BLOG DO ALEX MEDEIROS

18/03/2019
A amável leveza de ser

Começou jogando uma bolinha quando criança, e jogou um bolão quando cresceu. O ex-lateral esquerdo Anchieta brincava com o amigo Rui Barbosa no barro da Rua Alberto Silva, em Lagoa Seca, trocando chutes de canhota numa bolinha de borracha vermelha, como tenistas na arena aberta de uma vacaria.

Rui foi ajudar o pai, vendendo leite de bicicleta ou carroça de burro, e Anchieta se deixou levar pelos encantos do futebol. Entrou no modesto Atlético Potiguar e logo foi ser campeão inconteste no belo time do Alecrim de 1968, aquele que nesse mesmo ano hospedou na ponta direita um tal de Mané Garrincha.

Nos torneios de caixinhas de fósforo de 1970, sucesso de público nas calçadas do bairro das Quintas, era dureza escolher o melhor lateral esquerdo, já que os times das figurinhas dos produtos Weston dificultavam a escolha entre Marinho Chagas (ABC), Cosme (América), Everaldo (Brasil) e Anchieta (Alecrim).

No campeonato de verdade, que rolava no gramado do Juvenal Lamartine, o galego Marinho arrebentou naquele ano e atraiu a atenção do Náutico, que o levou por curto tempo, vendendo-o para o Botafogo. A melhor alternativa do mais querido na chaga aberta pelo gênio foi tirar Anchieta do time periquito.

Podia até não jogar a exuberância da "bruxa", mas não permitiu sentimento de orfandade quando os olhares da frasqueira se dirigiam para o lado esquerdo do time. Jogava com a disciplina de um "kung fu negro", como disse uma vez o saudoso Hélio Câmara diante da precisão suave em anular os atacantes.

Tinha em campo a leveza das relações extracampo, jamais meteu a botina com deslealdade, nem lançou desaforos aos adversários e muito menos aos árbitros. Nunca em toda a carreira tomou um cartão vermelho, e só não ganhou o Troféu Belfort Duarte de disciplina porque as súmulas da FNF sumiram.

Na memória afetiva de todas as torcidas potiguares e no testemunho de quem acompanhou de perto os muitos campeonatos do seu tempo de jogador, Anchieta será lembrado como um gentleman com a bola e com os amigos, uma figura de uma leveza quase religiosa, digna do trocadilho "Padre Anchieta".

Depois da carreira, reencontrou o amigo da bolinha vermelha, Rui Barbosa, este na condição de empresário, dono da companhia de vigilância Emserv, que se tornou o primeiro time-empresa do futebol amador do RN, onde ambos voltaram a jogar. Por anos, foi um exímio e cuidadoso motorista do amigo.

No ano de 1992, meu saudoso amigo Ismael Wanderley me convidou para atuar na propaganda da campanha da sua então esposa, Ana Catarina, candidata a prefeita de Natal. Foi disponibilizado para meu uso diário um automóvel Voyage azul, aos cuidados de um motorista. Era ele, Anchieta.

Convivi durante a eleição daquele ano diariamente com o craque mais vezes do que com meus familiares. Almoçávamos e jantávamos juntos todos os dias, onde ele ouvia meu leriado de jornalista bocudo numa paciência de monge. E como nos avisos dos ônibus, ele, o motorista, só falava somente o necessário.

Uma vez minhas irmãs deixaram um recado no comitê da campanha. Anchieta anotou: papai passou mal em Currais Novos, onde tinha ido, sem autorização médica nem de mamãe, visitar parentes. O seu médico avisou que ele não poderia retornar em ônibus, só de ambulância ou automóvel de passeio.

Eu quase em pânico com a indisponibilidade de ambulâncias, aí Anchieta começou a falar, e muito, me acalmando e dando a solução. Ele iria com minha irmã e traria papai, eu só precisava autorizá-lo, já que o Voyage estava sob minha responsabilidade. Os três anos de sobrevida do velho eu devo a ele.

Liguei pra Rui Barbosa, que estava triste com a ausência do amigo. Eu também fiquei; e com o coração feito uma bolinha vermelha de saudade.