

E se digo autor material é porque o canalha australiano Brenton Tarrant não está sozinho nisso. E nem é um doido solitário, posto que doido não tem método como ficou claro no ritual tipicamente premeditado, o que sugere planejamento criminoso nos moldes de qualquer pequeno grupo terrorista.

O sadismo foi a transmissão ao vivo que ele fez pelo Facebook, instalando uma câmera de vídeo no capacete, evidentemente ligada a um celular, por sua vez linkado na página da rede social e, obvio, contando com o sinal de wifi da mesquita. O cara exibiu para o mundo a versão real dos games de guerra.

Pelo que li nos sites europeus, não ficou claro se ele também foi o encarregado do segundo ataque na mesquita de Linwood, apesar de haver indícios de que foi ele também o atirador. Tarrant tem 28 anos e defendia nas redes uma reação violenta aos migrantes islâmicos que se mudam para o Ocidente.

Mas está claro que o crime foi planejado e bem orquestrado, talvez, durante semanas. O atirador deve ter levado bom tempo para escrever com giz, nas armas e carregadores, os nomes de terroristas que são suas referências ideológicas, como Anders Breivik, que matou 77 pessoas na Noruega em 2011.

Há nomes de autores de massacres contra muçulmanos nos tempos das Cruzadas e também terroristas contemporâneos, como o espanhol Josué Estébanez que apunhalou o jovem Carlos Palomino, no metrô de Madrid, em 2007. E o asturiano Dom Pelayo que combateu muçulmanos no ano de 700.

Assassinos em massa também foram homenageados nos rabiscos de Tarrant, como o canadense Alexandre Bissonette, que em 2017 matou seis pessoas abrindo fogo numa mesquita de Quebec; e o italiano Luca Traini que disparou contra um grupo de imigrantes africanos em Macerata, perto de Roma.

Muitas das inscrições remetem a batalhas históricas e aos pretensos heróis cristãos contra tropas islâmicas, como é o caso da guerra de Lepanto, em 1571, quando os católicos derrotaram os turcos. Entre as figuras dessa batalha destacam-se Sebastiano Venier e Marco Antonio Colonna, ambos italianos.

Alguns nomes foram destacados mais de uma vez, todos eles considerados heróis católicos da era da Inquisição. São eles o ortodoxo eslavo Novak Vujosevic, o veneziano Marco Antonio Baradin, o polaco Feliks Kazimierz Potocki, Segismundo de Luxemburgo e o britânico Edward Codrington.

Por toda a sexta-feira sangrenta, um dia tradicional para os muçulmanos, o terrível episódio da transmissão ao vivo pelo Facebook gerou debates na mídia sobre o controle de atos de tal natureza. E cada vez que citam os games de violência, me lembro dos hipócritas que proibiram armas de plástico como brinquedos. Agora refaçam as teses alarmistas.